NASCE OUTRO EU EM QUEM ME COME


1. Neste Domingo XX do Tempo Comum, temos a graça de escutar o texto que compõe a quinta secção (João 6,52-59) [ver Domingo XIX] da quinta Parte (João 6,25-59) do Capítulo 6.º do Quarto Evangelho [ver Domingo XVII]. Na verdade, o Evangelho deste Domingo começa no v. 51, que, por sinal, fechava a quarta secção (João 6,41-51) e já foi lido no Domingo XIX, e termina no v. 58. Mas no v. 51, Jesus não está a responder à «multidão», como nos faz ler a versão oficial do texto que vai ser proclamado, mas aos «judeus», que entram em cena em João 6,41. Curiosamente, a versão do Domingo XIX está correcta!

 2. Já tivemos oportunidade de referir que cada uma das secções que compõem a quinta Parte deste Capítulo 6.º do Quarto Evangelho (João 6,25-59) estão ritmadas segundo o modelo «pergunta-resposta», sendo a pergunta sempre formulada pela «multidão» ou pelos «judeus», e a resposta sempre oferecida por Jesus. A pergunta dos judeus: «Não é este, Jesus, o filho de José, de quem conhecemos o pai e a mãe? Como é que diz agora: “Eu desci do céu”?» (João 6,42), que abria a quarta secção (João 6,41-51), despoletou a resposta de Jesus sobre a sua verdadeira identidade: «Eu sou o pão vivo que desceu do céu (…), pão que é a minha carne, que dá a vida» (João 6,51). A pergunta que abre a quinta secção (João 6,52-59) e que sai também da boca dos judeus, e que vem na continuidade da resposta acima referida de Jesus, soa assim: «Como pode este dar-nos a sua carne (sárx) a comer?» (João 6,52).

 3. Esclarecedor é que o verbo «comer» apareça conjugado com «carne» (sárx), João 6,52.53.54.56), com «pão» (ártos) (João 6,51.58) e «comigo» (me) [«o que me come»] (João 6,57). Fica claro que «comer o pão descido do céu» é «comer a carne do Filho do Homem», e que as duas expressões são equivalentes de «comer a pessoa» de Jesus, a sua identidade, o seu modo de viver. Só assim a vida verdadeira, a vida eterna, entra em nós e transforma a nossa vida, configurando-a com a de Jesus. Uma nova possibilidade entra na história humana. Tudo o que fica para trás, resume-se assim: «No deserto, os vossos pais comeram o maná, e morreram» (João 6,49). É o tema da transparência e da mútua imanência e pertença: «Permanece em Mim e Eu nele» (João 6,56). É a melhor e mais realista tradução da nossa comunhão eucarística. Até o verbo «comer» ganha nesta secção particular sabor e realismo. De facto, habitualmente é usado o verbo esthíô. Todavia, em João 6,54.56.57.58 é usado um verbo «comer» muito mais forte, o verbo trôgô [= trincar, mastigar]. De forma significativa, este verbo só é usado nas passagens atrás assinaladas e em João 13,18, no contexto da ceia da Páscoa.

 4. A Sabedoria também edifica a sua casa, põe a mesa, e convida todas as pessoas [0 toda a humanidade] para o seu banquete. Para significar que o convite a uma nova maneira de viver é feito a todos, sem excepção, é dito que é feito dos pontos mais altos da cidade (Provérbios 9,3).

 5. E a Carta de São Paulo aos Efésios reclama também de nós uma vida nova, assente num coração inteligente que saiba destilar quotidianamente em música a Palavra de Deus e levantar a Deus permanente acção de graças. A não ser assim, teremos de nos haver com a crítica de Nietzsche, que refere: «Se a Boa Nova da vossa Bíblia estivesse também escrita no vosso rosto, não teríeis necessidade de insistir tanto para que as pessoas acreditem. As vossas obras e acções deviam tornar quase supérflua a Bíblia, porque vós mesmos seríeis Bíblia nova e Boa Nova».

 António Couto

3 respostas a NASCE OUTRO EU EM QUEM ME COME

  1. adriana pizzuto diz:

    TENDREMOS QUE ACERCARNOS A LOS DEMAS CON UN CORAZON RENOVADO, UNA NUEVA VEZ, A CADA UNO Y UNO POR UNO, CON UN SENTIMIENTO MATERNO Y PATERNO EN SEÑAL DE IDENTIFICACION Y COMUNION CON ESE PAN VENIDO DEL CIELO, COMO BIEN SAN PABLO NOS LO LEGO … MUCHAS GRACIAS SEÑOR OBISPO COUTO

  2. António diz:

    Olá.D. António.
    Sermos chamados filhos de DEUS,já é uma alegria enorme.
    Agora «Nasce outro EU em quem me come»é o máximo para um
    cristão verdadeiro.
    Até breve.

  3. Arturo Diaz diz:

    -Gostei particularmente deste texto do D. António Couto sobre a Palavra divina. Assinalo concretamente a ideia da mútua imanência e pertença no mistério eucarístico: “Permanece em Mim e Eu nele” (Jo. 6, 56). A frase de Nietzsche é uma sábia interpelação, mas prefiro dar espaço ao que dizia o bailarino Nijinsky: “Dieu, c’est l’expression dans le visage!” Cordialmente, Arturo Diaz.

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