O PÃO VERDADEIRO É A MINHA VIDA


1 Continuamos, neste Domingo XIX do Tempo Comum, a revisitar o chão textual e a saborear o pão espiritual do grande Evangelho de João 6. Hoje temos a graça de escutar a secção de João 6,41-51. Importa, desde já, lembrar o leitor que esta secção se enquadra na quinta Parte deste grande Capítulo, que se estende pelos versículos 25-59 (ver atrás, Domingo XVII). Podemos agora mostrar, para efeitos de clareza e melhor compreensão, como se apresenta estruturada esta quinta Parte (João 6,25-59), para nos ocuparmos depois, mais de perto, do texto deste Domingo (João 6,41-51).

 2. João 6,25-59 apresenta-se ritmado pelo esquema «pergunta-resposta». As perguntas saem da boca de uma «multidão» não identificada ou dos «judeus», a que se seguem as respostas de Jesus. Seguindo este ritmo, o texto de João 6,25-59 mostra-se organizado em cinco secções: João 6,25-29 (a), João 6,30-33 (b), João 6,34-40 (c), João 6,41-51 (d) e João 6,52-59 (e).

 3. O texto que nos ocupa neste Domingo forma, portanto, a quarta secção (João 6,41-51). O leitor atento começa logo por verificar que «a multidão» (ho óchlos) não identificada que até aqui seguia Jesus (João 6,2.5.22.24) se transforma subitamente, e sem qualquer explicação, em «os judeus» (hoi ioudaîoi) (João 6,41). É visível também que, com esta súbita transformação, cresce a hostilidade e a agressividade contra Jesus, aqui traduzida pela presença do verbo «murmurar» (goggýzô), que lembra o comportamento dos Israelitas no deserto (Êxodo 15,24; 16,2 e 7; 17,3). A «murmuração» (goggysmós) é uma espécie de rebelião interior, assente na insatisfação, desconfiança, inveja, ciúme e azedume contra as pessoas e contra Deus, neste caso, contra Jesus.

 4. E qual é a razão desta «murmuração» dos judeus contra Jesus? Radica no facto de estes judeus conhecerem bem o «histórico» de Jesus, o seu pai e a sua mãe, as suas raízes humanas bem humildes, e de não poderem conciliar estes dados com a sua origem divina (João 6,42-43). Note-se também que a «murmuração» consiste em falar de alguém, não directamente, tu a tu, mas indirectamente, em 3.ª pessoa: «Não é Este Jesus, o filho de José, de quem conhecemos o pai e a mãe?» (João 6,42).

 5. Os judeus dizem conhecer o pai de Jesus. Mas Jesus responde, apelando ao fim da murmuração (João 6,43), e apontando o seu verdadeiro Pai, que os judeus não conhecem (ironia joanina): «Ninguém pode vir a Mim (eltheîn prós me), se o Pai, que me enviou, não o trouxer» (João 6,44). Além disso, Jesus põe fim ao falar de alguém, em 3.ª pessoa, abrindo um discurso novo, directo, pessoal, tu a tu: «Vir a Mim» subverte completamente o «falar de Mim». Mas este «Vir a Mim» é obra, não dos homens, mas de Deus: «Todos serão ensinados por Deus» (cf. Is 54,13), e conclui: «Todo aquele que escutou do Pai, e aprendeu, vem a Mim» (Jo 6,45). De pai a Pai. Jesus aponta o verdadeiro Pai, o único que nos leva a Jesus, o pão vivo descido do céu, que é a sua «carne», isto é, a sua forma de viver, a sua identidade. Claramente: só identificando-nos com Jesus, aderindo à sua forma de viver, fazendo nossa a sua vida, deixamos a vida eterna entrar em nós.

 6. Como os judeus, Elias (1 Reis 19,4-8) foge de Deus e do mundo e de si mesmo. Segundo Elias, Deus não age como deveria agir, o mundo está todo pervertido: já não faz sentido viver. Porque Deus não age como ele quer, porque o mundo não é como ele quer, Elias, desanimado, busca a morte, que ele vê como a única saída para a sua vida sem sentido. Tudo somado, Elias não é mesmo melhor do que os seus pais, do tempo do Êxodo, e, tal como eles, também murmura, falando mal de Deus e do mundo (dos outros).

 7. Mas Deus, o verdadeiro Deus, vai conduzir Elias ao caminho certo. Não o deixa morrer e vai dar-lhe lições de vida verdadeira. Na linha do que bem faz hoje Paulo para nós na Carta aos Efésios (4,30-5,2): «Nada de azedumes, irritação, cólera, insultos, maledicências, maldade» (Efésios 4,31). Em vez disso, «imitadores de Deus, como filhos amados» (Efésios 5,1).

 António Couto

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One Response to O PÃO VERDADEIRO É A MINHA VIDA

  1. Eduardo Fernandes Torcato David diz:

    Muito me alegra, ler no ponto 5, a raríssima explicação da Sagrada Eucaristia. E voto: sigam o exemplo de D. António Couto.
    Eduardo F. Torcato David

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