DIZER JESUS DIZENDO-SE FACE A JESUS


1. À questão directa e enfática: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mateus 16,15), posta por Jesus aos seus discípulos que de há muito o seguiam, Simão Pedro foi rápido a responder: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!»  (Mateus 16,16). Jesus declara Feliz (makários) Simão, filho de Jonas, não por achar que ele reunia competência humana para expressar aquele dizer, mas por saber que o tinha recebido do Pai (Mateus 16,17). E é sobre este dizer de Simão Pedro, dizer, não seu, mas recebido do Pai, que Jesus declara que construirá a sua Igreja (Mateus 16,18). Note-se a assonância «Pétros» – «pétra». Mas note-se também que quem constrói é Jesus, e não Pedro, e a Igreja a construir é de Jesus, e não de Pedro: «sobre esta pedra (pétra) construirei a minha Igreja», diz Jesus, que declara de seguida: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus» (Mateus 16,19). O texto termina registando a ordem de Jesus aos discípulos para não dizerem a ninguém que Ele é o Cristo (Mateus 16,20).

 2. As chaves representam um saber e um poder. Falamos de chaves de uma casa, de uma cidade, de um tesouro, da leitura de um texto. Quem as possui, possui um poder em sede administrativa, jurídica ou científica. É assim que o texto de Isaías 22,19-23 fala hoje do «rito das chaves» e do poder retirado a Shebna e conferido a Eliaqîm.

 3. O texto inteiro do Evangelho deste Domingo XXI do Tempo Comum (Mateus 16,13-20) é percorrido por um dizer, e fecha com um não-dizer. Trata-se de um dizer novo, não meramente convencional ou tradicional. Não basta dizer um conjunto de palavras que vêm na torrente da tradição, que se recolhem, e se voltam a dizer. É assim que Pedro respondeu bem [«Tu és o Cristo»], e é louvado por isso. Não obstante, Jesus não quer que os discípulos passem esse dizer a ninguém (Mateus 16,20). Por que será?

 4. Para sabermos a razão, teríamos de continuar a ler o texto no seu seguimento imediato (Mateus 16,21-28), que será, na verdade, o Evangelho do próximo Domingo (XXII). Mas como o texto forma uma unidade de alto a baixo (Mateus 16,13-28), não o ler todo é como ficar parado no meio da ponte ou em Cesareia de Filipe, e nunca chegar a Jerusalém. Na verdade, depois de ter dado aos seus discípulos aquela ordem de não dizerem a ninguém que Ele é o Cristo (Mateus 16,20), Jesus abre uma página nova logo no versículo seguinte: «começou a mostrar aos seus discípulos que é necessário (deî) [necessidade divina ou teológica] que Ele vá para Jerusalém, sofra muito da parte dos anciãos e dos sumo sacerdotes e dos escribas, seja morto, e ressuscite ao terceiro dia» (Mateus 16,21).

 5. Ouvindo estes dizeres incríveis de Jesus, Pedro tomou-o consigo à parte e começou a recriminá-lo, dizendo: «Isso não te há-de acontecer» (Mateus 16,22).

 6. E é aqui que Jesus diz a Pedro estas palavras duríssimas e correctivas: «Vai para trás de mim (hýpage opísô mou), satanás! Pedra de tropeço (skándalon) és para mim, porque não pensas as coisas de Deus, mas as coisas dos homens» (Mateus 16,23). «Atrás de mim» é o lugar do discípulo, exactamente o lugar que Pedro deve ocupar, seguindo Jesus atentamente, e não postar-se à frente de Jesus para lhe barrar o caminho, e tentar que Jesus siga as ideias que Pedro colheu acerca do Cristo na torrente da tradição. E o texto prossegue no mesmo tom, com Jesus a dizer aos seus discípulos que, para o seguir, é preciso dizer não a si mesmo, e carregar a cruz todos os dias, perder a vida para a ganhar…

 7. Por aqui se vê por que razão Jesus ordenou aos seus discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Cristo. Pedro tinha dito: «Tu és o Cristo!». Mas, como acabámos de ver, fosse qual fosse a ideia que Pedro tivesse de «Cristo», nela não cabia ainda o sofrimento, a rejeição, a morte, a ressurreição, e muito menos a adesão pessoal de Pedro a este «Cristo» (Mateus 16,21-22). O que Pedro sabia era o que vinha na torrente do judaísmo desde há muito tempo: que o Cristo vinha para triunfar, para ter sucesso, para estabelecer um mundo de excelência para os judeus, libertando-os dos seus adversários.

 8. O que é que nós dizemos quando dizemos Cristo? E a nossa maneira de viver é verdadeiramente a de quem segue Cristo?

 António Couto

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: