MISERICÓRDIA DE VERDADE


 

1. Imaginemos o final de uma manhã de verão batida por um vento quente, e que se está a celebrar um casamento hebraico com um número elevado de convidados que se empurram uns outros à volta da tenda nupcial, sob a qual, na presença do rabino, o noivo introduz o anel no dedo da noiva, enquanto profere a fórmula do Talmud: «Com este anel, ficas-me consagrada segundo a Lei de Moisés e de Israel». Seguir-se-á a leitura e a assinatura da ketubah, o documento legal que garante os direitos e os deveres dos cônjuges.

 2. Ali ao lado, as mesas aguardam os convidados para o almoço festivo. Alguns já, entretanto, começaram a ocupar os lugares mais propícios à fotografia de jet-set com lugar assegurado nas primeiras páginas dos jornais do dia seguinte, enquanto outros procuram aproximar-se o mais possível dos esposos para, depois da oração das sete bênçãos rituais a Deus por ter criado a maravilha do amor humano, poderem assistir ao gesto de quebrar um copo de vinho, que é um gesto muito popular e significativo, que pretende recordar aos jovens esposos que ninguém, nem sequer dois jovens enamorados e felizes, conhecerá sempre uma alegria plena que nunca seja visitada por laivos de tristeza e dor.

 3. O cenário descrito pode servir para situar o Evangelho deste Domingo XXII do Tempo Comum com Jesus a esquadrinhar aquelas faces oxidadas pela mentira e toldadas por latas e latas de tinta e montes e montes de aparências. E a partir das hipocrisias que se cruzam diante dos seus olhos, Jesus adverte os convidados: «Procurai os últimos lugares!», muito na linha da multissecular sabedoria de Israel: «Não te vanglories diante do rei,/ nem ocupes o lugar dos grandes,/ pois é melhor pata ti que te digam: “Sobe para aqui!”,/ do que seres humilhado diante de um nobre» (Provérbios 25,6-7).

 4. E, voltando-se depois para o fariseu que o tinha convidado, Jesus desequilibra-lhe a maneira mundana de ver e de fazer, e põe-lhe diante dos olhos a assimetria do Reino de Deus: «Quando deres um banquete, não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos». Por esta lógica simétrica [hoje convido-te eu a ti; amanhã convidas-me tu a mim], os pobres ficam sempre de fora! A assimetria do Reino de Deus vira tudo do avesso e ao contrário: «convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos, e serás feliz por eles não terem com que te retribuir» (Lucas 14,14). É por esta brecha de GRAÇA aberta no nosso quotidiano, que entra Deus e o mundo novo de Deus, diz Jesus.

 5. A literatura talmúdica põe-nos esta assimetria da bondade diante dos olhos do modo mais radical possível, quando fala da «misericórdia da verdade» a prpósito do sepultamento de um cadáver de que nenhum familiar próximo do defunto pôde ou quis ocupar-se. Diz o Talmud: «Se o Sumo Sacerdadote, quando se dirige para o Templo para celebrar o Yôm Kippûr, se vem a deparar com o cadáver, não deve hesitar em “tornar-se impuro” no contacto com o cadáver, porque a “misericórdia da verdade” prevalesce sobre a liturgia do Yôm Kippûr». O que faz, neste caso, o Sumo Sacerdate é símbolo de uma misericórdia absolutamente gratuita, pois o morto nada pode retribuir-lhe. Este acto de misericórdia quebra todos os cadeados do círculo encantado do nosso «eu», e abre-nos para a verdadeira imitação de Deus.

 6. Aí está outra vez a ecoar a velha e assimétrica sabedoria de Israel: «Quanto mais importante fores, mais deves humilhar-te,/ para achares graça diante do Senhor […]. A água apaga a chama,/ a esmola apaga os pecados» (Ben Sirá 3,20 e 30). É fazendo assim, diz bem a Carta aos Hebreus, que vos aproximais de Deus, de Jesus, dos santos e de milhões de anjos reunidos em festa» (Hebreus 12,22-24).

 7. Não nos esqueçamos que «dar esmola» (eleêmosýnê) é «fazer GRAÇA» (eleêô). É, portanto, imitar Deus, a quem rezamos ou cantamos: Kýrie eléêson [= «Senhor, faz-nos GRAÇA»], isto é, embala-nos nos teus braços maternais e olha para nós com um olhar maternal.

 8. Em Jesus, a GRAÇA é acessível a todos, pois Ele olha com olhos de GRAÇA para todos: ricos e pobres, justos e pecadores, sãos e doentes. Também para os fariseus. Note-se que o Evangelho de Lucas, que é o Evangelho da GRAÇA de Deus aberto para todos, é o único a pôr Jesus por três vezes à mesa com fariseus (veja-se 7,36; 11,37; 14,1).

António Couto

3 respostas a MISERICÓRDIA DE VERDADE

  1. António Castanheira diz:

    Gostei e adoro as suas excelentes reflexões que muito
    me ajudam em termos de oração e meditação.Esperamos que nunca deixe este grande trabalho em prol dos cristãos e da Igreja.
    António Castanheira

  2. António diz:

    Olá, D. António Couto.
    O humilde tem sempre o ouvido atento á palavra de Deus, ouve
    sempre com alegria. E encontrará Graça perante o Senhor.
    Obrigado por este Evangelho da graça de Deus, e que corra bem a festa em honra da Senhora dos Remédios.
    Um abraço.

  3. Ana Maria Carvalho Fonseca diz:

    Boa noite, D. António Couto
    Ainda a descobrir as suas reflexões. Esta tocou-me profundamente, porque sublinha, com mestria, dois aspectos tão “incrustados” nas pessoas, em geral: a hipocrisia e a falta de humildade.Tocou, talvez, nas feridas mais profundas da sociedade. Depois, mostra-nos como Jesus exaltou a humildade. De facto, Jesus é desconcertante quando recomenda ao fariseu que o tinha convidado: «Quando deres um banquete, não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos». Jesus disse que devemos acarinhar os pobres, aqueles que nunca nos poderão convidar para o banquete. É esse o caminho a seguir, caros irmãos em Cristo. Muito obrigada, Sr. D. António Couto, por no-lo lembrar.
    Ana Maria

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