QUANDO O REI TE DIZ: «AMIGO!…»


 

1. No seguimento dos dois Domingos anteriores, também neste Domingo XXVIII do Tempo Comum, os chefes religiosos e civis continuam na mira de Jesus. Já quando ouviram as duas parábolas anteriores – a dos dois filhos (Mateus 21,28-32) e a dos vinhateiros homicidas (Mateus 21,33-43 –, perceberam bem que as palavras de Jesus se dirigiam a eles, e, parafraseando Jorge Luis Borges, perceberam também que as palavras de Jesus estavam carregadas como uma arma. O narrador informa-nos, de resto, no final, que «os chefes dos sacerdotes e os fariseus, ouvindo estas parábolas, perceberam que JESUS se referia a eles, e procuravam prendê-lo», e que só o não fizeram por «receio das multidões, que o tinham por profeta» (Mateus 21,45-46).

 2. É importante, para o leitor, esta última informação do narrador, pois o texto de hoje, que segue imediatamente os anteriores, começa assim: «E, respondendo, JESUS disse-lhes novamente em parábolas» (Mateus 22,1). Ficamos então a saber que o novo dizer parabólico de Jesus serve de resposta aos pensamentos e planos violentos que as parábolas anteriores desencadearam nos chefes.

 3. E segue a primeira estupenda parábola, que parte da afirmação de semelhança do Reino dos Céus a um banquete nupcial que um Rei fez para o seu filho. «Reino dos Céus», usual em Mateus,  é uma circunlocução para dizer «Reino de Deus». E a figura do Rei é muitas vezes usada no AT e no judaísmo para designar Deus. E o verbo «fazer» evoca imediatamente a criação. E o filho do Rei, para uma audiência cristã da parábola, designava de imediato Jesus. E o banquete nupcial «feito» pelo Rei é uma imagem fortíssima de festa e de alegria, tantas vezes anunciado pelos profetas (veja-se, por exemplo, a lição de hoje do profeta Isaías 25,6) e impacientemente aguardado pelos judeus piedosos. É seguro: ser convidado e poder participar num banquete assim era um sonho para qualquer judeu piedoso!

 4. Primeira surpresa: quando o Rei enviou os seus servos a chamar os CONVIDADOS para o banquete, estes não queriam (êthelon: impf. de thélô) vir. O uso do imperfeito indica duração: nem hoje, nem amanhã, nem em dia nenhum. E o uso do verbo querer deixa claro que se trata de uma acção voluntária, e não de uma qualquer predisposição ou sentimento. Mais ainda: que a acção é deliberada, fica patente no facto de o Rei ter enviado outros servos para voltar a chamar os CONVIDADOS, e estes nem prestaram atenção, indo cada um à sua vida. E os restantes ainda maltrataram e mataram os servos do Rei.

 5. Note-se ainda que foi o próprio Rei que preparou (hêtoímaka: perf. de hetoimázô) o banquete, empenhando-se pessoalmente nele (Mateus 22,4). O verbo preparar está colocado em lugares-chave em Mateus: veja-se 3,3 [«Preparai o caminho do Senhor»]; 25,34 [«Vinde, benditos de meu Pai, recebei o Reino preparado para vós…]; 26,17.19 [preparar a Páscoa].

 6. Este cuidado meticuloso posto pelo Rei na preparação do seu banquete para nós parece esbarrar depois na brutalidade com que se irou (ôrgísthê: aor. de orgízomai), enviou as suas tropas, matou aqueles homicidas e incendiou a sua cidade (Mateus 22,7). O sentido voa aqui em duas direcções: primeiro, o uso do aoristo em todos os verbos mostra que «a sua ira dura apenas um momento» (Salmo 30,6); segundo, o castigo descrito retrata os acontecimentos dramáticos bem conhecidos do ano 70.

 7. Segunda surpresa: as sucessivas e gradativas recusas dos CONVIDADOS não desarmam o Rei, que DIZ agora aos seus servos: IDE às encruzilhadas dos caminhos, e TODOS os que encontrardes, chamai-os para o banquete (Mateus 22,9). Os servos saíram, e reuniram TODOS os que encontraram, maus e bons (Mateus 22,10). Missão universal que brota do amor fontal de Deus Pai (Ad Gentes, n.º 2)… E foi assim, por nova, excessiva e a todos os títulos surpreendente iniciativa do Rei, que se encheu a sala do banquete. Note-se o novo DIZER do Rei no presente histórico, que marca um primeiro ponto alto no relato. Note-se ainda que o intervalo militar parece não ter esfriado a comida daquela mesa sempre posta!

 8. Terceira surpresa: o Rei entra, vê um homem sem o traje nupcial, e expulsa-o da casa alumiada para as trevas cegas e as lágrimas vazias. Que o homem não tenha o traje nupcial é surpresa para o Rei, que não para nós. Para nós, a surpresa é que TODOS os outros, maus e bons, tenham o traje nupcial, uma vez que foram como que arrastados à pressa dos caminhos lamacentos do mundo! Para o Rei, é aquele um homem que causa surpresa! E chegamos ao segundo ponto alto do relato, marcado também pelo verbo DIZER no presente histórico. De facto, o Rei trata-o cordialmente, e DIZ-lhe: “amigo” (hetaîre), apelativo que só Mateus usa no NT (20,13; 22,12; 26,50), e que apenas é usado quando se aborda alguém de forma cordial. A este amigo (hetaîros), o Rei concede, mediante esta última abordagem directa e cordial, uma última oportunidade de se dizer, isto é, de reconhecer o seu despiste e de mudar a sua vida.

 9. Oportunidade desperdiçada, pois o homem não responde. Ficou calado e petrificado (Mateus 22,12). Note-se o mesmo tratamento de Jesus para Judas naquela noite escura, mas ainda à beirinha da luz: «Amigo (hetaîre), para que estás aqui?» (Mateus 26,50). Judas também não respondeu.

 10. É aqui que a parábola nos atinge a TODOS em cheio. Vistas bem as coisas, só o Rei fala nesta parábola. E se ouvirmos bem, DIZ-nos: “Amigo!…”

 11. A razão daquele homem não usar o traje nupcial. Não o usa, porque não o quis receber. É um presente do Rei à entrada da sala do banquete. No nosso mundo ocidental, são os convidados que levam os presentes. No mundo oriental, quem convida é que oferece presentes aos convidados.

 António Couto

3 respostas a QUANDO O REI TE DIZ: «AMIGO!…»

  1. Angelina Ferreira diz:

    Muito obrigada Sr D António.

    Esta é uma das parábolas que eu precisava muito de “ver” esclarecida.

    A sua sabedoria e disponibilidade, é também presente do Rei!

    Cuidarei de estar atenta a esse dizer “Amiga” !…

    Com muita amizade,

    Angelina

  2. CP diz:

    Há palavras que nos calam, emudecem
    Há palavras que nos envolvem e abraçam
    Há palavras que nos fazem cair por terra…

    Mas só há uma Palavra que lavra
    – Effathá!! Ó meus ouvidos! Ó meus olhos! Ó meu coração! –
    Rasga sulcos que arejem esta minha terra
    Para que me torne vazio e me encha de Ti

    «Meu coração não é meu»*
    Foi-me dado, em presente
    Pelo Amigo:
    Esse Seu Coração vazado na Cruz…

    Coração-Palavra
    Coração-Vida
    Coração-Total

    __________
    *Pe. Zezinho, SCJ («Um Coração Para Amar»)

  3. António diz:

    Olá,D. António Couto.

    Deus não excluí ninguém, todos somos convidados para o banquete de seu Filho com humanidade. Vivamos em festa.
    Obrigado D. António por explicar esta parábola que nos atinge a todos em cheio. E sem esta festa, o mundo é um fogo violento.

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