ONDE COMPRAREMOS PÃO?

Julho 28, 2012

1. O grande texto que forma o Capítulo 6 do Evangelho de João, e que vamos ter a graça e escutar nos próximos 5 Domingos, pode dividir-se em seis Partes: a primeira Parte, que funciona como Introdução ou preparação do cenário, engloba os vv. 1-4 e apresenta as personagens (Jesus, uma grande multidão, os discípulos), o lugar (na «outra margem do mar da Galileia», na «montanha») e o tempo («estava próxima a Páscoa dos judeus»); a segunda Parte, que se estende pelos vv. 5-15, abre com uma pergunta pedagógica de Jesus dirigida a Filipe («Filipe, onde compraremos pão para que eles comam?»), não correctamente respondida por Filipe e André, mas resolvida por Jesus; a terceira Parte, que compreende os vv. 16-21, mostra-nos os discípulos a atravessar, no escuro, o mar encapelado, e Jesus vindo ao seu encontro caminhando sobre o mar; a quarta Parte, entre os vv. 22-24, apresenta-nos um novo começo, no dia seguinte, mostrando-nos a multidão que nota a ausência de Jesus e parte à sua procura para Cafarnaum; a quinta Parte, que compreende a longa extensão de texto entre os vv. 25-59, traz para a cena a importante discussão, travada entre Jesus e a multidão ou os judeus, sobre o pão vindo do céu; a sexta Parte, que contempla os últimos versículos (vv. 60-71), estende a discussão aos discípulos, mostrando a deserção de muitos (vv. 60-66), em contraponto com a confissão de fé de Pedro (vv. 67-71).

 2. Dois Capítulos à frente de João 4, em João 6, diz-nos o narrador que Jesus subiu à montanha, que se sentou lá com os seus discípulos, e que uma grande multidão acorria a Jesus (João 6,3 e 5). É nessas circunstâncias que Jesus retoma o tema do alimento. Descendo agora ao nível dos discípulos, Jesus diz a Filipe: «Onde (póthen) compraremos (agorázô) pão para que eles comam?» (João 6,5). De facto, o verbo «comprar» é corrente nos lábios dos discípulos, mas é estranho na boca de Jesus. No cenário anterior, de Jesus e da Samaritana, os discípulos passam quase o tempo todo a comprar, enquanto Jesus fala de dar e dá-se mesmo.

 3. Na chamada «primeira multiplicação dos pães», que podemos ler nos Evangelhos de Mateus e de Marcos, Jesus recusa mesmo a solução de «comprar» (agorázô), avançada pelos discípulos, e propõe a de «dar» (dídômi) (Mateus 14,15-16; Marcos 6,36-37). Por que será, então, que Jesus fala agora de «comprar», ainda para mais conjugando o verbo na 1.ª pessoa do plural, Ele incluído: «Onde compraremos»? Mas a questão não é apenas sobre comprar. É sobre «Onde comprar». Face à lógica da misericórdia, da condivisão e da partilha proposta por Jesus, já os discípulos, cépticos, se tinham perguntado: «‘De onde’ (póthen) poderá alguém saciar estas pessoas de pães num lugar deserto?» (Marcos 8,4). Esse «Onde» (póthen) já tinha sido ouvido em João 1,48, quando Natanael pergunta a JESUS «‘De onde’ (póthen) me conheces?» Será também ouvido em João 2,9, em que o narrador nos informa que o chefe-de-mesa «não sabia ‘de onde’ (póthen) era» a água feita vinho. Da mesma forma, Nicodemos também não sabe, acerca do Espírito, «‘de onde’ (póthen) vem nem para onde vai» (João 3,8). Tal como a mulher samaritana não sabe ‘de onde’ (póthen) Jesus tira a água viva (João 4,11). E as autoridades de Jerusalém confirmam que, «quando vier o Cristo, ninguém saberá ‘de onde’ (póthen) Ele é» (João 7,27). E, mais à frente, em polémica com os fariseus, Jesus afirma: «Eu sei ‘de onde’ (póthen) venho; vós, porém, não sabeis ‘de onde’ (póthen) venho» (João 8,14). E na cena da cura do cego de nascença, os fariseus acabam por afirmar acerca de Jesus: «Esse não sabemos ‘de onde’ (póthen) é» (João 9,29), ao que o cego curado responde, apontando a cegueira deles: «Isso é espantoso: vós não sabeis ‘de onde’ (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!» (João 9,30). Na narrativa do IV Evangelho, tudo isto conflui para a questão posta por Pilatos: «‘De onde’ (póthen) és TU?» (João 19,9). E, no Evangelho de Lucas,  Isabel também exclama: «‘De onde’ (póthen) a mim isto: “Que venha a mãe do meu Senhor ter comigo?”» (Lucas 1,43). E, no Evangelho de Marcos, como no de Mateus, os conterrâneos de JESUS, apontando as Suas humildes e bem conhecidas raízes geográficas e familiares que, na mentalidade antiga, determinam a identidade e a capacidade da pessoa, exclamam acerca d’ELE: «‘De onde’ (póthen) a ESTE estas coisas, e que sabedoria é esta a ESTE dada, e os prodígios que pelas mãos d’ELE vêm?» (Marcos 6,2; cf. Mateus 13,54.56).

 4. Retornando à pergunta feita a Filipe: «Onde comparemos pão para que eles comam?» (Jo 6,5), o narrador anota outra vez com perspicácia que Jesus disse isto para pôr Filipe à prova, pois bem sabia o que havia de fazer (João 6,6). Com esta anotação, o narrador deixa-nos declaradamente perante uma pergunta pedagógica, pelo que ficamos à espera de saber se Filipe reúne ou não competência para resolver o problema.

 5. Não temos de esperar muito tempo. Filipe é rápido a fazer contas, e diz logo que duzentos denários (um denário corresponde ao salário de um dia) de pão não chegam para que cada um receba ainda que seja só uma migalhinha (João 6,7). O leitor atento, mas incauto, é com certeza levado a concordar com Filipe. Se a pergunta é: «Onde comprar pão», o leitor pensará logo certamente como Filipe no dinheiro e no shopping. E será também levado a concluir que, para tanta gente, feitas as contas em termos de mercado, pouco ou nada haverá a fazer. Mas o «leitor implícito» ou «leitor modelo», que a análise narrativa ou narratologia define como aquele que está apto a fazer as operações mentais e afectivas que o mundo do relato dele requer, terá certamente estranhado que Filipe se tenha deixado levar tão depressa pelo verbo «comprar» da pergunta de Jesus, dado que se trata de um verbo que Jesus não só não usa, como até recusa.

 6. André, que estava ali ao lado e que também terá ouvido a pergunta, passa a Jesus a informação preciosa de que havia ali um rapazito (paidárion) que tinha cinco pães de cevada e dois peixinhos, mas apressou-se logo a minar a utilidade do achado, dada a imensa desproporção entre tão pouco alimento e tanta gente (João 6,8-9). Se a lógica de mercado de Filipe o levou – e a nós com ele – a desistir rapidamente de apresentar uma solução positiva à pergunta de Jesus, a lógica de André levou-o – e a nós outra vez também com ele – a desvalorizar os dons que descobrimos nos outros, nomeadamente nos nossos irmãos mais pequeninos.

 7. Parece agora claro para o leitor que a pergunta de Jesus: «Onde compraremos pão para que eles comam?», não obteve de Filipe a resposta adequada, e que a ajuda de André tão-pouco se terá revelado satisfatória.

 8. Filipe ouviu a pergunta de Jesus. E André, pelos vistos, também a ouviu. Mas nem Filipe nem André sabiam que se tratava de uma prova. Só o leitor o sabe, porque foi disso informado pelo narrador. E então a pergunta agora é: e eu e tu, leitores informados, será que sabemos resolver a questão que Filipe e André deixaram sem resposta? Ou será que preferimos prestar toda a nossa atenção ao desempenho de Jesus, dado que também fomos informados de que ele sabia bem o que havia de fazer? A acção de Jesus reclama a nossa atenção.

 9. Soberanamente, Jesus, que bem sabia o que havia de fazer, ordenou àqueles discípulos, com certeza estupefactos, que fizessem reclinar (anapíptô) as pessoas (ánthrôpoi) para comer (João 6,10). O verbo usado, anapíptô, implica mesmo dispor-se à mesa para comer. O narrador anota agora que «os homens (ándres) eram em número de cerca cinco mil», a que acrescenta a sugestiva anotação de que «havia muita erva (chórtos) naquele lugar» (João 6,10). Depois, Jesus, que preside à mesa, RECEBEU (lambánô) os pães, e TENDO DADO GRAÇAS (eucharistéô), DISTRIBUIU-OS (diadídômi) ele mesmo aos que estavam reclinados à mesa (anakeiménois), e o mesmo fez com os peixinhos, tanto quanto queriam (João 6,11). Ficámos a saber que Jesus recolheu a informação preciosa de André acerca dos pães e dos peixinhos do rapazito, e que, ao contrário de André, não os depreciou. E quando todos foram saciados (eneplêsthêsan), Jesus, que preside à mesa, deu ordens aos seus discípulos para que reunissem (synágô) os pedaços que sobraram (perisseúô). Note-se que o verbo usado para dizer «sobrar» é o verbo perisseúô, que implica o excesso que ultrapassa toda a medida e a abundância que transborda, tornando curtas todas as normas e regras. É assim normal que o narrador nos informe de que, com os pedaços que sobraram, os discípulos encheram doze cestos (João 6,12-13), símbolo da plenitude transbordante e inesgotável.

 10. De notar que, aos olhos atónitos dos discípulos e dos nossos, Jesus não fez uma operação de «multiplicação» dos pães, mas de «divisão» e «com-divisão», «partilha» dos pães! O milagre de Jesus – aquilo que suscita surpresa e maravilha – não consiste em aumentar a quantidade do pão (que permanece a mesma), mas em abrir os olhos aos seus discípulos e a nós que, como cegos, só conhecemos e pensamos na lógica do vender e do comprar, e não chegamos a saborear a lógica da gratuidade, que é a do nosso Pai celeste que faz nascer o sol para os bons e para os maus. Entrar nesta lógica é acreditar na força do dom, e ir por este mundo consumista, partindo o pão e dividindo-o, com a clara consciência de que onde isto acontecer, não só se instaura o necessário para todos («todos comeram e foram saciados»), mas instaura-se igualmente o «excesso», a superabundância da graça («os discípulos encheram doze cestos»).

 11. A multidão, porém, face ao sucedido, não viu o «excesso», a superabundância da graça (Romanos 5,20; 1 Timóteo 1,14), mas tornou-se apenas materialmente dependente de Jesus, procurando-o por toda a parte (João 6,24), como se de verdadeira fonte de rendimento se tratasse (velha lógica consumista). E, quando o encontra no «outro lado do mar» (João 6,25), é duramente recriminada por Jesus, com estas palavras solenes: «Em verdade, em verdade, vos digo: “vós procurais-me, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos enchestes (chortázô)”» (João 6,26). E continua: «Trabalhai, não pelo alimento que perece, mas pelo que permanece até à vida eterna» (João 6,27).

 12. Pouco depois, Jesus revelará: «Eu sou o pão da vida» (João 6,35 e 48) e «Eu sou o pão vivo descido do céu» (João 6,41 e 51), e retirará daí um rol de consequências em termos da sua carne e do seu sangue dados para a vida do mundo. Jesus compreende então que os judeus e os seus discípulos murmuravam por causa disso (João 6,61), e o narrador informa-nos que muitos deles se afastaram de Jesus (João 6,66). É então a hora decisiva de Jesus perguntar aos Doze: «Vós também quereis ir embora?» (João 6,67), ao que Simão Pedro responderá exemplarmente: «Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna» (João 6,68).

 13. O leitor que seguiu atentamente tudo desde o princípio, desde a primeira pergunta pedagógica de Jesus: «Onde compraremos pão para que eles comam?», e que assistiu ao falhanço das respostas dos discípulos, e que terá, porventura, verificado a sua própria incapacidade para responder, e que prestou depois toda a atenção ao desempenho de Jesus, e que viu entretanto a deserção de judeus e discípulos decepcionados, terá com certeza compreendido a última resposta de Simão Pedro: «Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna», como a verdadeira resposta à primeira pergunta pedagógica de Jesus. Com a resposta de Pedro, fica estabelecida a conjunção entre palavra e alimento. Mas falta ainda um agrafo que explique aquele estranho verbo «comprar», estranhamente usado por Jesus. É um trabalho de casa que o leitor competente tem de fazer sozinho. E nem é difícil, pois ele sabe que é preciso conhecer as Escrituras. Percorrendo-as, encontrará esta passagem de Isaías:

«Todos vós que tendes sede, vinde às águas!/ Vós, que não tendes dinheiro, vinde!/ Comprai (agorázô LXX) cereal e comei!/ Comprai cereal sem dinheiro,/ e sem pagar, vinho e leite./ (…) Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!» (Isaías 55,1-2).

 14. Está aqui o elo que faltava: o verbo comprar, significativamente não agrafado com dinheiro. Comprar cereal sem dinheiro. Mas esta lição de Isaías reforça ainda a conjunção entre palavra e alimento, com aquela proposta: «Ouvi-me, ouvi-me, e comei!», que soa também a abrir o Livro do grande profeta: «Se vierdes e escutardes, o melhor da terra (tûb ha’arets) comereis» (Isaías 1,19), clarificada pelo confronto: «Mas se vos recusardes (ma’na) e vos rebelardes (marah), será a espada que vos comerá» (Isaías 1,20). Mas também sai esclarecida ainda aquela disjunção mostrada por Jesus entre «o alimento que perece» e «o que permanece até à vida eterna» (João 6,27). O que perece é a «erva» (ou «feno») (chórtos) que compramos com dinheiro e nos cala a boca e enche (chortázô) o estômago (cf. João 6,26). O que permanece é a palavra que Deus diz, e que é por nós ouvida, recebida e respondida. Mas esta disjunção, a que podemos agora acrescentar a sugestiva anotação de que «havia muita erva (chórtos) naquele lugar» (João 6,10), pode ainda ser melhor explicitada se lermos outro texto de Isaías:

 «(…) Toda a carne é erva (chórtos LXX),/ e toda a sua graça como a flor do campo./ Seca a erva (chórtos LXX) e murcha a flor,/ mas a palavra do Senhor permanece para sempre» (Isaías 40,6 e 8).

 15. Os leitores super-competentes, vulgo exegetas, gostam de ver na anotação de que «havia muita erva naquele lugar» a evocação do Salmo 23(22),2:

 «O Senhor é meu pastor, nada me falta:/ num lugar de ‘erva verde’ (tópos chlóês LXX) me faz repousar».

 16. Nem reparam que o vocabulário não é o do Salmo. O leitor instruído nas Escrituras saberá agora responder à estranha pergunta de Jesus: «Onde compraremos pão para que eles comam?» É claramente em Deus. Também este cenário transborda de pedagogia. Jesus que, no cenário anterior, desceu ao nível da mulher da Samaria para ganhar a mulher da Samaria, desce agora ao nível dos discípulos para ganhar os discípulos. A iniciativa é sempre de Jesus. Os discípulos tinham ficado na linha do comprar. É aí que Jesus os vai buscar, formulando a pergunta: «Onde compraremos pão, para que eles comam?» Vimos atrás que o verbo «comprar» é estranho na boca de Jesus, mas usual na dos discípulos. Usando agora o verbo «comprar», Jesus desce ao nível dos discípulos. Não, porém, simplesmente para dizer com eles, mas para os levar a dizer com ele. Depois de muitos mal-entendidos e deserções, uma última interpelação de Jesus acaba por lhes dar a oportunidade de se dizerem com Jesus. A multidão é levada pelo interesse meramente material, tornando-se dependente, no mau sentido, de Jesus. É duramente recriminada por Jesus. O leitor encontra, neste cenário, um jogo de muitas surpresas, de muitos olhares. E é o leitor o que mais tem a ganhar, se verdadeiramente entrar no jogo do relato.

 António Couto

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JESUS, NOSSO VERDADEIRO PONTO DE REFERÊNCIA

Julho 21, 2012

 

1. O Evangelho deste Domingo XVI do Tempo Comum (Marcos 6,30-34) insere-se numa bela sequência de preciosos textos. Importante não perder de vista o fio de ouro (ou de sentido) que entretece os episódios que, com extrema habilidade, Marcos coloca diante dos nossos olhos. Em Marcos 6,1-6, Jesus é rejeitado na sua pátria. No episódio seguinte, Marcos 6,7-13, Jesus envia os «Doze» em missão. Envia-os dois a dois, leves, sem nada a que se agarrar ou distrair. A sua única bagagem é o Evangelho. Logo a seguir, em Marcos 6,14-29, é narrada a versão popular do martírio de João Baptista, que difere da versão política de Flávio Josefo. Em Marcos 6,30, «os Apóstolos» (hoi apóstolloi) reúnem-se junto de Jesus, e narraram-lhe tudo o que tinham feito e ensinado.

 2. De notar, em primeiro lugar, que a missão dos «Doze» aparece premonitoriamente colocada entre a rejeição de Jesus e o martírio de João Baptista. Esta leitura sai ainda reforçada se tivermos em conta que o episódio do martírio de João Baptista rasga em duas partes a missão dos «Doze», intrometendo-se entre o envio, a partida de junto de Jesus e o anúncio feito pelos «Doze» (Marcos 6,7-13), e o regresso de «os Apóstolos» a Jesus (Marcos 6,30).

 3. De notar, em segundo lugar, a permanente referência a Jesus por parte dos «Doze». Na verdade, é Jesus que os envia, e envia-os dois a dois, é d’Ele que partem, é d’Ele que são arautos, mensageiros ou testemunhas, é a Ele que regressam, é a Ele que fazem a «relação» do acontecido.

 4. Uma inteligência mais profunda do envio «dois a dois»: não vão em nome próprio, mas são apenas testemunhas daquele que os enviou. E, porque é de testemunho que se trata, para que este seja válido, requer-se a presença de duas ou três testemunhas (Deuteronómio 19,15 e João 8,17). Neste caso, as testemunhas estão vinculadas a Jesus. Mas o vínculo a Jesus sai ainda reforçado neste «dois a dois», se tivermos em conta a palavra de Jesus: «Onde estão dois ou três reunidos em meu nome, ali estou Eu no meio deles» (Mateus 18,20).

 5. Esta centralidade de Jesus na vida dos «Doze» está ainda referida no facto de regressarem a Ele e de a Ele apresentarem a «relação» de tudo o que aconteceu. Note-se que não fazem uma «relação» por alto, mas uma «relação» exaustiva: «de tudo». Tudo o que fizeram e ensinaram tinha, na verdade, Jesus como única referência.

 6. Depois de noticiado este regresso a Jesus e da menção ao relatório exaustivo da missão, os «Doze» são, pela primeira vez, chamados «os Apóstolos» (Marcos 6,30). E Jesus retoma agora a iniciativa, vinculando-os ainda mais, se assim se pode dizer, a si mesmo, convidando-os à comunhão com Ele («Vinde», separando-os para o efeito da multidão que os apertava (Marcos 6,31). «E partiram na barca para um lugar deserto, à parte» (Marcos 6,32). No Evangelho de Marcos, a «barca» (tò ploîon) demarca um espaço privilegiado que Jesus condivide unicamente com os seus discípulos.

 7. Fica-se unicamente pela barca a estreita comunhão de Jesus com os seus discípulos. É mesmo só a comunhão que sai realçada, pois nada nos é dito sobre nenhum particular assunto de conversa. Saídos na barca da pressão da multidão, ei-los que, ao sair da barca, estão de novo no meio da multidão. E o narrador lá está para nos dizer que «Ele viu» (eîden) (Marcos 6,34). É a quinta vez, neste Evangelho, que o narrador nos diz que Jesus viu.  A primeira vez, «viu» os céus abertos e o Espírito a descer (Marcos 1,10). A segunda vez, «viu» Simão e André (Marcos,1,16). A terceira vez, «viu» Tiago e João (Marcos 1,19). A quarta vez, «viu» Levi (Marcos 2,14). Nestas quatro primeiras vezes, este «ver» de Jesus desencadeia um agir novo e decisivo. Também agora, na quinta vez, o olhar de Jesus abre para uma página de sublime misericórdia, que leva Jesus a reunir e abraçar aquela multidão de ovelhas sem pastor, e a ensiná-las demoradamente. Depois, Jesus repartirá com eles o pão. Mas o grão do espírito precede o grão de trigo.

 8. Aí está o Bom Pastor prometido em Jeremias 23,1-6, cantado no Salmo 23(22), e testemunhado pelo Apóstolo em Efésios 2,13-18.

 9. Deixamos já aberta a página que se segue no Evangelho de Marcos: o pão, o pão, o pão! No texto grego, original, o nome «Jesus» aparece em Marcos 6,30, para reaparecer depois só, 89 versículos depois, em Marcos 8,27. Escritura sublime: desaparece o nome «Jesus» e a paisagem textual enche-se com o nome «pão» (21 vezes). Claríssimo convite a aprendermos a ver Jesus no pão! Mas nos próximos cinco Domingos (XVII a XXI), não leremos Marcos, mas João 6.

 António Couto


EXCESSO DE MEIOS, MÍNGUA DE FINS!

Julho 14, 2012

 

1. O Evangelho deste Domingo XV do Tempo Comum, que narra o envio em missão dos «Doze» (Marcos 6,7-13), situa-se estrategicamente entre a rejeição de Jesus na sua pátria (Marcos 6,1-6) e o martírio de João Baptista (Marcos 6,14-29). O contexto é, pois, claro, intenso e dramático acerca do destino dos missionários: entre a rejeição e martírio. Mas este destino sai ainda acentuado se tivermos em conta que o martírio do João Baptista (Marcos 6,14-29) está colocado entre o envio em missão dos «Doze» (Marcos 6,7-13) e o seu regresso (Marcos 6,30). Dado o contexto, não é possível evitar o entrelaçamento de destinos de Jesus, João Baptista e os missionários. Em todos os casos, a rejeição e o martírio derivam do facto de as pessoas (nós) não acreditarem que a missão (claríssimo no caso de Jesus) provém de Deus!

 2. Mas este envio em missão dos «Doze» também não pode deixar de ser visto no seguimento de Marcos 3,13-15, em que do cimo da montanha Jesus chama os que quer (fórmula de eleição), deles faz «Doze» (belíssima fórmula de criação), para estarem com Ele (fórmula de aliança e de assistência), e, finalmente, para Ele os enviar (fórmula de missão). Bem se vê que o texto deste Domingo torna operativo este último aspecto, sem anular, diminuir ou diluir aquele fortíssimo «estar com Ele». Na verdade, quando regressarem da missão, todos se reúnem à volta de Jesus (Marcos 6,30).

 3. Quer através dos verbos narrativos, quer dos elocutivos, fica claro que a iniciativa da missão dos «Doze» é de Jesus, que é o verdadeiro Senhor da missão: é Ele que chama para a missão, que envia em missão, que dá autoridade para o serviço da missão (Marcos 6,7-8), que define a leveza do equipamento (Marcos 6,8-10) e o comportamento a assumir no serviço da missão (Marcos 6,10-11). Note-se bem aquelas levíssimas recomendações negativas: nada para o caminho, nem pão, nem alforge, nem dinheiro (Marcos 6,8). É fácil de ver que estas disposições tornam os «Doze» mais pobres do que os destinatários a quem são enviados.

 4. Este despojamento, ou empobrecimento, ou leveza, está na base da credibilidade da mensagem que devem transmitir. O narrador anota no final que os «Doze» cumpriram as directivas de Jesus (Marcos 6,12-13). Bela maneira de testemunhar que o dizer de Jesus tem, sobre os missionários, carácter performativo: na verdade, não tendo nada de próprio para oferecer, limitam-se a desempenhar o encargo recebido e a transmitir a mensagem a eles confiada. O uso do verbo «anunciar» (kêrýssô), que significa transmitir, não a própria opinião, mas ser simplesmente arautos ou mensageiros do seu Senhor, define os «Doze» como completamente dependentes de Jesus. E a exiguidade do equipamento é para realçar a absoluta importância da mensagem.

 5. A lição do profeta Amós (7,12-15) ilustra bem o Evangelho de hoje. Amós era provavelmente um importante criador de gado e agricultor bem sucedido ao serviço do grande rei Ozias (787-736), de Judá, grande amante da terra e que em muito desenvolveu a agricultura, como se pode ver na descrição do Cronista (2 Crónicas 26,10). Amós seria, como diz a maioria dos estudiosos de hoje, um alto funcionário agrícola de Ozias. Mas quando Deus «pegou» nele, também Amós se despiu da riqueza da sua vida regalada, e foi para o Reino de Israel, do Sul para o Norte, equipado apenas com a mensagem que Deus o incumbiu de anunciar.

 6. Também São Paulo é modelo insigne de quem se sabe amado e escolhido por Deus desde a eternidade, desde antes de antes (Efésios 1,3-14). Por isso, não resmunga, mas exulta e exalta o o único verdadeiro Senhor da sua vida.

 7. João Baptista, Jesus, os «Doze», Amós, Paulo, os missionários. São todos figuras em contra-corrente de uma sociedade rica, insensível, anestesiada, dormente e indiferente. Porque sabe que é rica, é que se sente agora em crise! Estranha crise. Os textos de hoje ensinam-nos que a boa e verdadeira crise é desencadeada em nós pela Palavra de Deus. Só, de facto, Deus, Primeiro e Último, pode pôr em crise o penúltimo. Infelizmente, a crise que por aí anda parte do penúltimo e quer pôr em crise o Último. Edmund Pellegrino, médico e filósofo da medicina, já nos advertiu seriamente que, na campo da medicina, há excesso de meios e míngua de fins. Mas podemos, sem medo de errar, alargar a análise de Edmund Pellegrino a todas as áreas da nossa sociedade de hoje, e dizer que vivemos na «noite do mundo», mergulhados numa cultura de excesso de meios e míngua de fins!

 8. Aí está outra vez a Palavra do Profeta de hoje: «Eis que virão dias,/ oráculo do Senhor,/ em que enviarei a fome à terra;/ não fome de pão nem sede de água,/ mas de ouvir a Palavra do Senhor./ Cambalearão de um mar a outro mar,/ andarão errantes do norte até ao nascente,/ à procura da Palavra do Senhor,/ mas não a encontrarão» (Amós 8,11-12).

 António Couto


«DE ONDE» ÉS TU?

Julho 7, 2012

 

1. O Evangelho deste Domingo XIV do Tempo Comum (Marcos 6,1-6) enlaça no do Domingo passado (XIII), pondo Jesus a sair de lá (Marcos 6,1), isto é, de Cafarnaum, da casa de Jairo (Marcos 5,35-43), e a dirigir-se para a sua pátria (pátris) (Marcos 6,1), ao encontro dos seus familiares e conterrâneos, sendo o sábado e a sinagoga (Marcos 6,2) o natural lugar desse encontro. Esta primeira ida de Jesus à sua pátria é também, no Evangelho de Marcos, a última vez que ensina numa sinagoga, e o sábado será mencionado apenas mais uma vez, precisamente na manhã de Páscoa (Marcos 16,1).

 2. E, portanto, tudo neste texto, neste encontro, assume um carácter decisivo. Desde logo a escolha do termo «pátria», que carrega consigo um significado mais intenso e mais amplo do que o mais habitual de «povoação». Com esta forma de dizer, este decisivo encontro com Jesus não fica apenas circunscrito a uma pequena região da Galíleia, mas prefigura já o encontro de Jesus com o inteiro Israel, e a rejeição que lhe será movida por este. São mesmo já visíveis desde aqui as resistências ao Evangelho radicadas no nosso coração, e que o Quarto Evangelho porá a claro: «Veio para o que era seu, e os seus não o receberam» (João 1,11). Mas também esta última vez a ensinar na sinagoga, e este sábado que aponta para aquele último «passado o sábado» (Marcos 16,1), devem gravar em nós evocações e apelos decisivos. Tudo o que tem sabor a último carrega um particular peso específico.

 3. Aventurando-nos um pouco mais dentro do texto, não ficaremos certamente admirados por vermos que estes conterrâneos de Jesus estejam a par das suas humildes e bem conhecidas raízes geográficas e familiares que, na mentalidade antiga, determinam a identidade e a capacidade da pessoa. Notaremos ainda, sem grande espanto, que os conterrâneos de Jesus sabem, em termos anagráficos, muito mais do que o leitor sobre Jesus: dele sabem indicar a família, a profissão, a residência. O que nos deve espantar, isso sim, é que aqueles conterrâneos de Jesus não saibam dizer «DE ONDE» (póthen) lhe vem aquela sabedoria única e os prodígios que realiza.

 4. Às vezes, por termos os olhos tão embrenhados na terra, nas coisas da terra, não conseguimos ver o céu! Veja-se a iluminante cena da cura do cego de nascença (João 9). Em diálogo com o cego curado, os fariseus acabam por afirmar acerca de Jesus: «Esse não sabemos DE ONDE (póthen) é» (João 9,29), ao que o cego curado responde, apontando a cegueira deles: «Isso é «espantoso» (tò thaumastón): vós não sabeis DE ONDE (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!» (João 9,30). Que é como quem diz: só não vê quem não quer! Tal como o cego, e fazendo uso da mesma linguagem, também Jesus «estava espantado» (ethaúmazen) com a falta de fé dos seus conterrâneos (Marcos 6,6). Note-se bem que a falta de fé aqui assinalada não é apenas a negação de Deus. É a rejeição de Jesus em nome de uma errada concepção de Deus. Poemos dizer mesmo: para salvar a honra de Deus. Veja-se bem até onde pode chegar a nossa cegueira!

 5. Numa altura em que se fala muito da «recepção» do Concílio II do Vaticano, dado que estamos a três meses da celebração dos 50 anos da sua abertura, ocorrida a 11 de Outubro de 1962, podemos falar também, com as devidas distâncias, da «recepção» de Jesus e do seu Evangelho. O texto diz-nos que os seus conterrâneos não o receberam, não se deixaram atravessar por Ele, pelo Céu que Ele indicava e trazia. Ponte para o próximo Domingo (XV), em que ouviremos o episódio que se segue imediatamente ao de hoje (Marcos 6,7-11). Aí, Jesus enviará os seus Doze Apóstolos dois a dois, despojados de meios ou de equipamento, para ressaltar bem a importância do Anúncio do Evangelho. Mas a ponte entre os dois textos e respectivos Domingos está em que ouviremos Jesus dizer aos seus Apóstolos: «Qualquer lugar (tópos) que não vos receba (déxetai)…». Os livros dizem que, em Marcos, o verbo «receber» (déchomai) está sempre referido a Jesus. Trata-se de «receber», de «acolher» Jesus. É então também fácil ver qual é o «lugar» que não «recebeu» Jesus. Mas o problema é sempre este: e nós?

 6. A figura de Ezequiel, profeta frágil, mas que aponta para um «Deus que dá força» (etimologia do seu nome), por 93 vezes interpelado por Deus com a locução «Filho do Homem», é por Deus incumbido da missão difícil de ser sentinela (tsopeh) (Ezequiel 3,17; 33,7) da casa rebelde de Israel, junto do rio Cobar, em Tel ’Abîb (Ezequiel 1,1-3; 3,15), na Babilónia. Tel ’Abîb significa «colina da primavera» ou das «espigas». É um lugar duro de exílio, mas, porque lembra a primavera, é também um nome carregado de esperança. Os judeus deram este nome significativo a uma das primeiras colónias que fundaram na Palestina, junto da costa Mediterrânica, em finais do século XIX, onde se situa hoje a capital política de Israel. O rio Cobar é um canal de irrigação, hoje chamado Shatt Ennil, que parte do Eufrates para irrigar a cidade de Nippur, onde os Babilónios instalaram deportados oriundos de diferentes proveniências, entre os quais se contam os deportados de Judá. Na sua fragilidade e na rejeição que experimenta, o profeta Ezequiel ajuda a perceber e a «receber» melhor a figura de Jesus, o Deus feito homem, que a si mesmo se diz nos Evangelhos, por 82 vezes, «Filho do Homem».

 7. E São Paulo dá testemunho, na Segunda Carta aos Coríntios (12,7-10) da força nova de Cristo, que o habita: «Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que se manifesta a minha força». E ainda: «Quando sou fraco, então é sou forte».

 António Couto