«A VIDEIRA, A VERDADEIRA» E NÓS…


«15,1Eu sou a videira (hê ámpelos), a verdadeira (hê alêthinê), e o meu Pai é o agricultor. 2Todo o ramo (tò klêma) em mim (en emoí) não dando fruto (mê phérô karpós), ele corta-o, e todo o que dá fruto, limpa-o, para que dê mais fruto. 3Vós já estais limpos pela palavra que vos falei. 4Permanecei (ménô) em mim, e eu em vós (en hymîn). Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim. 5Eu sou a videira; vós os ramos. Aquele que permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto, porque sem mim não podeis fazer nada. 6Se alguém não permanecer em mim, é lançado fora, como o ramo, e seca, e recolhem-nos, e lançam-nos no fogo, e arde. 7Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes, e ser-vos-á feito. 8Nisto é glorificado o meu Pai: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos» (João 15,1-8).

 1. Servindo-se da estratégia da repetição, e articulando muito bem, numa rede finíssima, vocábulos e locuções, o Evangelho deste Domingo V da Páscoa (João 15,1-8) serve-nos a vida verdadeira, divina comunhão, que, do Pai, mediante o Filho, no Espírito, vem até nós, e nos é oferecida e dada. A rede terminológica é imponente: «permanecer» (7 vezes); «em mim» (6 vezes); «dar fruto» (6 vezes); «ramo» (4 vezes); «videira» (3 vezes).

 2. O cenário do Evangelho do passado Domingo (João 10,11-18) era a Festa da Dedicação (hanûkkah), perfeitamente ajustada ao amor dedicado do Bom e Belo Pastor. O cenário do Evangelho de hoje (João 15,1-8) é a Festa da Páscoa (desde João 13,1-2), da vida nova dada, da passagem de Jesus deste mundo para o Pai, do vinho novo do Reino a chegar. Aí está, portanto, em sintonia e em primeiro plano, «a videira, a verdadeira», que é Jesus. Note-se bem o adjectivo «verdadeira», com artigo (he alêthinê), colocado enfaticamente no final da afirmação inicial. Esta afirmação remete analepticamente para tantas passagens do Antigo Testamento que apresentavam Israel como a videira transplantada do Egipto para a Terra Prometida, tratada com amor, mas depois abandonada e queimada no fogo (Salmo 80,9-17), amada e cantada, mas depois entregue aos animais para que a devastassem  (Isaías 5,1-7), guardada, regada, cuidada, mas depois pisada e queimada (Isaías 27,2-4; Jeremias 2,21; Ezequiel 19,10-14). Videira antiga, fracassada, que dá lugar à Videira nova, a verdadeira, que é Jesus.

 3. A videira que era Israel produziu uvas azedas em vez de uvas boas e doces, porque abandonou o Deus verdadeiro, para ir atrás dos ídolos. Mas «a videira, a verdadeira», que é Jesus, está agora plantada no meio de nós. E nós podemos ser os seus ramos, enxertados nele, e dar assim uvas boas e doces, Bom e Belo fruto. Basta, para tanto, «permanecer» nele, que é «a videira, a verdadeira», e deixar a sua vida, a sua seiva, vivificar os ramos. Trata-se, para nós, de permanecer em Jesus, como ele permanece em nós (João 15,4), pois veio habitar em nós (João 14,23). Ele habita «em homem», em nós, pela sua incarnação; nós somos chamados a habitar nele.

 4. Habitar nele é fazer dele a nossa casa, o nosso chão, a nossa porta, as nossas janelas, a nossa mesa, o lugar em que nos alimentamos, repousamos, amansamos depois das nossas agitações complicadas, decepções, fracassos, lutas e incompreensões. O lugar onde nos reunimos, para repartir e saborear o pão e o vinho da alegria, para partir depois com nova alegria ao encontro de mais irmãos. Boa Nova.

 5. O seu jugo é suave e a sua carga é leve (Mateus 11,30). Se nos parecer pesada, então é porque lhe estamos a pegar mal! Mas hoje, que é também o dia da Mãe, podemos entender ainda melhor esta melodia de «a videira, a verdadeira», os ramos sadios e viçosos, a Casa onde moramos, a Mesa onde comemos, as uvas Boas e Belas carregadas de Alegria. E, em confronto, também se entende melhor a secura, os ramos secos, a vida ao abandono.

 

mãe de maio
senhora da alegria
mãe igual ao dia
ave-maria
 
canto para ti
ao correr da pena
a tinta é de açucena
a minha mão pequena
 
pega em mim ao colo
minha mãe de maio
olha que desmaio
pega em mim ao colo
 
pega em mim ao colo
o meu rosto afaga
depois apaga a luz
sou eu ou jesus?
 
 
António Couto

2 respostas a «A VIDEIRA, A VERDADEIRA» E NÓS…

  1. António diz:

    A Igreja é a nova vinha do Senhor e dá bons frutos.
    D. António,é um desses frutos, por esse amor a DEUS, pela fé viva
    em JESUS CRISTO,pelo amor verdadeiro pela humanidade, por
    aquilo que nos transmite, por esse sorriso misterioso e belo.
    Penso que vai ser um fruto, ainda mais admirável e Grande.
    Até breve.

  2. Paula Fernandes diz:

    Este Belo poema dedicado a Maria foi proclamado na homilia da missa de ontem, na Sé de Braga (com direito a Autor).

    Ouvi-lo, nesta catedral Maior, carregadinha de história, foi ainda mais inebriante.

    É o dom de Deus, pela pena da sua escrita, a dar fruto abundante, amplamente contagiante.

    Bem haja, D. António, pelo bem que nos faz.

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