CELEBRAÇÃO DA PAIXÃO DO SENHOR


Quando nós olhamos para a Cruz,/
Quando a Cruz olha para nós
 
1. A Igreja Una e Santa, no coração Ungida e no corpo Abraçada pelo Amor de Deus, religiosamente escuta e carinhosamente recita nesta Sexta-Feira Santa a Paixão do seu Senhor. Que o mesmo é dizer que religiosamente abraça e carinhosamente beija a Cruz do seu Senhor.

 2. O coração deste Dia é, na verdade, caríssimos irmãos, a Cruz do Senhor e o Senhor da Cruz. Adoramos o Senhor da Cruz e nele fixamos o nosso olhar atónito e enternecido. Bem sabemos, na verdade, que é «nas suas chagas que está a cura para nós», de acordo com o fundo dizer registado no chamado quarto canto do Servo do Senhor, de Isaías 53,5, e na Primeira Carta de S. Pedro 2,24. Mas não é o Servo do Senhor, de Isaías, que o diz, nem é o Servo Jesus que o diz. A profecia atingiu o seu cume. O profeta já não profetiza, mas é por nós profetizado. Na verdade, olhando atentamente e ternamente aquele corpo chagado, somos nós que reconhecemos e dizemos que «naquelas chagas está a cura para nós». Sim, naquelas chagas, caríssimos irmãos, fica bem visível aos nossos olhos, aos olhos do nosso «coração que vê», o nosso ódio, a nossa raiva, a nossa malvadez, a nossa violência. Sim, meus caríssimos irmãos, este é o diagnóstico, que ao olhar, com amor, o Senhor da Cruz, serenamente fazemos de nós mesmos. Sim, meus caríssimos irmãos, aquelas chagas abertas revelam as doenças de que padecemos: ódios, invejas, ciúmes, ambições, malvadez, violência. Mas aquelas chagas abertas revelam-nos ainda o remédio que pode curar as nossas doenças acabadas de diagnosticar. É o amor maior e excessivo, subversivo, desfeito em perdão, com que aquele coração aberto e chagado e aqueles braços abertos e chagados, nos envolvem e nos absolvem, absorvendo e dissolvendo, inutilizando o nosso pecado. Por isso, caríssimos irmãos, escreve bem fundo S. Lucas quando filma toda a multidão a passar diante do Senhor da Cruz, batendo no peito, isto é, reconhecendo a sua doença, o seu pecado (Lucas 23,48).

 3. Coloco, irmãos, diante de vós, mas peço que graveis no vosso coração, o extraordinário resumo que um dia um velhinho simples e iluminado pelo Espírito fez da Palavra da Cruz: «Senhor Padre, disse o velhinho, hoje aprendi duas coisas! Sabe, no Domingo de Páscoa, a Cruz vai a minha casa, no compasso; e acrescentou com os olhos a brilhar: então, quando eu olhar para a Cruz, vou ver lá os meus pecados; e quando a Cruz olhar para mim, vou ver lá o abraço carinhoso de Deus, que me ama e perdoa os meus pecados!».

 4. O compasso da Páscoa não é aquele instrumento escolar, que serve para traçar circunferências. Não é tão-pouco o compasso musical, o ritmo que se imprime à música. É a «comparticipação nos sofrimentos de Cristo», o cum passo Christo, sofrer com, sofrer com Cristo, «para ver se alcanço a ressurreição de entre os mortos», como diz S. Paulo na Carta aos Filipenses (3,10-11). E o abraço carinhoso de Deus, de que fala o velhinho, é o palio, o pallium latino, que nos protege sempre. Usamo-lo nas procissões, mas também nas horas mais dramáticas, quando precisamos de «cuidados paliativos»… Foi a este «pálio», a este manto, a este abraço carinhoso, a este humano e divino agasalho, que a medicina foi buscar o «paliativo». Saiba-o ou não. Porque não o devia nunca esquecer. Com quanto carinho devemos saber envolver os sofredores, os pobres, as viúvas e os órfãos, os deserdados, os perseguidos e os moribundos…

 5. Adorar a Cruz do Senhor, o Senhor da Cruz, é o afazer mais belo e intenso deste Dia de Sexta-Feira Santa. Assim têm feito os cristãos desde o princípio. Mas a paganização romana dos lugares santos, nos séculos II e III, afastou os cristãos da Cruz do Senhor. É, portanto, preciso lembrar aquele dia 13 de Setembro do longínquo ano 326, em que Santa Helena encontrou a Cruz do Senhor, procedendo de imediato à construção da Basílica da Anástasis, que foi dedicada no dia 13 de Setembro do ano 335, sendo a Cruz do Senhor nela exposta à adoração dos fiéis no dia seguinte, 14 de Setembro de 335. A peregrina Egéria, da Galiza, que em finais do século IV, visitou demoradamente os Lugares Santos, diz-nos que a Cruz do Senhor era então exposta à adoração dos fiéis duas vezes no ano: em 14 de Setembro [hoje Dia da Exaltação da Santa Cruz] e em Sexta-Feira Santa. Egéria descreve assim a adoração de Sexta-Feira Santa: «desde as oito horas da manhã até ao meio-dia, todos passavam, um por um: inclinam-se, tocam a Cruz com a fronte, e depois com os olhos a Cruz e a inscrição, a seguir beijam a Cruz e saem, sem que ninguém toque com a mão na Cruz» (Itinerarium, 36,5; 37,3).

 6. Irmãos caríssimos, bem sabemos as perseguições e os sofrimentos por que passam hoje os cristãos, nossos irmãos, da Terra Santa e das Igrejas do Médio Oriente. Mas bem sabemos também do seu testemunho heróico. Verdadeiramente, eles abraçam com amor a Cruz do Senhor, e o Senhor da Cruz abraça-os a eles com amor. É lá que passa o verdadeiro Compasso. Sofrer com Cristo, para com Ele chegar à glória da Ressurreição.

 7. A Igreja Una e Santa, espalhada pelo mundo inteiro, portanto também a Igreja da nossa Diocese de Lamego, é em cada Sexta-Feira Santa convidada a ajudar esses nossos irmãos perseguidos e a contribuir para a manutenção dos Lugares Santos da Terra Santa, berço da nossa fé. Enquanto adoramos a Cruz do Senhor, deixemos a nossa oferta aos pés da Cruz, sinal da nossa caridade e do nosso amor pelos Lugares Santos.

 Que o Senhor da Cruz faça resplandecer sobre nós o seu olhar bondoso e maternal. Amen.

 António Couto

3 respostas a CELEBRAÇÃO DA PAIXÃO DO SENHOR

  1. Paula Fernandes diz:

    É bom e belo sentir a Vida que emana da CRUZ onde morreu Jesus Cristo, nosso Senhor.

    Assim como é bom aprender, ano após ano, Páscoa após Páscoa, Ensinamento Novo, embora recolhido de escritos antigos!

    Em cada Páscoa, o mistério da Ressureição, Renovado, nunca igual!

    Muito obrigada, sempre, D. António.

    Feliz e Santa Páscoa, para todos os irmãos em Cristo.

  2. Caro D. António Couto,

    Gostava de o congratular por ter posto à nossa disposição esta Mesa de palavras, que descobri hoje, por acaso, ou não.
    Leio e saboreio. Obrigada!
    Gravei no meu coração as palavras do “velhinho”, às quais gostaria de juntar as seguintes:

    Nos teus braços
    Senhor
    Deposito o meu corpo
    Cansado da viagem
    E no teu regaço
    Sinto o terno calor
    De um abraço

    Desejo a todos os convivas deste espaço uma Páscoa Iluminada, Pacífica, repleta de Esperança.

    Um Abraço Amigo,
    Fernanda A. A. Grieben

  3. António diz:

    Olá D. António Couto,
    Olhando para a cruz,fico admirado pela maneira como JESUS,enfrenta
    a morte.Tanto sofrimento em favor da humanidade.
    Muitos querem amá-lo mas são perseguidos, porquê tanta maldade?
    Que estas suas palavras no ponto 6 lhes dêem força e coragem, para
    lutarem.
    Até breve.

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