AINDA A «JORNADA DE CAFARNAUM», E JOB, O HOMEM QUE DÓI


1. De madrugada a madrugada. Depois de entrarem [Jesus e os seus discípulos; ninguém como Marcos vincula Jesus aos seus discípulos] em Cafarnaum, na manhã de sábado entra Jesus na sinagoga de Cafarnaum e ensinava (Marcos 1,21). Ei-los agora que saem [Jesus e os seus discípulos: verbo no plural] da sinagoga, e entram na casa de Simão e de André (Marcos 1,29). Trata-se de um «relato de começo». Saindo da casa antiga, entram, uns 30 metros a sul, na casa nova, de Pedro. A sogra de Simão está deitada com febre. Jesus segura-lhe (kratéô) na mão (Marcos 1,31), expressão lindíssima que indica no Antigo Testamento o gesto protector com que Deus protege o orante (Salmo 73,23), Israel (Isaías 41,13), o seu servo (Isaías 42,6). E a sogra de Simão «levantou-se» (êgeírô), verbo da ressurreição, e pôs-se a servi-los (diêkónei: imperfeito de diakonéô) de forma continuada, como indica o uso do verbo no imperfeito. A sogra de Simão é uma das sete mulheres que, nos Evangelhos, «servem» Jesus e os outros. Ela é bem a figura da comunidade cristã nascente, que passa da escravidão à liberdade, da morte à vida, gerada, protegida, guardada e edificada por Jesus no lugar seguro da casa de Pedro.

 2. À tardinha, já sol-posto, primeiro dia da semana [o dia muda com o pôr do sol], toda a cidade de Cafarnaum está reunida diante da porta daquela casa, para ouvir Jesus e ver curados por Ele os seus doentes. Note-se que os demónios continuam impedidos de falar, exactamente porque sabiam quem Ele era (Marcos 1,34). Pode parecer estranho este silenciamento de quem sabe! Mas é exactamente para ficar claro que acreditar em Jesus não é isolar uma definição exacta de Jesus, mas aderir a Ele e à sua maneira de viver. E este afazer é trabalho nosso, não dos demónios.

 3. Na madrugada do mesmo primeiro dia da semana, muito cedo, de madrugada a madrugada, tendo-se levantado (anístêmi), outra prolepse da madrugada da Ressurreição que já se avista no horizonte, Jesus sai sozinho para rezar (Marcos 1,35), mas os discípulos correm logo a procurá-lo para o trazer de volta a Cafarnaum, pois, dizem eles, todas as pessoas o querem ver e ter. Ninguém o quer perder (Marcos 1,36-37).

 4. Mas Jesus desconcerta os seus discípulos, e abre-lhes já os futuros caminhos da missão: «VAMOS, diz Jesus, a outros lugares, às aldeias vizinhas, para que TAMBÉM (kaí usado adverbialmente) ali ANUNCIE (kêrýssô) o Evangelho» (Marcos 1,38). Importante e intenso dizer. ANUNCIAR, verbo grego kêrýssô, é todo o afazer de Jesus, enche por completo o seu programa e o seu caminho. Ora, ANUNCIAR, kêrýssô, é dizer em voz alta a MENSAGEM que outro nos encarregou de transmitir. Aqui, o outro é Deus. Jesus é, então, o MENSAGEIRO de Deus. O ANUNCIADOR, o MENSAGEIRO, não fala em seu próprio nome, não emite opiniões. Fala em nome de Deus.

 5. Prossigamos. Com aquele «vamos» [«vamos a outros lugares»], Jesus desinstala e agrafa a si os seus discípulos, apontando-lhes já o seu futuro trabalho de ANUNCIADORES do Evangelho pelo mundo inteiro. Mas é igualmente importante aquele TAMBÉM inclusivo [«para que também ali anuncie o Evangelho»]. É como uma ponte que une duas margens. Se, por um lado, prolépticamente, aponta o futuro, por outro lado, analepticamente, classifica como ANÚNCIO do Evangelho todos os afazeres da inteira «jornada de Cafarnaum», em que o verbo ANUNCIAR (kêrýssô) nunca apareceu. Ficamos, portanto, a saber que a toada do ANÚNCO do Evangelho é ensinar, libertar, acolher, curar, recriar.

 6. É neste caminho belo de EVANGELIZADOR, que não é de sua iniciativa, mas que lhe é imposto desde fora, que Paulo anda (1 Coríntios 9,16).

 7. Job é o homem que dói e grita. Procura um sentido. Pede a graça de uma mão. É para ele o EVANGELHO de Deus.

 António Couto

8 respostas a AINDA A «JORNADA DE CAFARNAUM», E JOB, O HOMEM QUE DÓI

  1. agraciada diz:

    Obrigada D. António Couto por continuar a explicar-nos as Escrituras.
    Que os nossos sorrisos continuem a rasgar-se em nossos rosto com a beleza das suas palavras.
    É um dom de Deus este da contemplação!

    sua irmã em Cristo

  2. agraciada diz:

    D.António Couto
    através do nº 5 acima podemos dizer que o anúncio do Evangelho não se limita à palavra, mas inclui também os gestos?
    Estou certa?
    Anunciar é falar através do viver e não apenas através da palavra, não é?

    Obrigada

  3. Leopoldo Francisco da Rocha diz:

    ‘A jornada de Cafarnaum…’ é um texto magnífico, estimulante, que responde às inquietudes dos tempos de hoje! É tão diferente da grande ‘seca’ que são as nossas homilias da missa dominical que arredam os fiéis da pática!

  4. Gilberto diz:

    Saudações

    O nosso irmão mais velho, o Consolador, fez-me chegar aqui. Acho que sei o porquê. Fico a aguardar contacto.

    Cordialmente

  5. António diz:

    D. António Couto,
    O sofrimento no humano,mete sempre DEUS em causa,até o
    profeta job. JESUS é a resposta de DEUS,a job e a nós, porque
    ele salva e ama. DEUS também nos diz,que a esperança não é
    um sonho, pode torna-se realidade.
    Obrigada, por nos explicar a Sagrada Escritura
    Até breve.

  6. P.e Armando Ribeiro diz:

    Boa tarde,Senhor D. António. Agora, na Diocese de Lamego, seria um bom serviço à Evangelização se esta palavra fosse publicada antes do Domingo correspondente; aqui no blog ou mesmo no jornal VL. Fui alertado há muito para esta palavra, mas depois do Domingo, já não tem efeito tão útil como se fosse antes. Obrigado pela mensagem que nos transmite. P.e Armando -VL

  7. nez diz:

    Muito obrigada! não sei ir além do muito obrigada. Permita Deus que possa continuar a manter esta sua partilha. Sempre desejei ir às aulas do Instituto D. António Ferreira Gomes, e nunca pude. Encontro aqui muitas interrogações e muita inquietação, muitas respostas e muita paz.

  8. António Manuel da silva Matos diz:

    Foi com enorme satisfação que vejo que vou continuar a ter o previlégio de ver os seus especiais comentários sobre Sagrada Escritura, pois encontrei o Blog de V. Revª, conforme as indicações que me facultou.

    O antigo aluno.
    António Matos

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