MAIS TERMOSTATOS, MENOS TERMÓMETROS


 

1. Entalado entre os dois Testamentos, fechando a porta do Antigo, abrindo a porta do Novo, João, hebraico Yhôhanan [= YHWH faz graça], resume o Antigo Testamento e oferece o sumário do Novo Testamento. Não é um nome nosso, suportado pelos nossos registros anagráficos, como bem constatam os seus familiares reunidos, aos oito dias, para a festa da circuncisão e da dádiva do nome: na verdade, ninguém, entre os seus parentes, tinha esse nome (Lucas 1,61), pelo que todos ficaram admirados (Lucas 1, 63).

 2. Na verdade, esse nome veio do céu, como bem refere Lucas 1,13. E o IV Evangelho di-lo desta maneira estupenda: «Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João» (João 1,6). É a página que enche este Domingo III do Advento (João 1,6-8.19-28). João surge, portanto, neste imenso Evangelho sem qualquer amarra a este mundo: sem pai nem mãe, sem proveniência terrena, sem introdução, sem luz própria. Só Deus o precede.

 3. Como pode, pois, responder à questão que lhe é posta acerca da sua identidade? Desvia de si mesmo todas as atenções: NÃO sou, NÃO sou, NÃO sou! NÃO é a Luz, NÃO é o Messias, NÃO é Elias, NÃO é o Profeta! Dirige todas as atenções para a LUZ, de quem dá testemunho. João nunca responde: «Eu sou…». Mesmo quando responde à pergunta: «Para que possamos dar uma resposta àqueles que nos enviaram, que dizes de ti mesmo?» (João 1,22), João não responde, como aparece vulgarmente nas traduções: «Eu sou a voz do que clama no deserto» (João 1,23), mas literalmente: «Eu? A voz do que clama no deserto», evitando cuidadosamente a locução «Eu sou», que fica reservada para Jesus. E, ainda assim, tomando sempre as devidas precauções, João diz «voz» (phonê), e não «palavra» (lógos). Porque a Palavra (lógos) também é Jesus.

 4. Sim, a LUZ, o EU SOU, a PALAVRA é Jesus. Mas Jesus é ainda, no certeiro dizer de João, «QUEM está NO MEIO de vós» (João 1,26). É de Jesus o lugar de honra. Face ao MEIO, no IV Evangelho, João aparece sempre «no outro lado do Jordão» (João 1,28; 3,26; 10,40), fora da Terra Prometida, mas apontando sempre para ela e para ELE. João é a inteira Escritura apontando Jesus em contra-luz, em filigrana pura.

 5. A luminosa página de Isaías 61,1-2.10-11 traça a vocação e a missão do anónimo profeta pós-exílico. Vocação e missão a transbordar de alegria e de beleza, que Jesus faz sua quando, na sinagoga de Nazaré, lhe apõe a sua assinatura com aquele: «Hoje cumpriu-se esta Escritura nos vossos ouvidos» (Lucas 4,21). Trata-se de um verdadeiro tornado que muda a história religiosa dos filhos de Deus, contagiando também a inteira criação.

 6. Maria também canta essa alegria no magnificat (Lucas 1,46-54), hoje, Domingo da Alegria, elevado a Salmo Responsorial. E nós com ela, de geração em geração (Lucas 1,48).

 7. E São Paulo (1 Tessalonicenses 5,16-24) também se associa a esta onda de Alegria, com o seu estilo próprio, sobrecarregado de imperativos e de totalidade: «Alegrai-vos sempre! Orai sem cessar! Em tudo dai graças […]. Não apagueis o Espírito. Examinai tudo: guardai o que é bom!».

 8. Neste tempo, com tantos cristãos doentes, dormentes, parados e anestesiados, sobram Hoje  incentivos para uma vida nova. No meio do frio próprio do tempo, o Domingo III do Advento atira-nos uma imensa chama de Alegria. Tempo novo. Jesus, a Luz, no Meio. E nós por perto, ao redor dessa fogueira. Haverá, por certo, mais termostatos, e menos termómetros.

António Couto

8 respostas a MAIS TERMOSTATOS, MENOS TERMÓMETROS

  1. Manuel diz:

    Por este tão belo texto acerca da mensagem, que neste Domingo III do Advento nos é oferecida, transbordando de alegria com o Profeta João pela presença de Jesus no meio de nós, dou-Te graças, Senhor, e imploro abundantes Bênçãos para o senhor Bispo D. António Couto.

  2. Cisfranco diz:

    Interessante esta sua reflexão, como aliás todas as que conheço. Mas nesta gostei da alusão ao termostato e termómetro. A criação de ambiente acolhedor em que todos gostam de permanecer e viver está reservada ao termostato em cuja função os seguidores do Mestre se devem empenhar. Há muitos tipos de termostato que criam cada qual seu pipo de ambiente. A temperatura da mensagem do Mestre é ela própria agradável, criadora de ambiente aprazível para todos. Atenção! Desde que o termostato não esteja avariado…

  3. agraciada diz:

    D. António
    Depois de ter a alegria de partilhar a Palavra, espero que me possa esclarecer no seguinte.
    No nº 1 deste texto li “João, hebraico Yhôhanan [= YHWH faz graça]” e no nº 2 do seu texto de 8 de Outubro, 2010 li “ «Jesus, Mestre, Faz-nos Graça!» (Lucas 17,13). Aquele «Faz-nos Graça!» soa, no texto grego, eléêson hêmãs, cujo eco ainda hoje ressoa no nosso «Kýrie, eléêson» («Senhor, Faz Graça»).
    Pergunto: eléêson é o grego correspondente ao hebraico Yhôhanan.
    Eu? Uma agraciada com a Palavra. Nunca estudei hebraico nem grego. Eu? Uma agraciada pela descoberta contínua.
    Louvado seja Deus por possibilitar a alguém que fala português conhecer as línguas da Bíblia!
    Que a Palavra continue a chegar até nós, através da sua voz, D. António Couto.

    • mesadepalavras diz:

      O nome hebraico “hen” = “graça” é habitualmente traduzido pelo grego “cháris” = “graça” na tradução grega dos LXX. Por sua vez, o verbo hebraico “hanan” = “fazer graça” é habitualmente traduzido pelo grego “eleéô” = “fazer graça”, donde o imperativo “eléêson” que refere no texto de Lucas 17,13. Portanto, “eléêson” é o imperativo de “eleéô”, que traduz o hebraico “hanan” = “fazer graça”. Falta o Yhô ou Yôh, que é a abreviatura de YHWH, em início de palavra, como em Yôhnatan = “YHWH deu”, ou Yôhel = “YHWH é Deus”… Em final de palavra soa Yah, como em alellûyah = “louvai YHWH”.

      • agraciada diz:

        Obrigada por me ensinar gratuitamente, D. António.
        Percebi assim:
        hebraico “hen” = “graça” → grego “cháris” = “graça” (versão grega dos LXX)
        hebraico “hanan” = “fazer graça” → grego “eleéô” = “fazer graça”
        hebraico “hanan” = “fazer graça” → “eléêson” (⇐imperativo de “eleéô”)

        Yhô ou Yôh = abreviatura de YHWH
        Ex.: (Yôh como prefixo)
        Yôhnatan = “YHWH deu”
        Yôhel = “YHWH é Deus”

        Yhô ou Yôh Em final de palavra soa Yah
        Ex.: (Yah como sufixo)
        alellûyah = “louvai YHWH”.

        Percebi bem?
        Pareceu-me entender que Yôhnatan = “YHWH deu” se refere a Jónatas
        e Yôhel = “YHWH é Deus” se refere a Joel.
        Estou certa?

        A Palavra de Deus gera em nós consolação, em particular quando vemos Deus a fazer graça na nossa vida permitindo que partilhemos a alegria DO QUE É com aqueles a quem vamos ao encontro e, surpreendentemente, com aqueles que vêm ao nosso encontro sem o nosso esforço.
        Concluímos: “Dizer é, portanto, sobretudo dizer com a vida.” (D. António Couto, 24 de Junho, 2008)

  4. Nuno Oliveira Dias diz:

    Gostei do seu comentário

  5. Cisfranco diz:

    Não vem a propósito deste post, mas solicito ao autor, quando entender e se assim entender, que explique a palavra grega/hebraica/aramaica para designar o sentido da palavra “irmão”. É para a compeensão do sentido dos irmãos de Jesus de que falam os Evangelhos, visto que há interpretações completamente diferentes. Se preferir, pode utilizar o e-mail.
    Obrigado

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