CLAVE DE SIM, CLAVE DE NÃO


 

1. A «Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei» foi instituída pelo Papa Pio XI, em 11 de Dezembro de 1925, com a Carta Encíclica Quas Primas. Os tempos apresentavam-se sombrios e turvos e os céus nublados como os de hoje, e Pio XI, homem de ação, que já tinha fundado a Ação Católica em 1922, instituiu então esta Festa com o intuito de promover a militância católica e ajudar a sociedade a revestir-se de valores cristãos. A Festa de Cristo Rei era então celebrada no último Domingo de Outubro. A reorganização da Liturgia no pós-Concílio passou esta Festa para o último Domingo do Ano Litúrgico, com o título de «Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo».

2. «O Senhor Reina». É assim que, no Antigo Testamento, o Deus bíblico se apresenta em acção reinando, isto é, salvando, justificando, perdoando, criando. Na verdade, Reinar é Salvar, isto é, trazer o bem-estar, a alegria e a prosperidade ao seu Povo. É esta a missão do Rei. Salvar é Justificar, o que implica a extraordinária ação de transformar um pecador em justo. Justificar é, portanto, Perdoar. Neste profundo sentido bíblico, Justificar e Perdoar são ações que só Deus pode fazer, dado que transformar um pecador em justo é igual a Criar ou Recriar um homem novo. E da ação de Criar também só Deus é sujeito em toda a Escritura. Já se sabe que o Novo Testamento transforma o ativo «Deus Reina» no mais abstrato «Reino de Deus».

3. Tanta e quase indescritível riqueza a de um Deus, sentado no seu trono de Luz, mas que Vem, como um Filho do Homem, com o domínio novo, frágil e forte, do Amor: «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5). Da lição do Livro de Daniel 7,13-14 e respetivo contexto, vê-se bem que todos os nossos impérios prepotentes e ferozes, por mais fortes que pareçam, caem face à doçura da Palavra e da Atitude do Filho do Homem, que dissolve no Amor as nossas raivas e violências, manifestações das bestas bravas que nos habitam. O Filho do Homem vence, sem combater, este combate. É assim que caem as quatro bestas ferozes que sobem do mar (Daniel 7), símbolo da confusão e do mal, e que deixará naturalmente de existir (Apocalipse 21,1).

4. O domínio do Filho do Homem que nos ama, o domínio do Amor é Primeiro e Último (Apocalipse 1,8). Entre o Primeiro e o Último instala-se o penúltimo, que é o domínio velho e podre da violência das bestas ferozes que nos habitam. O Bem é de sempre e é para sempre. É Primeiro e é Último. O Bem não começou, portanto. O que começou foi o mal que se foi insinuando nas pregas do nosso coração empedernido. Mas o que começa, também acaba. Os impérios da nossa violência, malvadez e estupidez caem, imagine-se, vencidos por um Amor que é desde sempre e para sempre, e que vence, sem combater, a nossa tirania e prepotência!

5. Entenda-se bem que tem de ser sem combater. Porque, se combatesse, usaria os nossos métodos violentos, o que só aumentaria a violência. É assim que Jesus atravessa as páginas dos Evangelhos e da nossa história e da nossa vida, entregando-se por Amor à nossa violência, abraçando-a e, portanto, absorvendo-a, absolvendo-a e dissolvendo-a. É assim que o Amor Reina, nos Salva, Justifica, Perdoa e Recria. Os Chefes dos Judeus, os Soldados e Pilatos representam os impérios envelhecidos, podres e caducos da nossa violência e estupidez. O Reino do Filho do Homem não pode, na verdade, ser daqui (João 18,33-37). Se fosse daqui, apenas aumentaria a espiral da mentira e da violência. É de Amor novo e subversivo que se trata.

6. Aí está a página divina do Evangelho deste Último Domingo do Ano Litúrgico, Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo: Mateus 25,31-46. Texto espantoso. Surge em cena o Filho do Homem, o Pastor, o Rei, mas vê-se bem que é Jesus. Reúne e cria, separando (Mateus 25,31-33), como sucede no texto da criação de Génesis 1,1-2,4a. A mansidão é a nota maior deste Rei, Pastor, Filho do Homem, Jesus, que domina os animais, separando os mansos (ovelhas) dos violentos e orgulhosos (cabras). Mas esta ação de separação acontece apenas no entardecer da vida e da história, tal como sucederá, para muito espanto nosso, ao trigo e à cizânia (Mateus 13,30-31 e 36-43).

7. Note-se também que este Rei, que é Jesus, se confunde, outra vez para muito espanto nosso, com os mais pequenos, pois afirma: «Cada vez que o (não) fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o (não) fizestes» (Mateus 25,40 e 45). Note-se ainda que a página das ovelhas mansas está toda relatada em clave de SIM, de ação positiva (Mateus 25,34-40), reclamando outra vez a página da criação (Génesis 1,1-2,4a), em que se contam 452 palavras e não se registra um único NÃO! Em sintonia também com Jesus, o Filho de Deus, que foi sempre SIM, e nunca NÃO (2 Coríntios 1,19-20).

8. Ao contrário, a página das cabras violentas e orgulhosas aparece toda relatada em clave de NÃO (Mateus 13,41-45). A sua condenação assenta mesmo na inação. Tal como as virgens insensatas, que não se prepararam e o servo que ficou paralisado, e enterrou o seu talento.

9. Ezequiel mostra-nos hoje Deus como Pastor amoroso, companheiro de viagem dos seus filhos. Deus surge retratado com os verbos «procurar», «curar», «reunir», «conduzir», «fazer repousar», «apascentar». Mas também é dito que Deus fará justiça entre ovelhas e ovelhas, carneiros e cabritos, preparando a cena grandiosa de Mateus 25,31-46.

10. Assim também Jesus passou pelo meio de nós, tratando as nossas feridas e lavando-nos os pés e a alma. É assim que o seu Reino novo não é inaugurado com uma solene parada militar, mas com a sua prisão e entronização no trono da Cruz!

António Couto

2 respostas a CLAVE DE SIM, CLAVE DE NÃO

  1. Elisa Rocha Gonçalves diz:

    Hoje bendigo a Ação Católica cuja Festa é a de Cristo Rei.

  2. António Martins. diz:

    Olá,D.António Couto.
    Reinando,salvando,Justificando,perdoando,Criando.
    Obrigado pela explicação destas palavras.

    A Cristo,pertence o poder a honra e a realeza:Todos os povos,línguas e nações,O hão-de servir para sempre.O D. António leva-me a altos pensamentos.Mais uma vez muito obrigado.

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