CHEGAR COM O CONTROLO ENCERRADO


 

1. O cenário é o de um casamento judaico tradicional. No último dia dos festejos, depois do pôr-do-sol, o noivo, acompanhado pelos seus amigos, à luz de tochas e ao som de cânticos, formando um cortejo, dirigia-se para a casa da noiva, que o esperava, acompanhada pelas suas amigas. Quando o cortejo do noivo chegava ao seu destino, a noiva abandonava a sua casa com as suas amigas, e formava-se então uma única comitiva luminosa e ruidosa, que se dirigia para a casa do noivo onde se celebrava o casamento e tinha lugar o banquete nupcial.

 2. O Evangelho deste XXXII Domingo do Tempo Comum, Mateus 25,1-13, começa por aludir ao cenário referido no que diz respeito ao grupo das jovens amigas que acompanham a noiva que aguarda a chegada do cortejo do noivo. Note-se, porém, que a noiva nunca é referida no texto, e que o noivo não segue o ritual previsto, pois se atrasa muito para além da hora habitual. Mas também as amigas da noiva saltam fora do espelho, pois são divididas em dois estranhos grupos, iguais em número, mas não em qualidade: cinco prudentes e cinco insensatas.

 3. Dado o atraso, inesperado, do cortejo do noivo, as amigas da noiva acabam por adormecer todas, não se notando neste particular qualquer diferença entre os dois grupos. Até que, no meio da noite, também inesperadamente, a vozearia do cortejo do noivo faz acordar estremunhadas as amigas da noiva, e é agora que se notam as primeiras dissonâncias no comportamento dos dois grupos: as prudentes, juntamente com as suas tochas, necessárias para entrar na luminosa comitiva nocturna, levam também o indispensável combustível: o azeite. A arqueologia tem mostrado estas antigas tochas e o seu funcionamento: um suporte de madeira em cuja cavidade superior se introduziam trapos e estopa, que eram então embebidos em azeite, e acesos só na hora de sair para o exterior. São, na verdade, luzes de exterior, que nada têm a ver com as lucernas de interior. Depois de embebidas em azeite e acesas, o seu tempo de duração era de cerca de quinze minutos. Pelo que só deviam ser acesas imediatamente antes de sair. E, ainda assim, se a viagem demorasse, devia transportar-se também a vasilha do azeite, para não se correr o risco de a tocha se apagar. É este segundo aspecto que separa as jovens insensatas das prudentes.

 4. Com as tochas apagadas, as jovens insensatas não puderam integrar a comitiva nupcial. Enquanto foram comprar o azeite, o cortejo chegou a casa do noivo, deu-se início ao banquete e fechou-se a porta. Mais tarde, chegaram também as jovens insensatas, e disseram: «Senhor, senhor, abre-nos a porta». A resposta, porém, surge com mais estrondo que o fechar da porta: «Em verdade vos digo que não vos conheço”.

 5. Para se entender bem o alcance das locuções «Senhor, Senhor» e «não vos conheço», importa reler atrás Mateus 7,21-23: «Não todo aquele que me diz “Senhor, Senhor”, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: “Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizámos e em teu nome que expulsámos demónios e em teu nome que fizemos muitos milagres?” Então eu lhes declararei: “Nunca vos conheci”».

 6. E a propósito do bom conhecimento, importa revisitar ainda Mateus 12,48-50, para descobrir uma nova família, que são as pessoas que melhor conhecemos: «“Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?” E estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: “Eis a minha mãe e os meus irmãos. Quem faz a vontade do meu Pai que está nos Céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”».

 7. Este noivo que demora a vir é o Senhor. O tempo da sua demora é o tempo que, por graça, nos é dado a todos para estarmos sempre prontos, preparados e operosos. Afinal, as jovens insensatas também sabiam bem o que era necessário, tanto que acabaram por cumprir o programa e chegar à meta. Só que tarde e a más horas, e o controlo já estava encerrado.

 8. Dá-nos, Senhor, a tua Sabedoria sempre diligente. Ensina-nos a bem contar os nossos dias (Salmo 90,12) e a cantar as nossas alegrias. Vem, Senhor Jesus!

 António Couto

2 respostas a CHEGAR COM O CONTROLO ENCERRADO

  1. Maria e Rui Pedro diz:

    Obrigado pela tarde de formação que nos proporcionou ontem no CAB, e pelas partilhas que não deixa de nos fazer aqui todas as semanas. Esqueceu-se ontem de referir como bibliografia este blog!

    De facto, a Bíblia oferece-nos a Composição do Sim de Deus em relação à Humanidade, um Sim que se traduz num Convite para as Bodas. Um Sim que pede a nossa resposta agradecida e vigilante…

    Um abraço e até uma próxima oportunidade!

  2. agraciada diz:

    O meu profundo agradecimento D. António Couto!
    É deveras importante para o meu entendimento desta passagem evangélica deste XXXII Dom. o enquadramento na cultura judaica.
    Desta forma fica facilitada a tarefa de me redescobrir numa personagem da história e acordar para o encontro com o Senhor.
    Vezes há em que nem sequer ouvimos a voz daqueles que anunciam a vinda do SENHOR!
    Que os ouvidos do meu ser estejam sempre ALERTA, pois a “minha alma quer sede de Deus!”

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