EM NOME DO PAI E DO FILHO E DO ESPÍRITO SANTO


 

1. A oração e a bênção em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo pressupõe o anúncio de Deus, que é Pai, Filho e Espírito Santo, bem como a fé nesse Deus. O nome de Deus é posto em relação com o conhecimento que temos dele. Deus manifesta o seu nome, para que possamos conhecê-lo, para que nos possamos dirigir a ele e entrar em relação com ele. Jesus deu-nos a conhecer Deus como Pai, Filho e Espírito Santo, e é este o núcleo mais profundo da sua mensagem. Na verdade, Jesus dá-nos a conhecer Deus de uma forma não acessível antes dele. O Antigo Testamento conhecia o Deus Criador do céu e da terra, que tem diante de si apenas criaturas, infinitamente diferentes dele, e em que não se entrevê nenhum digno interlocutor de Deus. No plano divino, este Deus está sozinho consigo mesmo numa sublime solidão. Mas Jesus anuncia um Deus que, no plano divino, tem um interlocutor de pleno valor: o Deus de Jesus não está sozinho, mas vive em comunhão. Diante do Pai está o Filho, ambos unidos estão entre si, conhecem-se, compreendem-se e amam-se reciprocamente na plenitude e perfeição divina, por meio do Espírito Santo.

 2. Tentemos avançar um pouco mais. O Deus de Jesus, enquanto dádiva suprema fundante, é o Pai. Mas a dádiva suprema do Pai, infinita riqueza, constitui o Filho, infinita pobreza, que tudo recebe. Mas, ao receber tudo, infinita receção, o Filho volta a dar tudo numa infinita doação sem defesa e sem limites. E esta comunhão-comunicação-vida-amor de si-a-si, circular, vertiginosa, tranquila e imperecível, constitui o Espírito Santo, a Pessoa-Dom incriado, para o dizer com a bela expressão de S. João Paulo II.

 3. Na Carta Encíclica Dominum et vivificantem, de 18 de Maio de 1986, o Papa João Paulo II afirma por diversas vezes a definição do Espírito Santo como «pessoa-dom» (n.os 10.22.23.50). O Papa voltou a este assunto nas suas «Catequeses ao Povo de Deus», nas audiências de 4.ª feira, de 26 de Abril de 1989 a 3 de Julho de 1991. Importante para o assunto em questão é a «Catequese» de 21 de Novembro de 1990, dedicada por inteiro à consideração do Espírito Santo como Dom. Nela, o Papa afirmou que «pertence à revelação de Jesus o conceito de Espírito Santo como Dom concedido pelo Pai» (JOÃO PAULO II, Catechesi sul credo. III. Credo nello Spirito Santo, Cidade do Vaticano, Editrice Vaticana, 1992, p. 287-289). Implica isto que a determinação de Dom referida à terceira pessoa da Trindade entra no depositum fidei, e não fica, portanto, entregue à simpatia do crente ou do teólogo.

4. Em Deus, o Pai dá-se ao Filho por amor – princípio da doação –, mas não perde a sua dimensão paterna, tornando-se Filho; do mesmo modo que o Filho, acolhendo o dom da paternidade por amor – termo da doação –, não anula a sua determinação filial, tornando-se Pai. Uma ação requer sempre a outra para se completar, estando as duas pessoas reciprocamente implicadas. Entre mim e o meu amigo, o Dom é um objeto, mas quanto mais intensamente é Dom, isto é, quanto mais significa a nossa doação íntima e pessoal, menos é um objeto materialmente determinado. Por isso eu gasto tanto tempo até encontrar o Presente que quero oferecer ao meu amigo, um objeto que signifique a nossa intimidade. Em Deus, entre o Pai e o Filho, o Dom é o Espírito Santo, Pessoa divina subsistente, Pessoa-Dom, distinto do Pai e do Filho, dos quais procede, mas distinto também do ato da doação, de que é o efeito e a significação. Se ele fosse o ato da doação, não constituiria uma pessoa subsistente, pois não existiria como tal; seria a soma de duas pessoas, não uma terceira. E o facto de ser o efeito e a significação da doação não implica qualquer subalternidade ou secundariedade, dado que, em Deus, pensamento, expressão, comunicação, efeito, alfa e ómega, são simultâneos e coeternos.

5. É esta a vida eterna a que, por graça, somos chamados e destinados: viver na graça de Jesus Cristo, no amor do Pai e na comunhão do Espírito Santo pelos séculos dos séculos.

António Couto

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