QUANDO O DIA COMEÇA A DECLINAR


 

1. Aí está, irmãos caríssimos, exposto diante de nós, um dia da vida de Jesus. Prestemos bem atenção às notas fundamentais do seu diário: «Tendo acolhido as multidões, falava-lhes do Reino de Deus e sarava os que tinham necessidade de cura» (Lucas 9,11b). Por tópicos: Jesus acolhia toda a gente (1), explicava a todos o Reino de Deus (2), curava os necessitados (3). Estes três pontos são todo o afazer de Jesus, todo o entretenimento de Jesus, que envolve as pessoas todas no manto da ternura de Deus. É de tal modo intenso e belo este afazer de Jesus, que nem Jesus nem as pessoas se apercebem de que o tempo passa e começa a cair a noite.

 2. Apercebem-se os Doze, que intervêm e ditam a Jesus indicações, senão mesmo ordens, precisas: «Manda embora a multidão, para que as pessoas possam encontrar alojamento e comida nas aldeias e campos próximos» (Lucas 9,12). A réplica de Jesus é estonteante: «Dai-lhes vós de comer!» (Lucas 9,13). Atordoados, respondem às apalpadelas. Primeiro esboço: «Só temos cinco pães e dois peixes», que é como quem diz, mal chegam para nós… Segundo esboço: «A menos que vamos nós comprar comida para eles…» (Lucas 9,14).

 3. As indicações dos Doze nem sequer chegam a ser equacionadas por Jesus, o que significa que as considera completamente desajustadas. Jesus dá ordens novas e surpreendentes: «Fazei-os reclinar à mesa (kataklínô) para comer» (Lucas 9,14). Podemos imaginar o espanto que se terá apoderado daqueles Doze, que devem ter pensado mais ou menos isto: «mandá-los reclinar à mesa, neste lugar ermo, para comer! Mas para comer o quê?!».

 4. Acção Eucarística de Jesus: «Tendo recebido os cinco pães e os dois peixes, pronunciou a bênção, partiu-os e dava aos discípulos para servirem a multidão» (Lucas 9,16). E diz-nos o narrador que todos comeram e foram saciados por Deus (verbo na passiva) (Lucas 9,17).

 5. Prestai atenção, meus amados irmãos, e reparai bem que, aos olhos atónitos dos discípulos e dos nossos, Jesus não fez uma operação de «multiplicação» dos pães, mas de «divisão» e «partilha» dos pães! O milagre de Jesus – aquilo que suscita surpresa e maravilha – não consiste em aumentar a quantidade do pão e do peixe (que permanece a mesma), mas em abrir os olhos aos seus discípulos e a nós que, como cegos, só conhecemos e pensamos na lógica do vender e do comprar, e não chegamos a saborear a lógica da gratuidade, que é a do nosso Pai celeste que faz nascer o sol para os bons e para os maus. Entrar nesta lógica é acreditar na força do dom, e ir por este mundo consumista, partindo o pão e dividindo-o, com a clara consciência de que onde isto acontecer, não só se instaura o necessário para todos («todos comeram e foram saciados»), mas instaura-se igualmente o «excesso», a superabundância da graça («os discípulos encheram doze cestos»).

 6. Jesus leva até ao fim a lógica nova do Evangelho, que é a medida sem medida do amor de Deus, que muda radicalmente a nossa maneira de pensar e de viver. Este é o lado subversivo do Evangelho. Não, Jesus não se contenta, nem quando nós nos propomos comprar pão para alimentar os outros. Para Jesus não é compreensível que uns tenham mais, outros menos e outros nada, e que esta situação se possa amenizar pontualmente. Dar tudo é a medida de Deus e a lógica do Evangelho. «Tomai, isto é o meu corpo» (Marcos 14,22); «Este é o meu sangue, o sangue da Aliança, por todos derramado» (Marcos 14,24). «Fazei isto em memória de mim» (Lucas 22,19). Vida partida e dada por amor. Eis o inteiro programa de Jesus. Eis tudo o que devemos fazer, imitando-o.

 7. É isto que estamos a fazer aqui, nesta Celebração Eucarística na Sé Catedral de Lamego, nesta Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Daqui a pouco, o Senhor da nossa vida presidirá e abençoará com a sua Presença, caminhando connosco, no meio de nós, as ruas da nossa cidade. O pálio (pallium) de Deus atravessará a nossa cidade. O pálio de Deus é o manto (pallium) de Deus, os braços carinhosos com que nos abraça e nos envolve, e nos pede para fazermos outro tanto, enchendo de graça e de esperança todos os nossos irmãos. Verdadeiramente, num mundo em crise como este em que vamos, parece que voltamos a viver, como dizia São Paulo aos Efésios, «sem esperança e sem Deus no mundo» (Efésios 2,12). Entenda-se: sem esperança, porque sem Deus no mundo, connosco, no meio de nós.

 8. Jesus Cristo é Deus presente no nosso mundo todos os dias. E o pálio é o manto, o abraço, com que nos acarinha e envolve. De pálio (pallium) vêm os cuidados paliativos, que não são apenas os cuidados médicos que são prestados aos nossos doentes terminais; são sobretudo a expressão de um amor maior, de um manto maior, que nos envolve e nos salva em todas as situações (Gianluigi Peruggia, L’abbraccio del mantello, Saronno, Monti, 2004).

 
Dá-nos, Senhor, um coração novo,
capaz de conjugar em cada dia
os verbos fundamentais da Eucaristia:
RECEBER, BENDIZER e AGRADECER,
PARTILHAR e DAR,
COMEMORAR, ANUNCIAR e ESPERAR.
 
Dá-nos, Senhor, um coração sensível e fraterno,
capaz de escutar
e de recomeçar.
 
Mantém-nos reunidos, Senhor,
à volta do pão e da palavra.
E ajuda-nos a discernir
os rumos a seguir
nos caminhos sinuosos deste tempo,
por Ti semeado e por Ti redimido.
 
Ensina-nos, Senhor,
a saber colher
o Teu amor
semeado e redentor,
única fonte de sentido
que temos para oferecer
a este mundo
de que és o único Salvador.
 
+ António Couto

3 respostas a QUANDO O DIA COMEÇA A DECLINAR

  1. pizzuto adriana diz:

    GRACIAS POR ESTAS PALABRAS SALVIFICAS DE NUESTRO SEÑOR JESUSCRISTO QUE NOS LLENA DE ORGULLO POR SER HIJOS EN EL HIJO, LLEVEMOSLO EN ESTA FIESTA CON ALEGRIA PARA DECIR COMO DIJO SANTO TOMAS DE AQUINO EN SU HIMNO DE CORPUS CHRISTI: QUANTUM PODES TANTUM AUDE ! UN FUERTE ABRAZO EN ESTE MARAVILLOSO DIA A TODOS MIS HERMANOS PORTUGUESES Y MIS RESPETOS Y AGRADECIMIENTO PARA USTED ESTIMADO OBISPO COUTO.

  2. blogorando diz:

    Obrigada, D. António.

  3. António diz:

    Olá, D. António Couto´
    Solenidade do santíssimo Corpo e sangue de Cristo, é um convite
    a meditar na Eucaristia, e no seu valor.
    O corpo de Cristo,é para ser comido, como ELE próprio ensinou
    e mandou, que o fizéssemos.
    Com os olhos do nosso Corpo, não conseguimos vêr Cristo, só
    com os olhos da fé.
    Este foi um dos seus artigos, que mais alegrou o meu coração.
    Obrigado, D. António.

    o

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