DESERTO, LUGAR DE PROVA E DE GRAÇA

Fevereiro 25, 2012

1. Só secundariamente a Quaresma «prepara» para a Ressur­reição do Senhor. Na verdade, todos os «Tempos» e todos os Domingos do Ano Litúrgico – portanto, também a Quaresma e os seus Domingos – estão depois da Ressurreição e por causa da Ressurreição. E é só sob a intensa luz do Senhor Ressusci­tado com o Espírito Santo (Baptismo consumado: Lucas 12,49‑50) que a Igreja – e cada um de nós – pode celebrar autenti­camente a sua fé, proceder à correcta «leitura» das Escri­turas e encetar a «caminhada» quaresmal. Neste sentido, todos os baptizados são chamados a refazer com Cristo bapti­zado o seu programa baptismal, cujo conteúdo e itinerário conhecemos: desde o Baptismo no Jordão, passando pela Trans­figuração / Confirmação no Tabor, até à Cruz e à Glória da Ressurreição (Baptismo consumado!), escutando e anunciando sempre e cada vez mais intensamente o Evangelho do Reino e fazendo sempre e cada vez mais intensamente as «obras» do Reino (Actos dos Apóstolos 10,37-43: texto emblemático); os catecúmenos, acompanhados sempre pela Assembleia dos baptizados, «pre­param‑se» intensamente para a Noite Pascal Baptismal, início e meta da vida cristã.

 2. O Evangelho deste Domingo I da Quaresma (Marcos 1,12-15) oferece-nos a figura de Jesus, acabado de apresentar pelo Pai como «o Filho meu, o amado, em quem está o meu comprazimento» (Marcos 1,11), como sintetizador perfeito da vida do povo de Israel. Eis, portanto, Jesus impelido pelo Espírito no deserto, durante quarenta dias tentado por satanás, em harmonia com os animais selvagens, servido pelos anjos (Marcos 1,12-13). Excelente analepse em que o narrador faz Jesus descer ao chão de Israel, para assumir as suas fragilidades, elevando a dura realidade do pecado do povo, do nosso pecado, a um registro de salvação. O deserto foi lugar de tentação e de queda para o povo de Israel durante quarenta anos, o tempo de uma geração, uma vida inteira, o tempo todo. Mas o deserto era também o lugar da graça, pois era Deus que conduzia o seu povo. Esquecendo a graça, não se passa a prova. Eis, então, que Jesus desce a esse chão, ao nosso chão, experimenta a nossa condição. Atravessa a prova, ressaltando a graça. Harmonia e paz. O homem, eu e tu, nós, recebemos de Deus o mandato do domínio manso da terra e dos animais (Gn 1,26 e 28). Sem sucesso. Também Jesus desce ao nosso nível, e salva pela graça o nosso fracasso, soberanamente convivendo com os animais selvagens. O texto de Marcos não perde tempo a descrever o conteúdo das tentações, nem a acção dos actores, como vemos em Mateus (4,1-11) e Lucas (4,1-13). Marcos apenas faz descer o Filho de Deus ao nosso chão escorregadio, mostrando bem a sua comunhão connosco e o seu domínio manso, novo e seguro. Do mesmo modo que, pouco depois, estando nós atarefados e aflitos em pleno mar encapelado, filmará Jesus a dormir serenamente na nossa barca, à popa (lugar de comando), com a cabeça suavemente deitada numa almofada (Marcos 4,35-41).

 3. Note-se também que o «deserto» bíblico que aparece no texto não se ajusta ao que dizem os dicionários ou enciclopádias. Até contradiz esses dizeres. Na verdade, não é um lugar geográfico, mas teológico, pois é apresentado com muita água (João 3,23) cumprindo Isaías 35,6-7, 41,18 e 43,19-20, com árvores (canas) (Mateus 11,7; Lucas 7,24) e relva verde (Marcos 6,39) cumprindo Isaías 35,1 e 7 e 41,19. É um lugar provisório e preliminar, preambular, longe do que é nosso, onde se está «a céu aberto» com Deus, onde troará a voz do seu mensageiro (Isaías 40,3), de João Baptista (Mateus 3,1-3), do próprio Messias segundo uma tradição judaica recolhida em Mateus 24,26. O deserto é o lugar onde se pode começar a ver a «obra» nova de Deus (Isaías 43,19). Mas é um lugar provisório, onde estamos de passagem, e não definitivo, para se habitar lá (à maneira dos Essénios). Sendo um lugar provisório e de passagem, aponta para o definitivo, que é a Terra Prometida, onde Deus fará habitar e descansar o seu povo fiel. Este deserto é uma metáfora da nossa vida, onde sabemos que estamos de passagem. O deserto é todo igual: não tem pontos de referência nem marcos de sinalização. Quer dizer que só podemos prosseguir rumo à Terra Prometida e à Vida verdadeira, se tivermos um bom guia. Aí está o deserto como lugar onde temos de saber escutar a «Voz do fino silêncio» de Deus e ler o mapa da sua Palavra. Agora temos a companhia do Filho, que veio em nosso auxílio.

 4. Mas, atenção. Depois do pequeno, mas consolador filme a que acabámos de assistir, em que vimos Jesus a descer ao nosso chão, assumindo e salvando os nossos fracassos, preparemo-nos para ouvir pela primeira vez a sua voz. Sendo os seus primeiros dizeres, são, naturalmente, programáticos para o inteiro texto de Marcos.

 5. Mas antes de ouvirmos, pela primeira vez, a voz de Jesus, anotemos desde já dois notáveis dizeres do narrador, que atravessam em filigrana o inteiro Evangelho de Marcos, unindo os caminhos e os destinos de João Baptista, de Jesus e dos seus discípulos. O primeiro é este: «Depois de João ter sido entregue (paradothênai: inf. aor. pass. de paradídômi)» (Marcos 1,14). Trata-se de uma prolepse, que serve para ver já o que irá suceder a Jesus, acerca de quem o verbo será usado 13 vezes (Marcos 3,19; 9,31; 10,33; 14,10.11.18.21.41.42.44; 15,1.10.15), e aos seus discípulos (Marcos 13,9.11.12). O segundo é o uso do verbo «anunciar» (kêrýssô) para traduzir o afazer primeiro de Jesus (Marcos 1,14). E, mais uma vez, este verbo é um fio condutor que une Jesus (Marcos 1,14.38.39), João Baptista (Marcos 1,4.7), os Doze (Marcos 3,14; 6,12), algumas pessoas curadas por Jesus (Marcos 1,45; 5,20; 7,36) e a Igreja de Jesus (Marcos 13,10; 14,9). Fica, portanto, claro que, antes de pregar, ensinar e curar, Jesus, os seus discípulos, a sua Igreja, são mensageiros que anunciam em voz alta a mensagem de que são incumbidos. E é dito o conteúdo da mensagem: «O Evangelho de Deus» (Marcos 1,14). Sem equívocos então: a primeira coisa que fica expressa com esta linguagem, é que Jesus, o seu precursor (João Baptista) e seguidores (discípulos), se apresentam completamente vinculados a Deus e ao seu Evangelho [= «Notícia Feliz»], vivem de Deus e da Sua Notícia Boa, não agem por conta própria, não são emissores da sua própria sabedoria ou opinião.

 6. E aí está então o primeiro dizer de Jesus, articulado em duas declarações inseparáveis: «Foi cumprido (peplêrotai: perf. pass. de plêróô) o tempo (ho kairós),/ e fez-se próximo (êggiken: perf. de eggízô) o Reino de Deus (he basileía toû theoû)» (Marcos 1,15). O acento cai sobre os dois perfeitos que abrem enfaticamente as declarações, e revelam que o Evangelho é em primeiro lugar o anúncio da inciativa divina, Deus em acção, que abre ao homem novas e belas perspectivas. O perfeito passivo (peplêrotai), que qualifica o kairós, indica bem que Jesus não se refere a qualquer segmento de tempo cronológico, mas àquele específico do cumprimento, posto expressamente sob a intervenção definitiva de Deus. Só Deus pode agir sobre o tempo cronológico, tornando-o kairós, tempo grávido de alegria e de esperança, entenda-se, da Palavra amante de Deus que, entrando em nós, reclama a nossa resposta amante e transforma a nossa vida. Uma vez mais, o anúncio precede a ordem: Jesus não começa com normas e exigências, mas assinala quanto Deus já fez e está a fazer, por sua gratuita iniciativa, em nosso favor. Só depois, e como normal consequência, surgem na boca de Jesus dois imperativos: «Convertei-vos» (matanoeîte) e acreditai (pisteúete) no Evangelho» (Marcos 1,15), que traduzem o que compete aos homens fazer. Jesus não é um moralista, mas um Evangelzador.

 7. Após o drama do dilúvio (Génesis 9,8-15), Deus fala a Noé e aos seus filhos (Génesis 9,8), portanto, a toda a humanidade, anunciando que vai estabelecer a PAZ com todo o universo criado (Génesis 9,9-11), inclusive com os animais selvagens (Génesis 9,10): grandiosa abertura para o Evangelho. Sinal desta nova era de paz: Deus depõe o seu «arco-de-guerra» (arco-íris) nas nuvens (Génesis 9,12-17). O Desígnio de Deus anunciado será inexoravelmente cumprido. A paz para todos e para sempre, inaugurada em Cristo e sempre presente no seu programa filial baptismal, tem de estar igualmente presente no programa filial baptismal de cada baptizado.

 8. «Na fé todos estes morreram, sem terem obtido a realização da promessa. Mas viram-na e acenaram-lhe de longe» (Hebreus 11,13). Belíssimo cenário de esperança! Todo o Antigo Testamento acena para Cristo, sua esperança. E como Deus não desilude, Cristo acena agora a todo o Antigo Testamento, levando a salvação de Deus a todos os homens e a todos os lugares, iluminando também a até então impenetrável região da morte (1 Pedro 3,18-20). Pedro dá testemunho da força do Evangelho e da Ressurreição de Cristo que nos constitui em «nova criação» pelo Baptismo (1 Pedro 3,21-22).

António Couto

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DESTE MODO NUNCA TÍNHAMOS VISTO!

Fevereiro 18, 2012

 

1. Tinha Jesus saído de casa e de Cafarnaum na madrugada daquele primeiro dia da semana, muito cedo, para rezar num lugar deserto (Marcos 1,35). Procuraram-no os seus discípulos e aí o encontraram. Movia-os a ideia de o fazer regressar a Cafarnaum, apresentando para isso uma razão que julgavam suficiente: «Todos te procuram (zêtéô)» (Marcos 1,37). Já sabemos que Jesus os deixou boquiabertos, apontando-lhes outros critérios: «Vamos a outros lugares, às aldeias vizinhas, para que também lá ANUNCIE (kêrýssô); na verdade, foi para isto que saí (exêlthon)» (Marcos 1,38). Entenda-se neste «sair», não o simples facto de Jesus ter saído naquela madrugada de casa e da cidade, mas o grande êxodo de Jesus, expresso nas suas próprias palavras: «Saí (exêlthon) do Pai e vim para o mundo» (João 16,28).

 2. Sim. Andavam equivocados os discípulos de Jesus. Quem procura quem? Na verdade, como «o Pai procura os seus adoradores» João 4,23), também Jesus «vem procurar e salvar o que anda perdido» (Lucas 19,10). Divina procura. Por isso, Jesus enceta sempre novas procuras e empenha consigo os seus discípulos neste comportamento novo e inaugural.

 3. Ei-lo, portanto, neste Domingo VII do Tempo Comum, de regresso a Cafarnaum, sempre sujeito, e não objecto, de novas procuras que desencadeiam novas maravilhas (Marcos 2,1-12). O cenário é simples. A Cafarnaum do tempo de Jesus, que a arqueologia mostra a quem quiser ver, obedecia helenístico-romano, assente no cardo maximus, grandes ruas no sentido norte-sul, e nos decumani, travessas este-oeste, que desenhavam a cidade em quarteirões geométricos. As casas, por sua vez, apresentam a mesma planta e o mesmo tipo de construção: formadas apenas por rés-do-chão, sem andares, tinham no pátio de entrada, um amplo espaço a céu aberto, a sua parte principal, onde se desenrolavam as actividades normais do dia-a-dia: aqui estava o moinho, o forno, aqui as mulheres preparavam as refeições, aqui trabalhavam os artesãos, aqui dormiam nas noites escaldantes de verão em esteiras estendidas pelo chão. Deste pátio partiam diversos compartimentos, compridos e estreitos, cobertos por um tecto formado por algumas vigas de madeira e terra amassada com palha. Estes compartimentos internos eram diversos, porque a casa de habitação era certamente partilhada por diversos ramos familiares (família patriarcal); eram estreitos, porque se tornava difícil a cobertura de tectos largos, não havendo madeira na região; eram compridos, porque ter muitos filhos era um ideal a perseguir e uma bênção de Deus. O conjunto habitacional, esta casa, formada pelo pátio e pelos compartimentos, estava rodeada por um muro de pedras de basalto negro da região de cerca de  três metros de altura, que tinha uma porta (a única porta de toda a casa que se podia fechar) que dava para o exterior.

 4. Se à descrição acima feita, acrescentarmos agora que, na casa de Pedro em que Jesus está hospedado, a porta do muro que cerca o pátio e os compartimentos se situa na fachada E, ficamos a saber que a porta abre para a rua principal (cardo maximus), e que, no caso da casa de Pedro, entre a referida porta e a rua principal, há ainda um largo espaço adicional. A arqueologia ao encontro dos dados do Evangelho, que refere que «toda a cidade estava reunida junto da porta» (Marcos 1,33).

 5. Fica também ao alcance da nossa compreensão o facto de o paralítico referido no texto do Evangelho tenha sido descido pelo tecto (fácil de destapar) de um dos compartimentos da habitação, dado que era impossível para quem o transportava poder ir até junto de Jesus através da multidão.

 6. Também se percebe que é Jesus que nos procura, e que só Ele sabe procurar verdadeiramente. É Ele que nos vê (ideîn) primeiro e fundo. Ele vê a fé e perdoa, isto é, recria, como só Deus sabe e pode perdoar ou recriar (Marcos 2,5). Atenção que este belíssimo dito de Jesus: «Filho, são-te perdoados os teus pecados» (Marcos 2,5) só se ouve aqui e agora. Nem antes nem depois será dita coisa semelhante. Graça oferecida que não pode ser desperdiçada! Mas também vê os corações enviesados e esclerosados dos escribas (Marcos 2,6-8), e abre diante deles a porta da salvação. Também os escribas aparecem aqui pela primeira vez. Mas não única! A «blasfémia» também surge aqui pela primeira vez (Marcos 2,7). Aparecerá de novo em Marcos 14,64, e é a causa da morte de Jesus!

 7. Enfim, para maravilha dos nossos olhos tantas vezes embotados, o paralítico passa «diante de toda a gente», ouve-se um novo Gloria in excelsis Deo, e a singular anotação: «Deste modo nunca tínhamos visto» (Marcos 2,12).

 8. Em perfeita sintonia, aí está hoje Isaías 43,18-25 a pôr Deus a anunciar que vai fazer uma coisa nova. E essa coisa nova é o perdão primeiro e incondicional de Deus que abre avenidas de incontida e imerecida alegria na nossa vida.

 9. Deus do SIM irreversível. O grande, imenso, intenso texto de Paulo (2 Coríntios 1,19) põe diante de nós esta lição sublime: «O Filho de Deus, Jesus Cristo, que foi ANUNCIADO por nós no meio de vós, não foi SIM e NÃO, mas unicamente SIM» (2 Coríntios 1,19). Junte-se este dizer de João: «Por meio d’Ele tudo foi feito» (João 1,3). E mais este, outra vez de Paulo: «N’Ele tudo foi criado» (Colossenses 1,16). E veja-se agora em contra-luz a pura filigrana da Escritura Santa: o texto da criação, apresentado no Livro do Génesis 1,1-2,4a, contém 452 palavras hebraicas. E não registra um único NÃO!

 10. Há, na verdade, um modo novo de ver e de fazer.

 António Couto


O ABRAÇO SALVADOR

Fevereiro 12, 2012

 

1. Domingo VI do Tempo Comum. O Evangelho de Marcos 1,40-45 continua a mostrar que Jesus, que é «o Reino de Deus em pessoa» (autobasileía, como bem refere Orígenes),  Aquele que se fez próximo para sempre (Marcos 1,15), continua a passar pelos nossos caminhos, a cruzar-se com as nossas dores, e a assumi-las sobre si, curando a nossa pele chagada e o nosso esclerosado coração.

 2. Cena comovente. Contra todas as regras estabelecidas, que impunham aos leprosos o isolamento e a distância de Deus (não podiam frequentar o Templo ou a sinagoga) e dos homens (não podiam entrar nas povoações), e o grito de «impuro, impuro» que deviam trazer nos lábios (Levítico 13,45), para que as pessoas, ao ouvir o grito, deles se distanciassem o mais possível, eis hoje um leproso que ousa aproximar-se de Jesus e colocar-se de joelhos diante dele, implorando dele a cura (Marcos 1,40). É, nos Evangelhos, o único doente que se coloca de joelhos diante de Jesus, implorando a sua cura. O gesto é o seu verdadeiro pedido, que as palavras que diz apenas iluminam. Ele sabe que a cura é um dom de Deus.

 3. Um leproso, diziam os rabinos, era como um morto em vida. Separado de Deus e da comunidade do louvor de Deus, isto é, da comunhão de vida com Deus, o leproso em tudo se assemelhava aos mortos, que também estavam separados de Deus e fora do louvor de Deus, a verdadeira nascente da vida (Salmo 6,6; 88,6; Isaías 38,18). Neste sentido, o Livro de Job define a lepra como o «primogénito entre os mortos» (Job 18,13). Tanto assim era que uma eventual cura da lepra suscitava o mesmo efeito de uma ressuscitação da morte.

 4. As vísceras maternas de Jesus comovem-se (splagchnízomai) quando vê o estado miserável deste seu filho. Não o pode repelir. Pelo contrário, estende a sua mão sobre ele, gesto de divina soberania (Êxodo 3,20; 7,5; Salmo 138,7), e toca-lhe e fala para ele (Marcos 1,41). Tocando-lhe, Jesus assume sobre si a lepra daquele pobre homem. É assim que o salva e nos salva.

 5. Com este seu comportamento de radical proximidade fisica e afectiva, Jesus diz-nos que nos devemos abeirar de todas as pessoas, nomeadamente dos doentes e marginalizados, sempre incluindo e nunca excluindo, com uma atitude próxima, compassiva, calorosa e familiar, no pólo oposto de qualquer comportamento indiferente e asséptico.

 6. «Quero, fica limpo!», diz Jesus (Marcos 1,41). Nasce um homem novo, saído das mãos puras de Deus e da sua Palavra mansa e criadora (Génesis 1; João 15,3). Um grito se calou: «impuro, impuro!». Um novo grito nasceu: o do ANÚNCIO (kêrýssô) do Evangelho (Marcos 1,45). É o terceiro ANUNCIADOR depois de João Baptista (Marcos 1,4.7) e de Jesus (Marcos 1,14.38.39). Outros se seguirão (Marcos 3,14; 5,20; 6,12; 7,36; 16,15). Provocação para nós.

 7. O texto do Livro do Levítico 13,1-2.44-46 mostra-nos o caminho estreito e triste do leproso, que abre, todavia, para a larga e feliz avenida do Evangelho deste dia. E a Primeira Carta aos Coríntios 10,31-11,1 faz-nos ver o Apóstolo Paulo como «imitador» (mimêtês) de Cristo (1 Coríntios 11,1): ser na terra um «mimo» (mîmos) de Cristo, fazer como Cristo faz, fazer descer o céu à terra!

 António Couto


AINDA A «JORNADA DE CAFARNAUM», E JOB, O HOMEM QUE DÓI

Fevereiro 4, 2012

1. De madrugada a madrugada. Depois de entrarem [Jesus e os seus discípulos; ninguém como Marcos vincula Jesus aos seus discípulos] em Cafarnaum, na manhã de sábado entra Jesus na sinagoga de Cafarnaum e ensinava (Marcos 1,21). Ei-los agora que saem [Jesus e os seus discípulos: verbo no plural] da sinagoga, e entram na casa de Simão e de André (Marcos 1,29). Trata-se de um «relato de começo». Saindo da casa antiga, entram, uns 30 metros a sul, na casa nova, de Pedro. A sogra de Simão está deitada com febre. Jesus segura-lhe (kratéô) na mão (Marcos 1,31), expressão lindíssima que indica no Antigo Testamento o gesto protector com que Deus protege o orante (Salmo 73,23), Israel (Isaías 41,13), o seu servo (Isaías 42,6). E a sogra de Simão «levantou-se» (êgeírô), verbo da ressurreição, e pôs-se a servi-los (diêkónei: imperfeito de diakonéô) de forma continuada, como indica o uso do verbo no imperfeito. A sogra de Simão é uma das sete mulheres que, nos Evangelhos, «servem» Jesus e os outros. Ela é bem a figura da comunidade cristã nascente, que passa da escravidão à liberdade, da morte à vida, gerada, protegida, guardada e edificada por Jesus no lugar seguro da casa de Pedro.

 2. À tardinha, já sol-posto, primeiro dia da semana [o dia muda com o pôr do sol], toda a cidade de Cafarnaum está reunida diante da porta daquela casa, para ouvir Jesus e ver curados por Ele os seus doentes. Note-se que os demónios continuam impedidos de falar, exactamente porque sabiam quem Ele era (Marcos 1,34). Pode parecer estranho este silenciamento de quem sabe! Mas é exactamente para ficar claro que acreditar em Jesus não é isolar uma definição exacta de Jesus, mas aderir a Ele e à sua maneira de viver. E este afazer é trabalho nosso, não dos demónios.

 3. Na madrugada do mesmo primeiro dia da semana, muito cedo, de madrugada a madrugada, tendo-se levantado (anístêmi), outra prolepse da madrugada da Ressurreição que já se avista no horizonte, Jesus sai sozinho para rezar (Marcos 1,35), mas os discípulos correm logo a procurá-lo para o trazer de volta a Cafarnaum, pois, dizem eles, todas as pessoas o querem ver e ter. Ninguém o quer perder (Marcos 1,36-37).

 4. Mas Jesus desconcerta os seus discípulos, e abre-lhes já os futuros caminhos da missão: «VAMOS, diz Jesus, a outros lugares, às aldeias vizinhas, para que TAMBÉM (kaí usado adverbialmente) ali ANUNCIE (kêrýssô) o Evangelho» (Marcos 1,38). Importante e intenso dizer. ANUNCIAR, verbo grego kêrýssô, é todo o afazer de Jesus, enche por completo o seu programa e o seu caminho. Ora, ANUNCIAR, kêrýssô, é dizer em voz alta a MENSAGEM que outro nos encarregou de transmitir. Aqui, o outro é Deus. Jesus é, então, o MENSAGEIRO de Deus. O ANUNCIADOR, o MENSAGEIRO, não fala em seu próprio nome, não emite opiniões. Fala em nome de Deus.

 5. Prossigamos. Com aquele «vamos» [«vamos a outros lugares»], Jesus desinstala e agrafa a si os seus discípulos, apontando-lhes já o seu futuro trabalho de ANUNCIADORES do Evangelho pelo mundo inteiro. Mas é igualmente importante aquele TAMBÉM inclusivo [«para que também ali anuncie o Evangelho»]. É como uma ponte que une duas margens. Se, por um lado, prolépticamente, aponta o futuro, por outro lado, analepticamente, classifica como ANÚNCIO do Evangelho todos os afazeres da inteira «jornada de Cafarnaum», em que o verbo ANUNCIAR (kêrýssô) nunca apareceu. Ficamos, portanto, a saber que a toada do ANÚNCO do Evangelho é ensinar, libertar, acolher, curar, recriar.

 6. É neste caminho belo de EVANGELIZADOR, que não é de sua iniciativa, mas que lhe é imposto desde fora, que Paulo anda (1 Coríntios 9,16).

 7. Job é o homem que dói e grita. Procura um sentido. Pede a graça de uma mão. É para ele o EVANGELHO de Deus.

 António Couto


FESTA DA APRESENTAÇÃO DO SENHOR

Fevereiro 2, 2012

 

1. AIgreja Una e Santa celebra em 2 de Fevereiro, quarenta dias depois do Natal, a Festa da APRESENTAÇÃO do Senhor, que as Igrejas do Oriente conhecem por Festa do ENCONTRO (Hypapantê) e dos Encontros: Encontro de DEUS com o seu POVO agradecido, mas também de MARIA, de JOSÉ e de JESUS com SIMEÃO e ANA. Também connosco.

 2. Quarenta dias depois do seu nascimento, sujeito à Lei (Gálatas 4,4), JESUS, como filho varão primogénito, é APRESENTADO a Deus, a quem, sempre segundo a Lei de Deus, pertence. De facto, o Livro do Êxodo prescreve que todo o filho primogénito, macho, quer dos homens quer dos animais, é pertença de Deus (Êxodo 13,11-13), bem como os primeiros frutos dos campos (Deuteronómio 26,1-10).

 3. É assim que, para cumprir a Lei de Deus, quarenta dias depois do seu nascimento, JESUS é levado pela primeira vez ao Templo, onde, também pela primeira vez, se deixa ver como a Luz do mundo e a nossa esperança.

 4. Compõe a cena um velhinho chamado SIMEÃO, nome que significa «ESCUTADOR», que vive atentamente à escuta, e que o Evangelho apresenta como um homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel. Ora, esse velhinho que vivia à espera e à escuta, com premurosa atenção, veio ao Templo, e, ao ver aquele MENINO, pegou nele nos braços. Por isso, os Padres gregos dão a SIMEÃO o título belo de Theodóchos [= recebedor de Deus]. É então que SIMEÃO entoa o canto feliz do entardecer da sua vida, um dos mais belos cantos que a Bíblia regista: «Agora, Senhor, podes deixar o teu servo partir em paz, porque os meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos, Luz que vem iluminar as nações e glória do teu povo, Israel!»

 5. E, na circunstância, também uma velhinha chegou carregada de esperança. Chamava-se ANA, que significa «GRAÇA»; é dita «Profetisa», isto é, que anda sintonizada em onda curta com a Palavra de Deus; era filha de Fanuel, que significa «Rosto de Deus»; era da tribo de Aser, que significa «Felicidade». Tanta intimidade com Deus! Também esta velhinha serena e feliz –  com 84 anos, número perfeito de números perfeitos (7 x 12) – viu aquele MENINO. E diz o Evangelho que se pôs a falar dele a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém!

 6. Esta é a Festa da Alegria e da Esperança acumulada e realizada. É a Festa da Luz. SIMEÃO e ANA viram a Luz e exultaram de Alegria. HOJE somos nós que nos chamamos SIMEÃO e ANA. Somos nós que recebemos esta Luz nos braços, e que ficamos a fazer parte da família da Felicidade e a viver pertinho de Deus, Rosto a Rosto com Deus, Escutadores atentos do bater do coração de Deus. Felizes sois vós, os pobres! (Lucas 6,20). Felizes os olhos que vêem o que vós vedes e os ouvidos que ouvem o que vós ouvis! (Lucas 10,23).

 7. Fevereiro é um mês de Alegria, de Apresentação e Encontro, de Consagração e Contemplação. Num mundo triste e cansado, e tantas vezes enjoado, como o nosso, Maria, José e o Menino, Simeão e Ana são ícones de Felicidade, que nos vêm dizer que se cresce, não apenas em idade, mas em idade, sabedoria e Graça!

 António Couto