PELO BURACO DA AGULHA


1. Um punhado de terra, eis quanto é toda a riqueza do mundo comparada com a sabedoria que vem de Deus (Sabedoria 7,9). Pedimos depois, cantando, no Salmo 90,12, que Deus nos dê a Sabedoria do coração: entenda-se o bom senso, a sensibilidade e a bondade, e que elas sejam o metro para acertarmos diariamente a medida canónica (cânon, cana de medida) da nossa vida.

2. Vem depois, no Evangelho deste Domingo XXVIII do Tempo Comum (Marcos 10,17-30), aquele homem rico, sincero, educado e de boa prática religiosa, que parece ter estado ali à espera de Jesus, pois tinha «uma coisa» que só podia tratar com Jesus. Jesus sai de casa em Marcos 10,10, para seguir o seu caminho, que é também o caminho da formação dos seus discípulos. Mal o vê, o homem rico entra subitamente NO CAMINHO de Jesus, pedindo-lhe que lhe aponte o caminho para a vida eterna. Mal ele sabia que tinha acabado de entrar nesse CAMINHO e nessa VIDA, e que bastava seguir tranquilamente Jesus até ao fim. Jesus é o Mestre novo, verdadeiro líder pró-ativo, que não ensina como os escribas. Ele sabe o caminho, mostra o caminho, faz o caminho. Por isso, passa e chama, dizendo: «Vinde atrás de Mim!».

3. O homem rico, educado e de boa prática religiosa entra no CAMINHO, e Jesus entra nele, pois olha dentro dele (verbo emblépô) com amor divino. Único verdadeiro olhar de Deus, que vê sempre dentro, vê sempre o coração, vê sempre com o coração.

4. E aquela imensa, inesquecível rajada de verbos: Vai, vende, dá, vem e segue-me!, que atravessou o coração do homem rico, e ainda hoje nos atravessa a nós. Queira Deus que atravesse verdadeiramente o nosso coração. É, estou convicto, ainda hoje, a «uma coisa» (hén) que nos falta!

5. E aquele homem rico, educado e de boa prática religiosa, em quem facilmente nos poderemos rever, saiu do CAMINHO, ficou sem caminho e sem horizontes, triste e agarrado ao seu punhado de terra!

6. Jesus olha agora o coração e com o coração os seus discípulos, a quem trata por «filhos» (única vez no Evangelho de Marcos!), contrapondo a riqueza ao Reino de Deus. Sim, não há maneira de nos salvarmos; há apenas maneira de sermos salvos! A metáfora do camelo e do buraco da agulha é bem expressiva e impressiva, sendo o camelo o animal de maiores dimensões conhecido no mundo de Jesus e dos seus discípulos, e o buraco da agulha uma das aberturas mais pequenas!

7. E aquele elenco fantástico apresentado por Jesus: casas, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos e terras. Quase ninguém repara nisto, e somos quase sempre levados a pensar que Jesus fornece dois elencos: um das coisas que há que deixar e outro das coisas que há que ganhar! Aí está a velha lógica das coisas materiais versus coisas espirituais! Mas Jesus apresenta apenas um elenco repetido. É a maneira de ver que deve mudar: do ter para o receber! Temos de aprender a ver o coração e com o coração, como Jesus. Podemos admirar a beleza de uma flor, mesmo quando está no jardim do nosso vizinho!

8. Pois, argumenta Pedro, também ele homem educado e de boa prática religiosa: «Se é assim, quem é que se salva?» E Jesus: «Aos homens é impossível, mas a Deus tudo é possível!». É, portanto, para Deus que nos devemos voltar completamente. E aí está a lição inultrapassável do Mestre pró-ativo, que sabe o caminho, mostra o caminho e faz o caminho. Escreve S. Paulo: «Jesus Cristo, sendo rico, fez-se pobre por causa de nós, para nos enriquecer com a sua pobreza» (2 Coríntios 8,9).

9. A que faz eco o estranho negócio que o monge cartuxo diz que fez: «Vendi o sentimento de me julgar indispensável, e comprei a minha inutilidade», olhando para a Cruz na qual «Jesus já não era útil a ninguém, mas nos estava a salvar a todos» (Monges da Cartuxa São Bruno, Sentieri del deserto [2001], p. 26).

10. Entretanto, não esqueçamos o bisturi da Palavra de Deus, que anda dentro de nós e opera a esclerose do nosso coração (Hebreus 4,12; cf. Salmo 149,6).

António Couto

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3 Responses to PELO BURACO DA AGULHA

  1. José Manuel Correia Alves diz:

    O camelo não se referirá a uma corda grossa? “kámilos, corda grossa, cabo”, parece fazer mais sentido e ter-se tratado de um erro de tradução do grego?

    • mesadepalavras diz:

      Dificilmente se suporta a sua hipótese. Em primeiro lugar, como sugere, seria necessário que o texto grego registasse kámilos em vez de kámêlos. Isso acontece, de facto, só em poucos e secundários manuscritos, pelo que a crítica textual é hoje inequívoca a favor de kámêlos. Em segundo lugar, a opção por kámilos (cabo) em vez de kámêlos (camelo) supõe um imperdoável desconhecimento dos ditos do judaísmo, que citam o mesmo provérbio trocando o camelo pelo elefante! Em terceiro lugar, será que se ganha alguma coisa em alterar “camelo” por “cabo”? Algo fica mais compreensível? Quer o camelo quer o cabo são duas impossibilidades. E é essa a ideia a salientar. Mas o camelo dá ao provérbio um tom muito mais pitoresco, popular e que não esquece. Conclusão: dados os conhecimentos hoje disponíveis, impõe-se, sem equívocos, o “camelo”.

  2. Elisa Rocha Gonçalves diz:

    Todos somos indispensáveis. Cada um é uma obra de DEUS.

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