MISERICÓRDIA DE VERDADE

Agosto 31, 2013

 

1. Imaginemos o final de uma manhã de verão batida por um vento quente, e que se está a celebrar um casamento hebraico com um número elevado de convidados que se empurram uns outros à volta da tenda nupcial, sob a qual, na presença do rabino, o noivo introduz o anel no dedo da noiva, enquanto profere a fórmula do Talmud: «Com este anel, ficas-me consagrada segundo a Lei de Moisés e de Israel». Seguir-se-á a leitura e a assinatura da ketubah, o documento legal que garante os direitos e os deveres dos cônjuges.

 2. Ali ao lado, as mesas aguardam os convidados para o almoço festivo. Alguns já, entretanto, começaram a ocupar os lugares mais propícios à fotografia de jet-set com lugar assegurado nas primeiras páginas dos jornais do dia seguinte, enquanto outros procuram aproximar-se o mais possível dos esposos para, depois da oração das sete bênçãos rituais a Deus por ter criado a maravilha do amor humano, poderem assistir ao gesto de quebrar um copo de vinho, que é um gesto muito popular e significativo, que pretende recordar aos jovens esposos que ninguém, nem sequer dois jovens enamorados e felizes, conhecerá sempre uma alegria plena que nunca seja visitada por laivos de tristeza e dor.

 3. O cenário descrito pode servir para situar o Evangelho deste Domingo XXII do Tempo Comum com Jesus a esquadrinhar aquelas faces oxidadas pela mentira e toldadas por latas e latas de tinta e montes e montes de aparências. E a partir das hipocrisias que se cruzam diante dos seus olhos, Jesus adverte os convidados: «Procurai os últimos lugares!», muito na linha da multissecular sabedoria de Israel: «Não te vanglories diante do rei,/ nem ocupes o lugar dos grandes,/ pois é melhor pata ti que te digam: “Sobe para aqui!”,/ do que seres humilhado diante de um nobre» (Provérbios 25,6-7).

 4. E, voltando-se depois para o fariseu que o tinha convidado, Jesus desequilibra-lhe a maneira mundana de ver e de fazer, e põe-lhe diante dos olhos a assimetria do Reino de Deus: «Quando deres um banquete, não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos». Por esta lógica simétrica [hoje convido-te eu a ti; amanhã convidas-me tu a mim], os pobres ficam sempre de fora! A assimetria do Reino de Deus vira tudo do avesso e ao contrário: «convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos, e serás feliz por eles não terem com que te retribuir» (Lucas 14,14). É por esta brecha de GRAÇA aberta no nosso quotidiano, que entra Deus e o mundo novo de Deus, diz Jesus.

 5. A literatura talmúdica põe-nos esta assimetria da bondade diante dos olhos do modo mais radical possível, quando fala da «misericórdia da verdade» a prpósito do sepultamento de um cadáver de que nenhum familiar próximo do defunto pôde ou quis ocupar-se. Diz o Talmud: «Se o Sumo Sacerdadote, quando se dirige para o Templo para celebrar o Yôm Kippûr, se vem a deparar com o cadáver, não deve hesitar em “tornar-se impuro” no contacto com o cadáver, porque a “misericórdia da verdade” prevalesce sobre a liturgia do Yôm Kippûr». O que faz, neste caso, o Sumo Sacerdate é símbolo de uma misericórdia absolutamente gratuita, pois o morto nada pode retribuir-lhe. Este acto de misericórdia quebra todos os cadeados do círculo encantado do nosso «eu», e abre-nos para a verdadeira imitação de Deus.

 6. Aí está outra vez a ecoar a velha e assimétrica sabedoria de Israel: «Quanto mais importante fores, mais deves humilhar-te,/ para achares graça diante do Senhor […]. A água apaga a chama,/ a esmola apaga os pecados» (Ben Sirá 3,20 e 30). É fazendo assim, diz bem a Carta aos Hebreus, que vos aproximais de Deus, de Jesus, dos santos e de milhões de anjos reunidos em festa» (Hebreus 12,22-24).

 7. Não nos esqueçamos que «dar esmola» (eleêmosýnê) é «fazer GRAÇA» (eleêô). É, portanto, imitar Deus, a quem rezamos ou cantamos: Kýrie eléêson [= «Senhor, faz-nos GRAÇA»], isto é, embala-nos nos teus braços maternais e olha para nós com um olhar maternal.

 8. Em Jesus, a GRAÇA é acessível a todos, pois Ele olha com olhos de GRAÇA para todos: ricos e pobres, justos e pecadores, sãos e doentes. Também para os fariseus. Note-se que o Evangelho de Lucas, que é o Evangelho da GRAÇA de Deus aberto para todos, é o único a pôr Jesus por três vezes à mesa com fariseus (veja-se 7,36; 11,37; 14,1).

António Couto

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NÓS, QUE NOS CONSIDERÁVAMOS DENTRO E SEGUROS…

Agosto 24, 2013

1. A profecia de Isaías (66,18-21), hoje lida, rompe os nossos estreitos e falsos privilégios e alarga em muito a estrada da salvação, pondo todos os povos, como nossos irmãos, festivamente a caminho de Jerusalém, cidade da fraternidade e da paz! Enfim, aí está de novo a fechar o Livro de Isaís a ideia grande de missão: urge levar a glória de Deus às nações (verdadeira dimensão missionária do Povo de Deus), em vez de nos deixarmos seduzir pela glória das nações (Isaías 66,19)! E a ideia revolucionária de alargar o sacerdócio, para além das cerradíssimas fronteiras sadoquitas e levíticas, para todas as nações (Isaías 66,21), refina, de certo modo, a comunidade do culto já entretanto aberta, para espanto nosso, a eunucos e estrangeiros (Isaías 56,3-7)! Sempre para espanto nosso, o grande Isaías tinha já posto Deus a pronunciar a seguinte bênção: «Bendito o meu povo, o Egipto, e a Assíria, obra das minhas mãos, e Israel, minha herança» (19,25). E já antes, no cântico de Sião do Capítulo 2,2-3, Isaías põe todas as nações a caminho de Jerusalém, para aí experimentarem a alegria de saborear, como filhos e irmãos, o pão de Palavra de Deus. E o profeta aproveita esta imensa procissão de esperança para gritar aos ouvidos dos seus concidadãos: «Vem, Casa de Jacob, vem, caminhar na luz do Senhor!» (Isaías 2,5).

 2. Também a palavra do Evangelho proclamado neste Domingo XXI (Lucas 13,22-30) se dirige fortemente a NÓS, os que nos consideramos de dentro, e continua a desconcertar a nossa miopia no que às coisas de Deus diz respeito. «Comemos e bebemos contigo», «ouvimos os teus ensinamentos» (Lucas 13,26)! É como quem diz: frequentámos a Igreja e os sacramentos, comungámos tantas vezes, ouvimos proclamar a tua palavra, conhecemos-te muito bem, somos praticantes de longa data e até talvez… beatos!

 3. Ficaremos espantados quando percebermos bem que os títulos que orgulhosamente ostentamos são falsos, há muito caducados, e não garantem o acesso a lugar nenhum no banquete do Reino dos Céus, pois não basta dizer «Senhor, Senhor!». É preciso «fazer a vontade do meu Pai que está nos céus!», diz-nos Jesus (Mateus 7,21).

 4. Salta à vista que o texto de Lucas 13,22-30 se divide claramente em duas partes; Lucas 13,22-24 e Lucas 13,25-30. A primeira parte abre com o aceno ao caminho crucial de Jesus, que, desde Lucas 19,51, se dirige sem hesitação para Jerusalém. Lucas 13,22 apresenta-nos a segunda menção deste caminho para Jerusalém. É neste contexto do caminho, que surge a nossa pergunta: «Senhor, é pequeno o número dos que se salvam?» (Lucas 13,23). Como é seu hábito, Jesus não responde directamente «sim» ou «não». Em vez disso, deixa uma forte interpelação (Lucas 13,24) e conta uma parábola (Lucas 13,25-30).

 5. Eis a interpelação: «Lutai com todas as forças (verbo agonízô) por entrar pela porta estreita» (Lucas 13,24). O verbo empregado (agonízô) implica luta e empenho extremo, não assim assim. A parábola é ainda mais desconcertante para nós. É mesmo tão desconcertante, que corremos o risco de nem sequer levarmos a sério o que ouvimos. Da porta estreita, Jesus passa para a casa e para o dono da casa que fecha a porta (Lucas 13,25). E, pelos vistos, nós não estamos dentro da casa, estamos fora, a bater à porta e a gritar: «Senhor, abre-nos!». E, de dentro, vem a resposta do dono da casa: «Não vos conheço!» (Lucas 13,25).

 6. Ao contrário, e para novo e ainda maior espanto nosso, NÓS, de fora, veremos a casa cheia de gente que vem de longe, do norte, do sul, do nascente e do poente. E perguntaremos atravessados por um último espanto: então, NÓS, que somos padres, sacristães, ministros da comunhão, catequistas, acólitos, leitores, membros do conselho económico, do conselho pastoral, do gupo coral e não sei de quantas irmandades, NÓS, que estávamos sempre do lado de dentro, como é que agora estamos do lado de fora?! Então, e estes desconhecidos, pagãos, não praticantes, que antes tinham de nos pedir licença para entrar, como é que agora estão lá dentro, e nós cá fora?!

 7. A razão é clara: o dono da casa não nos conhece (Lucas 13,25). Reside, então, aqui o problema. Estamos tantas vezes dentro das igrejas, tagarelamos uns com uns com os outros, ocupamos ciosamente os nossos lugares, mas será que prestamos alguma atenção ao dono da casa? Será que chegamos a dar pela Presença que habita aquela Casa e que dá sentido à nossa vida? Falamos com Ele? Fazemos com Ele aquele caminho crucial?

 8. É neste caminho que acontecem coisas importantes, e não podemos andar nele distraídos, inactivos, de braços caídos. A página de Mateus 25 explicita bem o tom do Evangelho de hoje: «Afastai-vos de MIM (…), pois tive fome e não ME destes de comer, tive sede e não ME destes de beber, era estrangeiro e não ME acolhestes, nu e não ME vestistes, estive doente e na prisão e não ME visitastes. (…) Em verdade vos digo: cada vez que não o fizestes a UM (hení) destes, os mais pequenos, também a MIM o NÃO FIZESTES”» (Mateus 25,42-43.45).

 9. Salta à vista que é urgente começar AGORA a compreender que é preciso validar, com a vida, o bilhete que dá acesso à mesa do Reino dos Céus. A compreender e a fazer. É a inacção que nos desclassifica. Jesus manda-nos lutar: «Lutai com todas as forças, até agonizar (verbo agonízô), por entrar pela porta estreita» (Lucas 13,24). Podemos ouvi-lo, de outra maneira, da boca de Pedro em Cesareia Marítima: «Na verdade, Deus não faz acepção de pessoas, mas em qualquer nação, quem o teme e pratica a justiça é bem aceite por Ele» (Actos dos Apóstolos 10,34-35).

 10. Hoje, como sempre, é de santos e de justos que o nosso mundo precisa. Deles é o Reino dos Céus. E NÓS? Eles não perdem tempo em acudir às necessidades dos seus irmãos, sejam eles quem forem. E NÓS? Alguém dizia, não há muito tempo, que «os cristãos meramente praticantes estão em fim de linha. Hoje, precisamos de cristãos enamorados!». O cristão meramente praticante é aquele que está sempre a dizer: «Posso estar descansado: hoje cumpri todos os meus deveres». O cristão enamorado é aquele que não pára de dizer: «Sim, fiz alguma coisa; mas ainda tenho tanta coisa para fazer!».

 11. Lutai com todas as vossas forças em todos os momentos. A porta é estreita e está aberta pouco tempo. É o espaço e o tempo da nossa vida. Sede cristãos enamorados! E não vos esqueçais que o amor verdadeiro (agápê) é uma luta (agôn), sendo que agápê e agôn têm a mesma etimologia.

António Couto


O BAPTISMO ESCREVE-SE COM SANGUE, NÃO COM TINTA

Agosto 17, 2013

 

1. Abre assim a extraordinária lição do Evangelho deste Domingo XX do Tempo Comum (Lucas 12,49-57): «O fogo Eu vim trazer sobre a terra, e como Eu desejo que já tivesse sido aceso (anêphthê: aoristo passivo de anáptô)! Tenho um baptismo para ser baptizado, e como estou sob stress (synéchômai) até que ele seja consumado (telesthê: aoristo conjuntivo passivo de teléô [= levar à perfeição]»! (Lucas 12,49-50). Um claro paralelismo sinonímico, assente em dois passivos divinos ou teológicos. Fogo ainda por acender, baptismo ainda por receber. Não é, portanto, o baptismo do Jordão. Esse ficou já para trás. Trata-se, isso sim, de levar à perfeição a missão filial baptismal recebida no baptismo do Jordão, que será cumprida no baptismo da Cruz Gloriosa com a Dádiva do fogo do Espírito Santo a todos nós! Digamo-lo uma vez mais: no decurso da sua vida terrena, embora possuísse o Espírito Santo em plenitude, Jesus ainda não o podia dar a nós, pois ainda não tinha sido glorificado (João 7,39).

 2. Não é, pois, de um vulgar incêndio que se trata. Este fogo é novo! Não é nosso. É de Deus. Vem de Deus. Mas arde e queima e opera dentro de nós, como um bisturi de dois gumes, até dividir alma e espírito, junturas e medulas, e julga mesmo as considerações e intenções do coração (Hebreus 4,12). É a própria Palavra de Deus que é como um fogo (Jeremias 23,29). Veja-se o coração a arder dos dois discípulos de Emaús (Lucas 24,32). Veja-se a sarça que ardia e não se consumia, mas chamava por Moisés (Êxodo 3,2-4). Veja-se o fogo que arde no coração e nos ossos de Jeremias, e que ele não consegue apagar (Jeremias 20,9).

 3. O baptismo é um lume que alumia e queima e prepara para a luta do amor (agôn tês ágapês). Agôn [= luta]e agápê [= amor] têm a mesma etimologia. Vê-se, portanto, até etimologicamente, que o amor é uma luta que implica decisões todos os dias e a todas as horas. Sim, biblicamente, o amor não é um estado mais ou menos romântico ou idílico que se sofre, mas uma catadupa de decisões que temos de tomar. É preciso mesmo decidir amar os inimigos. Entenda-se bem: «amar», não «matar». Por isso, Jesus não veio trazer a paz angélica, mas a divisão (Lucas 12,51) ou a espada, como refere bem o paralelo de Mateus 10,34. Sim, para quem ama verdadeiramente, nada pode ser indiferente ou equivalente. Cada momento tem de deixar marcas, pois implica decisões e incisões.

 4. E o baptismo de Jesus (e o nosso) coloca-nos também no caminho duro da decisão que é incisão, do sangue e do combate. O baptismo é, na verdade, uma imersão na morte de Cristo (Romanos 6,3), e não nas «claras, frescas, doces águas» idílicas, como acontecia nos rituais baptismais greco-romanos de fecundidade do deus Pã, ou nas múltiplas imersões de purificação que ao tempo de Jesus se cumpriam na comunidade de Qumran. Corramos, pois, com paciência (hypomonê) para o combate (agôn) (Hebreus 12,1), pois ainda não resistimos até ao sangue no combate (agôn) contra o pecado (Hebreus 12,4), assim nos será dado ouvir hoje no sermão da Carta aos Hebreus.

 5. Um episódio da vida do poeta russo Serghei Esenin (1895-1925) ajuda a ilustrar melhor o carácter combativo do nosso baptismo e do caminho crucial da vida cristã. À beira do suicídio, o poeta refugia-se num quarto de um albergue desconhecido. Mas adveio-lhe, nesse instante, do fundo da alma a vontade irresistível de escrever uma última poesia. Porém, no albergue não havia tinta. É assim que Esenin faz uma incisão, um corte, no braço, e escreve com o próprio sangue o seu último poema. Serve o episódio mencionado apenas para percebermos que só com o próprio sangue, isto é, com a nossa vida, podemos escrever a nossa adesão ao Reino de Deus. E o nosso baptismo não pode ficar apenas registado com tinta em algum poeirento arquivo paroquial. Temos de o escrever com o nosso próprio sangue, no dia-a-dia.

 6. Sim, o tom combativo que enche a página do Evangelho de Lucas não se refere aos últimos tempos. Não está para vir. É no nosso dia-a-dia que se trava este combate. São coisas «deste tempo» (kairós) (Lucas 12,56), em que vivemos, e que devemos saber ler. Sintomaticamente, sabemos ler os sinais atmosféricos e metereológicos do tempo segmentado (chrónos) que vivemos. Mas temos dificuldade o kairós, que é o nosso tempo segmentado (chrónos) inundado pela enchente da Palavra de Deus, pela graça da Presença do próprio Deus, a que temos de responder agora, e não podemos não responder ou adiar a resposta.

 7. Jeremias, de cuja profecia ouvimos hoje um extracto (38,4-10), é bem o ícone incandescente das lutas sem fim em defesa da Palavra de Deus. Quer quando tem pela frente o tirano Joaquim (609-598), o troca tintas Sedecias (597-587), os militares, a aristocracia, a sua família, o povo em geral.

António Couto


ASSUNÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA

Agosto 14, 2013

 

1. Ainda que com títulos diferentes, mas com temas e conteúdos idênticos, as Igrejas do Oriente e do Ocidente, portanto a Igreja inteira, a Una e Santa, celebra no dia 15 de Agosto a maior e mais antiga festa da Mãe de Deus, a Virgem Santa Maria. No Oriente, é a festa da «Dormição» (koímêsis), enquanto que, no Ocidente, prevalece a tonalidade da «Assunção» (análêmpsis).

 2. O Evangelho deste grande Dia relata o belíssimo episódio da «Visitação» (Lucas 1,39-45) seguido do cântico da «Exultação» ou «Magnificat» (Lucas 1,46-56). Note-se outra vez uma pequena diferença de tonalidade: o episódio que o Ocidente conhece por «Visitação», recebe no Oriente o nome de «Saudação» (aspasmós). E o episódio que precede e motiva esta «Visitação» ou «Saudação» recebe no Ocidente o nome de «Anunciação» e no Oriente o nome de «Evangelização» (euangelismós) (Lucas 1,26-38). Verdadeiramente é a Leveza e a Alegria em trânsito, a caminho, ao ritmo do vento do Espírito, música nova, inefável e bendita. Vinda de Deus até Maria, até Isabel, até João Baptista, outra vez até Deus. Lembra uma pequena parábola rabínica que, quando David andava fugido de Saul, buscando refúgio nas montanhas (1 Samuel 22 e seguintes), um dia dependurou a sua harpa numa árvore, e adormeceu. Mas o vento, passando, fez vibrar as cordas da harpa e exalar uma suave melodia. Verdadeira música do Espírito.

 3. É igualmente sugestiva a intuição dos Mestres judaicos, registrada por Martin Buber nos seus «Contos dos Justos». Citando o Salmo 147,1, em que se lê: «É bom cantar ao nosso Deus», Buber apresenta logo a bela interpretação que Rabbí Elimelek dava deste versículo: «É bom se o homem faz cantar Deus nele». Música divina. Assim Maria correndo sobre os montes e saudando Isabel e cantando as maravilhas de Deus no Magnificat, assim Isabel bendizendo Maria e bendizendo Deus, assim João Baptista, dançando ao som dessa nova música inefável, no ventre de Isabel.

 4. Maria correndo sobre os montes: feliz evocação do mensageiro de boas notícias de Isaías 52,7: «Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia boas novas a Sião…»; evocação também do amado do Cântico dos Cânticos 2,8, assim cantado pela amada: «A voz do meu amado: ei-lo que vem correndo sobre os montes». Assim, com este simples acorde montanhoso, o narrador e grande retratista do terceiro Evangelho traça o perfil de Maria movida por uma grande notícia e pelo amor. A aclamação de Isabel: «Bendita tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre» = «Bendita tu e bendito Deus» lembra o duplo «Bendito» na aclamação de Judite (13,18). A locução maravilhada de Isabel: «E de onde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor» remete para o atónito dizer de David: «E de onde me é dado que venha ao meu encontro a Arca do Senhor?» (2 Samuel 6,9). E a «dança de João» reclama a dança de David na presença da Arca do Senhor (2 Samuel 6,5.14.16.21). E os «cerca de três meses» de permanência de Maria em casa de Isabel, regressando então a sua casa (Lucas 1,56), não são, como vulgarmente se pensa, para indicar que Maria está presente no nascimento de João Baptista, pois este apenas é narrado no versículo seguinte (Lucas 1,57). É, antes, outra vez o acerto com a Arca do Senhor, que permanece três meses na casa de Obed-Edom (2 Samuel 6,11). Os acordes textuais evidentes mostram Maria como a Arca da Aliança, como, de resto, é aclamada pelo Povo de Deus na sua litania de Maria.

 5. O que verdadeiramente me extasia e inebria é esta música outra, ventilando as cordas do nosso humano, e quase sempre orgulhoso, coração. Vem outra vez a propósito a velha sabedoria judaica, que nos legou esta bela pequena história: «Conta-se que, quando David terminou o Livro dos Salmos, se sentiu muito orgulhoso. Então disse para Deus: “Senhor do mundo, quem de entre todos os seres que criaste, canta melhor do que eu a tua glória?” Naquele momento, apareceu uma rã que lhe disse: “David, não te envaideças. Eu canto melhor do que tu a glória de Deus”» (Sefer ha-Haggadah, 89b).

 6. Pela Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, de 1 de Novembro de 1950, o Papa Pio XII proclamava a Assunção da Virgem Maria como dogma de fé. Mas é desde os primeiros séculos do Cristianismo que o Povo de Deus proclama e vive com amor esta realidade. Quantas igrejas, paróquias e dioceses a têm como Padroeira! E, neste particular, este recanto Peninsular, terra de Santa Maria, não podia ser excepção. O Povo de Deus desde muito cedo aclamou a Assunção de Maria, Mãe de Deus e esperança da nossa frágil humanidade.

 7. Um lugar guarda esta memória em Jerusalém. É preciso descer ao vale que corre a Oriente da cidade, o famoso vale do Cédron. Deixando à direita o Getsémani com as suas oliveiras seculares e a Basílica da Agonia de Jesus, muito próximo da Gruta dos Apóstolos ou da Prisão de Jesus, chega-se a um pátio pavimentado que dá para uma monumental fachada, que é o que resta de uma grande Igreja aí construída pelos Cruzados. Por detrás dessa fachada, estende-se uma escadaria que nos leva a uma cripta situada nas entranhas do vale do Cédron. É esta cripta que guarda um túmulo do século I, que a tradição cristã identifica com o túmulo de Maria, em forma de banco escavado na rocha, e que se apresenta bastante degradado devido à tentação dos peregrinos que, ao longo dos tempos, não resistiram a levar consigo um pedacinho da rocha que esteve em contacto com o corpo da «Bendita».

 8. No dia da Solenidade da Assunção, é comovente ver aquela escadaria escura iluminada como um tapete de luz, devido às velas que os fiéis colocam em cada degrau. Conduzindo embora para um túmulo, a sensação que se cria é que aquela escadaria descendente, feita tapete de luz, abre para uma ianua coeli, «porta do céu», como também cantamos na litania de Maria.

 9. No seguimento lógico da Assunção de Maria, a Igreja celebra oito dias depois, em 22 de Agosto, a Memória da Virgem Santa Maria, Rainha, proclamação também devida a Pio XII, através da Carta Encíclica Ad Coeli Reginam, de 11 de Outubro de 1954. Mãe Elevada aos Céus, mas Mãe que vela carinhosamente pelos seus filhos. O Rei e a Rainha não são, na Bíblia, títulos de nobreza, mas traduzem a dupla função de quem deve estar particularmente próximo de Deus e particularmente próximo do povo. Para acolher de perto toda a Palavra que vem do coração de Deus, e para trazer à humanidade a prosperidade, o bem-estar e a felicidade. Tal é a função do Rei e da Rainha.

10. Senhora da Visitação ou da Saudação,
que corres ligeira sobre os montes,
Senhora da Assunção ou da Dormição,
Santa Maria Rainha,
vela por nós, fica à nossa beira.
É bom ter a esperança como companheira.

António Couto


A TRAÇA CORRÓI, A GRAÇA CONSTRÓI

Agosto 10, 2013

 

1. «Não tenhas medo, pequeno Rebanho, porque aprouve (eudokéô) ao VOSSO PAI dar-vos o Reino» (Lucas 12,32). Assim começa o Evangelho deste XIX Domingo Comum, retirado de Lucas 12,32-48. Imensa porta aberta pelo amor do VOSSO PAI. O VOSSO PAI ocupa o centro da frase, o lugar estratégico. E é um PAI que dá a todos e que tem prazer (eudokía). Aprouve é o verbo aprazer. Mas este PAI que dá e tem prazer, que está no centro, articula-se com Rebanho e Reino. Diríamos que, com Rebanho, ficaria melhor o Pastor, e, com Reino, ficaria melhor o Rei. Mas é um PAI com prazer e dom que hifeniza Rebanho e Reino. Entenda-se: o PAI requer o FILHO, a quem dá tudo o que tem e é (Mateus 11,27; João 3,35; 13,3; 17,7), e em quem põe o seu prazer (Lucas 3,22); do mesmo modo, o VOSSO PAI requer os filhos e irmãos. Aí está a melhor tradução da Igreja e da vida cristã.

 2. Cultura nova, sem peias nem prisões. O «pequeno Rebanho» lembra o «pequeno Resto» da literatura profética, que não confia no ódio e na violência, no poder, na mentira e na corrupção, mas põe toda a sua confiança em Deus, no respeito de cada ser humano, na liberdade, na responsabilidade e no amor. Com este PAI NOSSO, que em nós põe o seu prazer e de nós cuida com premura paternal dando-nos tudo, fica mal agarrarmo-nos ciosamente às coisas, fica bem dar de graça, dado que de graça recebemos (Mateus 10,8). Amor novo, coração novo, tesouro novo. A traça só corrói, a graça só constrói!

 3. De rins cingidos e de lâmpadas acesas (Lucas 12,35). Cintura livre. Entenda-se: sem cargas de ouro, prata ou cobre (Mateus 10,9), que era usual o viandante prender à cintura com receio dos ladrões. Leves e iluminados, rasgai a noite como relâmpagos! Estai sempre no umbral do Êxodo e do nascimento novo. Saí para a liberdade! Sair (yatsa’) é o verbo do Êxodo e do nascimento: vida nova, liberdade nova, leve, tenra e terna, sem retorno, rumo à Cidade verdadeira, à Casa grande, aberta e feliz, Casa de Deus, Casa do PAI NOSSO.

 4. Fazei caminho, cantai hinos, servi, servi, servi, sem pausa nem descanso nem sono. Aí está a descoberta da lei divina impressa desde sempre nos nossos corações, e que os caminhantes do Êxodo recitam, segundo a bela lição do Livro da Sabedoria que hoje temos a graça de saborear (Sabedoria 18,6-9). Sim, saborear: os santos partilham tudo, bens e perigos, e cantam os hinos dos seus pais (Sabedoria 18,9). Este partilhar tudo, pôr tudo em comum, aponta já para a beleza da comunidade primitiva de Jerusalém (Actos 2,44), e os hinos dos nossos pais são os Salmos, sobretudo o Hallel da Páscoa (Salmos 114-118 e 136). Mas reclama também a música divina que a embalação dos nossos pais nos transmitiu, e que nos mantém livres pelo tempo fora. Veja-se o belo poema do poeta siciliano Ignazio Buttita: «Um povo/ metei-o na cadeia/ despojai-o/ tapai-lhe a boca:/ é ainda livre.// Tirai-lhe o trabalho/ o passaporte/ a mesa onde come/ a cama onde dorme:/ é ainda rico.// Um povo torna-se pobre/ quando lhe roubam/ as canções/ que aprendeu dos pais.// Então fica perdido para sempre».

 5. A grande homilia que compõe a Carta aos Hebreus, de que hoje nos foi dado ouvir um extracto (Hebreus 11,1-2.8-19), põe diante de nós a figura exemplar de Abraão, que não se agarrou a nada deste chão, mas seguiu sempre os rumos novos e leves de um peregrino assente na fé e na oração.

 6. O Peregrino russo, longo e belo relato escrito na segunda metade do século XIX, que nos revela a bela mística oriental, e que ultimamente também tem sido muito lido no Ocidente, caminhava e rezava, sempre com o nome JESUS no coração e nos lábios. Queria saber o sabor da palavra de Paulo: «Rezai sem cessar» (1 Tessalonicenses 5,17). Aos ombros uma mochila com um pedaço de pão duro, no bolso do casaco uma Bíblia. E ainda partilhava com os pássaros pão e oração. De resto, todas as fontes eram dele, e para elas caminhava devagarinho, devagarinho, como sugere o Principezinho, quando o comerciante lhe quer vender uma pastilha que lhe mata a sede durante uma semana, e o pode levar a poupar 53 minutos!

António Couto


PARA SI MESMO OU PARA DEUS?

Agosto 3, 2013

1. Diz o Tratado Pirqê ’Abôt 2,9, da Mishna judaica, que «o caminho mau de que o homem se deve afastar é pedir emprestado e não restituir», acrescentando logo que «é a mesma coisa receber emprestado de um homem ou de Deus». Comentando este dito da sabedoria judaica, afirma, de forma contundente, o grande filósofo hebreu Abraham Joshua Heschel: «Talvez esteja aqui o núcleo da miséria humana: quando nos esquecemos de que a vida é um dom e também um empréstimo».

2. Servem estes ditos rabínicos para nos conduzir ao extraordinário DIZER e MOSTRAR de Jesus neste XVIII Domingo do Tempo Comum (Lucas 12,13-21): «Vede bem e guardai-vos de toda a GANÂNCIA (pleonexía)» (Lucas 12,15). É fácil de entender o termo grego usado pelo narrador: pleonexía, que aqui traduzimos por ganância, deriva de pléon [= mais] + échô [= ter], e passa, portanto, a ideia clara de desejarmos TER MAIS poder, posse, dinheiro, sucesso, etc… Esta raiz daninha pode tomar de tal modo conta de nós que acaba por minar e envenenar todos os nossos comportamentos. S. Paulo chama, com toda a razão, a este vício da «ganância» ou «avareza», «idolatria» (Colossenses 3,5). É o feitiço ou o fetiche do poder, da posse, da riqueza, do dinheiro, do sucesso, diante dos quais nos prostramos, seguranças enganadoras, falsos sucedâneos de Deus, a que o Evangelho chama MAMONA (mamônã) (Lucas 16,13; cf. Mateus 6,24). De notar que o termo grego mamônãs [= dinheiro, riqueza] deriva, através do aramaico mamôn, da raiz hebraica ’mn, que serve também para dizer a fé (ʽemunah) e a confiança em Deus. É como quem diz que podemos equivocar-nos radicalmente, deixando de pôr a nossa fé e confiança no Deus vivo, para nos agarrarmos aos ídolos mortos e vazios, uma espécie de «espantalhos num campo de pepinos!» (Jeremias 10,5).

3. E, para que tudo fique mais claro, aí vem mais uma história arrasadora de Jesus. «A terra de um HOMEM RICO produziu muito» (Lucas 12,16). E eis o HOMEM RICO, sintomaticamente apresentado em cena SEMPRE SÓ, voltado unicamente para si mesmo, a cogitar CONSIGO MESMO, e a falar apenas CONSIGO MESMO (Lucas 12,17-19).

 4. Diz ele: deitarei abaixo os meus celeiros pequenos, construirei novas infra-estruturas, grandes celeiros, e recolherei lá todo o meu trigo e os meus bens. Depois, direi para MIM MESMO: tens muitos bens acumulados para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te! (Lucas 12,18-19). Assim falou o HOMEM RICO a sós CONSIGO MESMO. Mas agora é a vez de Deus, que lhe diz: «Mentecapto (áphrôn), precisamente esta noite morrerás, e as coisas que acumulaste para quem serão?» (Lucas 12,20). E o narrador conclui: «Assim acontece àquele que acumula PARA SI MESMO e não PARA DEUS» (Lucas 12,21). Note-se o vivo contraste entre aquele para muitos anos, projectado pelo homem rico, e a lâmina impiedosa daquele precisamente esta noite, pronunciado por Deus e que deita a perder a rima de projectos que elaborámos! Note-se também o vivo contraste das duas formas de viver que o texto assinala: para si mesmo e para Deus. Viver para si mesmo é a autorreferencialidade que estiola a vida, de que não se cansa de falar o Papa Francisco. Para Deus impõe uma direcção da nossa vida para fora de nós, para Deus, bem assinalado no texto grego com a expressão eis Theón (Lucas 12,21), que implica movimento para Deus. Na lição do Evangelho do próximo Domingo, Jesus ensinar-nos-á que este para Deus se verifica no para os outros: «Vendei os vossos bens, e dai em esmola» (Lucas 12,33).

 5. Não é suficiente traduzir o termo grego áphrôn por «insensato» ou «estúpido». Áphrôn resulta de phrên [= mente] a que se antepõe o a- (alfa) privativo, pelo que áphrôn indica a falta total de inteligência, um mentecapto, desmiolado, sem-mente.

 6. Olhando atentamente à nossa volta, neste mundo em crise acentuada, veremos depressa (e não é só no futebol) tantos «ricos mentecaptos», que passeiam e planeiam, falam e gastam sozinhos. Onde estão na nossa não-mente os irmãos a quem devemos fazer participar com alegria da nossa riqueza? E, em última análise, a orientação da nossa vida é PARA NÓS MESMOS ou PARA DEUS? Recebemos a vida, os outros, a riqueza como um DOM e um EMPRÉSTIMO, de que devemos responder a cada momento, ou pensamos que somos DONOS de todos e de tudo, registrando logo todos e tudo em nosso nome, nossa propriedade para nosso uso, consumo e satisfação exclusivos? A parábola do rico mentecapto, que acabámos de seguir em Lucas, e que constitui um importante ensinamento de Jesus no caminho, pode muito bem ser vista como o senvolvimento do gérmen sapiencial já registado no Livro de Ben-Sirá 11,18-19: «Há quem enriqueça por GANÂNCIA, e será esta a sua recompensa: quando ele disser: “agora encontrei descanso, agora comerei dos meus bens”, ele não sabe quando virá o dia em que deixará tudo a outros e morrerá».

 7. Temos hoje a ácida e lúcida companhia de Qohelet (1,2; 2,21-23), esse intrigante pregador que nos segue por toda a parte e não cessa de nos ir lembrando que tudo o que fazemos pode afinal não passar de um sopro, fumaça, um vento que passa, um ócio oco e vão, uma soneira. E logo com tanto irmão à nossa beira!

António Couto