A TRAÇA CORRÓI, A GRAÇA CONSTRÓI


 

1. «Não tenhas medo, pequeno Rebanho, porque aprouve (eudokéô) ao VOSSO PAI dar-vos o Reino» (Lucas 12,32). Assim começa o Evangelho deste XIX Domingo Comum, retirado de Lucas 12,32-48. Imensa porta aberta pelo amor do VOSSO PAI. O VOSSO PAI ocupa o centro da frase, o lugar estratégico. E é um PAI que dá a todos e que tem prazer (eudokía). Aprouve é o verbo aprazer. Mas este PAI que dá e tem prazer, que está no centro, articula-se com Rebanho e Reino. Diríamos que, com Rebanho, ficaria melhor o Pastor, e, com Reino, ficaria melhor o Rei. Mas é um PAI com prazer e dom que hifeniza Rebanho e Reino. Entenda-se: o PAI requer o FILHO, a quem dá tudo o que tem e é (Mateus 11,27; João 3,35; 13,3; 17,7), e em quem põe o seu prazer (Lucas 3,22); do mesmo modo, o VOSSO PAI requer os filhos e irmãos. Aí está a melhor tradução da Igreja e da vida cristã.

 2. Cultura nova, sem peias nem prisões. O «pequeno Rebanho» lembra o «pequeno Resto» da literatura profética, que não confia no ódio e na violência, no poder, na mentira e na corrupção, mas põe toda a sua confiança em Deus, no respeito de cada ser humano, na liberdade, na responsabilidade e no amor. Com este PAI NOSSO, que em nós põe o seu prazer e de nós cuida com premura paternal dando-nos tudo, fica mal agarrarmo-nos ciosamente às coisas, fica bem dar de graça, dado que de graça recebemos (Mateus 10,8). Amor novo, coração novo, tesouro novo. A traça só corrói, a graça só constrói!

 3. De rins cingidos e de lâmpadas acesas (Lucas 12,35). Cintura livre. Entenda-se: sem cargas de ouro, prata ou cobre (Mateus 10,9), que era usual o viandante prender à cintura com receio dos ladrões. Leves e iluminados, rasgai a noite como relâmpagos! Estai sempre no umbral do Êxodo e do nascimento novo. Saí para a liberdade! Sair (yatsa’) é o verbo do Êxodo e do nascimento: vida nova, liberdade nova, leve, tenra e terna, sem retorno, rumo à Cidade verdadeira, à Casa grande, aberta e feliz, Casa de Deus, Casa do PAI NOSSO.

 4. Fazei caminho, cantai hinos, servi, servi, servi, sem pausa nem descanso nem sono. Aí está a descoberta da lei divina impressa desde sempre nos nossos corações, e que os caminhantes do Êxodo recitam, segundo a bela lição do Livro da Sabedoria que hoje temos a graça de saborear (Sabedoria 18,6-9). Sim, saborear: os santos partilham tudo, bens e perigos, e cantam os hinos dos seus pais (Sabedoria 18,9). Este partilhar tudo, pôr tudo em comum, aponta já para a beleza da comunidade primitiva de Jerusalém (Actos 2,44), e os hinos dos nossos pais são os Salmos, sobretudo o Hallel da Páscoa (Salmos 114-118 e 136). Mas reclama também a música divina que a embalação dos nossos pais nos transmitiu, e que nos mantém livres pelo tempo fora. Veja-se o belo poema do poeta siciliano Ignazio Buttita: «Um povo/ metei-o na cadeia/ despojai-o/ tapai-lhe a boca:/ é ainda livre.// Tirai-lhe o trabalho/ o passaporte/ a mesa onde come/ a cama onde dorme:/ é ainda rico.// Um povo torna-se pobre/ quando lhe roubam/ as canções/ que aprendeu dos pais.// Então fica perdido para sempre».

 5. A grande homilia que compõe a Carta aos Hebreus, de que hoje nos foi dado ouvir um extracto (Hebreus 11,1-2.8-19), põe diante de nós a figura exemplar de Abraão, que não se agarrou a nada deste chão, mas seguiu sempre os rumos novos e leves de um peregrino assente na fé e na oração.

 6. O Peregrino russo, longo e belo relato escrito na segunda metade do século XIX, que nos revela a bela mística oriental, e que ultimamente também tem sido muito lido no Ocidente, caminhava e rezava, sempre com o nome JESUS no coração e nos lábios. Queria saber o sabor da palavra de Paulo: «Rezai sem cessar» (1 Tessalonicenses 5,17). Aos ombros uma mochila com um pedaço de pão duro, no bolso do casaco uma Bíblia. E ainda partilhava com os pássaros pão e oração. De resto, todas as fontes eram dele, e para elas caminhava devagarinho, devagarinho, como sugere o Principezinho, quando o comerciante lhe quer vender uma pastilha que lhe mata a sede durante uma semana, e o pode levar a poupar 53 minutos!

António Couto

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One Response to A TRAÇA CORRÓI, A GRAÇA CONSTRÓI

  1. António diz:

    Olá, D. António Couto.
    Fé ou medo?
    Estamos assentes na fé e na oração, ou rezamos só para que nada nos aconteça de mal. Há anos, D. António apresentou um questionário para nos ajudar a saber em qual estamos inseridos.

    A Fé é conhecer realidades, que não se vêem.
    Fé é conhecer Deus.
    A Fé é uma resposta á Revelação Divina.
    A Fé é uma relação profunda entre a pessoa e Deus.
    A Fé é uma dádiva de Deus.
    A Fé dá-nos o poder de superar qualquer desafio.
    A Fé verdadeira tem que incluir a esperança e o amor.

    Só quero transmitir aos meus irmãos.
    Um abraço.

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