AMARÁS, AMARÁS, AMARÁS!


1. «Sou a personagem mais popular do Evangelho. Vós falais muitas vezes de mim: há vinte séculos que oiço o vosso aplauso por ter puxado o freio com que parei o cavalo naquela estrada que seguia de Jerusalém para Jericó. Ofereci imagens consoladoras à vossa emotividade e ao vosso gosto inato de histórias com um final feliz: a minha figura debruçada a colocar faixas, as gotas de óleo e vinho derramadas sobre as feridas do viandante maltratado pelos ladrões e traído por aqueles dois que pouco antes me precederam naquela estrada e lhe tinham negado a sua piedade, o facto de eu ter colocado o ferido sobre a minha montada, a pousada com o hospedeiro a quem entrego dois denários para ele continuar a assistência. E vós, para me honrar, ornamentastes com estas cenas as entradas dos albergues e lugares piedosos». É assim que o escritor italiano Luigi Santucci (1918-1999) abre o seu Samaritano apocrifo, deixando transparecer alguma ironia.

2. Concentrando agora a nossa atenção sobre a parábola do Evangelho de Lucas (10,25-37), é impressionante notar que o narrador não tenha necessitado de mais de cem palavras (incluindo artigos e partículas gramaticais) para criar um quadro inesquecível!

3. Um HOMEM, anónimo e solitário, percorre os 27 km da estrada romana que, serpenteando através do Wadi el-Kelt, ligava a Cidade Santa (Jerusalém) ao belíssimo oásis de Jericó, tradicional morada de sacerdotes, superando um desnivelamento de cerca de 1100 metros. De improviso, na paisagem inóspita e desértica daquela estrada, o cenário habitual: BANDIDOS que saltam da emboscada, roubo, violência, fuga. Fica na berma da estrada um corpo ensanguentado, com a guarda de honra das rochas vermelhas dos montes circundantes, ditos em hebraico de Adummîm, tradução literal: «do sangue». Tudo envolto num gritante silêncio.

4. Mas eis, ao longe, um SACERDOTE… Súbita desilusão. O narrador refere que o SACERDOTE bem viu o nosso homem, mas «passou pelo lado contrário» (antiparêlthen). Evitou demoras, chatices, incómodos, impureza ritual. Eis, todavia, no horizonte, outra possibilidade: um LEVITA… A mesma desilusão. Também ele «passou pelo lado contrário» (antiparêlthen).

5. A narrativa atinge o seu auge. Eis que vem agora um SAMARITANO, lídimo representante daquele «estúpido povo que habita em Siquém» (Eclesiástico 50,26), mas vai fazer tudo ao contrário dos dois anteriores representantes da religiosidade fria e formal de Jerusalém. Veja-se com quanto pormenor o narrador descreve todos os seus gestos: vem até junto dele (1), viu-o (2), encheu-se de comoção (3), aproximou-se (4), enfaixou-lhe as feridas (5), derramou óleo e vinho (6), colocou-o na sua montada (7), levou-o para uma pousada (8), tomou-o ao seu cuidado (9), deu dois denários ao hospedeiro (10), e disse-lhe: «Toma tu cuidado dele» (11).

6. Aí está a religiosidade fria e calculista e insensível, debruçada sobre si mesma, que passa ao lado da vida por e para estar atenta apenas às rubricas, por parte dos agentes do culto de Jerusalém, em claro contraponto com o amor pessoal, eivado de afecto e de gestos de carinho activo e criativo deste SAMARITANO, totalmente debruçado sobre os outros e para os outros, interessando-se até sobre o seu futuro, e provocando outros a entrar nesta dinâmica nova cheia de amor novo. Notável aquele: «Cuida tu dele!» do Samaritano implicando o hospedeiro neste trabalho do amor! E de Jesus implicando o doutor: «Vai e faz tu!».

7. É por tudo isto que, sobre uma pedra da pretensa pousada do Bom Samaritano, na verdade um edifício do tempo dos Cruzados, mas que os peregrinos identificam com a pousada da parábola, um peregrino medieval gravou em latim estas palavras: «Ainda que sacerdotes e levitas passem ao lado da tua angústia, fica a saber que Cristo é o Bom Samaritano, que terá compaixão de ti, e, na hora da tua morte, te conduzirá à pousada eterna».

8. «Amarás!», é quanto responde o doutor, lendo a Lei de Deus (Lucas 10,27), que não está longe de ti: está na tua boca e no teu coração (Deuteronómio, 30,10-14).

António Couto

4 respostas a AMARÁS, AMARÁS, AMARÁS!

  1. Sérgio Cabral diz:

    “Tudo envolto num gritante silêncio.”
    Esta expressão recorda-nos o gritante silêncio de Abel e o de tantas vítimas de injustiça que vivem entre nós, no mundo de hoje. Particularmente, quero recordar a estudante paquistanesa Malala Yousufzai, de apenas 16 anos, que foi homenageada há dias nas Nações Unidas como símbolo da educação para todas crianças paquistanesas, nove meses depois de ter sido baleada na testa por talibãs.
    No seu discurso, disse que os talibãs achavam que a silenciavam pela força das balas, mas deste silêncio, diz ela, “saíram milhares de vozes”. E contrapõe às armas das balas, as armas dos livros e das canetas, que são “as armas mais poderosas que existem”.
    São estas as armas que também nós devemos utilizar para fazer ecoar em cada coração o silêncio gritante de tantos irmãos.

    Discurso completo de Malala em: http://www.youtube.com/watch?v=B5X70VyjU0g

    Um abraço!
    Sérgio Cabral

  2. Maria Helena Gonçalves diz:

    Senhor D. António,

    Contemplo e rezo este 2º quadro ilustrativo do caminho e do modo de caminhar do “ser discípulo”, iniciado no domingo passado… Saboreio ” o amor pessoal, eivado de afecto e de gestos de carinho activo e criativo deste SAMARITANO, totalmente debruçado sobre os outros e para os outros, interessando-se até sobre o seu futuro e provocando outros a entrar nesta dinâmica nova cheia de amor novo.”
    E pergunto-me?Deixo-me provocar e implico-me nesta dinâmica de amor novo? Por que estradas e a que bermas me leva o samaritano? ( «Cuida tu dele!»). E de quem me aproximo obedecendo (ouvindo bem…) e seguindo Jesus? («Vai e faz tu!»).

    Sinto que são estes gestos de carinho activo e criativo, que alimentam o “rio da alegria” ( do domingo passado) capaz de refrescar e curar as feridas deste mundo triste e dormente, anestesiado…

    Bom domingo!
    Maria Helena

  3. adriana pizzuto diz:

    AGRADECERE SIEMPRE A DIOS, MESA DE PALABRAS, AQUI EN MADRID HAY MUCHA GENTE QUE SE BENEFICIA DE ELLA. MUCHISIMAS GRACIAS EN NOMBRE TAMBIEN DE LOS QUE NO LO SABEN PERO SI RECIBEN SU CONTENIDO SIMPLE Y PROFUNDO. .

  4. António diz:

    Olá, D. António Couto.
    A parábola do samaritano é uma extraordinária lição de amor pelo
    próximo.DEUS também se revela nas pessoas, por isso quando elas
    precisam de ajuda,não pensemos nos incómodos,nas chatices,vamos salvá-lá.Hoje é ela, amanhã podemos ser nós.amaremos de verdade o
    nosso próximo.
    Obrigado D. António pelas suas palavras,que também são revelação de
    DEUS.
    Um abraço.

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