O ESSENCIAL E AS SOBRAS


1. Aí está, neste Domingo XXX do Tempo Comum, mais uma pergunta armadilhada [«para o experimentar», verbo grego peirázô, literalmente «montar um laço, uma armadilha»] posta a Jesus por um Fariseu, um doutor da lei (nomikós), única menção deste nome em todo o Evangelho de Mateus. Antes deste «legista» partir ao encontro de Jesus com a sua pergunta traiçoeira, destinada a capturá-lo na armadilha preparada, é-nos dito que os Fariseus se reuniram (Mateus 22,34). Mas já o tinham feito também em Mateus 22,15, antes da pergunta sobre o imposto, e é ainda reunidos que os encontramos em Mateus 22,41, antes da pergunta decisiva de Jesus acerca da filiação do Messias, que os reduzirá ao silêncio (Mateus 22,46). Estas sucessivas reuniões dos Fariseus para estudar a maneira de tramar Jesus representam uma clara alusão ao Salmo 2, em que se diz que os reis das nações se amotinam contra Deus e contra o seu Messias.

 2. A pergunta armadilhada que o «legista» fariseu coloca a Jesus soa assim: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?» (Mateus 22,36). A pergunta parece inofensiva, mas, na verdade, destina-se a tentar arrastar Jesus para o plano inclinado da interminável discussão académica. De facto, os mestres judeus, lendo minuciosamente a Lei, ou seja, os cinco primeiros Livros da Bíblia [= Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio], e reduzindo-a a preceitos, tinham contado lá 613 preceitos, sendo 365 [tantos quantos os dias do ano] negativos e 248 [tantos quantos, assim se pensava então, os membros do corpo] positivos.

 3. A questão que entretinha os mestres e as suas escolas era agora a de estabelecer uma ordem nesses 613 preceitos ou mandamentos, dizendo qual consideravam o primeiro ou o mais importante ou o maior, e assim por diante. Discussão interminável e natural fonte de conflitos, pois cada mestre sua sentença. Qual seria então a posição de Jesus nesta matéria, e como a defenderia?

 4. Jesus responde ao «legista» fariseu, não caindo, porém, na apertada ratoeira que este lhe arma, mas abrindo portas, janelas e… corações engessados! Na verdade, e como sempre costuma fazer, a resposta de Jesus excede, rebentando-a, a pergunta feita. Jesus cita, em primeiro lugar, o Livro do Deuteronómio 6,5: «AMARÁS o Senhor, teu Deus, com todo o coração, toda a alma, todas as forças». Dito isto, Jesus opera um inesperado [para o «legista»] salto de trapézio, e acrescenta: «O segundo, porém, é semelhante (homoía) a este, e cita agora o Livro do Levítico 19,18: «AMARÁS o teu próximo como a ti mesmo».

 5. Ora, o «legista» estava apenas interessado em saber, segundo o Mestre Jesus, qual era o primeiro mandamento. Jesus respondeu, mas fez logo saber ao «legista» também o segundo. Mas não disse simplesmente que era o segundo. Disse que este segundo era semelhante ao primeiro. Ora, se é semelhante (e só Mateus usa aqui este «semelhante») já não é apenas segundo, mas faz corpo com o primeiro. Sendo assim, então o AMOR a Deus é verificável no AMOR ao próximo, no nosso dia-a-dia.

 6. Mas Jesus rebenta outra vez a pergunta do «legista», na conclusão que tira, e em que refere que «Destes dois mandamentos se suspende», isto é, depende «toda a Lei e os Profetas» (Mateus 22,40). A locução «a Lei e os Profetas» é uma forma de dizer toda a Escritura. A pergunta do «legista» visava apenas a Lei, mas diz, na sua resposta, que é a inteira Escritura que está atravessada pelo fio de ouro do AMOR a Deus e ao próximo.

 7. Como quem diz: o grau do teu AMOR a Deus verifica-se pela qualidade do teu AMOR ao próximo. Directamente de Jesus para o «legista»: se olhas para mim de lado, se vens cheio de más intenções, se colocas um laço, uma armadilha, diante dos meus pés, então estás longe de todos os mandamentos. Do 1.º, do 2.º, do 3.º e do 613.º!

 8. Tudo somado, aquele «legista», perguntador traiçoeiro, não se situava correctamente face a Deus e ao seu próximo. Não era o AMOR que o fazia mover. Não estava no centro da Escritura Santa. Anda muito pela periferia. Ocupava muito do seu tempo, não a AMAR, mas a tentar tramar os outros!

 9. Nem de propósito. Passa Hoje o 85.º Dia Missionário Mundial, com um claro convite a, por AMOR, sairmos de nós ao encontro dos nossos irmãos. Diz o Papa Bento XVI, na sua mensagem para este Dia: «A missão universal empenha TODOS, TUDO e SEMPRE». Entenda-se bem: TODOS, TUDO e SEMPRE! Um silogismo fácil: se a missão envolve TODOS, TUDO e SEMPRE, então atinge-nos no essencial, e não afecta apenas as sobras, porque ficámos sem sobras! Verificação: então por que razão continuamos com toda a tranquilidade do mundo a dedicar à missão universal apenas as nossas sobras de pessoas, de meios e de tempo!

 António Couto

5 respostas a O ESSENCIAL E AS SOBRAS

  1. CP diz:

    O essencial é o Amor.
    «Se não tiver em mim o Amor nada sou».
    Amar por Amar.
    O Amor verdadeiro não tem armadilhas, nem algemas.
    Amar é devolver-se.
    Amar é dizer ‘Hi God’ em ‘Hi-Fi’ (Alta Fidelidade).

    Quanto à frase-lema-significado da Missão, ela é poderosa e completa:
    – TODOS – é transversal à Humanidade, na sua totalidade, sem exclusão de algum indivíduo;
    – TUDO – a Missão não é nada específico, em concreto, abarca tudo, como um abraço-afago, seja qual for a actividade que se faça;
    – SEMPRE – não é moda, é atemporal,

    A Missão é chuva que sacode (o interior).

  2. anónima diz:

    D. António Couto, por favor, poderia indicar as passagens do AT onde eu possa ver os “613 preceitos, sendo 365 [tantos quantos os dias do ano] positivos e 248 [tantos quantos, assim se pensava então, os membros do corpo] negativos”. Espero desta forma esclarecer algo que li noutros lugares da internet li:
    “248 mandamentos positivos: são mandamentos que ordenam a realização de certas acções. Os antigos hebreus acreditavam que este número era o número de ossos ou orgãos no corpo humano. 365 mandamentos negativos: são mandamentos que condenam certas acções. Trezentos e sessenta e cinco corresponde ao número de dias no ano.”
    “613 preceitos, dos quais 365 eram proibições e 248 acções a pôr em prática”
    De momento sinto-me confusa.

    Sempre grata pela sua atenção.

    • mesadepalavras diz:

      Você tem razão na troca dos positivos pelos negativos. Na verdade, são 365 negativos e 248 positivos. Já corrigi no texto, pois estava ao contrário. Mas era fácil de ver, pois os negativos são sempre superiores aos positivos. Quanto a indicar as passagens do AT onde você possa ver, se leu bem o meu texto, deve ter percebido que essa contagem é obra dos mestres judeus, e não nossa. Eles pretendem fazer o texto da Tôrah (Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio) em caminhos práticos para as pessoas seguirem a todo o momento. Por isso retiram do texto 613 preceitos, que são indicações concretas para todos os momentos do dia: quando nos levantamos, quando nos deitamos, quando saímos, quando entramos, quando damos um passo, etc… Não adianta você querer encontrar nos livros bíblicos referidos os 613 mandamentos, porque isso, como digo, não está expressamente no texto. É obra da exegese rabínica.Para tal, é então necessário ler os comentários dos meticulosos estudiosos hebreus, condensados na Mishna, Talmud, e outros.

  3. Dulce diz:

    “por AMOR, sairmos de nós, ao encontro dos nossos irmãos..”

    Afigura-se-me ser uma missão possível, não obstante, bem saber, não ser fácil. É um caminho no qual nos devemos cada vez mais deter. Não conseguiremos a paz e a justiça de outro modo. Só pela partilha e por uma inter-ajuda muito presente nas nossas vidas. Sermos pessoas de testemunho e não só de palavra, olharmo-nos no outro, de dentro para fora, com respeito à individualidade de cada um, mas com ternura e com o que for preciso, no que pudermos, mantermo-nos atentos, ficarmos ao lado de quem precisa.

    D. António, muito obrigada por mais estas suas palavras, tão interpelativas a uma reflexão, e porventura, a uma mudança de atitude.

    Um abraço amigo.
    Dulce Antunes

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