COM UM NÓ CEGO NO CORAÇÃO OU SOB O PÁLIO DE DEUS?


 

1. Depois da semente pequenina, pequenina, que é a fé, e que pode virar do avesso a nossa vida, depois do samaritano leproso curado, agradecido a Jesus e salvo, eis-nos, neste Domingo XXIX do Tempo Comum, perante uma viúva desprotegida no campo social, económico e jurídico, mas persistente no seu clamor por justiça.

 2. A Bíblia insiste que ninguém deve afligir ou menosprezar uma viúva ou um órfão, pois se o fizer, e se a viúva ou o órfão gritarem a Deus, o seu grito será escutado e os seus opressores duramente castigados (Êxodo 22,21-23). Juntamente com o estrangeiro e o pobre, a viúva e o órfão fazem parte do rol das chamadas personae miserabiles, pessoas miseráveis, sem protecção social, económica ou jurídica, mas que, para sua defesa, podem contar sempre com a mão protectora de Deus, que sobre elas coloca o seu manto protector ou pálio.

 3. A impressão da pobre viúva do Evangelho de hoje (Lucas 18,1-8) é que o seu pedido esbarra contra uma porta fechada, que tem por detrás o coração fechado com nó cego de um juiz agnóstico, portanto, sem Deus, e insensível, incapaz de se condoer com as dores seja de quem for. O retrato que dele faz o narrador mostra-nos um juiz fechado a Deus e aos homens, que ostenta um coração empedernido, e não um «coração que vê», para usar a bela expressão do Papa Bento XVI.

 4. Sem nunca abrir a porta ou o coração aos apelos da viúva, o juiz de coração fechado com nó cego acaba, todavia, por ceder aos gritos persistentes da viúva, não porque o seu coração se tenha amaciado ou o nó cego desatado, mas para se ver livre do incómodo causado pelos gritos persistentes da viúva.

 5. Do menor para o maior, à boa maneira rabínica. Se assim faz o juiz de coração fechado com nó cego, quanto mais e mais depressa fará Deus aos seus eleitos que a Ele gritam dia e noite?

 6. Note-se que o narrador nos dá a chave logo no início, para podermos abrir a parábola e entrar na sua correcta compreensão. Na verdade, introduz-nos assim na parábola: «Disse-lhes uma parábola sobre a necessidade de REZAR sempre, sem descanso» (Lucas 18,1). E no final insiste nos eleitos que gritam a Deus dia e noite (Lucas 18,7). Rezar com persistência. Não tanto para que Deus faça agora o que lhe pedimos, mas para que a nossa fé permaneça! «Quando vier o Filho do Homem, encontrará a fé sobre a terra?» (Lucas 18,8).

 7. É, de resto, sabido que o Evangelho de Lucas é também conhecido como o Evangelho da oração. Aqui deixamos, para quem o desejar e achar útil, os principais acenos. 1) Este Evangelho apresenta cenários de oração a abrir (Lucas 1,10 e 13; 2,37) e a fechar (Lucas 24,53), formando aquilo que se chama uma inclusão literária ou envelope, como que a dizer que o inteiro Evengelho está repleto de oração. 2) Este Evangelho é de longe o que apresenta mais vezes Jesus a rezar sozinho, como modelo de oração: Lucas 3,21; 5,15-16; 6,12-16; 9,18-20; 9,28-36; 10,21; 11,1; 22,31-32; 22,39-46; 23,33-34; 23,44-46. 3) É este Evangelho que nos apresenta as mais belas e inesquecíveis figuras de oração: Maria, com o magnificat (Lucas 1,46-55); Zacarias, com o benedictus (Lucas 1,68-79); Simeão, com o nunc dimittis (Lucas 2,29-32); o coro celeste, com o gloria in excelsis (Lucas 2,14). 4) É ainda este Evangelho que salienta alguns traços fundamentais da oração: a persistência, no chamado «amigo importuno» (Lucas 11,5-13) e na figura de hoje, a «viúva importuna» (Lucas 18,1-8), e a humildade, como veremos no próximo Domingo, na parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,10-14).

 8. Não se pode descurar hoje a colagem ao belo modelo de oração da viúva, do texto do Êxodo 17,8-13, que nos mostra Moisés também a rezar sem descanso no cimo da colina. Salta à vista que a vitória sobre Amalec não resulta da espada de Josué, mas da oração de Moisés! É como quem diz que a oração dia e noite, sem descanso, é a chave da nossa vida em todas as suas circunstâncias.

 9. É ainda de uma beleza inexcedível o alcance dos versículos 15 e 16 do mesmo Capítulo 17 do Livro do Êxodo que estamos a seguir. Yahveh-nissî [= «Yahveh-minha bandeira»], a bandeira ou o pálio de Yahveh nas minhas mãos. É outra vez o manto ou o pálio carinhoso de Deus que nos protege sempre. Usamo-lo nas procissões, mas também nas horas mais dramáticas, quando precisarmos de «cuidados paliativos»… Foi a este manto, a este «pálio», que a medicina foi buscar o «paliativo». Saiba-o ou não. Porque não o devia nunca esquecer. Com quanto carinho devemos saber envolver os sofredores, os pobres, as viúvas e os órfãos, os deserdados, e os moribundos…

 10. S. Paulo adverte hoje Timóteo (2 Timóteo 3,14-4,2), seu discípulo e cooperador dilecto, que as Escrituras não transmitem apenas um saber, que há que estudar, aprender e ensinar. Ele acentua que as Escrituras têm o poder (dýnamis) de nos comunicar a sabedoria que conduz à salvação. É esta dinâmica que se deve manifestar em tudo o que fazemos. Oportuna e inoportunamente. Portanto, sempre.

António Couto

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7 Responses to COM UM NÓ CEGO NO CORAÇÃO OU SOB O PÁLIO DE DEUS?

  1. pizzuto adriana diz:

    Quiero agradecer a Mesa de Palabras, la lección de este Domingo 29 del Tiempo Común, será la mentora de la Monición de entrada y de la acción de Gracias en la Santa Misa de la Catequesis de la Parroquia Carmelitana de Plaza España, así como también inspirará la catequesis de los niños de primer año de iniciación, de la misma Parroquia.

    Gracias Dios nuestro por tanta Bendición.

    Mi humilde oración . ap.

  2. António diz:

    Olá, D. António Couto.
    Este domingo, a liturgia chama a atenção para a oração.
    A oração´é o contacto intimo com Deus.
    Jesus fala na importância de sermos perseverantes na oração.
    Jesus rezava sozinho como modelo de oração.
    A nossa oração será escutada e, como diz D. António, a oração dia
    e noite, sem descanso, é a chave da nossa vida em todas as circunstancias. Que bom.
    Um abraço.

  3. António Castanheira diz:

    Leitura de imensa Beleza que nos toca profundamente.

  4. Maria Emília Cunha Freitas diz:

    Muito obrigada, D. António. Sinto-me uma privilegiada por ter acesso às suas tão belas, tão esclarecedoras, tão profundas palavras que fazem com que o meu coração tente “ver” melhor, apesar de, por vezes, andar tão cego!
    Maria Emília

  5. Casimiro Gonçalves diz:

    Obrigado D. António pela clareza da sua palavra. Desejo-lhe rápidas melhoras.
    Casimiro Gonçalves (Ermesinde)

  6. Sr. D. António Couto agradeço a sua exposição. Oxalá eu consiga pôr em prática.

  7. Elisa Rocha Gonçalves diz:

    Obrigada. Que a Senhora nos ajude a desatar o coração.
    Pedimos ao Senhor que lhe dê vida e saúde.
    O Porto espera por si.
    Elisa Gonçalves
    .

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