COM OS OLHOS DO CORAÇÃO ILUMINADOS


1. Marcos 16,15-20: última página do Evangelho de Marcos, que hoje, Solenidade da Ascensão do Senhor, é solenemente proclamada para nós. Fecha o Evangelho, condensa-o e encerra-o numa grande inclusão literária e teológica através dos termos «anunciar» (kêrýssô), «acreditar» (pisteúô) e «Evangelho» (euaggélion), usados a abrir (Marcos 1,14-15) e a fechar o Evangelho (Marcos 16,15-16). Recriminando a incredulidade (apistía) e a dureza de coração (sklêrokardía) dos Onze e a nossa (Marcos 16,14), esta sublime página do Evangelho abre-nos a todos novos e insuspeitados horizontes.

2. Três temas enchem a página, o pátio, o átrio sempre entreaberto do Evangelho: a autoridade soberana e nova de Jesus, assente, não na distância, mas na proximidade e familiaridade (1); a missão universal confiada à Igreja (2); a Presença nova e sempre activa do Ressuscitado na comunidade fiel (3). A soberania nova, próxima e familiar, fica registada no facto de toda a operação ser realizada no «nome de Jesus» (Marcos 16,17), mediante envio seu (Marcos 16,15), com a sua Presença cooperante (synergéô) (Marcos 16,20) e a sua Palavra confirmante (bebaióô) (Marcos 16,20), o mesmo verbo da Confirmação sacramental. A missão universal é retratada com tinta excepcional em Marcos, ao usar as expressões «indo por todo o mundo» (Marcos 16,15), «anunciai o Evangelho a toda a criação» (Marcos 16,15), e «tendo saído, anunciaram por toda a parte» (Marcos 16,20). O mandato missionário de Jesus deixa diante de nós, ao mesmo tempo, o mundo inteiro. Jesus não diz: «a começar por…». Diante de nós fica, pois, desenhada a missão sem fim, de que deve beneficiar a inteira criação. Mundo novo que se abre à nossa frente, reclamando aqui também o início da inteira Escritura, com o ser humano a receber de Deus o mandato de dominar a inteira criação (Génesis 1,26 e 28). E aquele «Indo» redondo, circular (Marcos 16,15), é um claro mandato a não ficar aqui ou ali à espera. É a missão itinerante. É a estrada sem medida de Abraão que se abre à nossa frente. E se medida tem, é a medida sem medida da eleição, da bênção e da missão. Também já sabemos, dito com as sábias e belas palavras de S. João da Cruz, que «perder-se na estrada, é entrar no caminho». De facto, não estamos sozinhos nessa estrada. Ele está sempre connosco. O seu nome, a sua identidade, é estar connosco. É assim a terminar o Evangelho. É assim a abrir o Evangelho. Então é assim todo o Evangelho e Evangelização. É esta Presença que é o Evangelho.

3. Chegados aqui, à última página do Evangelho de Marcos, ainda podemos verificar dois gestos opostos e significativos. Jesus terminou o seu caminho, e senta-se (Marcos 16,19). E os discípulos de Jesus, que têm agora o mundo inteiro pela frente, levantam-se e saem (Marcos 16,20). «Sair» implica êxodo permanente. «Sair de si» é um dos dinamismos mais poderosos do Evangelho. A Evangelização, que implica este dinamismo, continua a ser a tarefa central e sempre nova dos discípulos de Jesus de todos os tempos.

4. É esta imensa, impenetrável notícia que os Discípulos de Jesus devem saber levar e semear de mansinho no subtilíssimo segredo de cada humano coração. Jesus Cristo, o Ressuscitado, vem visitar os seus Irmãos. Não. Não se trata de uma visita rápida, de quem está apenas de passagem. Ele vem para ficar connosco sempre, tanto nos ama. Imensa fraternidade em ascendente movimento filial, como uma seara nova e verdejante a ondular ao vento suavíssimo do Espírito, elevando-se da nossa terra do Alto visitada e semeada, ternamente por Deus olhada, agraciada, abençoada. Note-se que, neste texto de Marcos, os belos e maravilhosos «sinais» são realizados por todos os que acreditam (Marcos 16,17-18). Esta extraordinária «democratização» do poder operativo de Deus por intermédio de todos os crentes serve para datar este texto do século II. No século I, estes prodígios estavam confinados aos Apóstolos, e, a partir do século III, será o clero o seu proprietário. Magnífico texto este, que põe todo o povo de Deus a realizar maravilhas!

5. O Livro dos Actos dos Apóstolos retoma esta lição. «E estas coisas tendo dito, vendo (blépô) eles, Ele foi Elevado (epêrthê), e uma nuvem O subtraiu (hypolambáno) dos olhos deles (apò tôn ophthalmôn autôn). E como tinham o olhar fixo (atenízontes) no céu para onde ELE ia, eis (idoú) dois homens que estavam ao lado deles, em vestes brancas, e DISSERAM: “Homens Galileus, por que estais de pé, perscrutando (emblépontes) o céu? Este JESUS que foi arrebatado (analêmphtheís) diante de vós para o céu, assim VIRÁ (eleúsetai) do modo (trópos) que O vistes (etheásthe) IR para o céu”» (Actos 1,9-11).

6. Tanto VER. Da panóplia de verbos registados (blépô, atenízô, horáô, emblépô, theáomai), os mais fortes e intensos são, com certeza, atenízô [= «olhar fixamente»] e emblépô [= «perscrutar», «ver dentro»]. Ambos exprimem a observação profunda e prolongada, para além das aparências: VER o invisível (cf. Hebreus 11,27), VER o céu, VER a glória de Deus. Mas mais ainda do que o que se vê, estes verbos acentuam o modo como se vê. É para aí que apontam os dois homens vestidos de branco, de rompante surgidos na cena, para entregar um importante DIZER que interpreta e orienta tanto VER. Já os tínhamos encontrado no túmulo reorientando os olhos entristecidos das mulheres: «Por que () procurais entre os mortos Aquele que está Vivo? Não está aqui. Ressuscitou!» (Lucas 24,5-6). Dizem agora: «Por que () estais de pé, perscrutando (emblépontes) o céu? Este JESUS que foi arrebatado (analêmphtheís) diante de vós para o céu, assim VIRÁ (eleúsetai) do modo (trópos) que O vistes (etheásthe) IR para o céu» (Actos 1,11). Ao Arrebatamento de JESUS para o céu, os dois homens vestidos de branco agrafam a Vinda de JESUS. Importante colagem da Ascensão com a Vinda. E importante passo em frente para quem estava ali simplesmente especado. Não é mais possível Ver a Ascensão sem Ver a Vinda. Sim, Ver. Porque ELE Virá do mesmo modo que O Vistes IR. Importante guardar este Ver, viver este Ver, Ver com este Ver. Porque é Vendo assim que o SENHOR Virá. Vinda que não tem de ser relegada para uma Parusia distante e espectacular, mas que começa, hic et nunc, neste Olhar novo e significativo de quem Vê o SENHOR JESUS. Vinda que não é tanto um regresso, mas o desvelamento de uma presença permanente. Vinda já em curso, portanto, ainda que não plenamente realizada.

7. É sintomático que o Ver da Ascensão e da Vinda do SENHOR JESUS seja o Ver que preenche por inteiro o primeiro ACTO dos Actos dos Apóstolos (Actos 3,1-10), com realce para Pedro. Mas é ainda grandemente sintomático que o primeiro ACTO de Paulo, descrito em Actos 14,8-10, que é também o primeiro passo da missão perante o paganismo popular, em Listra, quase copie o primeiro ACTO dos Apóstolos e de Pedro, certamente com o intuito de pôr em paralelo os dois grandes Apóstolos e os dois tempos e campos da missão.

8. Importante agrafo da Ascensão com a Vinda do Senhor. Tanto Ver. Não é mais possível Ver a Ascensão sem Ver a Vinda. Guardemos este Olhar cheio de Jesus e olhemos agora para esta terra árida e cinzenta, para tantos corações tristes e perdidos. Nascerá um mundo muito mais belo, novos corações pulsarão nas pessoas. Os olhos do coração iluminados, como diz o Apóstolo à comunidade-mãe da Ásia Menor, Éfeso (Efésios 1,18). Um Olhar cheio de Jesus faz Ver Jesus, faz Vir Jesus!

9. Ponhamos tudo isto em imagem, como convém neste Domingo em que a Igreja celebra o Dia das Comunicações Sociais, instituição que tem as suas raízes no Concílio Vaticano II (Decreto Inter Mirifica, n.º 18), e que foi celebrado pela primeira vez, com mensagem de Paulo VI, em 7 de Maio de 1967. Eis então diante de nós, no cume do Monte das Oliveiras, um pequeno Templo, arredondado, chamado Imbomon [«sobre o cume»], grecização do hebraico bamah [«lugar alto»], a 818 metros de altitude, um pouco acima da Ecclesia in Eleona [«no Olival»], que remonta a Santa Helena, hoje Pater Noster, e a curta distância de Jerusalém, a distância do caminho de um sábado (Actos 1,12), que é de 1892 metros, incluindo a ida e a volta. As construções cristãs do Imbomon remontam ao longínquo ano de 376, com reconstrução dos Cruzados em 1152, ocupadas depois, em 1187, pelos muçulmanos. A construção dos Cruzados, que respeitava a primitiva construção, tinha no centro um tambor encimado por uma cúpula aberta no centro, justamente para servir de suporte à imagem da Ascensão patente em Actos 1,9-11. Em 1200, os muçulmanos fecharam esse ponto de luz com uma cúpula de estilo árabe, escondendo assim a visão de Actos 1,11: «Porque estais aí a olhar para o céu?».

António Couto

Uma resposta a COM OS OLHOS DO CORAÇÃO ILUMINADOS

  1. António Martins diz:

    Olá,D. António Couto.
    Com os olhos do coração iluminados,saborear este grande mistério,que nos dá esperança de alcançarmos o céu.
    Jesus encarregou as pessoas certas para continuar o seu projecto.
    É um privilegio conhecer D.António.
    Obrigado Jesus.

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