O BAPTISMO ESCREVE-SE COM SANGUE, NÃO COM TINTA


 

1. Abre assim a extraordinária lição do Evangelho deste Domingo XX do Tempo Comum (Lucas 12,49-57): «O fogo Eu vim trazer sobre a terra, e como Eu desejo que já tivesse sido aceso (anêphthê: aoristo passivo de anáptô)! Tenho um baptismo para ser baptizado, e como estou sob stress (synéchômai) até que ele seja consumado (telesthê: aoristo conjuntivo passivo de teléô [= levar à perfeição]»! (Lucas 12,49-50). Um claro paralelismo sinonímico, assente em dois passivos divinos ou teológicos. Fogo ainda por acender, baptismo ainda por receber. Não é, portanto, o baptismo do Jordão. Esse ficou já para trás. Trata-se, isso sim, de levar à perfeição a missão filial baptismal recebida no baptismo do Jordão, que será cumprida no baptismo da Cruz Gloriosa com a Dádiva do fogo do Espírito Santo a todos nós! Digamo-lo uma vez mais: no decurso da sua vida terrena, embora possuísse o Espírito Santo em plenitude, Jesus ainda não o podia dar a nós, pois ainda não tinha sido glorificado (João 7,39).

 2. Não é, pois, de um vulgar incêndio que se trata. Este fogo é novo! Não é nosso. É de Deus. Vem de Deus. Mas arde e queima e opera dentro de nós, como um bisturi de dois gumes, até dividir alma e espírito, junturas e medulas, e julga mesmo as considerações e intenções do coração (Hebreus 4,12). É a própria Palavra de Deus que é como um fogo (Jeremias 23,29). Veja-se o coração a arder dos dois discípulos de Emaús (Lucas 24,32). Veja-se a sarça que ardia e não se consumia, mas chamava por Moisés (Êxodo 3,2-4). Veja-se o fogo que arde no coração e nos ossos de Jeremias, e que ele não consegue apagar (Jeremias 20,9).

 3. O baptismo é um lume que alumia e queima e prepara para a luta do amor (agôn tês ágapês). Agôn [= luta]e agápê [= amor] têm a mesma etimologia. Vê-se, portanto, até etimologicamente, que o amor é uma luta que implica decisões todos os dias e a todas as horas. Sim, biblicamente, o amor não é um estado mais ou menos romântico ou idílico que se sofre, mas uma catadupa de decisões que temos de tomar. É preciso mesmo decidir amar os inimigos. Entenda-se bem: «amar», não «matar». Por isso, Jesus não veio trazer a paz angélica, mas a divisão (Lucas 12,51) ou a espada, como refere bem o paralelo de Mateus 10,34. Sim, para quem ama verdadeiramente, nada pode ser indiferente ou equivalente. Cada momento tem de deixar marcas, pois implica decisões e incisões.

 4. E o baptismo de Jesus (e o nosso) coloca-nos também no caminho duro da decisão que é incisão, do sangue e do combate. O baptismo é, na verdade, uma imersão na morte de Cristo (Romanos 6,3), e não nas «claras, frescas, doces águas» idílicas, como acontecia nos rituais baptismais greco-romanos de fecundidade do deus Pã, ou nas múltiplas imersões de purificação que ao tempo de Jesus se cumpriam na comunidade de Qumran. Corramos, pois, com paciência (hypomonê) para o combate (agôn) (Hebreus 12,1), pois ainda não resistimos até ao sangue no combate (agôn) contra o pecado (Hebreus 12,4), assim nos será dado ouvir hoje no sermão da Carta aos Hebreus.

 5. Um episódio da vida do poeta russo Serghei Esenin (1895-1925) ajuda a ilustrar melhor o carácter combativo do nosso baptismo e do caminho crucial da vida cristã. À beira do suicídio, o poeta refugia-se num quarto de um albergue desconhecido. Mas adveio-lhe, nesse instante, do fundo da alma a vontade irresistível de escrever uma última poesia. Porém, no albergue não havia tinta. É assim que Esenin faz uma incisão, um corte, no braço, e escreve com o próprio sangue o seu último poema. Serve o episódio mencionado apenas para percebermos que só com o próprio sangue, isto é, com a nossa vida, podemos escrever a nossa adesão ao Reino de Deus. E o nosso baptismo não pode ficar apenas registado com tinta em algum poeirento arquivo paroquial. Temos de o escrever com o nosso próprio sangue, no dia-a-dia.

 6. Sim, o tom combativo que enche a página do Evangelho de Lucas não se refere aos últimos tempos. Não está para vir. É no nosso dia-a-dia que se trava este combate. São coisas «deste tempo» (kairós) (Lucas 12,56), em que vivemos, e que devemos saber ler. Sintomaticamente, sabemos ler os sinais atmosféricos e metereológicos do tempo segmentado (chrónos) que vivemos. Mas temos dificuldade o kairós, que é o nosso tempo segmentado (chrónos) inundado pela enchente da Palavra de Deus, pela graça da Presença do próprio Deus, a que temos de responder agora, e não podemos não responder ou adiar a resposta.

 7. Jeremias, de cuja profecia ouvimos hoje um extracto (38,4-10), é bem o ícone incandescente das lutas sem fim em defesa da Palavra de Deus. Quer quando tem pela frente o tirano Joaquim (609-598), o troca tintas Sedecias (597-587), os militares, a aristocracia, a sua família, o povo em geral.

António Couto

2 respostas a O BAPTISMO ESCREVE-SE COM SANGUE, NÃO COM TINTA

  1. adriana pizzuto. Madrid diz:

    QUE LOS CRISTIANOS LUCHEMOS EN EL AMOR VERDADERO Y POR EL AMOR VERDADERO, DESIDIENDO UNA ADHESION VIVA Y NOVEDOSA QUE VIENE DEL SEÑOR DIARIAMENTE EN LA ESCUCHA DE SU VOLUNTAD. OREMOS . MUCHAS GRACIAS POR GUIARNOS, SEÑOR OBISPO COUTO, SIEMPRE AGRADECIDA Y ESPERANDO SUS REFLEXIONES ME DESPIDO EN UN IMPAZ EXPECTANTE Y SERENO. adriana

  2. agraciada diz:

    A frescura das suas palavras faz-nos ansiar o calor dessa luta que é amor.
    Como uma filha a implorar ao seu pai, como um servo a implorar ao seu senhor, lhe peço António Couto, ajude-nos sempre a contemplar a beleza da PALAVRA.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: