O CÉU ABERTO E DEUS AQUI TÃO PERTO


 

1. Passado o Advento e as Festas Natalícias, estamos agora no umbral do chamado «Tempo Comum» do Ano Litúrgico que, ao contrário do que se possa pensar, não é um «Tempo secundário», mas fundamental na vida celebrativa da Igreja Una e Santa. Na verdade, ao longo deste «Tempo Comum», Domingo após Domingo, a Igreja Una e Santa, Baptizada e Confirmada, Esposa Amada de Cristo, é chamada a contemplar de perto, episódio após episódio, toda a vida histórica do seu Senhor, desde o Baptismo no Jordão até à Cruz e à Glória da Ressurreição.

 2. Esta apresentação só é possível porque, em cada um dos Anos Litúrgicos, é proclamado, Domingo após Domingo, praticamente em lição contínua, um Evangelho inteiro. Neste Ano C, é-nos dada a graça de ouvir o Evangelho de Lucas, que tem uma vincada identidade e personalidade Missionária, mas que é apresentado ainda como sendo o Evangelho do Espírito Santo, o Evangelho da Oração, o Evangelho da Graça (único dos Evangelhos Sinópticos a empregar este termo) e da Alegria, e o Evangelho onde Jesus «visita» e se encontra HOJE (8 vezes no Evangelho de Lucas) com o mais alargado leque de pessoas: pobres, ricos, pecadores, doentes, idosos, mulheres, viúvas, crianças…

  3. O Primeiro Domingo do «Tempo Comum» coloca então diante de nós o episódio do Baptismo de Jesus no Jordão (Lucas 3,15-22).

 4. Aqui ficam algumas notas características deste episódio de Lucas:

A) Neste dealbar da vida pública de Jesus, é dito que todo o povo está em febril expectativa e se pergunta se João não será o Messias esperado.

B) João responde claramente que não é o Messias, mas aquele que prepara a Vinda do Messias, reunindo o povo e voltando-o para o Senhor, cumprindo quanto disse o Anjo a Zacarias: «fará voltar o coração dos pais para os filhos e o coração dos filhos para os pais (…), para preparar para o Senhor um povo pronto a recebê-lo» (Lucas 1,17; cf. Malaquias 3,24 acerca de Elias).

C) Cumprida esta sua missão, João sai de cena, pois é metido na prisão por Herodes Antipas (Lucas 3,19-20), não estando, portanto, presente na cena do Baptismo de Jesus.

D) Em Lucas, João não entra nas praias do Novo Testamento. Escreve: «A Lei e os Profetas até João; daí para a frente, é evangelizado o Reino de Deus» (Lucas 16,16). Por isso, e ao contrário do que sucede em Mateus e Marcos, que dão a notícia da prisão de João depois do Baptismo de Jesus (Mateus 4,12; Marcos 1,14), Lucas fá-lo prender antes do Baptismo de Jesus, para que seja o Espírito Santo a baptizar Jesus (veja-se a ruptura entre Lucas 3,20 e 21).

E) O narrador faz-nos ver outra vez o povo todo reunido e baptizado, antes de nos pôr a todos a contemplar a primeira acção de Jesus baptizado com o Espírito: Jesus em Oração (tema caro e, no contexto do Baptismo, exclusivo de Lucas).

F) O narrador desenha logo a seguir uma verdadeira coreografia celeste: o céu aberto, o Espírito Santo que desce como uma pomba (tempo novo: a pomba sai da Palestina em Setembro/Outubro e regressa com a Primavera), uma voz vinda do céu, isto é, de Deus, declarando, de acordo com o Salmo 102,7: «Tu és o meu Filho, o Amado, em Ti pus o meu enlevo» (Lucas 3,21-22).

 5. A partir do Baptismo de Jesus no Jordão, é missão da Igreja Una e Santa, toda Baptizada e Confirmada, viver esta intimidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e seguir o seu Senhor, passo a passo, ao longo do inteiro Ano Litúrgico, para ver bem como faz Jesus, o Filho Amado, Baptizado com o Espírito Santo. O que faz Jesus e como faz Jesus, é quanto devemos fazer nós também, dado que também nós fomos Baptizados com o Espírito Santo e elevados à condição de filhos adoptivos (Gálatas 4,4-7).

 6. Pelos motivos expostos, O Jordão é o rio de Cristo e dos cristãos. E, por esta razão, muitas Igrejas Orientais chamam «Jordão» à água da fonte baptismal, que todos os anos é benzida precisamente neste Dia da Festa do Baptismo do Senhor.

 7. Ilustra bem o episódio do Baptismo de Jesus no Jordão o chamado «Primeiro Canto do Servo do Senhor» (Isaías 42,1-7), que hoje temos também a graça de ouvir, que põe em cena Deus e o seu Servo. Deus chama este Servo «meu Servo», diz que o segura e sustenta e que lhe dá o seu Espírito, e confia-lhe uma missão em ordem à verdade e à justiça, à mansidão e ao ensino, à libertação e à iluminação, entenda-se, à vida em plenitude, de todas as nações.

 8. Verdadeiramente, Deus é a vida deste Servo, que Ele ampara, leva pela mão e modela. Linguagem de criação, confidência e providência.

 9. Há ainda a registrar uma expressão forte para dizer a missão de mansidão confiada por Deus a este seu Servo: «Não fará ouvir desde fora a sua voz». Ora, se não faz ouvir a sua voz desde fora, só a pode fazer ouvir desde dentro. O grande pensador do século XX, de origem hebraica, Emmanuel Levinas, glosava, nas suas lições talmúdicas, este texto em sentido messiânico, dizendo que «o Messias é o único Rei que não reina desde fora». Se não reina desde fora, então não reina com poder, dinheiro, armas ou decretos. Se não reina desde fora, reina desde dentro, aproximando-se das pessoas, descendo ao nível das pessoas, amando as pessoas. Jesus vai assumir a identidade deste Servo e vai cumprir por inteiro a sua missão.

 10. E não nos esqueçamos que a sua bela missão de Filho e de Servo terá de ser também a nossa bela missão de filhos e de servos.

 11. O discurso de Pedro em Cesareia Marítima, em casa do centurião romano Cornélio, conforme a descrição do Livro dos Actos 10,34-38, dá testemunho da largueza da bondade de Deus, que faz chegar o seu amor de Pai a todas as pessoas de todas as nações, fazendo de nós um povo de filhos, irmãos e servos que seguem um único Senhor: Jesus Cristo. Seguindo este único Senhor, a mais nada e a mais ninguém reconhecemos como Senhor. Somos, portanto, chamados a ser livres e a testemunhar, empenhando toda a nossa vida, dia após dia, que, após o Baptismo no Jordão, Jesus passou fazendo o bem e curando todas as pessoas necessitadas.

 12. Para não esquecer: esta bela missão de Jesus, Baptizado com o Espírito no Jordão e declarado Filho Amado, deve ser a nossa bela missão de Baptizados com o Espírito Santo e filhos amados de Deus.

António Couto

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: