EXALANDO O PERFUME DE CRISTO, SEM NUNCA PERDER O “CHEIRO DAS OVELHAS”


Exalando o bom perfume de Cristo (2 Coríntios 2,14-15),
sem nunca perder o «cheiro das ovelhas» (Papa Francisco)

1. «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me UNGIU,/ a EVANGELIZAR os pobres me ENVIOU,/ a ANUNCIAR aos prisioneiros a libertação e aos cegos a vista,/ […] a ANUNCIAR o ano da graça do Senhor» (Lucas 4,18-19; cf. Isaías 61,1-2). Esta é a lição Hoje duas vezes ouvida, primeiro em Isaías, depois no Evangelho de S. Lucas. Em Isaías, o profeta diz esta lição de esperança aos pobres regressados do Exílio da Babilónia a uma Jerusalém arruinada. No Evangelho de S. Lucas, Jesus assume sobre si esta missão de esperança. Levantou-se, recebeu o rolo, encontrou a passagem de Isaías, leu, entregou o rolo, sentou-se. Diz-nos o narrador que estavam fixos nele os olhos de todos (Lucas 4,20). E Jesus fez então a mais breve homilia conhecida: «HOJE foi cumprida esta Escritura nos vossos ouvidos» (Lucas 4,21).

 2. Comenta assim o nosso Papa Francisco: «Jesus “pesca” na Escritura como na vida. Assim como encontra a passagem certa na Escritura, também na vida quotidiana o seu olhar encontra sempre o necessitado, os seus ouvidos ouvem a voz de quem chama por ele, o seu zelo apostólico vai até ao ponto de sentir, com a orla do seu manto, as dores do povo a quem foi enviado (Mateus 9,20-22; Marcos 5,25-34; Lucas 8,43-48). Este fervor missionário de Jesus serve-nos sempre de consolo e impulso para o nosso trabalho pastoral». E continua o Papa Francisco: «Ano após ano, os que fomos UNGIDOS, SELADOS e ENVIADOS, voltamos a esta cena para renovar esta UNÇÃO que nos leva a tomar consciência das fragilidades das pessoas, nos impele a sair de nós mesmos, e nos envia a todas as periferias existenciais para sarar, libertar, perdoar e anunciar a Boa Nova».

 3. Continuo a seguir de perto palavras do Papa Francisco: A nossa identidade sacerdotal assenta na UNÇÃO (chrísma) recebida de Deus e no SELO (sphragís) com que fomos marcados por Deus, em consonância com a palavra de S. Paulo: «Foi Deus que nos UNGIU, e que também nos marcou com o seu SELO» (2 Coríntios 1,21-22). Esta nossa identidade sacerdotal, por Deus UNGIDA e SELADA, não é negociável. Mas tão-pouco é para conservar enlatada ou enterrada ou simplesmente poupada, ao abrigo de qualquer risco, como fez no Evangelho o homem do talento dado por Deus (Mateus 25,18.24-27). Exactamente o contrário: a Igreja vela pela integridade do Dom, para o poder dar e comunicar inteiro a todas as pessoas de geração em geração. A nossa identidade sacerdotal não somos nós centrados em nós e voltados para nós; é, antes, uma identidade de amor que nos empurra para fora de nós, para a periferia, identidade UNGIDA, à maneira de Cristo, o Ungido, identidade ENVIADA, identidade em MISSÃO.

 4. O SELO é a assinatura de Deus, posta nas obras do Filho (João 6,27), e também no nosso coração sacerdotal e nas nossas mãos sacerdotais que acariciam e abençoam em seu Nome. O certificado de garantia do nosso coração sacerdotal que tudo deve pensar, e das nossas mãos sacerdotais que tudo devem fazer, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, são os corações UNGIDOS e SELADOS dos filhos e irmãos que Deus nos confiou, e a quem fomos enviados em missão para os UNGIR e marcar com o SELO de Deus. Diz bem São Paulo aos Coríntios: «Vós sois o SELO do meu apostolado no Senhor» (1 Coríntios 9,2).

 5. UNGIDOS para EVANGELIZAR. Neste sentido, o Papa Paulo VI traçou bem e fundo o perfil Evangelizador da Igreja: «EVANGELIZAR é a graça e a vocação própria da Igreja, a sua identidade mais profunda. A Igreja existe para EVANGELIZAR» (Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, n.º 14). EVANGELIZAR supõe zelo apostólico, lembra-nos o Papa Francisco, numa bela e intensa exortação proferida, sem papel, numa das Congregações Gerais havidas entre os Cardeais no pré-Conclave. No final da sessão, o Cardeal Jaime Ortega, Arcebispo de Havana, perguntou ao então Cardeal Bergoglio se tinha a sua intervenção escrita, ao que ele respondeu que não. Todavia, durante a noite, pôs numa folha aquilo de que se lembrava, e, na manhã seguinte, entregou-a com toda a gentileza ao Cardeal Jaime Ortega. Perguntou-lhe este se a podia divulgar, ao que o Cardeal Bergoglio respondeu que sim. Voltou a perguntar-lhe já depois da sua eleição como Papa, e ele voltou a responder afirmativamente. Grande parte do que agora direi é tirado dessa forte mensagem que anda à volta da Evangelização. O manuscrito foi publicado ontem, dia 27, no Avvenire.

 6. Evangelizar supõe, na Igreja, a ousadia de esta sair de si mesma. A Igreja é chamada a sair de si mesma em direcção às periferias, não apenas geográficas, mas também existenciais: as do mistério do pecado, da dor, da injustiça, da ignorância e desafeição religiosa, do pensamento, de toda a espécie de miséria. Quando a Igreja não sai de si mesma para evangelizar, dobra-se sobre si mesma, e adoece à maneira da mulher curvada do Evangelho (Lucas 13,10-17). Os males que, com o andar do tempo, afectam as instituições religiosas têm a sua raiz no centrar-se sobre si mesmas, uma espécie de narcisismo teológico e vital. O Livro do Apocalipse põe Jesus a dizer assim: «Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo» (Apocalipse 3,20). É claro que Jesus bate à porta do lado de fora para entrar. Sou, todavia, levado a pensar nas vezes em que Jesus bate do lado de dentro, para que o deixemos sair. O que acontece é que, quando a Igreja tem em si mesma a sua referência, quer ter Jesus dentro de si, e não o deixa sair.

 7. Quando a Igreja se vê a si mesma como auto-referência, pensa, sem sequer disso se aperceber, que tem luz própria. Deixa de ser o mysterium lunae, e dá lugar a esse mal tão grave que é a mundanidade espiritual, que é, como refere Henri de Lubac na Méditation sur l’Église (p. 327), o pior mal que pode sobrevir à Igreja. Chama-se a isso viver para «receber glória uns dos outros» (João 5,44). Simplificando, podemos ver duas imagens de Igreja: a Igreja evangelizadora, que sai de si, que é a Igreja da Dei Verbum, que ouve religiosamente e proclama confiadamente a Palavra de Deus (DV, n.º 1), e a Igreja mundana, que vive em si, de si e para si. Estas anotações devem dar luz às possíveis mudanças e reformas a levar por diante para a salvação das almas.

 8. Pensando no próximo Papa, tem de ser um homem que, a partir da contemplação de Jesus Cristo e da adoração a Jesus Cristo, ajude a Igreja a sair de si mesma para as periferias existenciais, que ajude a Igreja a ser a mãe fecunda que vive «a doce e reconfortante alegria de Evangelizar» (Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, n.º 80).

 9. Caríssimos sacerdotes, caríssimos fiéis leigos, todos UNGIDOS no coração e ENVIADOS para EVANGELIZAR, não esqueçamos a nossa identidade discipular e missionária. O óleo do Crisma que vamos consagrar, e os óleos dos enfermos e dos catecúmenos que vamos benzer, constituem, no meio de nós, um autêntico manancial ou programa de vida. Igual ao de Jesus Cristo. E Jesus Cristo, «Aquele que nos ama», conforme o belo dizer do Apocalipse (1,5), bate Hoje insistentemente à nossa porta. Não tanto para entrar, mas para sair. Vamos com Ele, como Ele. Há tantos irmãos à espera d’Ele… e à nossa espera!

 Que o Senhor, nosso Bom e Belo Pastor, UNJA a nossa cabeça e nos guie sempre para boas e belas pastagens.

 António Couto

4 respostas a EXALANDO O PERFUME DE CRISTO, SEM NUNCA PERDER O “CHEIRO DAS OVELHAS”

  1. José Manuel Correia Alves diz:

    Votos de uma Santa Páscoa, com muita Luz, para o nosso Bispo Senhor Dom António Couto e toda a Cúria Diocesana.

  2. Maria Helena Gonçalves diz:

    Senhor D. António,

    Invadida pelo Amor e ternura de Jesus que ” bate Hoje insistentemente à nossa porta”, agradeço-lhe este eco de convite reforçado para “ir com Ele, como Ele”, em atitude discipular e missionária!
    É a Páscoa do Senhor!
    Maria Helena

  3. adriana diz:

    QUE JESUCRISTO EN ESTA SANTA PASCUA RENUEVE LA AMADA IGLESIA.
    UN SALUDO Y ABRAZO EN CRISTO JESUS A LOS PORTUGUESES QUERIDOS !. adriana

  4. António diz:

    Olá, D. António Couto.
    Na minha terra, os leigos é que presidem ao compasso.
    Interceda por nós, para que saibamos ser verdadeiras testemunhas
    da Ressurreição de JESUS.
    desejo-lhe uma boa Páscoa.

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