TRÊS HISTÓRIAS PARA TI E PARA MIM


 

1. À boca da cena do Evangelho deste Domingo XI do Tempo Comum (Lucas 7,36-8,3) perfilam-se três personagens: o fariseu Simão, Jesus, e uma mulher pecadora. Ao fundo da cena estão ainda os convidados, que só intervêm no final do relato. Todos, menos a mulher, estão recostados à mesa, em casa do fariseu Simão, pois foram por ele convidados.

 2. As primeiras atenções dirigem-se para a mulher, introduzida pelo narrador com aquele: «E EIS uma mulher…», que passa claramente por uma fórmula de atenção. Também não deve o leitor estranhar muito esta súbita, e parece que não desejada, entrada desta mulher em casa alheia. No mundo oriental, as portas das casas permaneciam abertas, e qualquer pessoa podia espreitar pela porta para ver o que lá dentro se passava, sobretudo quando eram perceptíveis movimentações fora do habitual. Estranho, neste caso, foi que a mulher se tenha aventurado a entrar na sala, e não apenas a espreitar à porta!

 3. Uma vez lá dentro, é a pessoa de Jesus o centro único do seu interesse (vê-se que foi unicamente por causa d’Ele que entrou), vão para Ele todas as suas atenções, em relação a Ele cumpre SEIS ACÇÕES simbólicas e grandemente significativas, sempre sem dizer uma palavra:

 

A) vem e traz um frasco com perfume;
B) coloca-se por detrás dos pés de Jesus;
C) chorando, com as lágrimas banha os pés de Jesus;
C’) e com os cabelos da sua cabeça enxugava-os;
B’) e beijava os pés de Jesus;
A’) e ungia-os com perfume.

 

4. Enquanto isto acontecia em silêncio, aberto, portanto, à interpretação de todos, também à nossa, diz-nos o narrador que o fariseu murmurava acerca de Jesus, que seguramente não seria um profeta, pois se o fosse, segundo o pensar do fariseu, saberia certamente que era uma pecadora que o tocava, e teria impedido tal procedimento.

 5. Assim pensava o fariseu, quando Jesus mostra que é, de facto, profeta, interceptando-lhe e corrigindo-lhe os pensamentos enviesados e retorcidos, apontando-lhe o essencial, que é a GRAÇA, e pondo-o a falar bem e abertamente. «Simão, tenho uma coisa para te dizer». «Fala, Mestre», respondeu ele. «Um credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários e o outro cinquenta. Como não tinham com que pagar, fez graça (charízomai) a ambos. Qual dos dois o amará (agapáô) mais?». Simão respondeu: «Suponho que aquele a quem fez mais graça (charízomai)». Jesus disse: «Julgaste bem» (Lucas 7,40-43).

 6. Neste momento, há já na sala um excesso de luz. Salta à vista que as SEIS ACÇÕES da mulher apontam para a SÉTIMA, que enche agora a cena toda e prende todos os pensamentos: é a ACÇÃO DE DEUS, a ACÇÃO DA GRAÇA concedida por Deus e actuante nos dois devedores que não tinham com que pagar (Lucas 7,41-42). Este relevo da ACÇÃO DA GRAÇA está bem marcado, de resto, pelas únicas ocorrências em Lucas do verbo charízomai [= fazer graça] (Lucas 7,21b.42-43).

 7. Vendo que os seus pensamentos tinham sido interceptados por Jesus, o fariseu responde cautelosamente à pergunta formulada por Jesus: «SUPONHO que…». Ao contrário da mulher, que arrisca tudo, expondo-se a todos os olhares, pensamentos e dizeres. O fariseu é mesmo apresentado como o homem do NÃO, ao contrário da mulher: «TU NÃO me deste água para os pés; ELA, AO CONTRÁRIO, banhou-me os pés com as suas lágrimas e enxugou-os com os seus cabelos; TU NÃO me deste um beijo; ELA, AO CONTRÁRIO, desde que entrei, não cessou de me beijar os pés; TU NÃO me ungiste a cabeça com óleo perfumado; ELA, AO CONTRÁRIO, ungiu-me os pés com perfume» (Lucas 7,44-46).

 8. Em suma, esta mulher pecadora arriscou tudo por amor. Foi perdoada e ganhou a GRAÇA de uma vida nova (Lucas 7,48-50).

 9. E esta mulher pecadora e silenciosa é, para todas as gerações, um imenso discurso sobre a GRAÇA e a ACÇÃO DA GRAÇA de Deus, que nos precede e acompanha sempre. GRAÇA preveniente, concomitante, consequente.

 10. Cruzam-se as histórias bíblicas dos dois Testamentos, e as personagens surgem, como por encanto, lado a lado: é a mulher pecadora e agraciada, e é David pecador perdoado. Natan [= «Deus deu»], o profeta, vindo não se sabe de onde nem de ninguém (não são conhecidos pai ou mãe), apenas de Deus, entra no palácio do rei (2 Samuel 7), cruza porta após porta até chegar junto de David, e diz-lhe quanto Deus manda dizer: «Fui Eu que te tirei das pastagens e fiz de ti chefe do meu povo. Estive sempre contigo por onde andaste. Dar-te-ei um nome grande. Acomodarei o meu povo neste lugar bom. Farei uma Casa para ti e para a tua descendência depois de ti. Serei para eles um pai. Eles serão para mim como meus filhos. Estabelecerei o teu trono para sempre».

  11. Vê-se bem que, pela boca de Natan, Deus estende a David um tapete de luz, um fio de sentido, a perder de vista, que já sabemos que vai até Cristo.

 12. Mas há um maciço de palavras entalhadas no mais puro gume do papiro, que não podemos mesmo deixar no esquecimento. Refiro-me aos Capítulos 11 e 12 do Segundo Livro de Samuel, de que hoje temos a graça de ler um estrato (2 Samuel 12,7-13).

 13. Eis, cena após cena, o que aí fica registrado: Passou o inverno, chegou a primavera. É o tempo da guerra e do amor. David mandou para a guerra o seu exército comandado pelo general Joab. O combate é contra os Amonitas, mais precisamente contra a sua capital Rabbah, actual Aman. Mas David, o rei, ficou em Jerusalém neste tempo da guerra e do amor. Evitou a guerra. Fica com a parte do amor. Levanta-se num belo entardecer, e vem passear para o terraço do seu palácio. É daí que avista uma bela mulher, banhando-se. E a paixão toma conta de David. Incumbe a sua guarda pessoal de recolher informações acerca dela. Dizem-lhe que se chama Betsabé, e que é casada com Urias, um dos militares que partiu para a guerra com Joab. David mandou os seus agentes buscar Betsabé. Dormiu com ela. Depois, ela voltou para casa. Mas alguns dias depois, mandou dizer a David: «Estou grávida».

 14. Sabendo isto, David mandou uma mensagem ao general Joab, para que lhe enviasse Urias. Chegado ao palácio de David, este pediu-lhe notícias de Joab, do exército e do andamento da guerra. Depois disse-lhe: «Desce à tua casa». Mas Urias não entrou em sua casa, e dormiu à porta do palácio com os outros servos do rei. Disseram a David que Urias não foi a sua casa. David mandou-o chamar e perguntou-lhe: «Não regressaste de uma viagem? Por que não foste a tua casa?» Urias respondeu: «A arca de Deus habita numa tenda, assim como Israel e Judá. Joab, meu chefe, e os seus servos dormem ao relento, e eu teria coragem de entrar na minha casa para comer e beber e dormir com a minha mulher? Pela tua vida, não farei tal coisa». David disse-lhe: «Fica aqui também hoje, e amanhã enviarte-ei». E Urias ficou em Jerusalém naquele dia. No dia seguinte, David convidou Urias para comer e beber com ele, e embriagou-o. Mas, à noite, Urias não desceu a sua casa, mas dormiu com os servos do rei.

 15. No dia seguinte, de manhã, David escreveu uma carta a Joab, e enviou-lha por Urias. Dizia nela: «Coloca Urias na frente, onde o combate for mais aceso, e não o socorras, para que seja ferido e morra». Joab, que sitiava a cidade, pôs Urias no lugar onde sabia que estavam os mais valentes guerreiros do inimigo. Os guerreiros Amonitas fizeram um ataque de surpresa, e morreram alguns militares das tropas de Joab, entre os quais, Urias.

 16. Joab mandou imediatamente informações pormenorizadas a David acerca das peripécias do combate, e ordenou ao mensageiro: «Quando tiveres contado ao rei todos os pormenores do combate, se ele ficar indignado e te perguntar: «Por que vos aproximastes da cidade para combater? Não sabíeis que iam disparar do alto da muralha? Quem matou Abimélec, filho de Jerubaal? Não foi uma mulher que lhe atirou uma pedra de moinho de cima do muro, matando-o em Tebes? (cf. Juízes 9,51-54). Porque vos aproximastes dos muros?», então dirás ao rei: «Morreu também o teu servo Urias».

 17. Partiu, pois, o mensageiro e contou a David tudo o que Joab lhe tinha mandado. Disse-lhe: «Esses homens são mais fortes do que nós. Saíram contra nós em campo aberto, mas nós perseguimo-los até às portas da cidade. Então, do alto da muralha, os arqueiros dispararam sobre os teus servos e morreram alguns, entre eles o teu servo Urias». Então o rei respondeu ao mensageiro: «Diz a Joab que não se aflija por causa deste fracasso, e que intensifique o ataque à cidade até a destruir».

 18. Ao saber da morte do seu marido, a mulher de Urias chorou-o. Terminados os dias de luto, David mandou buscá-la e acolheu-a em sua casa. Tomou-a por esposa e ela deu-lhe um filho. Mas o procedimento de David desagradou ao Senhor.

 19. O Senhor enviou então Natan ter com David. Logo que entrou no palácio, Natan disse-lhe: «Dois homens viviam na mesma cidade. Um era rico, o outro pobre. O rico tinha ovelhas e bois em grande quantidade. O pobre tinha apenas uma ovelha pequenina, que comprara. Criou-a, e ela cresceu junto dele e dos seus filhos, comia do seu pão, bebia do seu copo e dormia no seu regaço. Era para ele como uma filha. Certo dia, chegou um hóspede a casa do homem rico. Mas este não quis tocar nas suas ovelhas e nos seus bois para preparar um banquete para o seu hóspede. Antes, foi apoderar-se da ovelhinha do pobre, matou-a e preparou-a para o seu hóspede».

 20. David espumava, e indignado contra tal homem, disse a Natan: «Pelo Deus vivo! O homem que fez isso merece a morte. Pagará quatro vezes o valor da ovelha por ter feito essa maldade e não ter tido compaixão».

 21. Natan disse a David: «Esse homem és tu!». «Assim diz o Senhor: “Tomarei as tuas mulheres diante dos teus olhos e hei-de dá-las a outro, que dormirá com elas à luz do sol! Pois tu pecaste ocultamente, mas eu farei o que digo diante de todo o Israel e à luz do dia!”».

 22. Mas é sempre do amor e do perdão a última palavra. O Filho de Deus amou-me e deu a sua vida por mim (Gálatas 2,20), e assim me justificou, isto é, transformou-me de pecador em justo. E não podemos inutilizar a graça de Deus (Gálatas 2,21). Sim, não é a Lei ou o cumprimento de qualquer humana tradição ou conhecimento adquirido que me salva. É Cristo. Aí está toda a história de Paulo hoje também para nós evocada na Carta aos Gálatas 2,16-21.

 António Couto

5 respostas a TRÊS HISTÓRIAS PARA TI E PARA MIM

  1. adriana pizzuto. madrid diz:

    ESTIMADO SEÑOR OBISPO COUTO:
    CUANDO VIVIA EN PORTO GRACIAS A SUS ESCRITOS DE MESA DE PALABRAS Y SUS CLASES EN LA UNIVERSIDAD CATOLICA, UN GRUPO DE PERSONAS DE ORACION CARMELITANA SE BENEFICIARON AMPLIAMENTE Y SU FE CRECIO AL PUNTO DE TENER COMO CENTRO DE SUS VIDAS AL SEÑOR DE TODOS LOS TIEMPOS Y DE ESTA NUEVA CONFIGURACION DE VIDA, CAMINAR Y VOLVER A LA CASA DEL PADRE.
    HOY EN MADRID, GRACIAS A MESA DE PALABRAS LOS QUE SE BENEFICIAN SON UN GRUPO DE JOVENCITOS EN LA CATEQUESIS DE LA IGLESIA CARMELITANA DE PLAZA ESPAÑA MADRID.
    ESPERO TODOS LOS DOMINGOS ESTAS PALABRAS SIMPLES Y PROFUNDAS QUE TANTO BIEN HACEN A TODOS LOS HIJOS DE DIOS. SIEMPRE ESTARE ESPERANDO.

    QUE DIOS LO BENDIGA ! Y SIEMPRE MI HUMILDE ORACION POR SU SANTO MINISTERIO. ADRIANA

  2. Micael diz:

    Estimado Sr. D. António Couto:
    Adorei conhecê-lo hoje na Paróquia de Lazarim. Uma pessoa simples, amável, cordial e muito sábia, na sua forma de estar, falar e escrever. Gostei de acolitar e ajudá-lo na Eucaristia, foi uma experiência muito interessante e gratificante.

    Espero poder voltar a conviver com o Senhor.

    Que Deus o abençoe no desempenho das suas funções. Os melhores cumprimentos.
    Micael

  3. António diz:

    Olá, D. António Couto.

    O texto fez-me ver, que um pecador que ama está mais perto do
    perdão.Para os Cristãos, é melhor viver na graça e na paz de DEUS,
    do que viver na alegria, e estar longe d´Ele.
    Que o Senhor, nos conceda sempre o auxilio da sua graça.
    Obrigado, D. António pelas histórias que nos conta.
    Um abraço.

  4. Rui Miguel diz:

    Caro Sr. D. António Couto.
    Permita-me antes demais saudá-lo e pedir a sua bênção.
    Tive o prazer de estar ontem (20-06-2013) em Braga a assistir á sua palestra, e gostei da, permita-me, sua ousadia em chamar a mulher que aparece no Evangelho de domingo passado, de desenvergonhada e ousada.
    Permita-me ser também ousado, e em função de um comentário que o D. António Couto fez “se todos nós fossemos ousados, estaríamos bem melhor”…
    Sendo o D. António Couto hoje uma figura ímpar na Igreja Portuguesa, uma figura respeitada na Igreja e na sociedade portuguesa, a expressão que utilizou também foi um desabafo ousado?
    Porque a Igreja, no seu todo, hoje parece morna e não nos alerta nem nos espicaça ou provoca (como o D. António Couto ontem mencionou) para uma fé mais forte ou madura.
    Concordo certamente com tudo o que o D. António Couto conclui e nos transmitiu ontem, mas então o que fazer, dado que a Igreja de hoje também, permita-me a expressão, está como os comensais e não olha muito para Jesus, mas para os pecadores!!!
    Gostava de receber a sua ilustre e sempre muito frutuosa opinião.

    Sem demais, renovo os meus sinceros e cordiais cumprimentos, peço-lhe a sua bênção, e peço a Deus que o abençoe, o fortaleça e proteja cada dia mais.

    Cordialmente,
    Rui Miguel
    Braga
    rmovb@hotmail.com

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