PARA VÓS, SENHOR, ELEVO A MINHA ALMA!

Novembro 27, 2011

 

1. «Para vós, Senhor, elevo a minha alma» (Salmo 25,1). Antífona do Cântico de Entrada que inaugura a celebração eucarística do Advento, do Ano litúrgico, do Ano inteiro. Aponta a atitude a assumir pela Assembleia fiel e orante: a oblação permanente, a oração constante. Extraordinário pórtico de entrada no Advento e no novo Ano litúrgico. Belíssima forma de viver, elevando para Deus a nossa vida: a oração é a nossa vida! A nossa vida em ascensão e oração permanente, sacrifício de suave odor, incenso puro subindo para o nosso Deus. Sempre. O Evangelho dirá com a mesma energia e alegria: «estai atentos», vigiai», «não sabeis quando virá o dono da casa» (Marcos 13,33-37). Vida levantada, rosto erguido para Deus. É o gesto do justo justificado por Deus (Job 22,26). Página em branco, Primeira e Última, que podemos apresentar a Deus neste início de Advento e de Ano litúrgico. É de Deus a palavra e a escrita que não passa (Marcos 13,31).

 2. A lição do Evangelho (Marcos 13,33-37) está atravessada pelo verbo «vigiar» (quatro vezes). A locução «estai atentos» atravessa também por quatro vezes o inteiro Capítulo 13 do Evangelho de Marcos, que é um Capítulo em que Jesus fala para quatro discípulos: Pedro, André, Tiago e João, sentados no Monte das Oliveiras, diante do Templo (Marcos 13,3). O Templo ainda está de pé (será destruído no ano 70) e os discípulos admiram a excelência daquelas pedras e do embelezamento do Templo feito por Herodes o Grande, para captar as boas graças dos judeus. Herodes era Idumeu. Jesus adverte que aquele luxo passaria, e aproveita para lembrar que passará mesmo tudo, também as nossas seguranças (ou aquilo que pensamos estar seguro), sacudidas por guerras, violências, rapinas, perseguições, pelo normal andamento do tempo e da idade. Neste cenário passageiro, há, porém, uma realidade que não passa: a palavra de Jesus (Marcos 13,31). Salta à vista que é a esta âncora que nos devemos agarrar, e não à poeira das nossas grandezas ilusórias! Este discurso é dirigido aos quatro discípulos referidos. Mas, o Evangelho de hoje termina com Jesus a dizer: «O que vos digo a vós, digo-o a todos!». Portanto, a nós, hoje, também.

 3. O escritor argentino Jorge Luis Borges deixou-nos versos densos como estes, acentuando a importância e a intensidade de cada momento da nossa vida a não desperdiçar: «Não há um instante que não esteja carregado como uma arma»; «Em cada instante o galo pode ter cantado três vezes»; «Em cada instante a clépsidra deixa cair a última gota». E o poeta brasileiro Vinícius de Moraes escreveu assim num belíssimo poema: «A coisa mais divina/ Que há no mundo/ É viver cada segundo/ Como nunca mais». É assim, sempre vigilantes, amantes e esperantes, sempre à escuta e à espera de alguém, com Amor imenso e intenso, que rasga o próprio tempo, que devemos encher todos os nossos instantes, como se fosse a primeira vez, como se fosse a última vez. Aprendamos então que tudo no Evangelho é decisivo, pois é-nos mostrado com toda a clareza que cada passo conta, cada gesto conta, cada palavra conta, cada copo de água conta!

 4. Átrio de um tempo novo, habitado, «carregado» de justiça e de bondade. Obra de Deus no nosso mundo. E só dele. Obra terna, tenra e nova, como um «rebento» de um jovem casal ou de uma planta. Sinal de Primavera no meio da invernia e da lama em que nos vamos atolando, ensonados e enlatados, sem sequer darmos por isso. É, portanto, mesmo preciso que Ele venha e que nos acorde e nos levante da nossa letargia com novas pautas e novos acordes musicais! E que nos dê nomes novos a nós, às nossas cidades, às nossas escolas, aos nossos hospitais, às nossas ruas! Up! Up! Up! Luz nova lá no alto a atrair os nossos olhos embotados. Instrução nova de Deus para todos os povos, armas transformadas em relhas de arado, flores brancas em mãos ensanguentadas (Isaías 2,1-5).

 5. Isaías serve-nos hoje o mais poderoso Salmo de lamentação popular da Bíblia inteira (Isaías 63,17-64,7). Nele confessamos a nossa rebeldia, mas também a nossa fugacidade (somos como folhas secas levadas pelo vento), e invocamos o amor paternal, criador e redentor de Deus, para que venha em auxílio da nossa fraqueza. «Oh, se rasgásseis os céus e descêsseis», ficará para sempre como um grito maravilhoso de quase inultrapassável intensidade e beleza! E, por nós, Deus, nosso Pai, rasgou mesmo os céus, e veio ter connosco.

 6. E São Paulo saúda-nos com a Graça e a Paz de Deus, nosso Pai, e refere ainda esta maravilha: «Dou graças a Deus por vós em todo o tempo». Motivo: as inumeráveis bênçãos com que Deus nos tem enriquecido.

 António Couto


CLAVE DE SIM, CLAVE DE NÃO!

Novembro 19, 2011

 

1. A«Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei» foi instituída pelo Papa Pio XI, em 11 de Dezembro de 1925, com a Carta Encíclica Quas Primas. Os tempos apresentavam-se sombrios e turvos e os céus nublados como os de hoje, e Pio XI, homem de acção, que já tinha fundado a Acção Católica em 1922, instituiu então esta Festa com o intuito de promover a militância católica e ajudar a sociedade a revestir-se de valores cristãos. A Festa de Cristo Rei era então celebrada no último Domingo de Outubro. A reorganização da Liturgia no pós-Concílio passou esta Festa para o último Domingo do Ano Litúrgico, com o título de «Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo».

 2. «O Senhor Reina». É assim que, no Antigo Testamento, o Deus bíblico se apresenta em acção reinando, isto é, salvando, justificando, perdoando, criando. Na verdade, Reinar é Salvar, isto é, trazer o bem-estar, a alegria e a prosperidade ao seu Povo. É esta a missão do Rei. Salvar é Justificar, o que implica a extraordinária acção de transformar um pecador em justo. Justificar é, portanto, Perdoar. Neste profundo sentido, Justificar e Perdoar são acções que só Deus pode fazer, dado que transformar um pecador em justo é igual a Criar ou Recriar um homem novo. E da acção de Criar também só Deus é sujeito em toda a Escritura. Já se sabe que o Novo Testamento transforma o activo «Deus Reina» no mais abstracto «Reino de Deus».

 3. Tanta e quase indescritível riqueza a de um Deus, sentado no seu trono de Luz, mas que Vem, como um Filho do Homem, com o domínio novo, frágil e forte, do Amor: «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5). Da lição do Livro de Daniel 7,13-14 e respectivo contexto, vê-se bem que todos os nossos impérios prepotentes e ferozes, por mais fortes que pareçam, caem face à doçura da Palavra e da Atitude do Filho do Homem, que dissolve no Amor as nossas raivas e violências, manifestações das bestas que nos habitam. O Filho do Homem vence, sem combater, este combate. É assim que caem as quatro bestas ferozes que sobem do mar (Daniel 7), símbolo da confusão e do mal, e que deixará naturalmente de existir (Apocalipse 21,1).

 4. O domínio do Filho do Homem que nos ama, o domínio do Amor é Primeiro e Último (Apocalipse 1,8). Entre o Primeiro e o Último instala-se o penúltimo, que é o domínio velho e podre da violência das bestas ferozes que nos habitam. O Bem é de sempre e é para sempre. É Primeiro e é Último. O Bem não começou, portanto. O que começou foi o mal que se foi insinuando nas pregas do nosso coração empedernido. Mas o que começa, também acaba. Os impérios da nossa violência, malvadez e estupidez caem, imagine-se, vencidos por um Amor que é desde sempre e para sempre, e que vence, sem combater, a nossa tirania e prepotência!

 5. Entenda-se bem que tem de ser sem combater. Porque, se combatesse, usaria os nossos métodos violentos, o que só aumentaria a violência. É assim que Jesus atravessa as páginas dos Evangelhos e da nossa história e da nossa vida, entregando-se por Amor à nossa violência, abraçando-a e, portanto, dissolvendo-a. É assim que o Amor Reina, nos Salva, Justifica, Perdoa e Recria. Os Chefes dos Judeus, os Soldados e Pilatos representam os impérios envelhecidos, podres e caducos da nossa violência e estupidez. O Reino do Filho do Homem não pode, na verdade, ser daqui (João 18,33-37). Se fosse daqui, apenas aumentaria a espiral da mentira e da violência. É de Amor novo e subversivo que se trata.

 6. Aí está a página divina deste Último Domingo do Ano Litúrgico, Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo: Mateus 25,31-46. Texto espantoso. Surge em cena o Filho do Homem, o Pastor, o Rei, mas vê-se bem que é Jesus. Reúne e cria, separando (Mateus 25,31-33), como sucede no texto da criação de Génesis 1,1-2,4a. A mansidão é a nota maior deste Rei, Pastor, Filho do Homem, Jesus, que domina os animais, separando os mansos (ovelhas) dos violentos e orgulhosos (cabras). Mas esta acção de separação acontece apenas no entardecer da vida e da história, tal como sucederá, para muito espanto nosso, ao trigo e à cizânia (Mateus 13,30-31 e 36-43).

 7. Note-se também que este Rei, que é Jesus, se confunde, outra vez para muito espanto nosso, com os mais pequenos, pois afirma: «Cada vez que o (não) fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o (não) fizestes» (Mateus 25,40 e 45). Note-se ainda que a página das ovelhas mansas está toda relatada em clave de SIM, de acção positiva (Mateus 25,34-40), reclamando outra vez a página da criação (Génesis 1,1-2,4a), em que se contam 452 palavras e não se registra um único NÃO! Em sintonia também com Jesus, o Filho de Deus, que foi sempre SIM, e nunca NÃO (2 Coríntios 1,19-20).

 8. Ao contrário, a página das cabras violentas e orgulhosas aparece toda relatada em clave de NÃO (Mateus 13,41-45). A sua condenação assenta mesmo na inacção. Tal como as virgens insensatas, que não se prepararam e o servo que ficou paralisado, e enterrou o seu talento.

 9. Ezequiel mostra-nos hoje Deus como Pastor amoroso, companheiro de viagem dos seus filhos. Deus surge retratado com os verbos «procurar», «curar», «reunir», «conduzir», «fazer repousar», «apascentar». Mas também é dito que Deus fará justiça entre ovelhas e ovelhas, carneiros e cabritos, preparando a cena grandiosa de Mateus 25,31-46.

 10. Assim também Jesus passou pelo meio de nós, tratando as nossas feridas e lavando-nos os pés e a alma. É assim que o seu Reino novo não é inaugurado com uma solene parada militar, mas com a sua prisão e intronização no trono da Cruz!

 António Couto


NEGOCIANTES OUSADOS OU O TEMPO TODO SENTADOS EM CIMA DO TESOURO?

Novembro 13, 2011

 

1. A parábola do Domingo passado (XXXII) terminava assim: «Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora» (Mateus 25,13). E a parábola deste Domingo, XXXIII do Tempo Comum, que segue imediatamente à anterior, agrafa-se a ela, utilizando três motivos temáticos e literários: a) se a parábola do Domingo passado terminava incutindo uma atitude de vigilância: «Vigiai, pois…» [gregoreîte oûn], a de hoje encaixa ou imbrica-se nela, dizendo em que consiste essa atitude de vigilância, iniciando com: «É, na verdade, como…» [hôsper gár] (Mateus 25,14); b) o atraso do noivo na parábola anterior (Mateus 25,5) corresponde ao «muito tempo depois» da parábola de hoje (Mateus 25,19); c) as virgens operosas [que tinham tudo preparado] da parábola anterior correspondem aos dois servos operosos da parábola de hoje: elas entram na sala do banquete (Mateus 25,10), como eles entram na alegria do seu Senhor (Mateus 25,21 e 23); do mesmo modo que as virgens não operosas [que não tinham tudo preparado] da parábola anterior têm o seu paralelo no servo mau e preguiçoso da parábola de hoje: elas ficam fora da porta da sala do banquete (Mateus 25,12), como ele é excluído da alegria do seu Senhor (Mateus 25,30).

 2. Entrando agora mais dentro da parábola deste Domingo XXXIII (Mateus 25,14-30), somos logo levados a tomar consciência de que um imenso dom, vindo de Deus, precede sempre a nossa acção: cinco talentos, dois talentos, um talento… é sempre uma imensa quantidade dada logo à partida!

 3. O talento começou por ser uma unidade de peso, usada sobretudo para medir metais preciosos. Por exemplo, na Babilónia, um talento equivalia a 60 quilos. Imagine-se então o valor de um talento de ouro! Em épocas sucessivas, no período helenístico, o valor do talento baixou, situando-se então entre 35 e 26 quilos. De qualquer modo, um talento equivalia então a 6000 denários, sendo que o denário era o salário normal de um dia de trabalho. Um talento, 6000 denários, era assim o equivalente a uma vida inteira de trabalho! Portanto, quer seja um, dois ou cinco talentos, é sempre um imenso dom que nos é entregue! É sabido que o grande humanista Erasmo de Roterdão (1467-1536) partiu desta página do Evangelho para dar a estes «talentos» o sentido novo do talento ou capacidades que distinguem cada ser humano. Esta acostagem é possível, se respeitarmos as devidas distâncias. O Evangelho não fala tanto do empenho, dos méritos, das capacidades de cada um, mas mais, muito mais da graça preveniente de Deus, do primado da graça de Deus em relação a nós.

 4. Bem! O andamento da parábola continua a dizer-nos que os talentos entregues por Deus a cada um de nós não são como uma pedra preciosa que há que guardar ciosamente. São antes como uma imensa soma de dinheiro que há que pôr a render, ou como uma semente que há que semear para produzir raízes, caule, ramos, folhas, flores e frutos. Só que esta imensa soma de dinheiro ou esta semente capaz de um tal desenvolvimento são-nos entregues sem instruções!

 5. É assim que a parábola progride, mostrando-nos que os dois primeiros servos não perderam tempo, mas partiram logo (euthéôs) (Mateus 25,15 e 17) e obtiveram resultados fantásticos (100% de lucro) (Mateus 25,20 e 22). Mas o terceiro, ao contrário, agiu como se o talento recebido fosse uma pedra preciosa, e guardou-a ciosamente, para, a seu tempo, a devolver intacta ao seu dono.

 6. As razões do comportamento estranho deste terceiro servo, são-nos manifestadas depois, quando este servo se explica aquando da chegada «muito tempo depois» do seu Senhor. Ele diz, escolhendo mal as palavras: «Eu sei que és um homem duro (sklêrós), que colhes onde não semeaste e juntas onde não espalhaste. Tive medo, e escondi o teu talento na terra» (Mateus 25,24-25).

 7. Aqui estão as respostas erradas, que vêm desde Adam. Também ele teve medo de Deus e escondeu-se dele (Gn 3,10). Na esteira de Adam, também este terceiro servo da parábola de Mateus ficou tolhido pelo medo e opta por jogar pela seguro, que se vem a revelar falso. O medo deriva, nos dois casos, de uma falsa imagem de Deus, que é visto como um homem duro e exigente. É assim que ficamos muitas vezes paralisados, sem perceber os dons de Deus, a começar pelo dom de Deus por excelência, que é o Espírito Santo, são dinâmicos, e não pedras imóveis! E que o Deus da parábola é o Senhor da alegria (Mateus 25,21 e 23), e não do medo!

 8. Portanto, a vigilância de Mateus 25,13 («Vigiai, pois…») manifesta-se em sermos activos, generosos, corajosos e ousados desde o primeiro momento («partir logo») (Mateus 25,21 e 23), e não em ficarmos tolhidos, frios e inertes, ciosamente guardando um grande tesouro… Negociantes ousados, e não o tempo todo sentados em cima do tesouro.

 António Couto


CHEGAR COM O CONTROLO ENCERRADO

Novembro 4, 2011

 

1. O cenário é o de um casamento judaico tradicional. No último dia dos festejos, depois do pôr-do-sol, o noivo, acompanhado pelos seus amigos, à luz de tochas e ao som de cânticos, formando um cortejo, dirigia-se para a casa da noiva, que o esperava, acompanhada pelas suas amigas. Quando o cortejo do noivo chegava ao seu destino, a noiva abandonava a sua casa com as suas amigas, e formava-se então uma única comitiva luminosa e ruidosa, que se dirigia para a casa do noivo onde se celebrava o casamento e tinha lugar o banquete nupcial.

 2. O Evangelho deste XXXII Domingo do Tempo Comum, Mateus 25,1-13, começa por aludir ao cenário referido no que diz respeito ao grupo das jovens amigas que acompanham a noiva que aguarda a chegada do cortejo do noivo. Note-se, porém, que a noiva nunca é referida no texto, e que o noivo não segue o ritual previsto, pois se atrasa muito para além da hora habitual. Mas também as amigas da noiva saltam fora do espelho, pois são divididas em dois estranhos grupos, iguais em número, mas não em qualidade: cinco prudentes e cinco insensatas.

 3. Dado o atraso, inesperado, do cortejo do noivo, as amigas da noiva acabam por adormecer todas, não se notando neste particular qualquer diferença entre os dois grupos. Até que, no meio da noite, também inesperadamente, a vozearia do cortejo do noivo faz acordar estremunhadas as amigas da noiva, e é agora que se notam as primeiras dissonâncias no comportamento dos dois grupos: as prudentes, juntamente com as suas tochas, necessárias para entrar na luminosa comitiva nocturna, levam também o indispensável combustível: o azeite. A arqueologia tem mostrado estas antigas tochas e o seu funcionamento: um suporte de madeira em cuja cavidade superior se introduziam trapos e estopa, que eram então embebidos em azeite, e acesos só na hora de sair para o exterior. São, na verdade, luzes de exterior, que nada têm a ver com as lucernas de interior. Depois de embebidas em azeite e acesas, o seu tempo de duração era de cerca de quinze minutos. Pelo que só deviam ser acesas imediatamente antes de sair. E, ainda assim, se a viagem demorasse, devia transportar-se também a vasilha do azeite, para não se correr o risco de a tocha se apagar. É este segundo aspecto que separa as jovens insensatas das prudentes.

 4. Com as tochas apagadas, as jovens insensatas não puderam integrar a comitiva nupcial. Enquanto foram comprar o azeite, o cortejo chegou a casa do noivo, deu-se início ao banquete e fechou-se a porta. Mais tarde, chegaram também as jovens insensatas, e disseram: «Senhor, senhor, abre-nos a porta». A resposta, porém, surge com mais estrondo que o fechar da porta: «Em verdade vos digo que não vos conheço”.

 5. Para se entender bem o alcance das locuções «Senhor, Senhor» e «não vos conheço», importa reler atrás Mateus 7,21-23: «Não todo aquele que me diz “Senhor, Senhor”, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: “Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizámos e em teu nome que expulsámos demónios e em teu nome que fizemos muitos milagres?” Então eu lhes declararei: “Nunca vos conheci”».

 6. E a propósito do bom conhecimento, importa revisitar ainda Mateus 12,48-50, para descobrir uma nova família, que são as pessoas que melhor conhecemos: «“Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?” E estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: “Eis a minha mãe e os meus irmãos. Quem faz a vontade do meu Pai que está nos Céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”».

 7. Este noivo que demora a vir é o Senhor. O tempo da sua demora é o tempo que, por graça, nos é dado a todos para estarmos sempre prontos, preparados e operosos. Afinal, as jovens insensatas também sabiam bem o que era necessário, tanto que acabaram por cumprir o programa e chegar à meta. Só que tarde e a más horas, e o controlo já estava encerrado.

 8. Dá-nos, Senhor, a tua Sabedoria sempre diligente. Ensina-nos a bem contar os nossos dias (Salmo 90,12) e a cantar as nossas alegrias. Vem, Senhor Jesus!

 António Couto