O PÃO NÃO SE MATA!


 

1. O Evangelho deste Domingo XVIII do Tempo Comum (Mateus 14,13-21) é conhecido como a primeira «multiplicação dos pães», realizada, neste caso, em mundo judaico. Mas vê-se bem que o título de «multiplicação» é inadequado, pois o que está aqui em causa não é, na verdade, uma multiplicação, mas uma divisão ou condivisão.

 2. Neste episódio, salta à vista o comportamento compassivo, acolhedor, inclusivo e de partilha de Jesus em confronto com o comportamento insensível, não-acolhedor, exclusivista, frio, mercantilista, consumista, egoísta e egocêntrico destes discípulos de Jesus, que propõem a Jesus que mande as pessoas embora, para que cada um compre de comer para si mesmo (Mateus 14,15). O diagrama a seguir mostra os dois comportamentos em confronto:

 
Jesus
Discípulos
Misericórdia
Acolher
Curar
Dar
Condividir
Insensibilidade
Excluir
Mandar embora
Comprar
Cada um para si
 

3. Vistas bem as coisas, o comportamento destes discípulos, e, se calhar, o nosso também, opõe-se, ponto por ponto, ao comportamento de Jesus. A celebração da Eucaristia, com Jesus sempre no meio de nós, reclama que mudemos tantas maneiras de fazer!

 4. O narrador termina o episódio, informando-nos que aquela multidão de pessoas ficou saciada, e que ainda «sobraram» doze cestos! (Mateus 14,20). Note-se que o verbo grego usado para dizer «sobrar» é o verbo perisseúô, que implica o excesso que ultrapassa toda a medida e a abundância que transborda, tornando inadequadas e ultrapassadas todas as nossas pequenas medidas! É assim normal que o narrador nos informe de que, com os pedaços que sobraram, os discípulos encheram doze cestos, símbolo da plenitude transbordante e inesgotável.

 5. De notar que, aos olhos atónitos dos discípulos e dos nossos, Jesus não fez uma operação de «multiplicação» dos pães, mas de «divisão» e «condivisão», «partilha» dos pães! O milagre de Jesus – aquilo que suscita surpresa e maravilha – não consiste em aumentar a quantidade do pão (que permanece a mesma), mas em abrir os olhos aos seus discípulos e a nós que, como cegos, só conhecemos e pensamos na lógica do vender e do comprar, e não chegamos a saborear a lógica da gratuidade, que é a do nosso Pai celeste que faz nascer o sol para os bons e para os maus. Entrar nesta lógica é acreditar na força do dom, e ir por este mundo consumista, partindo o pão e dividindo-o, com a clara consciência de que onde isto acontecer, não só se instaura o necessário para todos («todos comeram e foram saciados»), mas instaura-se igualmente o «excesso», a superabundância da graça («os discípulos encheram doze cestos»).

 6. Em perfeita sintonia com o Evangelho de hoje, a lição de Isaías 55,1-3 é fantástica. Um Deus bom e Pai convida os seus filhos sedentos e famintos a sentar-se à sua mesa e a comprar sem dinheiro o bom alimento. Note-se bem o oxímoro (comprar sem dinheiro) que nos deve (des)orientar sempre! Enquanto não entendermos isto, reprovaremos sempre no teste que Jesus fez a Filipe e faz a nós hoje também: «Filipe, onde compraremos pão para que eles comam?» (João 6,5). Era um teste, diz-nos o narrador (João 6,6), e Filipe pôs-se a contar o dinheiro e a pensar no shopping! (João 6,7). Pelos vistos, não conhecia este texto imenso texto de Isaías.

 7. O pão dado, partido, condividido é um dom de Deus («Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!») (Isaías 55,2), faz nascer novas maneiras de viver, alarga a tenda e o coração, gera fraternidade e comunhão. Também por isso, ainda hoje, os beduínos do deserto não cortam o pão com a faca, e explicam que «o pão não se mata!».

 8. De facto, quando matamos este pão, o que nos resta?

 António Couto

4 respostas a O PÃO NÃO SE MATA!

  1. Manuel diz:

    Bom dia, D. António:

    Muito grato pela belíssima meditação deste Domingo em torno da atitude de “condividir” o pão, não com a faca, mas com o coração, porque «o pão não se mata».
    O Espírito de Jesus inunde seu magnânimo coração.
    Todo seu,

    Manuel

  2. Paula diz:

    passo por aqui regularmente para ler… ou melhor, encher o coração … no silêncio das palavras.
    obrigada

  3. Bel diz:

    Se pensarmos no nosso dia-a-dia, felizmente muitos de nós ainda temos essa atitude de dividir ou “multiplicar” a comida. Basta acrescentar mais água no feijão quando alguém chega para jantar ou então mesmo quando a comida é pouca a gente divide de modo a que não falte nada a ninguém, mesmo que seja um pedacinho para cada um… Deveríamos atuar assim no nosso dia-a-dia em qualquer situação da vida.

  4. Dulce diz:

    “O pão dado, partido, condividido é um dom de Deus ..”

    Também eu por aqui passo sempre para ler as palavras que nos transformam e multiplicam quantas vezes em uma nova atitude de vida..numa partilha mais fraterna, porque de coração a coração, num sentir de amigo, de irmão.

    D. António,
    Olá num sentido Obrigada amigo.

    Dulce

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