O ESSENCIAL E AS SOBRAS

Outubro 25, 2014

1. Aí está, no Evangelho deste Domingo XXX do Tempo Comum (Mateus 22,34-40), mais uma pergunta armadilhada [«para o experimentar», verbo grego peirázô, literalmente «montar um laço, uma armadilha»] posta a Jesus por um Fariseu, um doutor da lei (nomikós), única menção deste nome em todo o Evangelho de Mateus. Antes deste «legista» partir ao encontro de Jesus com a sua pergunta traiçoeira, destinada a capturá-lo na armadilha preparada, é-nos dito que os Fariseus se reuniram (Mateus 22,34). Mas já o tinham feito também em Mateus 22,15, antes da pergunta sobre o imposto, e é ainda reunidos que os encontramos em Mateus 22,41, antes da pergunta decisiva de Jesus acerca da filiação do Messias, que os reduzirá ao silêncio (Mateus 22,46). Estas sucessivas reuniões dos Fariseus para estudar a maneira de tramar Jesus representam uma clara alusão ao Salmo 2, em que se diz que os reis das nações se amotinam contra Deus e contra o seu Messias.

2. A pergunta armadilhada que o «legista» fariseu coloca a Jesus soa assim: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?» (Mateus 22,36). A pergunta parece inofensiva, mas, na verdade, destina-se a tentar arrastar Jesus para o plano inclinado da interminável discussão académica. De facto, os mestres judeus, lendo minuciosamente a Lei, ou seja, os cinco primeiros Livros da Bíblia [= Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio], e reduzindo-a a preceitos, tinham contado lá 613 preceitos, sendo 365, tantos quantos os dias do ano, negativos, e 248, tantos quantos, assim se pensava então, os membros do corpo, positivos.

3. A questão que entretinha os mestres e as suas escolas era agora a de estabelecer uma ordem nesses 613 preceitos ou mandamentos, dizendo qual consideravam o primeiro ou o mais importante ou o maior, e assim por diante. Discussão interminável e natural fonte de conflitos, pois cada mestre sua sentença. Qual seria então a posição de Jesus nesta matéria, e como a defenderia?

4. Jesus responde ao «legista» fariseu, não caindo, porém, na apertada ratoeira que este lhe arma, mas abrindo portas, janelas e… corações engessados! Na verdade, e como sempre costuma fazer, a resposta de Jesus excede, rebentando-a, a pergunta feita. Jesus cita, em primeiro lugar, o Livro do Deuteronómio 6,5: «AMARÁS o Senhor, teu Deus, com todo o coração, toda a alma, todas as forças». Dito isto, Jesus opera um inesperado, para o «legista», salto de trapézio, e acrescenta: «O segundo, porém, é semelhante (homoía) a este, e cita agora o Livro do Levítico 19,18: «AMARÁS o teu próximo como a ti mesmo».

5. Ora, o «legista» estava apenas interessado em saber qual era, segundo o Mestre Jesus, o primeiro mandamento. Jesus respondeu, mas fez logo saber ao «legista» também o segundo. Mas não disse simplesmente que era o segundo. Disse que este segundo era semelhante ao primeiro. Ora, se é semelhante (e só Mateus usa aqui este semelhante), já não é apenas segundo, mas faz corpo com o primeiro. Sendo assim, então o AMOR a Deus é verificável no AMOR ao próximo, no nosso dia-a-dia.

6. Mas Jesus rebenta outra vez a pergunta do «legista», na conclusão que tira, e em que refere que «Destes dois mandamentos se suspende», isto é, depende «toda a Lei e os Profetas» (Mateus 22,40). A locução «a Lei e os Profetas» é uma forma de dizer toda a Escritura. A pergunta do «legista» visava apenas a Lei, mas Jesus diz, na sua resposta, que é a inteira Escritura que está atravessada pelo fio de ouro do AMOR a Deus e ao próximo.

7. Como quem diz: o grau do teu AMOR a Deus verifica-se pela qualidade do teu AMOR ao próximo. Diretamente de Jesus para o «legista»: se olhas para mim de lado, se vens cheio de más intenções, se colocas um laço, uma armadilha, diante dos meus pés, então estás longe de todos os mandamentos. Do 1.º, do 2.º, do 3.º e do 613.º!

8. Tudo somado, aquele «legista», perguntador traiçoeiro, não se situava corretamente face a Deus e ao seu próximo. Não era o AMOR que o fazia mover. Não estava no centro da Escritura Santa. Anda muito pela periferia. Ocupava muito do seu tempo, não a AMAR, mas a tentar tramar os outros!

9. Nem de propósito. Salta daqui uma missão aberta, um imenso convite a sairmos de nós, sem armadilhas e só com amor, ao encontro dos nossos irmãos. Dizia o Papa Bento XVI, na sua mensagem para o 85.º Dia Missionário Mundial (2011): «A missão universal empenha TODOS, TUDO e SEMPRE». Entenda-se bem: TODOS, TUDO e SEMPRE! Um silogismo fácil: se a missão envolve TODOS, TUDO e SEMPRE, então atinge-nos no essencial, e não afeta apenas as sobras, porque ficámos sem sobras! Verificação: então por que razão continuamos com toda a tranquilidade do mundo a dedicar à missão universal apenas as nossas sobras de pessoas, de meios e de tempo! Como podemos andar, afinal, também nós, armadilhados de boas intenções!

10 Deus ama com especial predileção os necessitados, em que a Bíblia vê particularmente os pobres, o órfão, a viúva e o estrangeiro, e pede-nos que façamos como Ele. Deus não tolera qualquer armadilha que lhes seja feita (Êxodo 22,20-26). Também S. Paulo anunciou o Evangelho em Tessalónica com amor paternal e maternal, com total dedicação e proximidade, a tempo inteiro e de corpo inteiro, e sabe que os cristãos de Tessalónica estão a imitar o seu modo de proceder, que é o de Cristo (1 Tessalonicenses 1,5-10).

11. Um Deus fiel, seguro, firme como «rocha», que não oscila nem engana, atento e próximo do homem, sobretudo dos mais fragilizados, eis o fluxo poético que nos oferece o grande Te Deum que é o Salmo 18. Deixemo-lo tomar conta de nós. Este Deus e este fluxo poético.

António Couto


DEVOLVEI AS COISAS DE CÉSAR A CÉSAR E AS COISAS DE DEUS A DEUS!

Outubro 17, 2014

1. Depois das parábolas do banquete (Mateus 22,1-10) e do traje nupcial (Mateus 22,11-14), sendo esta última exclusiva de Mateus, mas as duas muito bem articuladas no texto de Mateus 22,1-14, o restante do Capítulo 22 de Mateus oferece-nos uma série progressiva de três questões postas sucessivamente a Jesus por Fariseus e Herodianos (Mateus 22,15-22), Saduceus (Mateus 22,23-33) e um Fariseu (Mateus 22,34-40), a que se segue uma quarta, a mais importante (sequência 3 + 1), posta por Jesus aos Fariseus (Mateus 22,41-46).

2. Destes quatro episódios, apenas dois serão escutados nos próximos dois Domingos. Assim, neste Domingo XXIX do Tempo Comum, escutaremos o episódio de Mateus 22,15-22 (cf. paralelos em Marcos 12,13-17 e Lucas 20,20-26), em que Fariseus e Herodianos se juntam para tentar tramar Jesus pela palavra, colocando-lhe por isso e para isso uma pergunta traiçoeira, assim formulada: «É permitido dar o imposto a César, ou não?» (Mateus 22,17).

3. Note-se que o episódio decorre no Templo, certamente no Átrio dos Gentios, uma vasta área de 13,5 hectares, propícia ao encontro de muita gente, judeus e não judeus, onde Jesus se encontra a ensinar desde Mateus 21,23 até Mateus 24,1, em que é referido que Jesus saiu do Templo.

4. É, portanto, no Átrio dos Gentios que, de forma estudada e matreira, fariseus e herodianos tentam surpreender Jesus com uma pergunta política fechada. Note-se que a pergunta foi preparada e feita para levar Jesus a responder «sim» ou «não». Para o caso, aos maliciosos perguntadores, tanto lhes fazia: para tramar Jesus, tanto lhes servia o «sim» como o «não». Na verdade, se Jesus respondesse «sim», seria visto como colaboracionista com o império ocupante e perderia todo o crédito religioso acumulado aos olhos das multidões que o viam como profeta, totalmente do lado de Deus. Se respondesse «não», seria denunciado às autoridades romanas como revolucionário, e certamente executado.

5. Antes de verificarmos a extraordinária resposta com que Jesus desmonta a armadilha que lhe é posta, é ainda conveniente examinar o grau de adulação e hipocrisia dos perguntadores. De facto, o grupo de fariseus e herodianos aproxima-se de Jesus estendendo-lhe um tapete de louvores: «Sabemos que és verdadeiro», que «ensinas com verdade o caminho de Deus», e que «não fazes acepção de pessoas» (Mateus 22,16). Esta última expressão deriva da locução latina accipere personam [= receber a pessoa], que, por sua vez, traduz à letra o grego lambáneîn prósôpôn [= tomar o rosto], que tem por detrás a expressão hebraica nasaʼ panîm [= levantar o rosto]. A expressão hebraica faz sentido. O juiz justo, no acto de administrar a justiça, não levanta o rosto das pessoas, isto é, não julga de acordo com o rosto das pessoas ou por interesse, consoante as pessoas sejam ricas ou pobres, simpáticas ou desprezíveis, do nosso grupo de amigos ou não. O grego tenta traduzir a expressão hebraica, mas o latim e o vernáculo «fazer acepção de pessoas» não significa nada.

6. Note-se, porém, que este tapete rolante colocado diante de Jesus por fariseus e herodianos é com a intenção de o fazer mais facilmente escorregar e cair.

7. Mas Jesus descobre logo a malícia deles, e diz as coisas a direito, levando a sério o que os seus interlocutores lhe dizem por malícia. Além disso, chama-lhes «hipócritas» (uma palavra que se conta 30 vezes em Mateus), isto é, mentirosos camuflados debaixo de uma capa de verdade. Jesus, portanto, não responde à adulação com adulação, mas denuncia a máscara de mentira que envolve aqueles rostos! Vai mais longe: pede-lhes que lhe mostrem a moeda do imposto per capita (kênsos, transliteração grega do latim census) que, desde o ano 6 d. C., todos os judeus adultos, mulheres e escravos incluídos, tinham de pagar ao império romano. Além de hábeis impostores, os interlocutores de Jesus são igualmente rápidos a tirar a moeda do bolso, um denário, o correspondente ao salário de um dia de trabalho. Jesus pergunta, de forma contundente, usando o presente histórico do verbo dizer: «Diz-lhes: de quem é esta imagem e a inscrição?» (Mateus 22,20). A moeda tinha ao centro a imagem de Tibério coroado de grinaldas, e à volta a inscrição Ti[berius] Caesar Divi Aug[usti] F[ilius] Augustus, tendo no reverso Ponti[fex] Maxim[us]. Eles têm, portanto, de responder que uma e outra são de César. Note-se que tudo se passa no recinto sagrado do Templo. E a moeda que estes falsos justos ostentam desrespeita os dois primeiros mandamentos (Êxodo 20,3 e 4). Na verdade, Êxodo 20,4 proíbe as imagens (2.º mandamento), e Êxodo 20,3 proíbe o culto a outros deuses (1.º mandamento): ora, a inscrição descrevia o Imperador Romano com Divi Filius [= filho de um deus].

8. Jesus continua a usar o presente histórico do verbo dizer: «Diz-lhes: devolvei então as coisas de César a César e as coisas de Deus a Deus!» (Mateus 22,21). Note-se ainda como Jesus não responde com o verbo «dar» (dídômi) da pergunta, mas com «devolver» (apodídômi) o seu a seu dono. E introduz a enfática 2.ª parte «e as coisas de Deus a Deus». Fica então claro que a moeda vem de César e a César deve voltar. Mas Jesus, o Filho verdadeiro de Deus, «imagem do Deus invisível» (Colossenses 1,15), que até os falsos interlocutores reconhecem que está vinculado a Deus, pois afirmam que ensina o caminho de Deus (Mateus 22,16), é para devolver a Deus… Mas já sabemos que estes impostores montaram esta armadilha com o fito de o entregar a César (e é o que vão fazer mais à frente). E também fica claro que o ser humano, homem e mulher, criado à imagem de Deus (Génesis 1,26-27), é para devolver a Deus.

9. O v. 22, que foi cortado (mal) do texto deste Domingo, desenha a reviravolta dos caçadores caçados na sua própria armadilha. Caçados por excesso, pois refere o texto que ficaram maravilhados, e se foram embora (Mateus 22,22). Maravilhados, mas não convertidos. Voltarão cada vez mais envenenados para levar a cabo o projecto iníquo de retirar Jesus de Deus, para o entregar a César.

10. Como se vê, há nesta extraordinária resposta de Jesus muito mais do que a corrente e banal leitura que vê nesta passagem o mero estabelecimento de regras de convivência entre Estado e Igreja…

11. Ao contrário da nossa malícia que vamos extravasando, Deus olha-nos com bondade e os seus desígnios, mesmo quando escolhe um estranjeiro, são sempre por causa de nós, porque nos ama (Isaías 45,1.4-6). Este é também o modo caloroso de agir de Paulo, Silvano e Timóteo, que têm sempre presente, porque a amam, a comunidade de Tessalónica (1 Tessalonicenses 1,1-5). Terá de ser também o nosso modo de agir para com Deus e os nossos irmãos.

12. Sim, sem malícia, mas com o coração puro, cantemos as notas sublimes do Salmo 96. A música está escrita diante de nós, no pergaminho da natureza e da história, mas também no rosto belo de cada irmão e da inteira criação. O canto é novo. E só um homem novo pode cantar um canto novo.

António Couto


QUANDO O REI TE DIZ: «AMIGO!…»

Outubro 11, 2014

 

1. No seguimento dos dois Domingos anteriores, também neste Domingo XXVIII do Tempo Comum, os chefes religiosos e civis continuam na mira de Jesus. Já quando ouviram as duas parábolas anteriores – a dos dois filhos (Mateus 21,28-32) e a dos vinhateiros homicidas (Mateus 21,33-43 –, perceberam bem que as palavras de Jesus se dirigiam a eles, e, parafraseando Jorge Luis Borges, perceberam também que as palavras de Jesus estavam carregadas como uma arma. O narrador informa-nos, de resto, no final, que «os chefes dos sacerdotes e os fariseus, ouvindo estas parábolas, perceberam que JESUS se referia a eles, e procuravam prendê-lo», e que só o não fizeram por «receio das multidões, que o tinham por profeta» (Mateus 21,45-46).

2. É importante, para o leitor, esta última informação do narrador, pois o texto de hoje, que segue imediatamente os anteriores, começa assim: «E, respondendo, JESUS disse-lhes novamente em parábolas» (Mateus 22,1). Ficamos então a saber que o novo dizer parabólico de Jesus serve de resposta aos pensamentos e planos violentos que as parábolas anteriores desencadearam nos chefes.

3. E segue a primeira, estupenda parábola, que parte da afirmação de semelhança do Reino dos Céus a um banquete nupcial que um Rei fez para o seu filho. «Reino dos Céus», usual em Mateus, é uma circunlocução para dizer «Reino de Deus». E a figura do Rei é muitas vezes usada no Antigo Testamento e no judaísmo para designar Deus. E o verbo «fazer» evoca imediatamente a criação. E o filho do Rei, para uma audiência cristã da parábola, designava de imediato Jesus. E o banquete nupcial feito pelo Rei é uma imagem fortíssima de festa e de alegria, tantas vezes anunciado pelos profetas (veja-se, por exemplo, a lição de hoje do profeta Isaías 25,6), e impacientemente aguardado pelos judeus piedosos. É seguro: ser convidado e poder participar num banquete assim era um sonho para qualquer judeu piedoso!

4. Primeira surpresa: quando o Rei enviou os seus servos a chamar os CONVIDADOS para o banquete, estes não queriam (êthelon: impf. de thélô) vir. O uso do imperfeito indica duração: nem hoje, nem amanhã, nem em dia nenhum. E o uso do verbo querer deixa claro que se trata de uma acção voluntária, e não de uma qualquer predisposição ou sentimento. Mais ainda: que a acção é deliberada, fica patente no facto de o Rei ter enviado outros servos para voltar a chamar os CONVIDADOS, e estes nem prestaram atenção, indo cada um à sua vida. E os restantes ainda maltrataram e mataram os servos do Rei.

5. Note-se ainda que foi o próprio Rei que preparou (hêtoímaka: perf. de hetoimázô) o banquete, empenhando-se pessoalmente nele (Mateus 22,4). O verbo preparar está colocado em lugares-chave em Mateus: veja-se 3,3: «Preparai o caminho do Senhor»; 25,34: «Vinde, benditos de meu Pai, recebei o Reino preparado para vós…; 26,17.19: preparar a Páscoa.

6. Este cuidado meticuloso posto pelo Rei na preparação do seu banquete para nós parece esbarrar depois na brutalidade com que se irou (ôrgísthê: aor. de orgízomai), enviou as suas tropas, matou aqueles homicidas e incendiou a sua cidade (Mateus 22,7). O sentido voa aqui em duas direcções: primeiro, o uso do aoristo em todos os verbos mostra que «a sua ira dura apenas um momento», como diz o Salmo 30,6; segundo, o castigo descrito retrata e interpreta os acontecimentos dramáticos bem conhecidos do ano 70.

7. Segunda surpresa: as sucessivas e gradativas recusas dos CONVIDADOS não desarmam o Rei, que DIZ (légei) agora aos seus servos (Mateus 22,8): IDE às encruzilhadas dos caminhos, e TODOS os que encontrardes, chamai-os para o banquete (Mateus 22,9). Os servos saíram, e reuniram TODOS os que encontraram, maus e bons (Mateus 22,10). Missão universal que brota do amor fontal de Deus Pai (Ad Gentes, n.º 2)… E foi assim, por nova, excessiva e a todos os títulos surpreendente iniciativa do Rei, que se encheu a sala do banquete. Note-se o novo DIZER do Rei no presente histórico, que marca um primeiro ponto alto no relato. Note-se ainda que o intervalo militar parece não ter esfriado a comida daquela mesa sempre posta!

8. Terceira surpresa: o Rei entra, vê um homem sem o traje nupcial, e expulsa-o da casa alumiada para as trevas cegas e as lágrimas vazias. Que o homem não tenha o traje nupcial é surpresa para o Rei, que não para nós. Para nós, a surpresa é que TODOS os outros, maus e bons, tenham o traje nupcial, uma vez que foram como que arrastados à pressa dos caminhos lamacentos do mundo! Para o Rei, é aquele um homem que causa surpresa! E chegamos ao segundo ponto alto do relato, marcado também pelo verbo DIZER no presente histórico. De facto, o Rei trata-o cordialmente, e DIZ-lhe (légei autô): «Amigo» (hetaîre), apelativo que só Mateus usa no Novo Testamento (20,13; 22,12; 26,50), e que apenas é usado quando se aborda alguém de forma cordial. A este amigo (hetaîros), o Rei concede, mediante esta última abordagem directa e cordial, uma última oportunidade de se dizer, isto é, de reconhecer o seu desarranjo e de mudar a sua vida.

9. Oportunidade desperdiçada, pois o homem não responde. Ficou calado e petrificado (Mateus 22,12). Note-se o mesmo tratamento de Jesus para Judas naquela noite escura, mas ainda à beirinha da Luz: «Amigo (hetaîre), para que estás aqui?» (Mateus 26,50). Judas também não respondeu.

10. É aqui que a parábola nos atinge a TODOS em cheio. Vistas bem as coisas, só o Rei fala nesta parábola. E se ouvirmos bem, DIZ-nos: «Amigo!…».

11. A razão daquele homem não usar o traje nupcial. Não o usa, porque não o quis receber. É um presente do Rei à entrada da sala do banquete. No nosso mundo ocidental, são os convidados que levam os presentes. No mundo oriental, quem convida é que oferece presentes aos convidados, entre os quais se conta o vestido da festa.

12. Nunca nos esqueçamos de que é de Deus toda a verdadeira iniciativa. Nunca nos esqueçamos de começar por receber.

13. Deixemos, entretanto, ressoar em nós a música sublime do Salmo 23, e deixemo-nos conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom e Belo Pastor. Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu a «pele de vaca» (shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos…

António Couto


PELOS FRUTOS OS CONHECEREIS

Outubro 4, 2014

 

1. Soberbo cântico de Isaías 5,1-7. O Senhor da vinha, que é Deus, tratou com infinito desvelo a sua vinha, que é o seu povo, o povo de Israel e de Judá, e somos nós, como se pode ver neste belo «cântico da vinha» de Isaías 5,7: plantou-a numa colina solarenga com castas seleccionadas, cavou-a, limpou-a, amou-a, fê-la crescer ao ritmo de música de embalar. Todavia, a vinha assim amada e acariciada produziu agraços, em vez de uvas doces e saborosas. O Cântico di-lo numa extraordinária aliteração hebraica: «Deus esperava mishpath [= rectidão],/ e eis mispah [= sangue derramado];/ tsedaqah [= justiça],/ e eis tseʽaqah [= gritos de socorro]» (Isaías 5,7). Depois de uma lírica serena e tranquila, eis-nos agora perante o lamento de um camponês desiludido, de um amante traído, de um amor dorido, não correspondido.

 2. O mesmo canto dorido atravessa o Salmo 80(79),9-17, que canta a videira, emblema de Israel, que, depois de atingir tais dimensões que a sua folhagem verde cobria todo o mapa de Israel (vv. 11 e 12), foi deixada ao abandono e devastada pelo javali, símbolo de impureza pela sua semelhança com o porco. Se, em Isaías 5,1-7, era Deus que se queixava da sua vinha que já não respondia ao amor primeiro de Deus, agora é a vinha que se sente abandonada, e chora o estado de desolação em que se encontra, mas entrecorta o seu lamento com um belo refrão, pedindo a Deus que se levante e volte atrás, que lhe faça graça e a salve (vv. 4.8.15.20).

 3. O Evangelho de hoje (Mateus 21,33-43), Domingo XXVII do Tempo Comum, começa por descrever os gestos de amor embevecido de DEUS pela sua vinha, seguindo de perto o cântico da vinha, de Isaías 5,1-7. Mas depois continua de forma incisiva, introduzindo novas personagens: os VINHATEIROS violentos e assassinos são os chefes religiosos e civis (chefes dos sacerdotes e anciãos do povo, ou chefes dos sacerdotes e fariseus), dado que estas parábolas são dirigidas a eles (Mateus 21,23), e são eles que, no final, reagem (Mateus 21,45). Os SERVOS sucessivamente enviados por DEUS e maltratados pelos homens são os profetas, todos assassinados, segundo o módulo narrativo mais breve de toda a Escritura (Lucas 11,50-51; cf. Mateus 23,34-35). O FILHO, que é o último enviado, e que é igualmente morto pelos VINHATEIROS, salta à vista que é JESUS, prolepse do que está para acontecer.

 4. Os VINHATEIROS são, neste ponto da parábola, apanhados na pergunta sem saída de JESUS: «Quando vier o dono da vinha, que fará com esses VINHATEIROS?» (Mateus 21,40). Eles respondem fácil e directo, ao jeito de David, quando ouve a história da ovelhinha do pobre comida à mesa do rico (2 Samuel 12,5-6): «Mandará matar sem piedade esses malvados, e arrendará a vinha a OUTROS VINHATEIROS, que lhe entreguem os frutos a seu tempo» (Mateus 21,41).

 5. E Jesus remata com uma citação do Salmo 118,22: «A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular» (Mateus 21,42). E ainda: «O Reino de Deus ser-VOS-á tirado, e confiado a UM POVO que produza os seus frutos» (Mateus 21,43). Nesta altura, diz-nos o narrador, que «os chefes dos sacerdotes e os fariseus, ouvindo estas parábolas, perceberam que JESUS se referia a eles, e procuravam prendê-lo…» (Mateus 21,45-46).

 6. Claramente, os chefes dos sacerdotes e os fariseus são alinhados ao lado dos VINHATEIROS violentos e assassinos, mas já surge no horizonte OUTRO POVO e OUTROS VINHATEIROS, à imagem do último Profeta e dele verdadeira transparência. Não nos esqueçamos de que é este o nosso retrato. Saibamos fazê-lo frutificar.

 7. Esta Parábola faz passar diante de nós a inteira história da salvação, mostra-nos o amor permanente e persistente de Deus, e faz-nos ver também a qualidade do amor da resposta que somos hoje chamados a dar.

 8. E somos seguramente chamados a tornar a vinha de Deus uma maravilha deliciosa e apetitosa, jovem, leve e bela. Mais ou menos como canta um apócrifo de origem judeo-cristã, de finais do séc. I ou princípios do II d. C., o Apocalipse Siríaco de Baruc: «A terra dará fruto, dez mil por um. Cada videira terá mil ramos, cada ramo mil cachos, cada cacho mil bagos, cada bago centenas de litros de vinho!».

 9. Outra vez Paulo e as palavras de antologia que nos dirige: «Tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor, é o que deveis ter no pensamento» (Filipenses 4,8). E coloca-se como modelo a imitar: «O que aprendestes, recebestes e vistes em mim, isso fazei» (Filipenses 4,9). Já se sabe que por detrás de Paulo está Cristo, que é a sua vida.

António Couto