LUZ QUE LAVA E ALUMIA O CORAÇÃO

Março 29, 2014

 

1. Com o olhar cada vez mais fixo na Cruz Gloriosa, em que foi entronizada a Luz que dá a Vida verdadeira, baptizados e catecúmenos continuam a sua «caminhada» quaresmal: memória do baptismo [= execução do programa filial baptismal] para os baptizados, preparação para o baptismo por parte dos catecúmenos (Sacrossantum Concilium 109), que têm neste Domingo IV da Quaresma – Domingo da dádiva da Luz – os seus segundos «escrutínios»: segunda «chamada» para a Liberdade.

 2. O Evangelho narra a dádiva da Luz por Jesus à nossa pobre e cega humanidade (João 9,1-41). Deus é Luz (1 João 1,5), e é na sua Luz que nós vemos a Luz (Salmo 35,10). Ora, a Luz veio ao mundo (João 3,19; 12,46) para dar a Vida ao mundo. Veio (elêluthen) ao mundo e permanece acesa no mundo, como indica o perfeito usado no texto grego. Marcos recorre à crueza da linguagem para nos fazer ver melhor o Mistério desta Luz-que-vem: «Vem a Luz para ser colocada debaixo do alqueire ou debaixo da cama? Não, antes, para ser colocada sobre o candelabro? Na verdade, nada está escondido que não seja para se manifestar» (Marcos 4,21-22). Na verdade, o Divino, o Filho Unigénito de Deus, Aquele-que-vem, passa escondido na humildade da nossa condição humana. É Ele a Luz-que-vem, que agora está escondida, mas que se manifestará no novo e último candelabro do amor de Deus (Actos 2,36), a Cruz Gloriosa, única fonte do Espírito Santo para nós (sempre Actos 2,32-33; João 19,30.34; 7,38-39). Não esqueçamos que ver o Filho é obra do Espírito Santo em nós (1 Coríntios 12,3). É por isso que o Filho do Homem, Aquele (o Único)-que-de-Deus-vem-e-a-Deus-volta (João 9,13) tem de (deî) ser levantado [= crucificado / ressuscitado /glorificado / exaltado] (João 3,14; cf. Filipenses 2,9): só então se saberá que «Eu Sou» (título divino) (João 8,28), e atrairei todos a Mim (João 12,32).

3. Mas agora, após o Baptismo no Jordão e a Transfiguração / Confirmação no Tabor, durante o dia que é a sua vida toda, eis Jesus passando sempre (parágôn: particípio presente durativo) (João 9,1) e executando a «obra» daquele que o enviou (João 9,4). Na sua condição de «passageiro» total, pascal, no sentido «que de Deus veio e para Deus voltava» (João 13,3), Jesus viu um cego de nascença, e os seus discípulos também viram. Mas Jesus e os discípulos não viram a mesma coisa. Os discípulos viram um cego, e por detrás do cego viram o encadeado «pecado – doença», e por detrás do encadeado viram a manifestação do Deus-garante da «ordem da retribuição». Jesus viu um cego, mas não viu naquela cegueira a manifestação de Deus; antes, viu que «era preciso» (deî) (João 9,4) aquele cego para que Deus se manifestasse nele. Jesus viu um cego e como que disse: preciso deste cego! «É preciso» (deî) que Deus se manifeste neste cego. E como é que Deus se podia manifestar naquele cego? Através das «obras» (tà érga) daquele que Ele enviou (João 9,4), fazendo passar aquele cego do domínio da cegueira para a liberdade da glória dos filhos de Deus, para usar a expressão feliz de Romanos 8,21. Sendo a Luz do mundo (João 8,12; 9,5), Jesus concede o dom da vista ao cego de nascença acompanhado do dom da Luz (Iluminação) em ordem à contemplação das coisas divinas (veja-se a propósito Hebreus 6,4-5: texto baptismal espantoso!). Atente-se bem que o cego de nascença recebeu o dom da vista e o dom baptismal da «divinização» para ver e ouvir as coisas divinas. Perante este segundo dom, também os fariseus eram cegos de nascença, e não o sabiam!

4. Significativamente, o cego recupera a vista e recebe o dom da Luz na «piscina de Siloé» (João 9,7). De notar que «piscina» se diz em grego kolymbêthra, nome que ainda hoje para a Igreja grega significa «fonte baptismal». Siloé é a grecização do aramaico shlîha, hebraico shalîah, que quer dizer «enviado». Santo Agostinho comenta, sempre de forma acertada e penetrante: «Sabeis bem quem é o enviado; se Cristo não tivesse sido enviado, nenhum de nós teria sido desviado do pecado. O cego lavou os olhos naquela fonte que se traduz “Enviado”: foi baptizado em Cristo». A «fonte baptismal» do «enviado» de Deus, daquele-que-vem-de-Deus, o Filho do Homem. O cego recobrou a vista imediatamente. A luz da fé, essa é gradual. Passa por: «não sei» (João 9,12); «é um profeta» (João 9,17); «vem de Deus» (João 9,33); «eu creio, Senhor» (João 9,38).

5. A narrativa vai abrindo cenários sucessivos. O primeiro (João 9,1-7) põe Jesus e os seus discípulos face ao cego, mostra as suas diferentes maneiras de ver, e deixa claro que é a postura criadora e redentora de Jesus que cura o cego. O segundo (João 9,8-12) mostra-nos a discussão estéril que se gera entre os vizinhos acerca do cego. Só palavras. O terceiro (João 9,13-17) traz para a cena a presença dos fariseus, que também discutem o assunto, e também não o entendem nem se entendem. O quarto (João 9,18-23) mostra a atitude dos pais que não se querem comprometer. O quinto (João 9,24-34) põe de novo em cena os judeus e o cego, que apontam os respectivos mestres: Moisés para os judeus; Jesus para o cego. Mas acerca de Jesus, dizem os judeus: «Esse não sabemos DE ONDE (póthen) é» (João 9,29), ao que o cego responde com inteligência, apontando a cegueira deles: «Isso é «espantoso» (tò thaumastón): vós não sabeis DE ONDE (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!» (João 9,30). Que é como quem diz: só não vê quem não quer! O último cenário (João 35-41) traz-nos de volta Jesus, que se revela ao cego, iluminando-o, e deixa os fariseus cada vez mais às escuras!

6. Temos todos algo a ver com o cego de nascença: os baptizados receberam como ele o dom baptismal da Luz para ver e ouvir e viver a vida divina; os catecúmenos recebê-lo-ão. Temos todos a ver com o Enviado, Aquele-que-vem: Ele é o único enviado do Pai para fazer a sua «obra»; nós somos enviados por Ele (João 20,21) para continuar no mundo a sua «obra». Mas temos de reconhecer que muitas vezes ainda vemos as pessoas e as coisas de forma bem diferente de Jesus!

7. O Primeiro Livro de Samuel 16,1-13 serve-nos hoje um texto fantástico em clara sintonia com o Evangelho. Trata-se da unção real do menor dos filhos de Jessé, David, um garoto que andava nos montes a guardar o rebanho. Nem entrava nas contas do seu pai. Teve de ser o profeta Samuel a perguntar a Jessé, depois de este lhe ter apresentado sete filhos e não ter dado sequer a entender que ainda tinha mais um: «Acabaram os teus filhos?» (1 Samuel 16,11). Só aqui é que Jessé se apercebeu que ainda tinha mais um. Mas, como David era ainda um garoto, nunca Jessé pensou que passasse por ele a escolha de Deus! A sua presença é, portanto, tão paradoxal como a do cego de nascença! Mas Deus não vê como nós. Deus vê o coração, e nele deposita o seu Espírito (1 Samuel 16,13; Romanos 5,5). Levamos este tesouro em vasos de barro… (2 Coríntios 4,7). Brilha melhor a Luz de Deus (2 Coríntios 4,6).

8. Cumpre-nos ler também hoje o grande texto da Carta aos Efésios 5,8-14. Iluminados pela Luz da Luz, que é também a Luz do mundo, somos a Luz do mundo: constatação, mas sobretudo desafio e programa! Somos, por isso, «filhos da Luz» (Efésios 5,8; 1 Tessalonicenses 5,5) – um dos termos técnicos de «divinização» – e «filhos do dia» (1 Tessalonicenses 5,5). Chamados das trevas para a luz maravilhosa de Deus (1 Pedro 2,9), devemos tornar-nos operadores das «obras da Luz», que não têm parte com as «obras das trevas». O Apóstolo [= Enviado] dá testemunho do Evangelho e continua no mundo o Evangelho. Passando como Jesus. Vendo como Jesus. Aí está a nossa missão.

9. Tempo para nos deixarmos conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom Pastor, cantando o Salmo 23(22). Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu a «pele de vaca» (hebraico shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos…

António Couto

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CONNOSCO DEUS

Março 25, 2014

 

1. Dia 25 de Março, Dia grande, Dia solene, que reúne a Igreja inteira, Oriente e Ocidente, em celebração compacta ao seu Único Senhor, venerando a sua Mãe, na Solenidade da Anunciação do Senhor à Virgem Maria, que aponta já para o Natal do Senhor. Ainda que, de facto, separados, hoje os irmãos estão todos unidos e reunidos à mesma mesa da Graça. Dêmos, por isso, graças a Deus. No Oriente, a Anunciação do Senhor permanece um Mistério tão central que, nas rubricas do calendário litúrgico, apenas cede à Sexta-Feira Santa. No rito bizantino, a própria Vigília Pascal, caso caia no dia 25 de Março, reparte a celebração, uma parte do cânon Pascal, outra parte do cânon da Euaggelismós [= Evangelização], nome que este acontecimento recebe no Oriente.

2. O Evangelho neste Dia proclamado (Lucas 1,26-38) é um tecido sublime, que as Igrejas do Ocidente conhecem por «Anunciação», e as do Oriente por «Evangelização». Do céu chega a Alegria incandescente a casa de Maria: «Alegra-te, Maria» [= «Chaîre Maria»; «Ave Maria»], «o Senhor está contigo» (Lucas 1,28), não tenhas medo» (Lucas 1,30), diz a Maria o anjo enviado por Deus. Alguns anos mais tarde, as mulheres que vão ao túmulo de Jesus ouvirão também a mesma música divina: «Alegrai-vos» (Mateus 28,9), «não tenhais medo» (Mateus 28,5). Aí está outra vez a harmonia da Escritura. E nós, Assembleia Santa que hoje se reúne para celebrar os mistérios do seu Senhor e também de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, estamos também permanentemente a ouvir esta divina melodia. Portanto, irmãos amados em Cristo, Alegrai-vos, não tenhais medo, o Senhor está no meio de nós!

3. O centro da cena é de Maria, que podemos ver em alta sintonia com a Palavra da Alegria que lhe chega de Deus. Ao contrário da nossa muito ocidental maneira de ver e de sentir, note-se bem que Maria não esboça qualquer reacção à presença do anjo, que tão-pouco é narrada. Ela fica perturbada é com a Palavra que lhe cai nos ouvidos e no coração (Lucas 1,29). «Conceberá no ventre» o Filho de Deus (Lucas 1,31-33). «Conceber no ventre» é um pleonasmo intencional só dito de Maria por duas vezes (Lucas 1,31 e 2,21), claramente para a pôr em pura sintonia com o Deus do «ventre das misericórdias» (Lucas 1,78). Note-se como, na sequência do texto, de Isabel só se diz que «concebeu» (Lucas 1,36). Surge então a esperada objecção de Maria: «Como será isso, se não conheço homem?» (Lucas 1,34). O anjo explica que essa concepção terá a ver com a intervenção de Deus, pois se trata do Filho de Deus (Lucas 1,35). Já atrás Maria tinha sido apresentada como «virgem casada» (parthénos emnêsteuménê) (Lucas 1,27). Não se trata de uma subtileza, mas de um estatuto jurídico em que as pessoas consagravam a Deus a sua virgindade e se dedicavam completamente a Deus. Casavam-se, não em ordem à procriação, mas à protecção mútua. Este estatuto jurídico, não sendo usual no mundo judaico do seu tempo, está, porém, solidamente documentado nos últimos séculos antes de Cristo e depois de Cristo.

4. Ultrapassada a objecção, Maria responde: «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra» (Lucas 1,38). Maria responde que Sim. Deus chama, mas não impõe. A Maria, e a cada um de nós. Podemos sempre aceitar Deus ou esconder-nos de Deus. Deixar Deus entrar, ou fechar-lhe a porta. Maria aceitou, e, por isso, todas as gerações a proclamarão Bem-aventurada. É o que estamos hoje e aqui a fazer: Feliz és tu, Maria, pioneira de um mundo novo, porque acreditaste em tudo quanto te foi dito da parte do Senhor! Feliz também aquele que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática!

5. Memorial desta beleza incandescente é a Basílica da Anunciação, em Nazaré. Esta grandiosa Basílica, em três planos, foi inaugurada em 25 de Março de 1969, e foi visitada, ainda as obras estavam em curso, em 1964, pelo Papa Paulo VI. Escavações feitas antes desta grandiosa construção puseram a descoberto, e podem ver-se ainda hoje, os majestosos pilares de uma Catedral levantada em 1099 pelo príncipe cruzado Tancredo, bem como o pavimento em mosaico de uma igreja bizantina, que pode ser datada do ano 450. Mas, descendo mais fundo, até às entranhas da actual Basílica, acede-se à Gruta da Anunciação, sob cujo altar se lê a inscrição Verbum caro hic factum est [«Aqui o Verbo se fez carne»], e a outros lugares de culto antigos, talvez já do século II. Numa grafite antiga foi encontrada a gravação XE MAPIA, abreviação de Chaîre Maria, a primeira Ave-Maria da história.

6. Já se ouve a música de Isaías 7,10-14; 8,10. O cenário é a guerra siro-efraimita, que são dois exércitos, da Síria e de Israel, que põem cerco a Jerusalém, capital do Reino de Judá, no ano 734 a. C., com o intuito de depor Acaz, rei de Judá. Já se vê um Isaías firme e confiante, que, enviado por Deus (Isaías 7,3), atravessa sem medo o cenário da guerra siro-efraimita, para levar ao amedrontado e trémulo rei Acaz (Isaías 7,2), que se encontra junto da nascente de Gihôn, a inspeccionar as águas, uma palavra de conforto e de esperança. Para significar melhor tudo isto, Isaías leva o seu filho, que ostenta um nome de esperança She’ar yashûb [= «um “resto” voltará»], pela mão (Isaías 7,3). Um pai, que ousa atravessar um cenário de guerra levando um filho pela mão, é, na verdade, testemunha de outra segurança! A mensagem que Isaías comunica a Acaz consta de quatro pontos: a) tem calma; b) não tenhas medo; c) segura-te em Deus; d) pede um sinal (Isaías 7,11). Já se sabe que o descrente Acaz não pedirá o sinal, diz ele, para não tentar a Deus (Isaías 7,12), isto é, hipocritamente alega uma razão aparentemente religiosa como paravento para esconder a sua incredulidade. Ora, pedir um «sinal», nestas circunstâncias, era sinal de fé e de humildade que reconhece a sua pobreza, como se depreende do comportamento de Abraão (Génesis 15,8), de Gedeão (Juízes 6,36-40) e de Ezequias (2 Reis 20,8-11). Marcada pela incredulidade era antes a recusa de pedir esse «sinal», como sucede com Acaz, que julga Deus incapaz de se interessar pelos nossos problemas.

7. Pouco importa. Eis que Deus dá, de igual maneira, o seu sinal: «A jovem» (‘almah TM; parthénos LXX) concebeu e dará à luz um filho a quem porá o nome de ‘immanû ’el [= «Connosco Deus»]» (Isaías 7,14). A jovem, aqui mencionada, é, em primeira leitura, certamente Abia, filha de Zacarias, esposa de Acaz, mãe de Ezequias (2 Crónicas 29,1). O filho, cujo nascimento é anunciado é certamente, em primeira leitura, Ezequias, filho de Acaz e de Abia, que ainda não tinha dado a Acaz um herdeiro. O nascimento de Ezequias parece ter ocorrido em 733, depois da guerra siro-efraimita. Todavia, como ele não é nomeado, a promessa não se esgota na pessoa de Ezequias. Abre-se ao herdeiro dinástico de qualquer tempo, portador das promessas de Deus para o seu povo. Este «filho» fica assim no campo dos «sinais», de resto como Isaías e os seus filhos (Isaías 8,18), e Mateus procede de forma correcta ao ver a promessa realizar-se em Jesus (Mateus 1,18-25). Em primeira leitura, o «sinal» dado a Acaz é que a dinastia davídica, que corria perigo em 734, se salvará. Virá mesmo um tempo de prosperidade e de paz que marcará a infância daquele menino, que se alimentará de leite coalhado e mel (Isaías 7,15), alimentos que simbolizam abundância porque são dom de Deus (Deuteronómio 6,3; 11,9; 32,13-14; Êxodo 3,8 e 17).

8. Por outro lado, antes que o menino atinja a idade da razão, portanto, dentro em breve, os reinos de Israel e da Síria, agora agressores, serão reduzidos a escombros (Isaías 7,16; cf. 8,3-4). O que acontece, de facto, sendo a Síria anexada pela Assíria ainda em 734, o mesmo acontecendo a grande parte do território de Israel, em 733. A paz e a felicidade dos dias de David e Salomão, ou mesmo do tempo dos Juízes, serão recordadas e vividas em Judá. É o que pretende dizer o oráculo: «O Senhor fará vir sobre ti […] dias tais como não existiram desde o dia em que Efraim se separou de Judá» (Isaías 7,17), ou seja, desde 926, data da morte de Salomão e da separação do Reino de Israel (Norte) da Corte de Jerusalém.

9. Logo a seguir, Isaías introduz um oráculo de desgraça sobre Judá: as águas impetuosas da Assíria virão sobre Judá e submergi-lo-ão (Isaías 8,6-8). Mas é neste novo contexto que o profeta deixa sair, por duas vezes, o desabafo: «‘immanû ’el»! (8,8 e 10). Acostagem extraordinária da salvação à desgraça! Com este suspiro, num novo contexto, a profecia do Emanuel tornou-se tradição já para o próprio Isaías. Esta tradição tem a sua história. Já não temos apenas um sentido histórico único e determinado, mas começa a história da tradição do oráculo do Emanuel que, passando por Is 9,5 e 11,1-9, chegará ao Novo Testamento (Mateus 1,23). Deus connosco sempre.

10. A toada musical que hoje embala a nossa vida está em consonância com esta avenida de sentido que atravessa a Escritura Santa. Travessia que jamais fazemos sozinhos, porque Ele está connosco sempre, e é Ele que abre a Escritura para nós (Lucas 24,32). Na verdade, canta assim o Salmo Responsorial de hoje: «Sacrifício e oblação não Te agradaram,/ mas escavaste-me os ouvidos» (Salmo 40,7). E o texto, notável, da Carta aos Hebreus cita actualizando assim: «Sacrifício e oblação Tu não quiseste,/ mas formaste-me um corpo» (Hebreus 10,5). E é assim, que vem ao nosso mundo, nascendo de Maria, para, no seu corpo e com o seu corpo, mãos, pés, entranhas, coração, inteligência, fazer a vontade de Deus (Hebreus 10,7 e 9; cf. Salmo 40,9), como está escrito acerca d’Ele no rolo antigo (Hebreus 10,7; cf. Salmo 40,8). Assim é ultrapassada a Economia antiga dos muitos sacrifícios e ofertas pela Economia nova em que somos santificados por meio da oferta (minhah) do corpo de Jesus Cristo uma vez por todas (epáphax) (Hebreus 10,10).

António Couto


ERA PRECISO PASSAR PELA SAMARIA

Março 22, 2014

 

1. No programa de «preparação» para a Noite Pascal Baptismal, início e meta da vida cristã, o Domingo III da Quaresma está marcado pelos primeiros «escrutínios» para os catecúmenos: primeira «chamada» para a Liberdade. Em ordem a uma melhor compreensão integrada dos Domingos da Quaresma, e particularmente do III que hoje nos ocupa, tenha-se sempre presente a linha dos Evangelhos: Cristo baptizado, tentado na sua condição de baptizado, e Vitorioso (Domingo I), confirmado na sua missão filial baptismal com a Transfiguração (Domingo II), promete a Água da Vida (Domingo III), dá a Luz (Domingo IV), dá a Ressurreição (Domingo V). A linha cristológica torna-se também «antropológica». A «obra» divina na Humanidade do Filho dirige-se, nesta mesma Humanidade, com amor, aos homens. Água, Luz, Ressurreição, são os elementos baptismais primários (simbologia baptismal da Quaresma) quer para os baptizados quer para os catecúmenos.

 2. O Evangelho do Domingo III da Quaresma oferece-nos o grande diálogo de Jesus com a samaritana (João 4,5-42). A meticulosa preparação da cena mostra-nos Jesus a fazer a viagem da Judeia para a Galileia, com o narrador a anotar que «era preciso passar pela Samaria» (João 4,4). Aquilo que parece óbvio à primeira vista, na verdade não o é. Quem, no tempo de Jesus, fazia essa viagem, evitava mesmo passar pela Samaria: desde logo porque a estrada era montanhosa, mas também porque eram hostis as relações entre judeus e samaritanos. A viagem habitual fazia-se, descendo de Jerusalém para Jericó, atravessando depois o Jordão para Oriente, junto de Damyiah, percorrendo então por terra plana o Além-Jordão (actual Jordânia) sempre junto do rio Jordão, para voltar depois a atravessar o Jordão, agora para Ocidente, junto de Bet-Shean, um pouco a sul do Mar da Galileia. E estava-se na Galileia. Evitava-se assim a estrada montanhoa da Samaria, bem como eventuais hostilidades com os samaritanos. Se o narrador coloca Jesus a calcorrear o caminho montanhoso da Samaria, é assunto teológico, de resto, explicitado naquele «era preciso», e não geográfico: trata-se de revestir Jesus dos traços do mensajeiro de Isaías 52,7: «Como são belos, sobre os montes, os pés do mensajeiro que leva boas novas a Sião», e do noivo do Cântico dos Cânticos 2,8, de quem a noiva diz: «A voz do meu amado: ei-lo que vem correndo sobre os montes». O que faz correr sobre os montes é, pois, uma grande notícia ou um grande amor. As duas realidades movem Jesus.

 3. O texto refere ainda que Jesus se sentava com tempo (ekathízeto: imperfeito que implica duração) junto do poço-fonte de Jacob (João 4,6). É sabido, desde o Antigo Testamento, que o poço-fonte é visto como um cenário de noivado. É assim em Génesis 24, onde, junto de um poço, se trata o casamento de Isaac com Rebeca; é assim em Génesis 29, onde, junto de um poço, se trata o casamento de Jacob com Raquel; é assim em Êxodo 2, onde, junto de um poço, se prepara o casamento de Mosés com Séfora. Um grande amor e grandes e belas notícias movem Jesus, na sua viagem «necessária» sobre os montes da Samaria. Fazendo-o sentar com tempo junto do poço-fonte, são cenários de noivado que o narrador evoca e cuidadosamente prepara. Ao anotar, outra vez com tinta teológica, que «era por volta do meio-dia [= hora sexta]» (João 4,6), o narrador evoca outra vez a hora do Noivo dos Cântico dos Cânticos 1,7, mas deixa-nos também expostos à máxima e irresistível revelação (Actos 22,6; 26,13). O meio-dia representa a luz a pique, penetrante, como uma espada de dois gumes (cf. Hebreus 4,12). Em contraponto, procurar Jesus de noite, como fez Nicodemos na página anterior (João 3,2) é não entender nada, como os discípulos que nada pescam de noite (João 21,3) e no meio do escuro andam perdidos (João 6,17-18), como a Madalena que vai de madrugada, ainda escuro, ao túmulo de Jesus, e nada entende (João 20,1), como o homem da noite na noite perdido, que é Judas (João 13,30; 18,3), enfim, como Pedro, perdido na noite e no meio dos guardas, com os guardas e sem Jesus (João 18,17-18).

 4. Eis Jesus sentado, com tempo, junto do poço-fonte à hora do meio-dia. E aí vem a noiva, a mulher da Samaria. E Jesus desce pedagogicamente ao nível da mulher que vinha buscar água, com aquele pedido directo: «Dá-me de beber» (João 4,7), com que se abre o maior diálogo de todo o Novo Testamento. Salta à vista que Jesus se transforma em pedinte com o intuito de transformar em pedinte a mulher: a maravilhosa delicadeza de um Deus que pede para dar! De facto, pedagogicamente conduzida por Jesus, no final do diálogo sobre a água, é a mulher que diz para Jesus: «Senhor, dá-me dessa água…» (João 4,15).

 5. Neste ponto preciso, Jesus imprime um novo ritmo ao diálogo, dizendo agora à mulher: «Vai, chama o teu marido, e vem aqui» (João 4,16). Ao que a mulher responde: «Não tenho marido!» (João 4,17). Quem tem o ouvido sintonizado na onda finíssima que percorre o Evangelho de João, começa já a aperceber-se do verdadeiro efeito retórico deste «Não tenho», e para onde nos leva este Não ter. Na verdade, pouco antes, em plenas bodas de Caná, Maria tinha anotado para Jesus: «Não têm vinho!» (João 2,3). E a verdade é que vão ter vinho em excesso! Em João 5,7, anota-se o caso do doente que não é curado por Jesus, porque não tem ninguém que o lance à água. Vai, portanto, ter cura em excesso! É ainda o caso dos discípulos que, à pergunta de Jesus: «Filhinhos (paidía), não tendes alguma coisa para comer, pois não?», respondem: «Não!» (João 21,5). Também já se sabe que irão ter peixe em excesso! É, portanto, de suspeitar, por parte do leitor atento de João, que a mulher da Samaria, que não tem marido, vá encontrar o esposo definitivo, o próprio Deus, cumprindo Isaías 62,5: «Como um jovem desposa uma virgem, assim te desposará o teu edificador. Como a alegria do noivo pela sua noiva, assim o teu Deus se alegrará em ti».

 6. E aí está Jesus, o conhecedor que nos conhece, e que nós ainda não conhecemos, a entrar dentro da mulher da Samaria e de nós mesmos, dizendo: «Disseste bem: “Não tenho marido”. Na Verdade tiveste cinco maridos, e o que tens agora [= sexto] não é teu marido”» (João 4,17-18). Abre-se aqui outra janela de luz e sentido. Olhando através dela, podemos ver uma mulher atónita, a olhar para Jesus com redobrado espanto, e a dizer consigo mesma: «Mas como é que este desconhecido sabe tanto de mim? Como é que este desconhecido conhece a minha vida toda? Que experiência será esta de nos sentirmos ditos, adivinhados, conhecidos? Não será o conhecimento conhecido, obra de Deus em nós, de que fala Paulo em 1 Coríntios 13,12? Seguramente que a mulher experimenta a estranha sensação de estar perante o saber que a ultrapassa de alguém que a conhece perfeitamente, e que ela ainda não conhece. Mas esta técnica da «antecipação» ou «adivinhação» pode ver-se noutras passagens do IV Evangelho, pelo que, se a mulher é completamente surprendida, o leitor competente não o é. De facto, a mesma estratégia narrativa já foi encontrada em João 1,45-49, quando Jesus se adianta a Natanael, dizendo dele: «Eis um verdadeiro israelita!» (João 1,47), ao que Natanael reage com espanto: «De onde me conheces?» (João 1,48). Ver-se-á também em João 20,15, quando aquele que, aos olhos da Madalena, era um simples jardineiro, se adianta a ela, atravessando-a com uma pergunta penetrante: «Mulher, porque choras? A quem procuras?» (João 20,15a). Se a primeira pergunta («Porque choras?») parece óbvia (porque a Madalena estava, de facto, a chorar), a segunda («A quem procuras?») apanha a Madalena completamente de surpresa. Na verdade, pensará a Madalena: «Quem será este que sabe que eu procuro alguém neste jardim?» E se sabe que eu procuro alguém, seguramente saberá também quem eu procuro. Por isso, porque se sentiu adivinhada e pressente que ele sabe quem ela procura, responde-lhe em código: «Se tu o levaste, diz-me onde o puseste , e eu o retirarei» (Jo 20,15b). Esta estratégia pode ver-se ainda na manifestação de Jesus Ressuscitado a Tomé. Na verdade, depois de Tomé ter dito aos outros discípulos que afirmaram diante dele terem visto o Senhor (João 20,25), que não acreditaria se ele próprio não visse nas suas mãos a marca dos cravos, e se não metesse o seu dedo na marca dos cravos e a sua mão no seu lado (João 20,25), surge Jesus, dirige-se a Tomé e diz: «Traz o teu dedo aqui e vê as minhas mãos, e traz a tua mão e mete-a no meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente!» (João 20,27). Tomé já não vai investigar nada, e responde de imediato, certamente atónito, porque adivinhado (como é que Jesus tomou conhecimento das condições postas por ele?): «Meu Senhor e meu Deus!» (Jo 20,28), a mais alta confissão de fé no plano narrativo do IV Evangelho.

 7. E quanto às contas feitas com os maridos, o leitor atento, mas incauto, contentar-se-á, talvez, com a simples aritmética, mas se fizesse as operações mentais e afectivas reclamadas pelo texto, seria levado a compreender que aquela mulher da Samaria, que agora não tem marido, que já teve cinco, e que o que tem agora, e que é o sexto, não é seu marido – teve cinco, o que tem agora e que não é seu marido, é o sexto. Compreende-se então que aquela mulher já vai no sexto marido provisório, sendo seis um número imperfeito. Mas o sexto, enquanto provisório e imperfeito, aponta para o definitivo e perfeito. Em boa gramática simbólica, aponta para o sétimo, que está ali à beira, que está aqui à beira, e é Jesus! É por isso que a sua voz é a voz do noivo, daquele que vem, trazendo o tempo novo da alegria nova e definitiva, a alegria grande da Páscoa, o Messias suspeitado (João 4,25) e confesso: «EU SOU (egô eimi), o que estou a FALAR contigo (ho lalôn soi)!» (João 4,26), verdadeiro clímax narrativo e da revelação. E a samaritana, encontrada pelo Noivo novo definitivo esperado, procede, de facto, como as mulheres na manhã de Páscoa: abandona o cântaro antigo e provisório (João 4,28) que servia apenas para recolher a água antiga e provisória tirada do poço antigo e provisório (João 4,11), e correu à cidade para dizer a todos… (João 4,28). Notável movimento Baptismal Pascal!

 8. Mas o que é que diz a mulher aos homens da Samaria? Diz: «Vinde ver um Homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será ele o Cristo?» (João 4,29). Note-se o importante dizer reticente e pedagógico, mas também cristológico, da mulher da Samaria. Dizendo como diz, a mulher da Samaria evita dizer «judeu» e «messias», duas realidades que provocariam nos samaritanos uma reacção de hostilidade, e não os mobilizariam para irem ao encontro de Jesus.Usando, porém, o título de «Homem», aqui dado a Jesus pela primeira vez no Evangelho de João, mas que o atravessa completamente (4,29; 5,12; 7,46; 8,40; 9,11.16.24; 10,33; 11,47.50; 18,14.17.29; 19,15), e mesmo a inteira Escritura (Génesis 1,26-30), é a singular humanidade de Jesus que se salienta, o seu saber penetrante, bem como a sua palavra mansa e dialógica. E a interrogação: «Não será ele o Cristo?» não é expressão de dúvida acerca da identidade de Jesus, mas uma finíssima interrogação pedagógica, que provoca nos samaritanos a curiosidade e acende neles o desejo de fazerem a experiência, de irem ver Jesus. Muitas vezes, uma afirmação põe fim a um processo de pesquisa. A interrogação, ao contrário, mobiliza e desperta. Foi assim que os samaritanos foram ver e ouvir a voz do Noivo, Aquele-que-vem, e chegaram à fé em Jesus, confessando que Ele é verdadeiramente «o salvador do mundo» (João 4,42). O definitivo.

 9. É estranho, mas também pedagógico e ilustrativo, que enquanto Jesus dialoga com a samaritana, circulando entre os dois o verbo «dar», os seus discípulos andem pelo shopping a «comprar»!

 10. É igualmente estranho e nada edificante que estes discípulos de Jesus, que regressam do shopping exactamente quando termina este imenso diálogo de Jesus com a samaritana, tenham ficado admirados de ver Jesus a falar com uma mulher, mas evitem fazer qualquer pergunta a Jesus (João 4,27-28). Em vez disso, convidam Jesus a comer alguma coisa, e ouvem de Jesus um dizer espantoso: «Tenho para comer um alimento que vós não conheceis» (João 4,32). Nós, que assistimos ao crescendo das reacções da samaritana às propostas de Jesus, achamos agora estranhíssimo que estes discípulos não digam a Jesus: «Dá-nos então também desse alimento!», e que nem sequer formulem a pergunta: «Então que alimento novo que é esse?». Em vez disso, diz-nos o narrador que perguntavam, não a Jesus, de quem, pelos vistos, não querem que diga nada, mas uns aos outros: «Porventura alguém lhe terá trazido alguma coisa de comer?» (João 4,33).

 11. Estranhos discípulos desacertados de Jesus e do seu tempo novo. Descompassados e descompensados. Andam ainda no tempo do inverno e da sementeira: «Não dizeis vós que faltam ainda quatro meses para a ceifa?» (João 4,35a). Eles não querem ouvir, mas Jesus abre diante deles um tempo novo: «Levantai os olhos e vede os campos: estão brancos para a ceifa!» (João 4,35b). Sim, o tempo que Jesus abre diante de nós é o tempo novo da ceifa e da alegria (cf. Salmo 126,6).

 12. O relato do Livro do Êxodo (17,3-7) mostra-nos hoje que o Senhor está sempre no meio de nós e sacia a nossa sede no deserto da caminhada da vida. Então a sua «obra» nova não consiste também em fazer jorrar a água no deserto? (Isaías 35,6-7; 41,18; 43,19-20). Deus é muitas vezes, por 33 vezes, designado no Antigo Testamento, sobretudo nos Salmos, como a Rocha ou o Rochedo da nossa salvação. Por isso, é da Rocha, do Rochedo que jorra a água que mata a sede do povo de Israel, e a nossa,no deserto. Como sempre, o Antigo Testamento aponta para o Novo: no Evangelho de hoje, Jesus, o Filho de Deus, oferece a Água da Vida que mata a nossa sede para sempre. E Paulo, encontrado pelo Senhor Ressuscitado (Filipenses 3,12), que é quem dá a Água da Vida que é o Espírito Santo, pode agora dizer, relendo o Antigo Testamento, que aquela Rocha donde jorrava a água no deserto é Cristo (1 Coríntios 10,4).

 13. A Rocha, o Poço e a Água viva. Deixo aquí a bela interpretação que os targûmîm (paráfrases aramaicas) fizeram da passagem do Livro dos Números 21,16-18: «Foi então que Israel cantou este poema de louvor, no momento em que voltou o poço que lhes tinha sido dado por mérito de Miriam, depois de ter estado escondido: “Sobe, poço! Sobe, poço!”, assim cantavam. E ele subia. O poço que tinham escavado os patriarcas, Abraão, Isaac e Jacob, os príncipes de outrora, os chefes do povo, Moisés e Aarão, perfuraram-no os dirigentes de Israel, mediram-no com as suas varas. E, depois do deserto, deu-se a eles como um dom. E depois de se dar a eles como um dom, pôs-se a subir com eles pelas altas montanhas, a descer com eles pelos vales. Passando por todo o território de Israel, dava-lhes de beber a todos e a cada um à entrada da sua tenda». Um poço que acompanha o povo por todo o lado, por montes e vales, e que dá de beber ao povo. Bela metáfora que pode traduzir também o Jesus de João 4, que vai à nossa procura e sacia a nossa sede mais profunda.

 14. Na Carta aos Romanos (5,1-2.5-8), Paulo dá testemunho do acontecimento central da sua e da nossa vida. Dá testemunho do Evangelho. Cristo morreu por nós, dando-nos a Água da Vida que é o Espírito Santo (de novo Actos 2,32-33; João 19,30.34 decifrado por João 7,38-39). O Espírito Santo dado (Romanos 5,5) como selo (Efésios 4,30) para a vida eterna ensina-nos tudo sobre o Pai – em nós clama: Abbá (Gálatas 4,6); nele clamamos: Abbá (Romanos 8,15) – e sobre o Filho: «ninguém pode dizer “Senhor é Jesus” a não ser no Espírito Santo» (1 Coríntios 12,3). É ele que derrama o amor de Deus no nosso coração: unidos a Deus até à vida eterna (Romanos 8,16-17; 1 Coríntios 12).

António Couto


APOCALIPSE, EUROPA E ESPERANÇA

Março 22, 2014

1. Introdução

Cruzam-se na Exortação Apostólica pós-sinodal Ecclesia in Europa, de 28 de Junho de 2003[1], as temáticas da Europa e da esperança, articulação que hoje se compreende cada vez mais e melhor como necessária e urgente, dada a crescente onda de descrença que, nas últimas décadas, varre a Europa de forma imparável, transformando o espaço europeu num amontoado de velhas tábuas mais ou menos à deriva, sem rumo, sem destino e sem sentido. Articular esta Europa com Apocalipse resultará fácil, mesmo óbvio, para a maioria das pessoas, mesmo cultas (escrevem nos jornais e falam na televisão e na rádio), mas pouco habituadas a frequentar o Livro do Apocalipse, e que o vêem preconceituosamente como um livro ilegível e indecifrável, repleto de guerras, violências e medos muito para além das nossas forças, de cataclismos, fatalidades e horrores sem fim, livro, enfim, do fim-do-mundo. Esta concepção apocalíptica, em que o adjectivo apocalíptico se emprega para retratar os piores cenários – como aqueles que vimos no 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque, no 11 de Março de 2004 em Atocha (Madrid), no 3 de Setembro de 2004 em Beslan (Ossétia do Norte), e os que vemos diariamente no Iraque e na Síria, ultimamente também na Ucrânia –, serve então à maravilha para retratar o que se passa nesta Europa à deriva e sem identidade, à beira do terror anunciado, minada pela violência, pela droga e pela SIDA, pela marginalidade, pelo tráfico de armas e de seres humanos, pelo sem-sentido.

Articular agora este Apocalipse com esperança será, sempre de acordo com o que vulgarmente se pensa e se diz, uma tarefa tão incompreensível quanto oximórica, dado que o que vulgarmente se pensa é que o Apocalipse não destila esperança, mas medos[2].

2. Apocalipse: revelação ou desvelação

Convém esclarecer desde já que o termo apocalipse, do grego apokálypsis (verbo apokalýptô), significa precisamente o contrário daquilo que as pessoas vulgarmente pensam e dizem quando o usam para retratar os cenários acima referidos ou qualquer situação caótica, absolutamente crítica e inexplicável. De facto, apocalipse significa revelação no sentido de desvelação, que implica retirar pedagogicamente o véu que encobre a verdade da realidade, portanto, des-velar[3]. Admitimos assim que, antes de nos ser revelada ou desvelada, a verdade da realidade não estava ausente. Estava presente, ainda que secretamente, de forma velada para nós. Revelar ou revelação é então desvelar com doçura e pedagogia; não é ditar nem ditadura[4].

É, neste sentido, que se pode ver o Apocalipse como fonte de sentido e de esperança. E foi o que sintomaticamente fez o Papa João Paulo II, quando, na sua Exortação Apostólica pós-sinodal Ecclesia in Europa (2003), resolveu guiar-se, como refere na Introdução (n. º 5), pelo Livro do Apocalipse, para falar de esperança[5] à velha Europa e oferecer-lhe um sentido. E, ao longo da sua Exortação, o Papa comenta diversas passagens do Apocalipse, pondo mesmo em epígrafe, a abrir cada um dos seis Capítulos e a Conclusão uma passagem desse Livro.

3. O Livro do Apocalipse: estrutura em duas partes

Peguemos no Livro do Apocalipse. Abrindo-o e frequentando-o, ele manifesta-se ao leitor articulado em duas grandes Partes (Ap 1,9-3,22 e 4,1-22,5), situadas entre um Prólogo (Ap 1,1-3), seguido de uma Apresentação (titulatio), Endereço (adscriptio) e Saudação (salutatio) (Ap 1,4-8), e um Epílogo (Ap 22,6-21)[6]. De notar que a visão inaugural (Ap 1,9-20) assume, por condensação, valor proléptico e programático para o desenrolar do inteiro Livro[7].

3.1. Primeira Parte: sabor epistolar

Uma primeira Parte de teor exortativo (Ap 1,9-3,22), em que o leitor e o ouvinte são interpelados com as palavras certeiras dirigidas às «sete Igrejas que estão na Ásia» (o chamado setenário das “cartas”), assinaladas com os nomes de Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. O leitor e o ouvinte ditos “implícitos” ou “modelo”, isto é, aptos a efectuar as operações mentais e afectivas que deles requer o Autor do Apocalipse, não perderão demasiado tempo a tentar situar na história e na geografia estas sete Igrejas, colocadas, de resto, na costa ocidental da Ásia Menor; serão, antes, levados a ver neste número “sete” a totalidade ou a ecumenicidade da Igreja[8], e compreenderão logo que as cartas são dirigidas a eles. Lido desde esta perspectiva epistolar, o Apocalipse apresenta-se ao leitor e ao ouvinte com um carácter familiar, com menção do autor, destinatários, e saudações de graça e paz, como vemos na Apresentação, Endereço e Saudação (Ap 1,4) e na Conclusão (Ap 22,21).

3.1.1. Leitores e ouvintes na Assembleia litúrgica

Mas podemos dar ainda um passo em frente: os leitores e os ouvintes que o Autor do Apocalipse tem em mente não são leitores e ouvintes vulgares, mas qualificados. Trata-se dos leitores que proclamam a Palavra na Assembleia litúrgica e dos ouvintes que ouvem a Palavra na Assembleia litúrgica[9], como decorre de Ap 1,3, onde se lê: «Feliz (makários) o leitor (anaginôskôn) e os ouvintes das palavras desta profecia». Anaginóskô mantém-se ainda hoje como termo técnico da “leitura” no Rito Bizantino grego[10].

3.1.2. Leitura atravessada pela felicidade

Outro passo em frente: note-se como o texto do Apocalipse abre praticamente com um “macarismo” ou “felicitação” dirigido à Assembleia litúrgica dos leitores e dos ouvintes fiéis: «Feliz (makários) o leitor (anaginôskôn) e os ouvintes das palavras desta profecia» (Ap 1,3). Esta nota de felicidade torna-se ainda mais sintomática, quando a vemos como que repetida no final do Livro, em jeito de inclusão: «Feliz (makários) o que guarda as palavras da profecia deste livro» (Ap 22,7). Vê-se bem que esta afirmação, que, de resto, atravessa significativamente o Livro do Apocalipse por sete vezes (Ap 1,3; 14,13; 16,15; 19,9; 20,6; 22,7.14), não é uma ameaça, mas uma declaração de felicidade[11]. Note-se bem que a felicidade é de uma ordem diferente da satisfação. A satisfação apega-se ao “eu” e acontece quando eu encontro o objecto ou o meio para saciar um apetite ou um instinto. A felicidade apega-se ao “outro”[12], e é um dom que vem de fora. Só o posso receber de outras mãos. Não o posso produzir por mim mesmo[13].

3.1.3. Igreja segura na mão direita do Filho do Homem

Um novo passo em frente: esta Assembleia litúrgica, que é a Igreja, não anda à deriva nem está abandonada, mas serenamente firme na mão direita do “Filho do Homem”, que «segura na sua mão direita as sete estrelas» (Ap 2,1; cf. 1,16) e «caminha no meio das sete lâmpadas de ouro» (Ap 2,1; cf. 1,20). Sete “estrelas”, sete “lâmpadas”: a mesma Igreja, na sua dupla dimensão celeste e terrestre, comungando já do destino glorioso do seu Senhor, ao mesmo tempo que luta ainda nesta terra para conservar a sua frágil lâmpada acesa, batida por vezes por ventos tão contrários[14]. Fragilidade firme do “Filho do Homem”, «que esteve morto, mas está vivo» (Ap 1,18), «Aquele que nos ama» (Ap 1,5), «o Primogénito dos mortos» (Ap 1,5), «o Vivente» (Ap 1,18), que atravessa a inteira Escritura em filigrana, desde o “Homem” de Gn 1,26-28, que deve dominar a animalidade, não pela força, mas pela doçura da palavra, passando pelo “Filho do Homem”, por 93 vezes nomeado em Ezequiel, e que é Ezequiel, profeta frágil, que fala frágil e se estatela face à brutalidade de um povo de dura cerviz, passando pelo “Filho do Homem” de Dn 7,13-14 que domina pela doçura as “Bestas” enormes que são os impérios totalitários, idolátricos e inumanos (Neobabilónia, Média, Pérsia, Grécia) (Dn 7,17-18), passando ainda pelo “Filho do Homem” dos Evangelhos, por 82 vezes nomeado, e que é Jesus, que se expõe à nossa violência, absorvendo-a, e só assim a absolvendo e dissolvendo por amor até ao fim, soberania frágil, firme, do amor, até chegar finalmente ao “Filho do Homem” do Apocalipse[15]. O Filho do Homem é o Filho do Homem de Gn 1, que traz sempre consigo o mundo sete vezes Bom da criação. O Bem não começa. O Bem é Primeiro. O que começa é o mal, que é o o nosso estado “de natureza” ou “de violência” ainda que depois amenizado pelas nossas “convenções de razão” (Gn 9,3-4). O Bem é Primeiro. O Bem não começa. Se não começa, tão-pouco acaba. É «Primeiro e Último» (Ap 1,17; 22,13), «Alfa e Omega» (Ap 1,8; 21,6; 22,13). O que acaba é o penúltimo, o que se estende do segundo ao penúltimo, do Beta ao Psi, dissolvido pelo Último. É por isso que «o Senhor vem» (Maran athá), e que devemos sempre rezar: «Senhor, vem» (Maraná thá) (Ap 22,20)[16].

3.1.4. As Cartas seguem um modelo, fácil de identificar:

1) Fórmula introdutória. A abrir cada uma das Cartas, encontramos um dos atributos de Cristo já apresentados na visão inaugural (1,9-20)[17];
2) Fórmula de conhecimento. Elemento que se mantém constante, e constitui a afirmação inicial de Cristo: «Eu conheço…» (verbo oîda, e não ginôskô)[18];
3) Fórmula de acusação: «Tenho contra ti…»;
4) Fórmula de conversão: «Converte-te…»;
5) Fórmula de escuta: «Quem tem ouvidos, oiça…»;
6) Fórmula final: «Ao vencedor, darei…».

 

De forma sucinta, meramente indicativa, mostramos aqui o modelo aplicado a cada uma das Cartas enviadas às Igrejas:

 

I. ÉFESO
(1) Aquele que segura as 7 estrelas na mão direita
e anda no meio dos 7 candelabros de ouro
(2) Conheço as tuas obras, trabalho (kópos) e perseverança (hypomonê),
não suportas os malvados (nicolaítas), sofreste por causa do meu Nome
(3) tenho contra ti o facto de teres abandonado o 1.º amor
(4) converte-te e faz as obras de antes
(5) Quem tem ouvidos, oiça o que o Espírito diz às Igreja
(6) Ao vencedor darei a comer da árvore da vida
 
II. ESMIRNA
(1) O Primeiro e o Último, o que esteve morto e voltou à vida
(2) Conheço a tua tribulação e pobreza, mas és rica (de fé)
                   -não tenhas medo do que irás sofrer: pequena tribulação de 10 dias
                   -mantém-te fiel até à morte
                   -dar-te-ei a coroa da vida
(5) Quem tem ouvidos, oiça o que o Espírito diz às Igrejas
(6) O vencedor não será lesado pela 2.ª morte
 
III. PÉRGAMO
(1) Aquele que tem a espada afiada, de dois gumes
(2) Conheço onde moras: onde está o trono de Satanás (culto do imperador, 1.ª cidade na Ásia)
                   -seguras firmemente o meu Nome e não renegaste a fé
(3) tenho contra ti que há aí pessoas que seguem Balaão (Nm 31,16) e os nicolaítas
(4) converte-te; de contrário virei combatê-los com a espada da minha boca
(5) Quem tem ouvidos, oiça o que o Espírito diz às Igrejas
(6) Ao vencedor darei o maná escondido e uma pedrinha branca que tem escrito um nome novo
 
IV. TIATIRA
(1) Filho de Deus, cujos olhos parecem chamas de fogo e os pés semelhantes ao bronze
(2) Conheço as tuas obras: o amor, a fé, a dedicação, a perseverança
(3) Tenho contra ti que toleras Jezabel:
(4) se não se converter, será castigada
(6) Ao vencedor darei autoridade sobre as nações, como eu recebi de meu Pai, e a estrela da manhã
(5) Quem tem ouvidos, oiça o que o Espírito diz às Igrejas
 
V. SARDES
(1) Aquele que tem os 7 Espíritos de Deus e as 7 estrelas
(2/3) Conheço as tuas obras: tens fama de estar viva, mas estás morta; há alguns que mantêm brancas as suas vestes
(4) torna-te vigilante
(6) O vencedor vestirá vestes brancas e terá o nome escrito no livro da vida
(5) Quem tem ouvidos, oiça o que o Espírito diz às Igrejas
 
VI. FILADÉLFIA
(1) O Santo, o Verdadeiro, o que tem a chave de David
(2) Conheço as tuas obras: guardaste a minha palavra e não renegaste o meu Nome
-os da sinagoga de Satanás hão-de prostrar-se diante de ti e reconhecer que Eu te amo;
-porque guardaste as minhas palavras, Eu te guardarei na hora da provação
(6) Ao vencedor, farei dele uma coluna no Templo do meu Deus, escreverei nele o nome do meu Deus, o nome da Cidade do meu Deus e o meu novo nome
(5) Quem tem ouvidos, oiça o que o Espírito diz às Igrejas
 
VII. LAODICEIA
(1) O Ámen, a Testemunha fiel e verdadeira
(2/3) Conheço as tuas obras:
                   -não és frio nem quente
                   -dizes: “sou rico, enriqueci e não preciso de nada”
                   -não te conheces, pois és infeliz, miserável, pobre, cego e nu
                   -compra de Mim ouro purificado e vestes brancas e colírio para os olhos, para poderes ver
(4) converte-te! Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, cearei com ele e ele comigo
(6) Ao vencedor, darei sentar-se comigo no meu trono
(5) Quem tem ouvidos, oiça o que o Espírito diz às Igrejas

 

3.2. Segunda Parte: sabor apocalíptico

3.2.1. Relatos de visões

Uma segunda Parte de teor mais propriamente apocalíptico (Ap 4,1-22,5)[19], em que se sucedem as visões, ou, mais exactamente, relatos de visões, feitos em andamentos setenários, em que o último elo de um setenário encaixa no primeiro elo do setenário seguinte, emprestando ao conjunto da narração um carácter progressivo, mas também recapitulativo e antecipativo, cheio de repetições, analepses e prolepses, recursos usuais nos bons contadores de histórias de qualquer tempo[20]. É assim com o relato das visões dos sete selos (Ap 4,1-8,1), das sete trombetas (Ap 8,1-15,1)[21], das sete taças (Ap 15,1-22,5)[22]. Também estes relatos se destinam a ser lidos e ouvidos em “leitura” pública[23], na Assembleia litúrgica. Por isso, em momentos-chave do relato, como é, por exemplo, o momento da abertura do 7.º selo, faz-se no céu um silêncio de meia hora (Ap 8,1). O silêncio é também uma estratégia do narrador tendente a provocar uma atitude de vigilância, atenção e escuta. Não é muito tempo nem é pouco. É o tempo necessário para a concentração, para que, quando a voz do alto falar, não exista qualquer possibilidade de se desperdiçar a oportunidade de a escutar[24]. Vigilância. Não nos podemos desculpar, dizendo: “Dormi apenas um quarto-de-hora”. Na verdade, nenhum momento é mais ou menos importante do que outro[25].

3.2.2. Figuras antagónicas

As visões relatadas desenham figuras antagónicas, algumas espectaculares e de fácil visualização, cujos programas constituem o enredo da história. Toda a gente se lembra das figuras inesquescíveis do Dragão, da Besta que sai do mar ou da terra, da grande Babilónia, da grande Prostituta. São as figuras, várias, mas sempre a mesma, do Império do mal. Do outro lado estão outras figuras como a de “Aquele que está sentado no trono”, do Cordeiro-Carneiro[26], do Cavaleiro, da Mulher e do seu Filho, da Nova Jerusalém, a Esposa do Cordeiro-Carneiro.

Para ser breve, os relatos falam dos incontáveis dislates e atrocidades da Besta, mas declara-se logo o seu fim para breve. Desenha-se no horizonte uma grande batalha, a batalha de HARMAGEDÔN (Ap 16,16), a batalha do Dia Grande do Deus-Omnipotente (Ap 16,14), que porá fim ao Império da Besta (Ap 17,14; 19,19-21).

3.2.3. A identificação da Besta

Se quiséssemos proceder à identificação da Besta, através da conjugação dos dados do Apocalipse patentes sobretudo em dois textos (13,18; 17,7.9-11)[27], chegaríamos sempre, com maior ou menor facilidade ou dificuldade, ao Imperador Domiciano (81-96)[28], ao Império romano, totalitário, idolátrico, tirânico, prepotente, fechado em si mesmo, e a todos os Impérios totalitários e idolátricos de todos os tempos, todos eles tirânicos, prepotentes e fechados sobre si mesmos, em que o clarividente Autor do Apocalipse faz ver já a repelente máscara da morte envolta numa atmosfera tresandando a amoníaco.

Para descrever o tempo, difícil para os cristãos, do imperador tirano Domiciano, o autor usa a técnica do salto em comprimento[29], habitual nas narrativas de teor apocalíptico. Recuando no tempo, pode ler melhor o que se vai passando, que, de resto, já é conhecido. É assim que o autor do Livro do Apocalipse escreve, com certeza, nos últimos anos do século I (95-100), fingindo que está a escrever nos anos 60[30].

3.2.4. A batalha de Harmagedôn

Mas passemos à descrição do combate decisivo de HARMAGEDÔN, procedendo à sobreposição de três textos do Livro do Apocalipse (16,14.16; 17,14; 19,11-15a.19-21):

 

«16,[13E vi da boca do dragão e da boca da besta e da boca do falso profeta três espíritos impuros sair com rãs[31].] 14São, na verdade, espíritos de demónios que fazem prodígios e vão sobre os reis de toda a terra, para os reunir para a guerra do Dia Grande do Deus-Omnipotente. 16E reuniu-os no lugar que, em hebraico, se chama HARMAGEDÔN[32]» (Ap 16,14.16).
 
«17,14Estes (os reis da terra que se reuniram para a batalha de HARMAGEDÔN) combaterão com o Cordeiro, e o Cordeiro vencê-los-á, porque é Senhor dos senhores e Rei dos reis, e os que estão com Ele e são chamados e eleitos e fiéis» (Ap 17,14).
 
«19,11E vi o céu aberto,[33] e eis um cavalo branco e o que se sentava sobre ele e se chamava “Fiel” e “Verdadeiro”, e julga e combate com justiça. 12Os seus olhos são chamas de fogo e sobre a sua cabeça há muitos diademas, tendo um nome escrito que ninguém, senão Ele, conhece; 13está vestido com um manto embebido de sangue, e o nome dele é chamado “Verbo de Deus”. 14Os exércitos do céu seguem-no com cavalos brancos, vestidos de linho branco e puro. 15Da sua boca sai uma espada afiada, para com ela ferir as nações […]. 19Vi então a Besta e os reis da terra e os seus exércitos, reunidos para fazer guerra contra o que se sentava sobre o cavalo e o seu exército. 20A Besta foi capturada, e, com ela, o falso profeta, o que tinha feito sinais na presença da Besta, com os quais tinha enganado os que tinham recebido a marca da Besta e os que adoravam a sua imagem: foram ambos lançados vivos no lago de fogo, ardente de enxofre[34]. 21Os restantes morreram pela espada que saía da boca dele, e todas as aves se saciaram com as carnes deles» (Ap 19,11-15a.19-21).

 

Esta batalha de HARMAGEDÔN apresenta-se no seguimento e cumprimento do «Dia de YHWH», anunciado desde Amós como o Dia em que YHWH destruiria os malvados, mas que, na verdade, nunca teve lugar na história. Está finalmente para se realizar. Quem intervém não é Deus-Pai, mas o Cordeiro-Filho-Verbo-Cavaleiro. É acompanhado à distância pelos exércitos celestes, que, todavia, não intervêm na batalha. O Cordeiro, juntamente com os que estão com Ele – os chamados e eleitos e fiéis – vencerá, sem combater, este combate (Ap 17,4)[35].

É dito que o Cavaleiro veste um manto embebido de sangue. Mas não se trata do sangue dos seus inimigos, pois o Cavaleiro é apresentado, neste quadro, a descer do céu, e a batalha ainda não foi relatada. Nem vai ser relatada[36]. Em boa verdade, não vai haver batalha. Refere-se simplesmente que o Cavaleiro captura a Besta e o falso profeta, que simbolizam o Império romano e o culto pagão e idolátrico de Roma. É certo que se descreve depois a destruição total dos restantes inimigos do Cavaleiro. Mas essa destruição não é operada, como seria de esperar, por meio de uma luta sangrenta, mas pela espada que sai da boca do Cavaleiro. E, no Apocalipse, esta espada é, como se sabe, a Palavra de Deus (Ap 1,16; 2,12.16).

O sangue ainda vivo de que está embebido o manto do Cavaleiro, não sendo o sangue dos seus inimigos, só pode ser o seu próprio sangue, e só pode então referir-se à Cruz de Jesus. A lição é clara: já teve lugar na Cruz a batalha do fim-dos-tempos, anunciada pelos profetas. Mas é ainda necessário que os que estão com Jesus, os cristãos, participem na luta, permanecendo vigilantes e fiéis à sua fé. E a única arma a empregar é a Palavra de Deus, que devemos ler, escutar, conhecer, amar, para dela viver, em todas as circunstâncias do dia-a-dia.

É assim que o Apocalipse é um Livro de esperança, de vigilância, de perseverança e de testemunho (martírio). Livro da Palavra: familiar como uma carta; certeira ao coração como uma exortação profética; pedagógica e empenhada e edificante como um belo relato, que decorre sempre do único verdadeiro fundamento: Cristo Crucificado e Ressuscitado. Não fala de medos e de violência. Fala de paz e de esperança. E ensina-nos, a nós, leitores e ouvintes da Palavra, que, face às duras realidades da vida, nunca nos é permitido desistir, dizendo: “já não há nada a fazer; já não há solução”. Tão-pouco é lícito, em circunstâncias difíceis, matar os outros ou suicidar-nos. E também não podemos, como fazem os membros de algumas seitas, limitar-nos a marcar sucessivas datas para o fim-do-mundo e ficar à espera de que Deus intervenha, sozinho, com o seu exército celeste para esmagar aqueles que nós indicamos como sendo os malvados desta terra[37].

3.2.5. A Esposa do Cordeiro

O Livro do Apocalipse apresenta um final grandioso.

 

«21,1E vi um céu novo e uma terra nova, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. 2E a cidade santa, a Jerusalém nova, vi descer do céu, de junto de Deus, preparada como uma esposa embelezada para o seu esposo. 3E ouvi uma voz grande, que vinha do trono, dizendo: “Eis a tenda de Deus com os homens, e habitará com eles, e eles serão o seu povo, e Ele, o Deus com eles, será o seu Deus, 4e enxugará todas as lágrimas dos seus olhos, e não haverá mais morte nem luto nem gemidos nem dor, pois as primeiras coisas passaram”.
5E disse o que está sentado no trono: “Eis que faço novas todas as coisas!”. E disse: “Escreve, pois estas palavras são fiéis e verdadeiras”. 6E disse-me: “Foram Realizadas! Eu Sou o Alfa e o Omega, o Princípio e o Fim. Ao que tem sede, Eu darei, de graça, da fonte da água da vida. 7O vencedor herdará estas coisas, e Eu serei Deus para ele, e ele será para Mim filho. 8Mas aos covardes e aos infiéis e aos depravados e aos assassinos e aos impuros e aos magos e aos idólatras e a todos os mentirosos, a parte deles é no lago que arde de fogo e enxofre, que é a segunda morte”.
9E veio um dos sete Anjos, aqueles que têm as sete taças cheias das sete últimas pragas, e falou comigo, dizendo: “Vem, vou mostrar-te a Esposa, a mulher do Cordeiro!”. 10E transportou-me em espírito a um monte grande e elevado, e mostrou-me a Cidade Santa, Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus, 11tendo a glória de Deus. O seu esplendor era semelhante a uma pedra preciosa, como pedra de jaspe cristalino. […] 18E o material da sua muralha é jaspe […], 19e os fundamentos da muralha da cidade estavam ornamentados com todo o tipo de pedras preciosas. O primeiro fundamento é jaspe» (Ap 21,1-11.18.19).

 

Final grandioso, sublime, hiperbólico, denso, insólito, paradoxal, oximórico. A comunidade do Povo de Deus aparece como Esposa do Cordeiro! Mas o Cordeiro (arníon) já tinha sido apresentado como imolado para sempre, com o verbo no particípio perfeito passivo (esphragménon), mas também de pé para sempre, também com o verbo no particípio perfeito (hestêkós) (Ap 5,6). Morto e de pé! Morto e à beira do casamento! O verdadeiro teste da esposa reside então na morte do esposo! Por isso, a esposa aparece belamente adornada! Não tem nada de viúva! O esposo é esperado no regresso da vitória alcançada na batalha da Cruz![38], que reabre o jardim do Éden[39]. Por isso, relata ainda o vidente:

 

«22,1Mostrou-me depois um rio de água da vida, límpida como o cristal, que saía do trono de Deus e do Cordeiro. 2No meio da praça, de um lado e do outro do rio, há árvores da vida que frutificam doze vezes, dando fruto em cada mês, e as suas folhas servem para curar as nações» (Ap 22,1-2).

 

Sim, da Cruz de Jesus, brota, por amor, para sempre e para todos, a água da vida, e a árvore da vida fica agora acessível a todos, o que não sucedia desde Gn 3,22. E a Cidade-Jardim, cheia de água (Gn 2,10) e de árvores da vida, fecundas e belas, é a Esposa, em cujo rosto transparece o Jaspe (Ap 21,11), que é também a primeira pedra da sua muralha (Ap 21,18) e dos seus alicerces (Ap 21,19). Jaspe é a primeira pedra, como Judá é a primeira tribo que abre a procissão solene dos 144.000 (Ap 7,5). E o Leão da tribo de Judá é o Único que pode abrir e ler o rolo selado (Ap 5,5). Mas, em vez de um Leão, surge um Cordeiro (Ap 5,6). A pedra de Jaspe é Cristo, o Leão da tribo de Judá é Cristo, o Cordeiro é Cristo.

 

António Couto


[1] O Sínodo teve lugar entre 1 e 23 de Outubro de 1999.

[2] T. VETRALI, El mensaje espiritual del Apocalipsis, in G. BARBAGLIO (ed.), Espiritualidad del Nuevo Testamento, Salamanca, Sígueme, 1994, p. 301.

[3] I. MAZZAROLO, As visões. Exegese e hermenêutica do livro do Apocalipse, cc. 4-8, in REB, 255, 2004, p. 577.

[4] P. BEAUCHAMP, Testament biblique. Recueil d’articles parus dans Études. Préface de Paul Ricoeur, Paris, Bayard, 2001,  p. 96.

[5] Nesta Exortação, o termo “esperança” ouve-se ou lê-se por 154 vezes.

[6] U. VANNI, La struttura letteraria dell’Apocalisse, Roma, Herder, 1971, p. 171-173.

[7] E. CHARPENTIER, Para leer el Nuevo Testamento, Estella, Verbo Divino, 1981, p. 106.

[8] P. PRIGENT, L’Apocalypse de Saint Jean, Genebra, Labor et Fides, nova edição revista e aumentada, 2000, p. 99.

[9] P. PRIGENT, L’Apocalypse de Saint Jean, p. 84.

[10] T. FEDERICI, Per conoscere Lui e la potenza della Resurrezione di Lui. Per una lettura teologica del Lezionario, Nápoles, Dehoniane, 1987, p. 56.

[11] P. PRIGENT, L’Apocalypse de Saint Jean, p. 84; T. VETRALI, El mensaje espiritual del Apocalipsis, p. 300.

[12] A. J. HESCHEL, Dio alla ricerca dell’uomo. Una filosofia dell’ebraismo, Roma, Borla, 1983, p. 414.

[13] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, Paris, Seuil, 1980, p. 146.

[14] P. PRIGENT, L’Apocalypse de Saint Jean, p. 111-112; EE, n.º 6.

[15] Os Evangelhos usam a expressão por 82 vezes (81 vezes nos lábios de Jesus), nunca em vocativo, sempre em 3.ª pessoa. Recolhe certamente a fragilidade-forte de Ezequiel, interpelado por Deus por 93 vezes com esta expressão, o senhorio dócil sobre a bestialidade de Dn 7,13-14, que evoca o Homem de Gn 1,26-28, com a missão de dominar a animalidade. P. DE MARTIN DE VIVIÉS, Jésus et le Fils de l’Homme. Emploits et significations de l’expression “Fils de l’Homme” dans les Évangiles, Lyon, PROFAC, 1995, p. 1.3.6.12.

[16] Esta cláusula neotestamentária é legível quer como Maran athá [= «o Senhor vem»] quer como Maraná thá [= «Senhor, vem»] (1 Cor 16,22; Ap 22,20; Rom 13,12; Fl 4,5; Tg 5,8; 1 Pe 4,7). P. STEFANI, Il tempo dell’attesa escatologica, in Humanitas, 58, 2003, p. 271.

[17]P. PRIGENT, L’Apocalypse de Saint Jean, p. 113.

[18] A escolha de oîda em detrimento de ginôskô pode ter a ver com a maior amplitude e profundidade do primeiro em relação ao segundo, de acordo com a intenção manifestada, por exemplo, em Jo 21,17: «Senhor, tu sabes (oîdas) tudo; tu sabes (ginôskeis) que te amo». P. PRIGENT, L’Apocalypse de Saint Jean, p. 114.119.

[19] J. LAMBRECHT, A Structuration of Ver 4,1-22,5, in J. LAMBRECHT (ed.), L’Apocalypse johannique et l’Apocalyptic dans le Nouveau Testament, Gembloux – Leuven, Duculot – University Press, 1980, p. 77-104; U. VANNI, La struttura, p. 182s.

[20] J.-P. PRÉVOST, L’Apocalypse (1980-1992), in M. GOURGUES, L. LABERGE (eds.), «De bien des manières». La recherche biblique aux abords du XXIe siècle, Montréal – Paris, Fides – Cerf, 1995, p. 437-438; P. PRIGENT, Lápocalipse de Saint Jean, p. 64.

[21] A sétima trombeta soa em Ap 11,15, e coincide com o terceiro “ouaí” (Ap 11,14; cf. 8,13; 9,12), fórmula de desgraça cujo conteúdo não pode ser a doxologia de Ap 11,15-18, mas o que vem depois, nomeadamente Ap 12,1-15,1, unidade literária que se articula com a menção por três vezes (as únicas em todo o Apocalipse) do termo “sinal” (sêmeîon) (Ap 12,1.3; 15,1). Note-se que a segunda menção surge agrafada à primeira através de um “outro” (állô) – “outro sinal” (állô sêmeîon) –, o mesmo acontecendo com a terceira menção, que soa também “outro sinal” (állô sêmeîon), agrafando-se assim às duas anteriores. U. VANNI, La struttura, p. 126-127.

[22] A sétima taça é mencionada em Ap 16,17, onde encontramos também a voz de Deus, declarando a realização (gégonen). Reencontramos o mesmo verbo, também no perfeito (gégona), e tendo Deus por sujeito, em Ap 21,6. A primeira fala de Deus (16,17) anuncia a destruição da “Prostituta” (pórnê), mencionada em Ap 17,1.5.15.16; 19,2; a segunda (19,6), o triunfo da “Esposa” (nýnphê). U. VANNI, La struttura, p. 129-130.202-205.

[23] P. PRIGENT, L’Apocalypse de Saint Jean, p. 64.

[24] I. MAZZAROLO, As visões, p. 582.

[25] P. BEAUCHAMP, Testament biblique, p. 68.

[26] No Apocalipse sempre arníon, Cordeiro grande ou Carneiro. Aparece por 28 vezes ao lado de Jesus (14 vezes) e de Cristo (7 vezes). G. K. BEALE, The Book of Revelation. A Commentary on the Greek Text, The New International Greek Testament Commentary (NIGTC), Grand Rapids, Eerdmans, 1999, p. 61.

[27] «13,18Aqui é preciso sabedoria. Quem é inteligente calcule o número da Besta, pois é um número de homem. O seu número é 666» (Ap 13,18).

«17,7… Explicar-te-ei o mistério da Prostituta e da Besta com sete cabeças e dez chifres, que a carrega. […] 9Aqui é necessário a inteligência da sabedoria: as sete cabeças são sete montes sobre os quais a Prostituta está sentada. São também sete reis, 10dos quais cinco já caíram, um existe e o outro ainda não veio; mas, quando vier, permanecerá por pouco tempo. 11A Besta que existia e já não existe é ela mesma o oitavo e também um dos sete, mas caminha para a perdição» (Ap 17,7.9-11).

[28] Se a Besta são sete montes e sete reis, dos quais cinco já caíram, um ainda existe, um permanecerá por pouco tempo, e é ela mesma o oitavo… Os cinco que já caíram podem muito bem ser: Augusto (27 a.C.-14 d.C.), Tibério (14-37), Calígula (37-41), Cláudio (41-54) e Nero (54-68). O que existe será então Vespasiano (69-79). O que permanecerá por pouco tempo será Tito (79-81). O oitavo, que é ele mesmo a Besta, é Domiciano (81-96), também conhecido por Nero redivivo. Por gematria (permutação das letras por números), o número 666 ajusta-se às consoantes de NRWN QSR [50+200+6+50 +100+60+200 = 666]. A Besta será então o tirano Domiciano, mas é também o Império romano e o seu culto imperial, idolátrico, tirânico, prepotente, luxurioso. E são, em última análise, todos os impérios idolátricos de qualquer tempo. Cálculos sempre com reserva, dado que, na cadeia dos Imperadores, não são mencionados Galba, Otão e Vitélio, que se seguiram imediatamente a Nero. Ver discussão do problema em G. K. BEALE, The Book of Revelation, p. 17-24.718-728; P. PRIGENT, L’Apocalypse, p. 49-54.

[29] E. CHARPENTIER, Para leer el Nuevo Testamento, p. 105.

[30] E. CHARPENTIER, Para leer el Nuevo Testamento, p. 105.

[31] Animais impuros, de acordo com a lição de Lv 11,9-12.41-47. Deve ter-se ainda em conta a praga devastadora das rãs no Egipto (Ex 8,2-11; cf. Sl 78,45; 105,30; Sb 19,10). G. K. BEALE, The Book of Revelation, p. 832; P. PRIGENT, L’Apocalypse, p. 364-365.

[32] Harmagedôn é Meguido, cidade e fortaleza estrategicamente colocada no corredor entre as montanhas do Carmelo e da Samaria, lugar de passagem obrigatória para militares e comerciantes em deslocação do Egipto para a Síria e Mesopotâmia, e lugar tradicional de batalhas em Israel. A. ALVAREZ VALDÉS, Le sens biblique de la bataille de Harmagedôn, in NRT, 123, 2001, p. 21.

[33] Para marcar a grandiosidade e a novidade desta visão, em Ap 19,11 é mesmo o inteiro céu que se abre para não mais se fechar. Noutros lugares, o vidente vê também o céu, mas só através de uma porta entreaberta (Ap 4,1; 11,19; 15,5). A. ALVAREZ VALDÉS, Le sens biblique de la bataille de Harmagedôn, p. 23; P. PRIGENT, L’Apocalypse de Saint Jean, p. 171.

[34] O lago de fogo é a “segunda morte”, já referida em Ap 2,11. Opõe-se à “vida eterna”, tal como a “primeira morte” se opõe à “vida física”. É o contrário da graça. É também o destino do diabo em Ap 20,10. O diabo não morre. Conhece uma eternidade sem ressurreição. P. PRIGENT, L’Apocalypse de Saint Jean, p. 129.424.444.

[35] A. ALVAREZ VALDÉS, Le sens biblique de la bataille de Harmagedôn, p. 22.

[36] P. PRIGENT, L’Apocalypse de Saint Jean, p. 424.

[37] A. ALVAREZ VALDÉS, Le sens biblique de la bataille de Harmagedôn, p. 25.

[38] Grande leitura de P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament. II. Accomplir les Écritures, Paris, Seuil, 1990, p. 192.

[39] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament, II, p. 236.

 


MÚSICA NOVA COM PAUSA E BEMOL

Março 14, 2014

 

1. Baptizado no Jordão, tentado no deserto, mas Vitorioso, Jesus começou a executar o seu programa filial baptismal que tem por meta a Cruz Gloriosa (Baptismo consumado!) em que nós somos por Ele baptizados com o fogo e com o Espírito Santo (sempre o luminoso texto de Lucas 12,49-50). Entre o Jordão e a Cruz Gloriosa aí está Hoje, Domingo II da Quaresma, o episódio da Transfiguração (Mateus 17,1-9) – Luz incriada e inacessível (Mateus 17,2; cf. Sa1mo 104,2; 1 Timóteo 6,16) que investe a Humanidade de Jesus: experiência momentânea da Ressurreição –, mediante a qual o Pai confirma o Filho na sua missão filial baptismal, já iniciada, mas ainda não consumada. Que a Transfiguração deve ser vista à luz da Ressurreição, fica bem patente no dizer das Igrejas do Oriente que chamam à Festa da Transfiguração, que se celebra no dia 6 de Agosto, «a Páscoa do verão». Mas está também claro na ordem taxativa de Jesus ao descer do monte: «A ninguém digais esta visão até que o Filho do Homem seja Ressuscitado dos mortos» (Mateus 17,9).

 2. Jesus impõe, portanto, na nossa pauta musical pausa e bemol. Não podemos dizer a Transfiguração do Senhor, antes da Ressurreição do Senhor. E não podemos, porque não sabemos. E não sabemos, porque é só o Ressuscitado que faz vir o Espírito Santo sobre nós. Veja-se a lição do Livro dos Actos dos Apóstolos: «Este Jesus, Deus o Ressuscitou, e disto todos nós somos testemunhas. Exaltado à direita de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou-o, e é o que vedes e ouvis» (2,32-33). E o comentário preciso e precioso do narrador às palavras que Jesus acabava de proferir: «Isto disse do Espírito que haviam de receber os que tinham acreditado n’Ele, pois não havia ainda Espírito [para nós], porque Jesus ainda não tinha sido glorificado» (João 7,39). Pausa e bemol, porque importa que não sejamos nós a falar. Importa que seja o Espírito Santo a falar em nós. Toda a atenção, neste sentido, para o grande dizer de Jesus: «Quando vos entregarem, não vos preocupeis com ou como falais (laléô). Ser-vos-á dado naquela hora o que falar (laléô). Na verdade, não sois vós que falais (laléô), mas será o Espírito do vosso PAI que falará (laléô) em vós» (Mateus 10,19-20).

3. A tradição situa o «monte alto», que abre o episódio da Transfiguração (Mateus 17,1), no Tabor, um monte de forma arredondada que se ergue nos seus 582 metros no meio da planície galilaica de Jesrael ou Esdrelon. No sopé do Tabor ainda hoje se encontra a aldeia palestiniana de Daburiyya, cujo eco evoca a personagem bíblica mais importante desta região, a profetisa Débora. As Igrejas do Oriente conhecem este episódio da Transfiguração por «Metamorfose» (Metamórphôsis), a partir das palavras do texto: «E transformou-se (metemorphôthê) diante deles [= Pedro, Tiago e João], e resplandeceu o seu rosto como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz» (Mateus 17,2). O branco é a cor divina. E a luz é o seu vestido, conforme o dizer do Salmo 104,2: «Vestido de Luz como de um manto». E, nesse cone de luz, o Apóstolo exorta-nos: «Caminhai como filhos da luz», e lembra-nos que «o fruto da luz é toda a bondade, justiça e verdade» (Efésios 5,8 e 9).

 4. Baptizado para a Cruz Gloriosa, Confirmado para a Cruz Gloriosa. As mesmas palavras do Pai no Baptismo e na Transfiguração / Confirmação: «o Filho Meu», «o Amado» (Mateus 3,17; 17,5), agora seguidas pelo imperativo «Escutai-o!», dirigido a todos os discípulos: Jesus é também o «Profeta novo», como Moisés, prometido em Deuteronómio 18,15-18. Testemunham a cena grandiosa da Transfiguração / Confirmação três discípulos – como dispunha a Lei antiga: duas ou três testemunhas (Deuteronómio 17,6) –, os quais são igualmente confirmados para a sua missão futura (após a Ressurreição com a dádiva do Espírito) de dar testemunho d’Ele. Aparecem Moisés e Elias que falam com Jesus Transfigurado / Ressuscitado: é para Ele que aponta todo o Antigo Testamento! As «Escrituras», Moisés, todos os Profetas e os Salmos, falam acerca d’Ele! (Lucas 24,27 e 44; João 5,39 e 46; Actos dos Apóstolos 10,43). É o «Segundo as Escrituras» que os discípulos também devem testemunhar. Pedro, sempre ele, em nome dos discípulos de então e de sempre, tenta impedir Jesus de prosseguir a sua missão filial baptismal até à Cruz: «Senhor, bom é estarmos AQUI… Levantarei AQUI três tendas» (Mateus 17,4). AQUI significa deter-se no provisório, no preliminar e no penúltimo, e recusar caminhar para o definitivo e o último! Marcos 9,6 e Lucas 9,33 anotam criteriosamente que «não sabia o que dizia». Não sabia, porque ainda não tinha sido baptizado com o Espírito Santo e com o fogo; quando o for, saberá também ele, discípulo fiel, baptizado / confirmado, levar por diante a missão filial baptismal em que foi investido, e dará testemunho até ao sangue.

 5. A Ressurreição é a Transfiguração tornada permanente, eterna. Todos os baptizados / confirmados estão destinados à mesma Ressurreição / Transfiguração do Senhor: a Divinização.

 6. A lição do Livro do Génesis (12,1-4) abre diante de nós o caminho novo já apontado no Evangelho: «VAI para ti (lek-leka), do teu país, da tua parentela e da casa do teu pai, para o país que Eu te farei ver» (Génesis 12,1). Com este imperativo, Deus põe em marcha Abraão e a inteira história da salvação que se lhe segue. «E Abraão partiu» (Génesis 12,4). Com este gesto esplendorosamente mudo, Abraão comprometeu-se e comprometeu-nos a nós também. Abraão arrasta consigo a história toda. Ele parte (e a história com ele) em direcção a Cristo, que é a sua verdadeira descendência (Gálatas 3,16). Abraão viu-O e saudou-O de longe (Hebreus 11,13), cheio de alegria (João 8,56). A sua meta é clara e define e alumia a sua estrada que até lá conduz e em que caminha Abraão, fazendo assim dele também antecipadamente «filho da Luz». Abraão não se despede do passado, e faz ao futuro um aceno de esperança e de alegria. São tão simples, tão novos e tão decididos os gestos e os passos de Abraão! Talvez devamos mesmo seguir o conselho de Isaías, o profeta: «Olhai para Abraão, vosso Pai» (Isaías 51,2). E partir com ele DAQUI, do provisório, do preliminar, do penúltimo, ao encontro de Cristo Ressuscitado.

 7. Movido pela Palavra de Deus, único verdadeiro motor da sua vida, Abraão parte do seu país e da casa do seu pai. Mas não se trata apenas de uma viagem no mapa. Não é meramente da ordem da geografia. É sobretudo da ordem suprema da pessoa e da liberdade. Note-se bem que o texto não diz simplesmente: «VAI (lek) do teu país», mas «VAI para ti (lek-leka) do teu país», especialíssima locução que a gramática hebraica classifica como «dativo ético». Viagem diferente, que implica um trabalho de casa, dentro da própria casa, dentro da própria pessoa, trabalho de libertação para a liberdade, até nos fazermos verdadeiramente livres, abertos, disponíveis, acolhidos, acolhedores, abençoados, abençoadores.

 8. É ainda nesse sentido que Abraão é chamado «o hebreu» (ha-‘ibrî) (Génesis 14,13). ‘ibrî reporta-se a ‘eber, que significa «margem». Ele vem da «outra margem do Rio» (Josué 24,3). Mas reporta-se também a ‘abar, que significa «passar», «atravessar», «ir além de», «converter-se», «abrir uma passagem», «transferir», o que implica um movimento ao mesmo tempo objectivo e subjectivo, activo e passivo. Abraão é o homem que atravessa fronteiras, mas é sobretudo o homem que se atravessa a si mesmo. Viajante transitivo e intransitivo.

 9. E o Apóstolo testemunha (2 Timóteo 1,8-10) que o mesmo Deus que chamou Abraão, também nos chamou a nós (2 Timóteo 1,9). Por pura graça. Para dar testemunho do Evangelho e participar na sua vida. Por isso, tal como Abraão, também Paulo esqueceu o passado e correu para o futuro (Filipenses 3,13). E quer agora empenhar nesta «corrida» o seu discípulo Timóteo. E a nós também. Contra a contínua tentação de querermos ficar AQUI, no provisório, no preliminar, no penúltimo, como Pedro (Evangelho) e todos os discípulos (Actos dos Apóstolos 1,11).

 10. E o Salmo 33(32) acende no nosso coração um hino de louvor, um cântico novo, ao Deus Criador e Providente, que vela por nós com o seu olhar de graça. «Já sabes o que o cântico novo: um homem novo, um cântico novo» (S.to Agostinho).

 António Couto


NO DESERTO A CÉU ABERTO

Março 8, 2014

 

1. Só secundariamente a Quaresma «prepara» para a Ressur­reição do Senhor. Na verdade, todos os «Tempos» e todos os Domingos do Ano Litúrgico, portanto, também a Quaresma e os seus Domingos, estão depois da Ressurreição e por causa da Ressurreição. E é só sob a intensa luz do Senhor Ressusci­tado com o Espírito Santo (Baptismo consumado: Lucas 12,49‑50) que a Igreja – e cada um de nós – pode celebrar autenti­camente a sua fé, proceder à correcta «leitura» das Escri­turas e encetar a «caminhada» quaresmal. Neste sentido, todos os baptizados são chamados a refazer com Cristo bapti­zado o seu programa baptismal, cujo conteúdo e itinerário conhecemos: desde o Baptismo no Jordão, passando pela Trans­figuração / Confirmação no Tabor, até à Cruz e à Glória da Ressurreição (Baptismo consumado!), escutando / anunciando sempre e cada vez mais intensamente o Evangelho do Reino e fazendo sempre e cada vez mais intensamente as «obras» do Reino (Actos dos Apóstolos 10,37-43: texto emblemático); os catecúmenos, acompanhados sempre pela Assembleia dos baptizados, «pre­param‑se» intensamente para a Noite Pascal Baptismal, início e meta da vida cristã.

 2. O Evangelho deste Domingo I da Quaresma oferece-nos o episódio das Tentações de Jesus (Mateus 4,1-11) (sobre este texto, ver o nosso Introdução ao Evangelho segundo Mateus, Paulus, 2014, p. 62-66). Baptizado com o Espírito Santo, e declarado por Deus publicamente: «Este é o Filho meu, o Amado, em quem me comprazo» (Mateus 3,16). Note-se bem que, em Mateus, o dizer do Pai é para nós, pois fala em 3.ª pessoa: «Este é…». De modo diferente, em Marcos e em Lucas, o dizer do Pai é para Jesus, pois fala em 2.ª pessoa: «Tu és o Filho meu, o Amado, em ti me comprazo» (Marcos 1,11; Lucas 3,22).

 3. Jesus é conduzido pelo Espírito Santo para o deserto (Mateus 4,1). Note-se bem que este «deserto» bíblico não se ajusta ao que dizem os dicionários ou enciclopádias. Até contradiz esses dizeres. Na verdade, não é um lugar geográfico, mas teológico, pois é apresentado com muita água (João 3,23) cumprindo Isaías 35,6-7, 41,18 e 43,19-20, com árvores (canas) (Mateus 11,7; Lucas 7,24) e relva verde (Marcos 6,39) cumprindo Isaías 35,1 e 7 e 41,19. É um lugar provisório e preliminar, preambular, longe do que é nosso, onde se está «a céu aberto» com Deus, onde troará a voz do seu mensageiro (Isaías 40,3), de João Baptista (Mateus 3,1-3), do próprio Messias segundo uma tradição judaica recolhida em Mt 24,26. O deserto é o lugar onde se pode começar a ver a «obra» nova de Deus (Isaías 43,19). Mas é um lugar provisório, onde estamos de passagem, e não definitivo, para se habitar lá (à maneira dos Essénios). Sendo um lugar provisório e de passagem, aponta para o definitivo, que é a Terra Prometida, onde Deus fará habitar e descansar o seu povo fiel. Este deserto é uma metáfora da nossa vida, onde sabemos que estamos de passagem. O deserto é todo igual: não tem pontos de referência nem marcos de sinalização. Quer dizer que só podemos prosseguir rumo à Terra Prometida e à Vida verdadeira, se tivermos um bom guia. Aí está o deserto como lugar onde temos de saber escutar a «Voz do fino silêncio» de Deus e ler o mapa da sua Palavra.

 4. Por 40 dias e 40 noites Jesus jejuou (Mateus 4,2). 40 é simbolicamente o tempo de uma geração, de uma vida. Jesus jejuou, portanto, a vida toda. Modelo para nós. E o que é que significa jejuar? Jejuar é fazer pausa e pôr bemol na nossa maneira habitual de viver, até compreender que tudo o que está na minha mesa, mãos, inteligência, coração, é dom de Deus, não apenas para mim, mas para nós, todos filhos de Deus e, portanto, todos irmãos. A alegria da partilha. Os dons são para partilhar, não para usurpar.

 5. É assim que as tentações diabólicas pretendem atingir Jesus na sua condição filial baptismal, separando-o de Deus e dos irmãos, não fosse o diabo, diá-bolos, o máximo «divisor» ou «separador» comum. É, portanto, na sua condição de baptizado, isto é, de Filho de Deus, que Jesus é tentado. Na verdade, toda a tentação, a de Cristo como a nossa, começa sempre da mesma maneira: «Se és o Filho de Deus…». Atente-se em como se repete nos mesmos termos sob a Cruz (Mt 27,39-44), também por três vezes, sendo aqui os tentadores os transeuntes, os chefes dos sacerdotes e os ladrões. Portanto, sempre. Do Baptismo até à Morte, a tentação visa afastar-nos de Deus e dos seus dons, e pôr-nos ao serviço do «deus deste mundo» (2 Coríntios 4,4; cf. João 12,31). Veja-se a última oferta do Tentador do Evangelho de hoje: «todos os reinos deste mundo» em troca do afastamento de Deus (Mateus 4,8-9). E a resposta decidida de Jesus: «Vai-te, Satanás!» (Mateus 4,10).

 6. Lêem-se também hoje dois bocadinhos do Livro do Génesis 2,7-9 e 3,1-7. O homem de todos os tempos e de todos os lugares, nós também, modelado pelas mãos puras de Deus e acariciado com um «beijo de Deus» – é assim que os rabinos interpretam aquele sopro de Deus no rosto do homem (Génesis 2,7) –, cedeu à tentação, afastando-se do Bom Deus Criador e aderindo aos «deuses deste mundo», aqui simbolizados na cobra, animal que anda rente ou por dentro da terra, a grande deusa-mãe, comungando da sua vitalidade, e tornando-se, por isso, em símbolo do culto da fertilidade, fecundidade e vitalidade em todo o Médio Oriente Antigo e ainda hoje no nosso mundo: vejam-se os painéis que assinalam as portas das farmácias! Está diante de nós o orgulho do homem de todos os tempos, que não quer ser dependente e contingente, que é a condição da criatura boa que se recebe sempre do Deus Criador, mas quer ser autónomo e independente, senhor tirânico e prepotente, como os deuses dos mitos mesopotâmicos ou gregos. Admirável contraponto do Evangelho de hoje.

 7. No grande texto da Carta aos Romanos 5,12-19, S. Paulo repete que somos pecadores, pois todos nos podemos ver em Adão como em um espelho. Mas agora, insiste Paulo, é tempo de vermos a nossa vida à luz de Cristo, com Cristo, em Cristo, para Cristo. Fixamente, para não nos perdermos no caminho filial, fraternal, baptismal. Onde abundou o pecado, superabundou a graça. É esta a Sabedoria que Paulo nos transmite.

 8. Cantamos hoje o Salmo 51(50), a súplica penitencial por excelência, que constitui a ossatura espiritual de Agostinho, de Charles de Foucauld, de Joana D’Arc, que inspirou a pena de muitíssimos Padres da Igreja, e ecoa na música de Bach, Lulli, Donizetti, Honegger… Hoje é a nossa vez de nos sentarmos um pouco a trautear a música que nos atravessa e nos põe de pé. Está aqui a letra e a música do homem, de qualquer homem, seja ele quem for, de que raça for, de que religião for. Deixo aqui, a fechar, as palavras altíssimas da grande mística muçulmana do século VIII, Rabiʽa, de seu nome: «Um homem disse a Rabiʽa: “Cometi muitos pecados e muitas transgressões; se me arrepender, Deus perdoar-me-á?”. Disse Rabiʽa: “Não. Tu arrepender-te-ás, se Ele te perdoar”» (I detti di Rabiʽa, XII, 2).

António Couto


SE OS PROFETAS…

Março 6, 2014

 

«Se os profetas irrompessem
pelas portas da noite
com as suas palavras abrindo feridas
nas rotinas do nosso quotidiano
(…)
 
Se os profetas irrompessem
pelas portas da noite
à procura de um ouvido como pátria
 
Ouvido humano
obstruído por mato e por silvas
será que saberias escutar?»
 

Nelly Sachs