ENTRE A ESPADA E O PERDÃO


1. Neste Domingo XXIV do Tempo Comum, continuamos a braços com o Discurso Eclesial de Jesus, iniciado no passado Domingo com oportunas e incisivas instruções sobre a correcção fraterna (Mateus 18,15-20). O resto do Discurso é servido hoje a Pedro e a todos nós (Mateus 18,21-35). Prevenimos que o Discurso é suficientemente demolidor, capaz de, se atentamente o recebermos, provocar em nós o maior terramoto da história, deixando às claras a radical insuficiência da nossa programação para tão gigantesca onda de perdão.

2. Estão-nos no sangue as letras da vingança. Aprendemos bastante bem e depressa com Lamec o «Cântico da Espada»: «Caim será vingado sete vezes, mas Lamec setenta vezes sete!» (Génesis 4,24). Face a esta barbaridade desmedida, a chamada «Lei de Talião» [pena, não multiplicada, mas igual ao delito: «olho por olho, dente por dente»] representa um enorme progresso civilizacional. Mas Jesus derruba uma e outra mesa, para nos brindar com a desmesura do Perdão, sempre sem motivação.

3. «Senhor, até quantas vezes devo perdoar ao meu irmão? Até sete?», pergunta Pedro a Jesus (Mateus 18,21). «Não te digo até sete, mas até setenta vezes sete!», respondeu Jesus (Mateus 18,22). Desarranjo completo na cabeça de Pedro, e na nossa. O Perdão, segundo Jesus, não se conta pelos dedos, nem pela máquina de calcular. Faz-se simplesmente sempre e sem condição.

4. Mas Jesus, bom pedagogo, desce ao nível de Pedro, e ao nosso. Conta uma história absolutamente inverosímil, para nos prender a atenção e o coração, suspender a respiração. É mais uma parábola do Reino dos Céus (Mateus 18,23-35). A cena é preenchida por um Rei – vê-se que é Deus – e pelos seus servos, dado que o Rei [Deus] entende chamar a contas os seus servos. Entenda-se aqui que estes servos não são escravos, mas altos oficiais ao serviço do Rei. Estreita-se a cena, e vê-se agora apenas o Rei e um dos seus servos. Este servo tinha uma dívida enorme para com o seu Rei [Deus], contabilizada na soma astronómica de 10.000 talentos.

5. O montante é colossal. Tão colossal, que é difícil de quantificar com exactidão. Lembro, para começar, que os estudiosos calculam em 900 talentos o valor dos impostos anuais que entravam nos cofres de Herodes o Grande (37-4 a. C.). E, após a sua morte, os impostos anuais da Galileia e da Pereia contavam-se em 200 talentos, sendo de 600 talentos os impostos pagos pela Judeia, Samaria e Idumeia. Ou seja, a dívida do servo da nossa história é muito superior ao dinheiro que então circulava no país inteiro! Mais coisa menos coisa, diz a Bíblia de Jerusalém, como 174 toneladas de ouro, que o estudioso R. T. France sobe para 300 toneladas! Entrando por outro tipo de contabilidade, lembro agora que um talento equivalia a cerca de 6.000 denários, sendo um denário o correspondente a um salário diário. Avaliados por este critério, os 10.000 talentos equivaleriam a um montante entre 60 e 100 milhões de denários (Vittorio Fusco, Rudolf Schnackenburg, Craig S. Keener, TOB), que o mesmo é dizer entre 60 e 100 milhões de salários! Ou ainda o correspondente ao salário de um trabalhador durante um período que oscila entre 200 e 250 mil anos (Craig S. Keener, John Nolland).

6. Vê-se bem que este servo não pode pagar aquela dívida imensa, a perder de vista. O Rei [Deus] manda que seja vendido ele, a mulher, os filhos e tudo quanto possui, em ordem ao pagamento da dívida. Aqui o servo pediu ao Rei [Deus] que lhe desse um prazo, e que pagaria tudo. Auge da cena. Será que o Rei [Deus] dá o prazo, ou mostrar-se-á impiedoso? Adianto eu: se der o prazo, é demasiado lógico e simétrico, e esta não é a medida do Evangelho, que rebenta sempre os nossos mais pensados calculismos. Se não der o prazo, pior ainda. Eis a incrível resposta de Deus: «Vai-te embora; estás perdoado!».

7. Entenda-se ainda: para Deus e para o Evangelho um acto de Perdão vale mais do que 10.000 talentos e tudo o que isso representa. E veja-se, no seguimento da história, a rapidez com que perdemos a memória, e como, sem dó nem piedade, condenamos um «com-servo» ao pagamento, aqui e já, de uma bagatela!

8. Irmão, deixa-te tomar pela música nova e excessiva do Perdão!

António Couto

2 respostas a ENTRE A ESPADA E O PERDÃO

  1. JTS diz:

    Fala-se muito do perdão por toda a Igreja mas muito pouco do tom mais prático com que se prende tal empreendimento visto que passa por uma mudança de mentalidade e de coração que mesmo que o próprio deseje pode ser difícil de conseguir. Aqui entra por um lado o “esforço” de procura do próprio e também a acção da graça sem o qual não é de todo possível. Penso que esta é uma questão a ser abordada na pratica nas comunidades, não chega dizer que deve ser praticada.
    Bem-haja pelo seu comentário semanal.

  2. CP diz:

    Por um fio
    Faz-se tanta vez tábua rasa
    Pois quem só tem uma cara
    A outra fase não dá mais para ser re-dada…

    Uma música de um ‘fino silêncio’
    Eis que todos os sentidos trespassa
    E numa investida colossal
    Chega ao centro operacional

    O daninho desintegra
    Faz vingar nova raiz
    Como que uma mutação
    Neste meu único coração

    Amor fraternal (Sint Unum) é a única regra
    Já que só assim se forma o lais
    De guia, que resgata
    Com uma subtil ata

    (Dai-nos, Senhor, a Graça da tua envolvência nas nossas vidas, de germinares em cada um dos nossos corações)

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