O OUTRO «DISCURSO DA PLANÍCIE» FEITO A JESUS


1. O Evangelho deste Domingo IX do Tempo Comum (Lucas 7,1-10) coloca-se no seguimento imediato do «Discurso da planície» que nos foi dado escutar nos três Domingos anteriores. É isso mesmo. Depois de ter pronunciado todas aquelas palavras aos ouvidos do povo (laós), Jesus entrou em Cafarnaum (Lucas 7,1), que o Evangelho de Mateus 9,1 apresenta como «a sua cidade». Começa aqui o episódio do Evangelho de hoje.

2. E começa com uma notícia tirada do quotidiano, informando-nos de que o criado de um centurião estava gravemente doente, à beira da morte (v. 2a). Os dois, centurião e criado, passam anónimos na notícia. Mas o narrador lança logo um primeiro raio de luz sobre o centurião, dizendo que nutria por aquele criado um grande apreço (v. 2b). Esta nota já salta fora do quotidiano. A presença de um centurião (hekatontárchês [= hékatón (cem) + árchos (chefe)], chefe de cem soldados em Cafarnaum compreende-se, dado que Cafarnaum marca o limite das tetrarquias de Herodes Antipas e Filipe, de que o rio Jordão marcava a fronteira divisória. Estas circunstâncias explicam também a existência ali de um posto de alfândega, em que Jesus encontra Mateus (Lucas 5,27).

3. E o centurião continua no centro da cena, pois o narrador informa-nos que ele sabia da presença de Jesus e também do seu fazer criador. Por isso, enviou alguns anciãos judeus para que intercedessem perante Jesus para que fosse salvar o seu criado (v. 3). E os anciãos vão mesmo ter com Jesus e pedem-lhe com insistência para atender o pedido do centurião, e acrescentam que se trata de um estrangeiro que ama (agapáô) o nosso povo (Israel), até ao ponto de ter edificado para o povo judaico a sinagoga de Cafarnaum (vv. 4-5). Belo este intercâmbio salutar entre este centurião romano e os judeus, e entre os judeus e este centurião romano.

4. Uma confirmação arqueológica. Por debaixo da sinagoga construída em finais do século IV com grandes blocos de calcário branco, a arqueologia pôs a descoberto outra sinagoga, construída com basalto negro da região, e que remonta ao século I, seguramente a sinagoga referida no Evangelho de hoje e que o centurião fez construir.

5. Jesus aceitou o pedido e foi com eles (v. 6a). Novo avanço na narrativa. Já Jesus estava perto da casa do centurião, e eis que este envia agora os seus amigos para dizer a Jesus que não se incomodasse mais, pois não se sentia digno de que Jesus entrasse na sua casa (v. 6b), palavras que nós ainda hoje repetimos antes de receber a Eucaristia. E acrescenta que foi por isso, por não se sentir digno, que também não foi ele próprio ter com Jesus (v. 7a). E o discurso do centurião, pela boca dos seus amigos, vai ainda mais longe, pedindo a Jesus que diga apenas uma palavra e o seu servo ficará curado (v. 7b). E o centurião parte da sua situação concreta, dizendo que também ele está estabelecido em autoridade, e tem soldados às suas ordens. E diz a um: «Vai!», e ele vai, e a outro: «Vem!», e ele vem, e ao seu criado: «Faz isto!», e ele faz (v. 8).

6. E tendo ouvido estas coisas, Jesus ficou maravilhado (thaumázô) com o dizer do centurião, e tendo-se voltado para a multidão que o seguia, disse: «Eu vos digo que nem em Israel encontrei uma fé assim» (v. 9). Sim. O discurso do centurião é sublime. O «discurso da planície» foi dito por Jesus para proveito e encanto dos pobres e doentes, dos discípulos e do povo, e de todos quantos o escutavam (Lucas 6,27; 7,1). O sublime dizer do centurião é também um verdadeiro «discurso da planície», agora escutado por Jesus, que fica maravilhado! Um Jesus maravilhado com alguém pela positiva, por uma fé invulgar encontrada em alguém, só se verifica aqui em todos os Evangelhos. Um Jesus maravilhado (thaumázô), mas pela negativa, pela incredulidade encontrada entre os seus conterrâneos de Nazaré, pode ver-se em Marcos 6,6. Por norma, são as pessoas que ficam maravilhadas (thaumázô) face ao dizer e fazer de Jesus (cf. Lucas 4,22; 8,25; 9,43; 11,14; 20,26). Na postura do centurião romano e na reação dos conterrâneos de Jesus fica bem patente um intenso contraponto, e já se antevê a extraordinária abertura para a missão. Os estrangeiros veem na Palavra de Jesus a Palavra criadora e salvadora, e mostram uma fé sublime. Os conterrâneos de Jesus só veem o chão e o sangue, e não o céu.

7. A página aberta do Primeiro Livro dos Reis 8,41-43, que hoje também escutamos, está em clara sintonia com o Evangelho também hoje proclamado. Salomão reza e pede a Deus que atenda a oração dos estrangeiros que vierem rezar ao Templo. É tal a grandeza de Deus, diz Salomão, que mesmo lá, nas suas terras longínquas, os estrangeiros hão de ouvir falar das maravilhas de Deus, e hão de vir ao Templo para ver e sentir mais de perto a grandeza e a beleza de Deus. E, tendo feito essa experiência de um Deus bondoso, magnânimo e atento a todos os povos, hão de dá-lo a conhecer lá, nos seus países distantes. Esta é mais uma página aberta que contradiz de forma inequívoca a ideia, ainda infelizmente bastante comum, de que o Antigo Testamento é uma espécie de torre fortificada que acolhe apenas, no seu pequeno horizonte fechado, o povo eleito, Israel, pouco ou nada tendo a ver com os outros povos. São, no entanto, inúmeras as páginas do AT de teor universalista. Basta começar a ler o AT pelo princípio. São onze Capítulos de Deus em relação com toda a humanidade. E quando surge um eleito, uma pessoa ou um povo, não é para se abotoar com a bênção de Deus só para si. É para a levar a toda a humanidade.

8. E aí está Paulo, no início da Carta aos Gálatas (1,1-2.6-10), a dizer-se a si mesmo como Apóstolo e servo de Cristo, ao serviço do único Evangelho de Jesus Cristo para a salvação de todos os que o receberem. E o caso é sério, para os cristãos da Galácia e para todos nós. Porque não há, afirma Paulo, outro Evangelho. E, portanto, também não há salvação em outro nome (Atos 4,12).

9. O Salmo 117, o mais pequeno do Saltério, apenas 17 palavras hebraicas, é semelhante a um «ponto», sendo, por isso, chamado o punctum Psalterii. Por ser tão pequeno, já houve quem o quisesse juntar ao anterior (116) ou ao seguinte (118). Mas este é o caso em que o pequeno é belo e ao mesmo tempo imenso, porque reclama para o louvor de Deus todas as nações e todos os povos! E põe em realce dois dos mais belos atributos de Deus: o amor fiel (hesed) e a fidelidade (ʼemet). Soa, no Saltério, como o nosso «Glória ao Pai…». É citado na Carta aos Romanos 15,11, pelo seu elevado e concentrado teor universalista e missionário. É por isso também que a sua tonalidade se ajusta bem à liturgia deste Domingo.

António Couto

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: