UMA SEMENTE PEQUENINA


 

1. O Evangelho deste Domingo XI do Tempo Comum (Marcos 4,26,34) põe-nos na mão, nos olhos e no coração duas parábolas. As parábolas são pequenas, porque falam da pequenez. Por maioria de razão, são pequenas as duas que nos são hoje servidas, pois têm a semente por assunto. E a semente é o que há de mais pequeno. A semente é a palavra (Marcos 4,14; Lucas 8,11). Ora, a semente – semente de planta, semente de animal, semente de homem – é a vida. Jesus ensina que é a palavra que semeia a vida, pois é o seu começo.

 2. Também pequeninos são os passarinhos que vêm abrigar-se nos ramos das árvores. As coisas pequeninas – plantas, animais, crianças – requerem uma maior atenção. Toda a atenção, portanto, à palavra de Jesus.

 3. «Olhai! Um camponês pegou numa semente pequenina. Pequenina. Olhou-a em suas mãos deitada. Acariciou-a. Enterrou-a no campo mais verde, no campo mais ao sol das suas terras. Da semente nasceu uma planta. A planta cresceu. A planta deu flor. A planta cresceu, floriu, vestiu-se de festa. Em seus verdes, verdes ramos vinham abrigar-se os pássaros do céu. Era nos dias mais doirados de Setembro, quando já a claridade se esvanece e os pássaros se sentam à lareira de uma árvore carregada de alegria». O nosso camponês foi de visita à sua planta. Tinha crescido. Levantou os olhos. Ficou extasiado. Era agora uma casa habitada com luzes em todas as janelas. Baixou os olhos, debruçado sobre a vida, extasiado com a vida, reconciliado com a vida. Pegou nas suas mãos de outrora, no seu coração de outrora. Era uma semente pequenina. Pequenina. Acariciou-a. Virou-a e revirou-a à outra luz do coração. Amou-a de preferência ao oiro, à luz do sol, às espigas mais loiras da seara. «É aqui que tudo principia», disse. Disse. «A primeira manhã autêntica do mundo. É como se tivesse nascido hoje».

 4. Regressou feliz a sua casa. Entrou em sua casa. Sentou-se comovido à lareira. Aproximou-se um homem habituado ao uso inveterado da verdade. Bateu à porta e disse: «Hoje quero ficar em tua casa, cear contigo a ceia da amizade! Sabes: nas minhas mãos ardentes e despidas, há um fruto de lume e de alegria que não pode esperar que nasça o dia».

 5. «O reino de Deus não está aqui ou ali», disse. Disse. «Os mais belos lugares do mundo: onde estão os mais belos lugares do mundo? Onde mora a esperança? Que língua fala a paz? Que avião tomar para a justiça? Que moeda vigora no amor? Onde estão as fronteiras da alegria? Que cores tem a bandeira da verdade?»

 6. Pegou depois numa criança, num pedaço de pão e numa taça. Levantou os olhos e as mãos onde nitidamente pulsava um coração. E ergueu um brinde ao céu. Baixou depois os olhos e as mãos, ungidos já para a dádiva suprema. E ardentemente desejou o vinho novo do reino a chegar. Requisitou, por isso, para isso, o coração, as mãos, a boca, de quantos o estavam a escutar. E antes de partir e de ficar, definitivamente Deus Connosco, abriu ainda à multidão novos caminhos, diurnos, matutinos: «Já sei que não sabeis pedir o pão; tereis de aprender com os meninos».

 7. «Traz as tuas mãos pequenas e abertas, onde caiba só o coração. Sabes? O coração é uma cidade. Ou se preferes: o coração é a última cidade. Ou ainda: no coração começa a liberdade. Ou se preferes: no coração começa a tempestade».

 8. A multidão levou as mãos à boca, ao coração. Restaram doze cestos de palavras.

 António Couto

 

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5 Responses to UMA SEMENTE PEQUENINA

  1. António diz:

    Olá D. António.
    Já não contava com as suas palavras, referente ao Evangelho
    de domingo.
    Mas lendo ou ouvindo a palavra de DEUS,por um pregador que o
    faz com Alegria, com Amor, que nunca se cansa, ela é sempre bem
    vinda.

    Lutarei consigo na Oração, para que seja sempre fiel á causa do
    Evangelho.
    Até breve.

  2. Maria João V Serra Moura diz:

    Acabei de ler este texto sobre o Evangelho do próximo Domingo e só posso dizer que gostei tanto tanto que preciso de o reler agora mesmo e depois sem dúvida de novo! É que ele é como uma paisagem belíssima diante da qual nos quedamos extasiados e com o coração pacificado. O amor, a beleza e a misericórdia de Deus desprendem-se deste texto e lançam-nos com entusiasmo ao encontro do Coração de JESUS, do PAI, do ESPÍRITO SANTO.

  3. Maria João V Serra Moura diz:

    Esqueci-me de dizer que neste texto está bem clara a necessidade de sermos pequenos interiormente para sermos capazes de “pedir bem” o pão diário para o corpo e para a alma.
    Obrigada Sr Dom António.

  4. JTS diz:

    Que bom ouvir o Evangelho assim!

  5. Paula Fernandes diz:

    Mensagem directa, do Céu ao coração.

    Apetece escutar, meditar,saborear, sem falar!

    O que uma sementinha pode fazer!

    O melhor é não desperdiçar nenhuma, por pequenina que seja, dará sempre fruto!

    Mãos à obra …

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