SOBRE O FUNDAMENTO DOS APÓSTOLOS

Junho 28, 2016

1. Os Santos Apóstolos Pedro e Paulo são festejados em todas as Igrejas do Oriente e do Ocidente, nos antigos, como nos novos calendários, na mesma data, 29 de Junho. A Igreja do Oriente ainda hoje acomuna os dois Apóstolos com o título de Prôtóthronoi, os «primeiros na cátedra» da doutrina divina e salvífica. A Igreja de Roma já existia antes da chegada de Pedro e Paulo, mas venera-os como verdadeiros «fundadores», pois só com eles se vê como Igreja «Apostólica», coração de Pedro, coração de Paulo. A própria iconografia, em inumeráveis representações, junta os dois Apóstolos e Mártires, já desde os séculos II e III, sinal da veneração que os fiéis de Roma e do mundo inteiro lhes dedicavam. Veneração verificável, de resto, no facto de os túmulos dos dois grandes Apóstolos e Mártires ser a meta da única peregrinação do mundo cristão antigo.

2. Os textos da Escritura Santa hoje abertos diante de nós põem em relevo, naturalmente, as duas grandes figuras de Apóstolos que hoje celebramos. O Evangelho é de Mateus 16,13-19, e põe em destaque a figura de Pedro. Também a passagem do Livro dos Atos 12,1-11 lhe é dedicada. O texto do final da 2 Carta a Timóteo 4,6-8.17-18 põe naturalmente em realce a figura de Paulo.

3. Cesareia de Filipe, actual Banyas, na tetrarquia de Filipe, um dos filhos de Herodes o Grande, é o lugar certo para se pôr a questão da identidade de JESUS, que atravessa o inteiro Evangelho (Mateus 16,13-19). Cesareia de Filipe, onde se encontra uma das nascentes do rio Jordão, respirava o paganismo do deus Pã e também o culto do Imperador. Aí construiu Herodes um templo dedicado ao Imperador César Augusto, e o tetrarca Filipe, filho de Herodes, deu à cidade, antes conhecida por Pânias, em honra do deus Pã, o nome de Cesareia, também em honra de César Augusto. Dela resta hoje a gruta do deus Pã, lugar que os peregrinos da Terra Santa costumam visitar.

4. É aí, em Cesareia de Filipe, cidade marcada pelo paganismo e pelo culto do Imperador, que Jesus põe a questão da sua identidade. Soberanamente Jesus pergunta: «Quem dizem as pessoas que é o Filho do Homem?» (Mateus 16,13), para acrescentar logo de seguida, de forma directa e enfática: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mateus 16,15). A esta pergunta, posta por Jesus aos seus discípulos que de há muito o seguiam, Simão Pedro foi rápido a responder: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!» (Mateus 16,16). Jesus declara Feliz (makários) Simão, filho de Jonas, não por achar que ele reunia competência humana para expressar aquele dizer, mas por saber que o tinha recebido do Pai (Mateus 16,17). E é sobre este dizer de Simão Pedro, dizer, não seu, mas recebido do Pai, que Jesus declara que construirá a sua Igreja (Mateus 16,18). Note-se a assonância «Pétros» – «pétra». Mas note-se também que quem constrói a Igreja é Jesus, e não Pedro, e a Igreja a construir também é de Jesus, e não de Pedro: «sobre esta pedra (pétra) construirei a minha Igreja», diz Jesus. Em todo o Novo Testamento, só Jesus e Pedro recebem o apelativo de «pedra». «Rocha», «rochedo», «pedra firme» diz-se, em hebraico, tsûr ou sela‘, terminologia usada no Antigo Testamento por 33 vezes para dizer Deus e a solidez do seu amor fiel. Veja-se, por exemplo, na boca e no coração do Salmista: «O Senhor é a minha Rocha (sela‘) e a minha fortaleza (…), nele me abrigo, meu Rochedo (tsûr), meu escudo e meu baluarte, minha torre forte e meu refúgio» (Salmo 18,3).

5. Mas o hebraico conhece também o termo keph, aramaico kêpha’, para designar a rocha, não tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e proteção a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abraçar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico: kaph, palma da mão; keph, rochedo esburacado (grutas); kêpha’ (aramaico), rochedo esburacado; kêphãs (grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em João 1,42, única vez nos Evangelhos, mas várias vezes em Paulo (1 Coríntios 1,12; 3,22; 9,5; 15,5; Gálatas 1,18; 2,9.11.14); kipah, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, e cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabeça para indicar a proteção de Deus; kaphar, cobrir, perdoar; kaporet, cobertura, perdão. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composição de vocábulos em todas as línguas. Esta terminologia abre para um Simão Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, próximo, cuidadoso e carinhoso, frágil, com a missão pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa é Deus, e são de Deus os filhos que nela são gerados, acolhidos e alimentados.

6. Jesus declara de seguida: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus» (Mateus 16,19). As chaves representam um saber e um poder. Falamos de chaves de uma casa, de uma cidade, de um tesouro, da leitura de um texto. Quem as possui, possui um poder em sede administrativa, política, jurídica, económica ou científica. É esclarecedor o texto de Isaías 22,19-23, que fala do «rito das chaves» e do poder retirado a Shebna e conferido a Eliaqîm. As chaves do Reino dos Céus são as chaves do amor e do perdão, traves mestras de uma comunidade unida e confiante, com os pés na terra e o olhar fixo em Deus. Diz, na verdade, a Constituição Dogmática Lumen Gentium: «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo» (n.º 9).

7. É importante, porque esclarecedora e mobilizadora, esta nota do Concílio Vaticano II. De facto, Pedro é a Pedra e tem as Chaves do Reino dos Céus, e é-lhe ainda dada a autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar: «Tudo o que ligares (dêsês: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeménon: part. perf. pass. de déô) nos Céus, e tudo o que desligares (lýsês: conj. aor. de lýô) sobre a terra, ficará para sempre desligado (lelyménon: part. perf. pass. de lýô) nos Céus» (Mateus 16,19). Todavia, no Evangelho de Mateus, e só no Evangelho de Mateus, esta autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar, é também confiada à inteira comunidade, exactamente nos mesmos termos em que é confiada a Pedro: «Em verdade vos digo: tudo o que ligardes (dêsête: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeména: part. perf. pass. de déô) no céu, e tudo o que desligardes (lýsête: conj. aor. de lýô) na terra, ficará para sempre desligado (lelyména: part. perf. pass. de lýô) no céu» (Mateus 18,18). É belo ver a inteira comunidade assente na Pedra, que é Pedro, como Pedro, com Pedro, não alijando responsabilidades, mas unida, reunida e operante na prática quotidiana do Perdão!

8. Actos 12,1-11 é uma página assombrosa, que sai fora do estilo lucano, e se aproxima mais do estilo do evangelista Marcos. Não admira. É mesmo para casa de Maria, mãe de João Marcos, que Pedro se dirige no episódio seguinte (Atos 12,12-17). Na página de hoje, Pedro é salvo miraculosamente pela intervenção do Anjo de Deus, do próprio Deus, portanto. São significativos os cinco imperativos que o Anjo dirige a Pedro: Levanta-te, cinge-te, calça as sandálias, cobre-te com o teu manto e segue-me! (Atos 12,8). Com o primeiro imperativo, caem das mãos de Pedro as correntes de ferro. Assim começa a liberdade! Passam depois, sem qualquer sobressalto, um após outro, dois postos da guarda, e abre-se automaticamente (automátê) o portão de ferro que dava para fora (Atos 12,10). Quando Pedro cai em si, está numa rua de Jerusalém, e reconhece a mão de Deus nesta espectacular acção de libertação em que é libertado das mãos de Herodes (Atos 12,10-11). Trata-se de Herodes Agripa I, neto de Herodes o Grande. Favorecido, primeiro por Calígula, depois por Cláudio, foi vendo, a partir do ano 37, começar e aumentar o seu reinado de norte para sul: em 37, é libertado das suas cadeias de ferro – estava preso em Roma – por Calígula, que lhe entrega, juntamente com o título de rei, as tetrarquias de Filipe e de Lisânias; em 40, recebe a tetrarquia de Herodes Antipas, acabando de 41 a 44, ano da sua morte, por se tornar rei também sobre a Judeia, de certo modo refazendo o antigo reino de Herodes o Grande. É no decurso destes últimos anos que se situam os acontecimentos relatados ou apenas acenados na lição de hoje, nomeadamente o martírio de Tiago, filho de Zebedeu, e a prisão de Pedro.

9. A cena da libertação de Pedro acontece na noite de Páscoa, em paralelismo com os hebreus que, no Egipto celebraram a Páscoa da libertação. Também aí acontece a intervenção de Deus (Êxodo 12,8.12), também de noite, e os hebreus, como Pedro agora, comem a Páscoa com os rins cingidos e sandálias nos pés (Êxodo 12,11). E, de novo em paralelismo com os hebreus na saída do Egipto, também Pedro deve caminhar pelas ruas da cidade e pelos caminhos do mundo. É aí que Pedro e os Apóstolos devem agora fazer falar a Palavra, e não já no Templo, como sucedeu no relato da libertação dos Apóstolos narrado em Atos 5,18-21.

10. Na verdade, quando Pedro dá por si, encontra-se na rua! Dirige-se então para casa de Maria, mãe de João Marcos, onde era usual os cristãos se reunirem para rezar (Atos 12,12). Pedro bate insistentemente ao portão exterior que dá para o pátio interior da casa, e, apercebendo-se, veio uma criada, de nome Rode [= Rosa] ver quem era (Atos 12,13). Mal reconheceu a voz de Pedro, ficou tão contente que, em vez de abrir o portão, correu para dentro anunciando que Pedro estava lá fora (Atos 12,14). Responderam-lhe que estava maluca (maínê) (Atos 12,15). Quando finalmente abriram o portão, que não se abre automaticamente como o da cadeia, ficaram assombrados, fora de si (exístêmi) (Atos 12,16). É este o assombro maravilhoso que toma conta de Marcos, que enche o seu Evangelho, e esta página de eleição!

11. Chegámos finalmente a Paulo e ao final da sua 2 Carta a Timóteo 4,6-8.17-18, em que Paulo traça, por assim dizer, o seu testamento autobiográfico, recorrendo a três imagens. A primeira provém do culto, do rito de libação (2 Timóteo 4,6), hebraico nesek (Êxodo 29,40; Levítico 23,13), que consiste em derramar um pouco de vinho ou de mosto (cerca de 1,5 litros) sobre o altar, onde será queimado juntamente com a oferenda (minhah), subindo o seu perfume para o alto, para Deus. Do mesmo modo, a inteira vida de Paulo foi uma incessante subida para o seu Senhor, nada retendo para si mesmo, cá em baixo. A segunda provém do mundo militar. É o combate (agôn), que Paulo combateu a vida inteira, e que qualifica de «belo» e «bom» (kalós) (2 Timóteo 4,7). A terceira provém do mundo desportivo, concretamente do atletismo. «Completei a minha corrida (drómos)» (2 Timóteo 4,7). Como o atleta sacrifica tudo para alcançar a vitória, também Paulo despendeu todas as suas energias para alcançar «a coroa da justiça» que o Senhor lhe dará (2 Timóteo 4,8), e que é bem diferente da «coroa corruptível» que os atletas conquistam no estádio (1 Coríntios 9,25). Seja-nos permitido ir buscar ainda uma quarta imagem ao mundo dos marinheiros. «O tempo (ho kairós) começou já a recolher as velas (systéllô)» (1 Cor 7,29). Paulo sabe que está a chegar ao porto, depois de ter atravessado tempestades de toda a ordem, sempre, no entanto, assistido pelo seu Senhor, para que se cumprisse o anúncio (kêrygma) do Evangelho a todas as nações (2 Timóteo 4,17). E termina tudo com uma bela doxologia: «A Ele a glória pelos séculos dos séculos. Ámen» (2 Timóteo 4,18).

12. O Salmo 34 põe nos lábios dos pobres a bênção (berakah), que os une a Deus para sempre, e o louvor jubiloso e intenso (tehillah), que é a sua verdadeira razão de viver (vv. 2-3). O pobre enche o olhar de Deus e fica radiante, luminoso (v. 6), sabe que Deus o escuta e o salva, e convida a saborear a bondade de Deus (v. 9). Ou talvez mais do que isso. Na versão grega deste v. 9, muito utilizado no momento da comunhão, também nas liturgias de rito bizantino, lê-se: «geúsasthe kaì ídete hóti chrêstós ho Kýrios» («Saboreai e vede que Bom é o Senhor»), em que o adjectivo chrêstós, «bom», é lido na pronúncia viva: christós, o que vem a resultar, na actualização cristã: «Saboreai e vede que Cristo é o Senhor». Belo e saboroso, sem dúvida. Deus segue sempre o pobre de perto, cerca-o de amor (v. 8), protege até os seus ossos para não serem quebrados (v. 21), tal como é dito do cordeiro pascal, o mais alto símbolo de libertação. No seu Caminho de perfeição, Santa Teresa de Ávila deixa-nos, talvez, um dos mais belos e e incisivos discursos sobre a pobreza: «A pobreza é um bem que contém em si todos os bens do mundo; ela confere um império imenso, torna-nos verdadeiramente donos de todos os bens cá de baixo desde o momento em que os faz cair aos pés».

António Couto


CAMINHO CRUCIAL

Junho 25, 2016

1. Neste Domingo XIII do Tempo Comum temos a graça de ouvir o Evangelho de Lucas 9,51-62, que é uma página sublime e sobrecarregada de cenários de seguimento, sucessivos e desconcertantes, que interpelam todos aqueles, de ontem e de hoje, que são chamados a seguir o caminho de Jesus.

2. O primeiro cenário é a anotação radical de que Jesus «tornou o seu rosto duro como pedra na direção de Jerusalém» (Lucas 9,51). A expressão «tornar o rosto duro como pedra» provém do terceiro canto do Servo de YHWH, de Isaías 50,7, e serve para assinalar uma atitude firme e decidida da qual não se pode voltar atrás. Ainda que, no contexto do Evangelho de Lucas, esta anotação marque a viragem geográfica de Jesus da Galileia para a Judeia e para Jerusalém, a anotação é sobretudo de ordem teológica, salientando a total confiança de Jesus no Pai e a total orientação da sua vida para o Pai, tal como o Servo confia plenamente no seu Senhor e para Ele orienta toda a sua vida. Mas o facto de Jesus «tornar o seu rosto duro como pedra na direção de Jerusalém» deve ensinar-nos a ver que Jesus caminha sem hesitação para a Cruz, o que faz do seu caminho e do nosso caminho um caminho Crucial.

3. O segundo cenário é o envio (apostéllô) por parte de Jesus de mensageiros (ángelloi) à sua frente com a missão de preparar (etoimázô) a vinda do próprio Jesus (Lucas 9,52). Extraordinária e preciosa indicação. A missão excede o mensageiro, que é sempre e só um preparador de caminhos para a vinda daquele que há de vir, Jesus Cristo, que é assim o único imprescindível! Fica claro desde cedo, desde já, que a nossa missão tem a dimensão do precursor humilde, pobre e manso, que apenas abre portas e corações (Malaquias 3,24), e põe a mesa, para que possa entrar o Rei da Glória (Salmo 24,7 e 9). Portanto, a postura do mensageiro ou missionário é a de um pedinte que vai à frente e bate à porta, às portas (também Lucas 10,1). Sim, é um pedinte, «sem bolsa, nem alforge, nem sandálias» (Lucas 10,4), que «come e bebe do que lhe servirem» (Lucas 10,7). Tem de aprender a pedir e a receber; não a insultar, a suspeitar, a ameaçar e a possuir.

4. Aí está, portanto, pedagogicamente em contraponto, o terceiro cenário. Trata-se da ilusão de poder de Tiago e João, os filhos de Zebedeu, que propõem a Jesus dizimar uma povoação samaritana só porque esta recusa acolher Jesus. Vê-se que ainda não aprenderam a pedir e a receber, mas sabem tudo sobre a suspeita, a ameaça e o poder. Os dois irmãos discípulos, que não entenderam ainda o caminho manso e humilde de Jesus, que tem os mesmos tons do Servo de YHWH, são duramente repreendidos (Lucas 9,55) com o mesmo verbo (epitimáô) com que Jesus estigmatiza os espíritos impuros (cf. Lucas 4,35).

5. Mas um quarto cenário salta à vista de quem segue atentamente a página evangélica. O início desta viagem de Jesus para a Judeia e Jerusalém fica marcado pelo seu não acolhimento e rejeição numa aldeia da Samaria (Lucas 9,52). Mas a mesma rejeição tinha acontecido no início da sua missão em Nazaré (Lucas 4,29), e aponta já para a sua rejeição em Jerusalém e para a futura rejeição dos anunciadores do Evangelho. Portanto, e sem medos e sem equívocos, a rejeição acompanha o Evangelho em pessoa, que é Jesus Cristo. Os seus discípulos de ontem e de hoje devem saber estas coisas, para não procurarem facilidades no seguimento fiel do caminho de Jesus. Aí está sempre a balizar o caminho a palavra de Jesus: «Se me perseguiram a mim, perseguir-vos-ão também a vós» (João 15,20).

6. O quinto cenário fixa a nossa atenção em alguém que se propõe seguir Jesus, com estas palavras: «Seguir-Te-ei para onde quer que vás!» (Lucas 9,57), logo seguidas da declaração de Jesus: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça!» (Lucas 9,58). Note-se bem que o texto diz o essencial e omite o circunstancial, deixando-nos sem saber quem era o homem, de onde veio, o que é que o levou a propor-se seguir Jesus, e como terá reagido à declaração de Jesus acerca da sua pobreza radical, que deveria adotar também quem o quisesse seguir. Tê-lo-á seguido no caminho? Foi-se outra vez embora? Com este procedimento escorreito, a intenção do narrador é certamente apresentar a força do seguimento de Jesus enquanto tal, não o fazendo depender desta ou daquela circunstância, e fazendo dele um seguimento incondicional. Seguir Jesus é um absoluto, sem condições, atitude posta em destaque pelo facto de Jesus não ter eira nem beira, «não tem onde reclinar a cabeça», o que torna incontornável a transparência da sua confiança no Pai. Sua e daqueles que o queiram seguir no caminho.

7. Permiti que abra aqui um sexto cenário, retomando o dito de Jesus: as raposas têm as suas tocas, as aves do céu os seus ninhos; em contraponto, Jesus, o Filho do Homem, não tem onde reclinar a cabeça (Lucas 9,58). Aqui está a especificidade do homem em relação ao animal. A liberdade do animal é uma liberdade sem responsabilidade, uma liberdade solitária. Não é assim com o homem: «Não é bom que o homem esteja só», é uma das primeiras lições do Livro do Génesis (Génesis 2,18). A liberdade do homem é uma responsabilidade que se assume face à Criação, constrói-se sempre com alguém, sempre diante de alguém. Ao homem compete assumir atitudes responsáveis, o que o impede de encontrar tão cedo um lugar onde reclinar a cabeça. Fixemos outra vez e sempre os nossos olhos em Jesus, e compreendamos que apenas a morte interrompe este caminho de crucial responsabilidade. Atente-se que é apenas sobre a Cruz que Jesus reclinará a cabeça (João 19,30).

8. O sétimo cenário é o apelo limpo, igualmente despido de acessórios, que Jesus faz a alguém: «Segue-me!», a que o visado responde imediatamente: «Permite-me ir primeiro sepultar o meu pai!» (Lucas 9,59). E a resposta, quase escandalosa de Jesus: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Tu, vai anunciar o Reino de Deus!» (Lucas 9,60). Estas imensas palavras de Jesus ganham ainda maior acutilância se soubermos que a mentalidade e a sabedoria judaicas davam enorme importância ao dar sepultura a um familiar. Era uma ação de tal monta e de tal conta que dispensava da oração do Shema‛, da oração das dezoito bênçãos e de todos os preceitos da Lei (Mishnah Berakhot 3,1a). Mas o caminho novo de Jesus inverte o normal caminhar da experiência humana da vida para a morte. O caminho de Jesus, e segundo Jesus, é da morte para a vida: «nós sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos; quem não ama, permanece na morte» (1 João 3,14). Quem quiser seguir Jesus tem, portanto, de apostar tudo no novo sentido que Jesus imprime à existência: partir da morte para a vida, com a única chave possível que abre este caminho Crucial: o amor, o amor, o amor! Mais amor, mais amor, mais amor!

9. O oitavo e último cenário é igualmente forte, igualmente desconcertante. Põe diante de nós alguém, também sem qualquer registo de circunstâncias, que está disposto a seguir Jesus, desde que Jesus lhe faça uma pequena concessão: permitir que se despeça dos seus familiares. Digamos que pede apenas para dar um pequeno passo atrás, e logo dará dois em frente. Já sabemos que Elias fez esta concessão a Eliseu (1 Reis 19,20), como nos é dado ler na lição do Antigo Testamento de hoje. Mas Jesus é mais do que Elias, e não faz qualquer concessão: «Aquele que deita as mãos ao arado, e olha para trás, não serve para o Reino de Deus!» (Lucas 9,62). O poeta inglês Thomas S. Eliot (1888-1965), fala, neste contexto, de «uma insuportável camisa de fogo que Deus teceu com as suas próprias mãos», para depois nos envolver nela, como se fosse o manto de Elias. «As  forças humanas, continua o poeta, não a podem levar; cedo nos apercebemos que apenas podemos viver e respirar se nos deixarmos queimar, queimar de amor». Ainda e sempre e só o amor!

10. Já se vê que é a cena de Elias e de Eliseu, narrada em 1 Reis 19,19-21, que faz de fundo ao Evangelho de hoje. Simbolicamente, Elias atira o seu manto sobre Eliseu, fazendo-o assim seu seguidor. Eliseu andava a lavrar um grande campo, agarrado ao arado, puxado por doze juntas de bois. Sentindo o chamamento de Elias, Eliseu apenas pede o tempo necessário para ir abraçar o seu pai e a sua mãe. Elias concede. Eliseu despede-se de forma radical, sagrada e festiva. Matou uma junta de bois, e assou a sua carne sobre a madeira do arado. Queimando o arado, é todo um mundo que deixa para trás, sem retorno. Enceta depois um caminho novo atrás de Elias.

11. Na lição de hoje da Carta aos Gálatas (5,1.13-18), São Paulo lembra aos Gálatas e a nós que a nossa liberdade (eleuthería) não foi nem é obra nossa. Devemo-la a Cristo (v. 1). E o Apóstolo adverte-nos ainda de que esta liberdade dada e recebida não pode ser agora pretexto para voltar à escravidão. Bem ao contrário, deve ser pretexto para a caridade e o serviço humilde aos outros (v. 13). Vale a pena dizer aqui, a propósito, que este é um dos dois lugares em que Paulo cita o segundo mandamento, o do amor ao próximo como a nós mesmos (v. 14; o outro é Romanos 13,9), e que Paulo nunca cita o primeiro mandamento, o do amor a Deus «com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças» (Deuteronómio 6,4-5). Tal maneira de proceder não é para estranhar. Na verdade, quer a Bíblia Hebraica quer o coração dos Evangelhos falam menos do nosso amor para com Deus (ou Cristo), e mais, muito mais, do nosso amor para com o próximo e para com o estrangeiro e o inimigo! E não se trata de um amor que satisfaz o nosso desejo, mas da imitação do amor de Deus (amar como Ele ama) e de obedecer a um mandamento (amar como Ele manda amar). Então, a nossa resposta ao amor de Deus (ou de Cristo) não consiste na redamatio ou retribuição a Deus (ou a Cristo) do amor com que Ele nos ama, mas volta-se para a frente e traduz-se no amor ao outro, próximo, estrangeiro ou inimigo! Quer na Revelação patente no AT quer em Jesus, o amor ao próximo aparece como o lugar, o único lugar, da epifania do nosso amor a Deus (ou a Cristo). Então, amar a Deus e ao próximo como manda Jesus, é amar como Deus ama, como Deus nos ama.

12. As pedras e as coisas, as casas e as terras, nunca devem ocupar, muito menos encher, o nosso coração. Os sacerdotes, descendentes de Aarão não tinham terra distribuída em Israel. A sua herança era o Senhor (cf. Números 18,20). Cantamos no refrão do Salmo de hoje, o Salmo 16, «Senhor, Tu és a minha herança» (v. 5). No seu Sermão 344, Santo Agostinho comenta assim: «O salmista não diz: “Ó Deus, dá-me uma herança”. Diz antes: “Tudo o que me podes dar fora de Ti, é vil. Sê Tu a minha herança. É a Ti que eu amo… Esperar Deus de Deus, estar cheio de Deus. Basta-te Ele; fora dele, nada te pode bastar». Esta melodia deve encher o nosso coração e este Dia de Domingo, Dia do Senhor, de doação radical, total, ao Senhor. Entenda-se: é um caminho novo que se abre à nossa frente. Sem retrocessos, sem desvios, sem distrações, sem nostalgias, sem saídas de emergência ou de segurança!

António Couto


FESTAS DO SOLSTÍCIO DE VERÃO

Junho 23, 2016

1. Com exceção (honrosa) da língua portuguesa, os nomes dos dias da semana das principais línguas vivas europeias estão marcados pelos astros: sol, lua, marte, mercúrio, júpiter, vénus, saturno. Esta maneira de dizer salienta a nossa dependência dos astros, que o mesmo é dizer, das forças da natureza que os astros representam. Excetuam-se, nalguns casos, o sábado e o domingo, que trazem a marca das tradições hebraica e cristã.

2. Mas, mesmo no caso português, é fácil verificar como o nosso paganismo convive amenamente com o nosso cristianismo. Basta um olhar atento a esta época do ano (solstício de verão), e às celebrações que fazemos à volta dos santos populares: Santo António, São João e São Pedro.

3. Embora o fenómeno seja o mesmo, detenhamo-nos na festa de S. João, por ser a mais afeta a esta zona norte do país. A tradição bíblica faz de João Baptista um homem austero, que não beberá vinho nem bebida alcoólica (Lc 1,15), que anda pelo silêncio do deserto para melhor escutar a Palavra de Deus, e que, a quantos o procuram, prega penitência e conversão. Mas nós festejamo-lo com esfuziante folia, no meio de barulho e muita música, abundância de vinho, danças e folguedos.

4. Mas vamos às raízes. Entre os anos 117 e 135, o imperador Adriano, com o intuito de paganizar a Palestina, deitou por terra todos os lugares de culto cristão que lá havia, entre os quais se contava a «casa-igreja» de Ain Karem [= nascente do jardim], lugar do nascimento de João Baptista, a uns 8 Km a SO de Jerusalém, extinguindo assim o nascente culto cristão a João Baptista, e implantando no seu lugar o culto pagão de Adónis. O culto de Adónis é o culto da natureza. Filho do incesto de Ciniras com Esmirna ou Mirra, a beleza de Adónis seduziu a deusa Afrodite ou Vénus, deusa do amor, da beleza, da vegetação e da fertilidade. Ciúmes de outras deusas, entre as quais Perséfone ou Proserpina, deusa da morte, fizeram que Adónis fosse morto por um javali, indo assim parar aos braços de Perséfone. O facto deu origem a intrigas entre as duas deusas (Afrodite e Perséfone), só sanadas pelo decreto de Júpiter, que decidiu que Adónis ficasse com Perséfone um terço do ano, com Afrodite outro terço, e que ficasse livre no último terço do ano. Mas Adónis ofereceu este último terço também a Afrodite. O tempo que passa com Perséfone é o Inverno, o tempo triste em que a natureza parece que morre. O tempo que passa com Afrodite é o tempo da Primavera e do Verão, o tempo da explosão da vida e da alegria. As festas em honra de Adónis têm assim um tempo de choro e de lágrimas, que equivale à morte de Adónis e ao tempo que passa com Perséfone (Inverno), e um tempo mais intenso de folia, que equivale como que à «ressurreição» de Adónis e ao tempo que passa com Afrodite (Verão). Como se vê, Adónis não é mais do que natureza, e aquilo que nós festejamos no solstício de verão não é mais do que a exuberância da natureza.

5. É esta paganização de João Baptista por Adónis que permanece ainda hoje nas nossas festas populares do solstício de verão.

6. Voltemos aos astros. A língua latina fornece-nos duas palavras para dizer «astro»: aster (plural astra) e sidus (plural sidera). Na sua brilhante L’Écriture du désastre (Gallimard, 1980), Maurice Blanchot, recentemente desaparecido, mostrou magistralmente que se as pessoas vivem ligadas aos astros e se o seu comportamento depende deles sem qualquer possibilidade de liberdade, então a vida é com certeza um «des-astre»! E é esta a compreensão que expressamos do «desastre», quando lemos num acontecimento dramático da nossa vida ou da vida dos outros, não o resultado da nossa vontade, mas a influência perniciosa de qualquer astro, o velho destino. Do mesmo modo, dizemos hoje vulgarmente que alguém está siderado, quando está de tal modo fascinado por um objecto ou por um acontecimento, que já não consegue dar um passo por conta própria.

7. Viver ligado aos astros e ao que eles dizem é, portanto, um desastre: se não nos conseguimos libertar deles, ficamos como que siderados, prisioneiros nas mãos de um destino qualquer. Mas se nos separarmos deles, então ficamos de-siderados, do latim desiderare, que deu o nosso desejar. Ao sabor do nosso desejo. É, portanto, a libertação dos astros, a saída da sideração, que dá acesso ao desejo, que nasce da separação do astral e do regresso à vida e ao movimento, à liberdade e à história, a um tempo que seja nosso.

8. Mas será ainda necessário quebrar este arco desiderativo a que andamos presos e que apenas molda em nós um «eu» identitário e patronal sempre em expansão, e que apenas sabe rejeitar ou absorver o outro, num processo cego de autorrealização ou autossatisfação. É necessário abrir-se ao extra, ao sentido objetivo, ao éschaton, ao dom que vem de fora, e que ninguém pode produzir por si mesmo. Temos todos de aprender a recebê-lo, abrindo as mãos e o coração. Lições de Junho.

António Couto


O SEU NOME É JOÃO

Junho 23, 2016

1. Na Solenidade do Nascimento de S. João Baptista, é-nos dada a graça de escutar o Evangelho de Lucas 1,57-66. Depois de Maria ter visitado e saudado Isabel (Lucas 1,39-45), e depois de ter recitado a bela oração do Magnificat (Lucas 1,46-55), o narrador informa-nos que «Maria permaneceu com Isabel cerca de três meses, e depois voltou para sua casa» (Lucas 1,56).

2. Curiosamente, só agora, depois da anotada a saída de cena de Maria em Lucas 1,56, nos é dito, no versículo imediatamente seguinte, em Lucas 1,57, que Isabel deu à luz. Com esta anotação precisa, fica claro que os três meses que Maria passou em casa de Isabel nada têm a ver com a assistência que Maria podia prestar a Isabel aquando do nascimento do seu filho. Temos então de procurar noutra direção pelo significado que o narrador quis dar a essa estada de três meses de Maria em casa de Isabel. E aqui impõe-se-nos a anotação que consta em 2 Samuel 6,11 acerca da Arca do Senhor, sendo aí dito que «a Arca do Senhor ficou três meses em casa de Obed-Edom (atual Bídu), de Gat, tendo o Senhor abençoado Obed-Edom e toda a sua casa».

3. Portanto, Maria é, no texto de Lucas, a Arca do Senhor presente em casa de Isabel, que abençoa a casa de Isabel. Verificação: não é dito, o que seria de todo normal, que os vizinhos e os familiares de Isabel ouviram dizer que Isabel tinha tido um filho, mas sim que «os vizinhos e familiares ouviram dizer que Deus cumulou Isabel com a sua misericórdia» (Lucas 1,58).

4. O oitavo dia do nascimento de um menino é uma grande festa em Israel. É nesse dia que o menino é circuncidado e recebe o seu nome. A casa de Isabel enche-se outra vez de familiares e vizinhos. Mais uma vez atento, o narrador diz-nos que aquela gente que veio para a festa queria dar ao menino o nome do seu pai, Zacarias (Lucas 1,59). Nem outra coisa era de supor, dado que, em contexto bíblico, o filho primogénito recebia habitualmente o nome do seu pai. Mas Isabel também estava atenta, e reagiu logo, dizendo: «Não, o menino chamar-se-á JOÃO (Lucas 1,60).

5. Os presentes ficaram atónitos com a reação de Isabel, e fizeram questão de vincar tal incongruência, referindo que na família ninguém tinha esse nome (Lucas 1,61). Recorreram, pois, ao mudo Zacarias para que se pronunciasse sobre o assunto do nome do menino. Zacarias, porque estava mudo, pediu uma tabuinha de cera, e escreveu: «O seu nome é JOÃO!», o que provocou o espanto de todos os presentes (Lucas 1,62-63).

6. Porquê, então, o nome de JOÃO? É certo que já o Anjo tinha mencionado a Zacarias este nome em Lucas 1,13. Mas porquê JOÃO, se ali, no livro anagráfico daquela família ninguém registava esse nome? O que significa o nome JOÃO? Em hebraico, JOÃO diz-se Yôhanan. Yôhanan significa literalmente «YHWH faz graça». E o que é fazer «fazer graça»? De forma plástica e concreta, é uma mãe que embala ternamente o seu bebé nos braços e baixa para ele o olhar carinhoso, bondoso, maravilhoso, gracioso, maternal. É este duplo gesto de carinho maternal que é a graça bíblica. Sobretudo aquele olhar belo, enternecido, embevecido, maternal, que enche o bebé de graça.

7. É assim que Deus olha para nós, e nos acaricia. É assim que Maria é saudada pelo Anjo com aquele: «Alegra-te, Cheia de Graça!» (Lucas 1,28). E é isso que Maria canta no Magnificat: «A minha alma engrandece o Senhor,/ e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador,/ porque Ele Olhou (epiblépô = olhar condescendente) para a sua humilde serva» (Lucas 1,46-47).

8. O nome JOÃO não estava registado no livro anagráfico daquela família. O nome dado não é, portanto, da nossa colheita. Vem de Deus. Foi anunciado pelo Anjo. O que é que isto quer dizer? JOÃO é, por assim dizer, o último profeta do Antigo Testamento, e o primeiro do Novo Testamento. Sendo o último do Antigo Testamento, ele resume todo o Antigo Testamento. E o resumo é este: «Deus faz graça». Sendo o primeiro do Novo Testamento, ele constitui o sumário de todo o Novo Testamento. E o sumário é este: «Deus faz graça».

9. É a posição estratégica de JOÃO no limiar dos Dois Testamentos, encerrando um e abrindo outro, resumindo um e sumariando outro, que explica a nossa estranheza. Mas JOÃO é uma enorme lição. Neste Belo Nome está contida a inteira Escritura e o inteiro afazer de Deus. Parabéns, menino JOÃO, pelo teu nascimento no nosso mundo. Tu, que nos vieste mostrar Deus!

10. O Antigo Testamento serve-nos hoje, na Solenidade do Nascimento de S. João Baptista, o chamado «segundo canto do Servo de YHWH» (Isaías 49,1-7). Gerado na dor de Israel como verdadeiro filho do milagre (Isaías 49,21), ergue-se esta singular figura de «Servo» (‘ebed), totalmente nas mãos de Deus, desde a sua predestinação desde o seio materno (Isaías 49,1 e 5), passando pela sua entrega à morte (Isaías 53,12), até à sua exaltação e glorificação (Isaías 52,13), de tal modo que Deus o pode chamar «meu Servo» (‘abdî). Na lição de hoje, o «Servo» fala em primeira pessoa e refere o seu chamamento por Deus, que continua a dizer o seu nome e a revelar-se a ele. Na verdade, Deus quer fazer dele o restaurador de Israel, o condutor dos exilados de Judá, mas também quer que ele seja uma luz para as nações, pois Deus quer que a sua salvação chegue até aos confins da terra. Da mesma forma, João não é a Luz, mas veio para dar testemunho da Luz (João 1,7-8).

11. Também temos a graça de ouvir hoje um pequeno extracto (Actos 13,22-27) do extenso «módulo narrativo» da história da salvação feito por Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia (Actos.13,16-41). A parte hoje narrada e escutada põe diante de nós a história santa desde a promessa feita a David até João Baptista, que mostra a sua realização, apontando Jesus.

12. O Salmo 139 é uma pequena maravilha, que põe diante de nós um Deus que se interessa por nós desde a nossa gestação no seio materno, ainda em embrião (golem) (Salmo 139,16), e depois acompanha com conhecimento pessoal todo o nosso percurso, toda a nossa vida. Tudo maravilhoso e admirável. Ó Deus amigo dos homens!

António Couto


O NOSSO «LUGAR FELIZ» É CRISTO

Junho 18, 2016

1. Este Domingo XII do Tempo Comum oferece-nos a imensa utopia messiânica que atravessa a profecia de Zacarias 9-14, um povo pobre, explorado, combatido e assassinado, mas que é a «pupila dos olhos do Senhor» (Zacarias 2,12), que tem nele colocados os seus olhos (Zacarias 9,1 e 8). Este povo pobre e mártir tem direito à sua esperança e ao seu rei diferente, que se apresenta pobre e pacífico, montado num jumento, animal de paz e não de guerra, e que porá fim aos instrumentos de guerra (Zacarias 9,9-10). Mundo novo. O texto deste Domingo (Zacarias 12,10-11; 13,1) faz-nos chorar este povo pobre e mártir personificado num filho único, num filho primogénito, martirizado, mas faz-nos ver também, e fixa o nosso olhar nesta figura desfigurada e transpassada, mas transfigurada, pois se tornará numa fonte de água pura, salvadora e salutar (Zacarias 13,1; 14,8). É, neste sentido, que «hão de olhar para aquele que transpassaram» (Zacarias 12,10). Cruzamento de olhares: olha Deus para ele, por ele; olhamos agora também nós para ele, por ele! É sabido que João, vendo Jesus e relendo este texto de Zacarias, fixa o nosso olhar em Jesus crucificado, transpassado, desfigurado, transfigurado (João 19,37). Então o crucificado ressuscitado, que preside à nossa assembleia dominical e à nossa vida, deixa de ser uma u-topia [= «sem lugar»], para se transformar numa eu-topia [= «lugar feliz»]. Olhar fixo n’Ele! Mãos abertas em concha para Ele, para as encher nessa fonte de graça e de saúde! Sim, somos chamados a transformar o «deslugar» deste mundo em «lugar feliz»! Mãos à obra! Ou, melhor ainda, corações à obra!

2. Faz equilíbrio com este grande texto de Zacarias o Evangelho de Lucas 9,18-24. Começa por nos apresentar Jesus a rezar sozinho, o que acontece imensas vezes no Evangelho de Lucas, que é, por isso, também chamado «Evangelho da oração». E «orar» é, em sentido genuíno, etimológico, beijar, como lembrou o Papa Bento XVI aos jovens reunidos na XX Jornada Mundial da Juventude, realizada em Colónia, em 2005, referindo que a palavra latina para oração é oratio e a locução latina para adoração é ad oratio, contacto boca a boca, beijo, abraço, e portanto, no fundo, amor, ou seja, orientar a nossa vida toda para Deus, entregar a Deus a nossa vida toda, para que seja Ele a olhar para nós, por nós! É importante sabermos, informa-nos o narrador, que os seus discípulos estavam com Ele. Estar com Ele é o «lugar feliz» do discípulo de todos os tempos. Estar sem Ele é sempre um «deslugar». Se for este o caso, temos rapidamente de mudar de lugar!

3. Também ficamos a saber, pela informação dos discípulos de então, que as multidões dizem Jesus com o passado, alinhando-o com as figuras do passado (João Baptista, Elias, um antigo profeta redivivo) (Lucas 9,19), não contendo, portanto, nada de substancialmente novo. Em contraponto com as multidões, Pedro avança um dizer novo, diz que Jesus é o Cristo de Deus, sem, todavia, com este dizer, renovar a sua vida, sem fixar n’Ele os olhos e o coração, e sem encher as mãos em concha com a água viva que d’Ele vem.

4. É Jesus, e só podia ser Jesus, que se autoapresenta aos seus discípulos de ontem e de hoje, como tendo de sofrer, ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia (Lucas 9,22). Aí está o transpassado, desfigurado, transfigurado, fonte única de água viva para nós, fonte da nossa vida. Dizemos, na verdade, muitas coisas. Mas é necessário ouvir Jesus dizer. Porque só Ele se diz e nos diz. Para o discípulo, escutar é deixar-se dizer! Para o discípulo, dizer é redizer o dito de Jesus. Eis o Mestre. Eis o discípulo.

5. Ainda duas coisas únicas deste Evangelho, duas pérolas, portanto: «Dizia Ele a todos: “Se alguém quer vir atrás de mim, diga não a si mesmo, e tome a sua cruz todos os dias, e siga-me”» (Lucas 9,23). A primeira pérola está em que Jesus diz para todos. O dizer de Jesus, o seu ensinamento novo, não é para elites, para alguns iluminados. É para todos. Entenda-se que a escola de Jesus está aberta a todos, ricos e pobres, maus e bons, especialistas e ignorantes. Já se sabe que o ignorante é aquele que não sabe; de resto, também o dito especialista não sabe, mas não sabe, para usar o aforismo cortante do escritor italiano Leo Longanesi (1905-1957), com grande competência e autoridade! Ainda bem, portanto, que Jesus diz para todos, e todos devemos estar sentados e atentos na sua escola. A segunda pérola é que a vida cristã, que consiste em seguir Jesus, é coisa quotidiana, de todos os dias. Lucas é mesmo o único Evangelista que regista a necessidade de tomar a cruz todos os dias. Não é só para alguns dias de festa. Não pode ter pausas.

6. Dizer não a si mesmo é pensar ao contrário do que estamos habituados a fazer. Pensamos sempre primeiro em nós, em salvar-nos a nós mesmos. E para nos salvarmos a nós mesmos, pensamos nós, temos de nos antecipar aos outros, ser mais espertos do que os outros, passar à frente dos outros. Exatamente o contrário de Jesus, que não quis salvar-se a si mesmo. Quis salvar-nos a nós, pôr-se ao nosso serviço, fazer-se fonte de água viva para nós. «Salva-te a ti mesmo, e desce da Cruz!» (Lucas 23,35-39), eis a tentação que cai sobre Jesus em três vagas sucessivas. Todavia, se se tivesse salvo a si mesmo, não nos salvava a nós! Estamos, portanto, perante a lógica nova do «quem perde, ganha», que é o jogo novo do cristianismo.

7. Não se pode ser cristão, discípulo de Jesus, seguir Jesus, dizer Jesus, sem dar a vida. O discípulo de Jesus, à maneira de Jesus, tem de pôr em jogo a própria vida, e não simplesmente os adereços. Tudo, e não apenas o supérfluo. Dar o que sobra não tem a marca de Deus, não é fazer a verdadeira memória de Jesus, que se entregou a si mesmo por nós (Efésios 5,2), por mim (Gálatas 2,20). O supérfluo deixa a vida intacta. O dom de si mesmo transforma a vida para sempre.

8. É esta novidade que São Paulo afirma outra vez na Carta aos Gálatas 3,26-29. Sim, Paulo já não se sabe dizer sem dizer Jesus Cristo. Por Ele foi alcançado, n’Ele foi baptizado, está revestido d’Ele. Se vive, é porque está enxertado em Cristo, o «lugar feliz» da sua vida.

9. O Salmo 63 é conhecido como «o cântico do amor místico», atravessado por uma apaixonada intensidade, bem expressa na primeira afirmação ou declaração de amor à boca do Salmo, mas que enche, de resto, o Salmo inteiro: «O meu Deus és Tu» (ʼelî ʼattah), a que responde e corresponde Deus em Isaías 43,1, declarando: «Para mim tu és» (lî ʼattah). Tudo o resto no Salmo 63 assenta sobre esta certeza. A minha vida recebida (naphshî), por quatro vezes referida (vv. 2.5.9.10) agarra-se amorosamente (dabaq) a Ti (v. 9), canta o teu amor, vive de Ti. A beleza, intensidade e espiritualidade que atravessam este Salmo ganham visibilidade na liturgia bizantina das manhãs de Domingo, e os vv. 3-6 entram no cânone eucarístico armeno.

António Couto

 


CRISTÃO DO SÉCULO XXI, TENHO UMA COISA PARA TE DIZER

Junho 11, 2016

1. À boca da cena do Evangelho deste Domingo XI do Tempo Comum (Lucas 7,36-8,3) perfilam-se três personagens: o fariseu Simão, Jesus, e uma mulher pecadora. Ao fundo da cena estão ainda os convidados, que só intervêm no final do relato. Todos, menos a mulher, estão recostados à mesa, em casa do fariseu Simão, pois foram por ele convidados.

2. As primeiras atenções dirigem-se para a mulher, introduzida pelo narrador com aquele: «E eis uma mulher…» (v. 37), que passa claramente por uma fórmula de atenção. Também não deve o leitor estranhar muito esta súbita, e parece que não desejada, entrada desta mulher em casa alheia. No mundo oriental, as portas das casas permaneciam abertas, e qualquer pessoa podia espreitar pela porta para ver o que lá dentro se passava, sobretudo quando eram percetíveis movimentações fora do habitual. Estranho, neste caso, foi que a mulher se tenha aventurado a entrar na sala, e não apenas a espreitar à porta!

3. Uma vez lá dentro, é a pessoa de Jesus o centro único do seu interesse (vê-se que foi unicamente por causa d’Ele que entrou), vão para Ele todas as suas atenções, em relação a Ele cumpre seis ações simbólicas e grandemente significativas, sempre sem dizer uma palavra:

A) vem e traz um frasco com perfume;

B) coloca-se por detrás dos pés de Jesus;

C) chorando, com as lágrimas banha os pés de Jesus;

C’) e com os cabelos da sua cabeça enxugava-os;

B’) e beijava os pés de Jesus;

A’) e ungia-os com perfume.

4. Enquanto isto acontecia em silêncio, aberto, portanto, à interpretação de todos, também à nossa, diz-nos o narrador que o fariseu murmurava acerca de Jesus, que seguramente não seria um profeta, pois se o fosse, segundo o pensar do fariseu, saberia certamente que era uma pecadora que o tocava, e teria impedido tal procedimento.

5. Assim pensava o fariseu, quando Jesus mostra que é, de facto, profeta, intercetando-lhe e corrigindo-lhe os pensamentos enviesados e retorcidos, apontando-lhe o essencial, que é a GRAÇA, e pondo-o a falar bem e abertamente. «Simão, tenho uma coisa para te dizer». «Fala, Mestre», respondeu ele. «Um credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários, e o outro cinquenta. Como não tinham com que pagar, fez graça (charízomai) a ambos. Qual dos dois o amará (agapáô) mais?». Simão respondeu: «Suponho que aquele a quem fez mais graça (charízomai)». Jesus disse: «Julgaste bem» (Lucas 7,40-43).

6. Neste momento, há já na sala um excesso de luz. Salta à vista que as seis ações da mulher apontam para a sétima, que enche agora a cena toda e prende todos os pensamentos: é a AÇÃO DE DEUS, a AÇÃO DA GRAÇA concedida por Deus e atuante nos dois devedores que não tinham com que pagar (Lucas 7,41-42). Este relevo da AÇÃO DA GRAÇA está bem marcado, de resto, pelas únicas ocorrências em Lucas do verbo charízomai [= fazer graça] (Lucas 7,21b.42-43).

7. Vendo que os seus pensamentos tinham sido intercetados por Jesus, o fariseu responde cautelosamente à pergunta formulada por Jesus: «Suponho que…». Ao contrário da mulher, que arrisca tudo, expondo-se a todos os olhares, pensamentos e dizeres. O fariseu é mesmo apresentado como o homem do NÃO, ao contrário da mulher: «TU NÃO me deste água para os pés; ELA, AO CONTRÁRIO, banhou-me os pés com as suas lágrimas e enxugou-os com os seus cabelos; TU NÃO me deste um beijo; ELA, AO CONTRÁRIO, desde que entrei, não cessou de me beijar os pés; TU NÃO me ungiste a cabeça com óleo perfumado; ELA, AO CONTRÁRIO, ungiu-me os pés com perfume» (Lucas 7,44-46).

8. Note-se bem o grau de intimidade estabelecido por esta mulher pecadora com Jesus, sempre em contacto com o seu corpo. O ter-se colocado «atrás, junto dos pés dele» (opísô parà toùs pódas autoû) indica de imediato que assume a posição do discípulo. Em suma, esta mulher pecadora arriscou tudo por amor. Foi perdoada e ganhou a GRAÇA de uma vida nova (Lucas 7,48-50).

9. E esta mulher pecadora e silenciosa é, para todas as gerações, um imenso discurso sobre a GRAÇA e a AÇÃO DA GRAÇA de Deus, que nos precede e acompanha sempre. GRAÇA preveniente, concomitante, consequente.

10. Cruzam-se as histórias bíblicas dos dois Testamentos, e as personagens surgem, como por encanto, lado a lado: é a mulher pecadora e agraciada, e é David pecador perdoado. Natan [= «Deus deu»], o profeta, vindo não se sabe de onde nem de ninguém (não são conhecidos pai ou mãe), apenas de Deus, entra no palácio do rei (2 Samuel 7), cruza porta após porta até chegar junto de David, e diz-lhe quanto Deus manda dizer: «Fui Eu que te tirei das pastagens e fiz de ti chefe do meu povo. Estive sempre contigo por onde andaste. Dar-te-ei um nome grande. Acomodarei o meu povo neste lugar bom. Farei uma Casa para ti e para a tua descendência depois de ti. Serei para eles um pai. Eles serão para mim como meus filhos. Estabelecerei o teu trono para sempre».

11. Vê-se bem que, pela boca de Natan, Deus estende a David um tapete de luz, um fio de sentido, a perder de vista, que já sabemos que vai até Cristo.

12. Mas há um maciço de palavras entalhadas no mais puro gume do papiro, que não podemos mesmo deixar no esquecimento. Refiro-me aos Capítulos 11 e 12 do Segundo Livro de Samuel, de que hoje temos a graça de ler um estrato (2 Samuel 12,7-13).

13. Eis, cena após cena, o que aí fica registrado: Passou o inverno, chegou a primavera. É o tempo da guerra e do amor. David mandou para a guerra o seu exército comandado pelo general Joab. O combate é contra os Amonitas, mais precisamente contra a sua capital Rabbah, atual Aman. Mas David, o rei, ficou em Jerusalém neste tempo da guerra e do amor. Evitou a guerra. Fica com a parte do amor. Levanta-se num belo entardecer, e vem passear para o terraço do seu palácio. É daí que avista uma bela mulher, banhando-se. E a paixão toma conta de David. Incumbe a sua guarda pessoal de recolher informações acerca dela. Dizem-lhe que se chama Betsabé, e que é casada com Urias, um dos militares que partiu para a guerra com Joab. David mandou os seus agentes buscar Betsabé. Dormiu com ela. Depois, ela voltou para casa. Mas alguns dias depois, mandou dizer a David: «Estou grávida».

14. Sabendo isto, David mandou uma mensagem ao general Joab, para que lhe enviasse Urias. Chegado ao palácio de David, este pediu-lhe notícias de Joab, do exército e do andamento da guerra. Depois disse-lhe: «Desce à tua casa». Mas Urias não entrou em sua casa, e dormiu à porta do palácio com os outros servos do rei. Disseram a David que Urias não foi a sua casa. David mandou-o chamar e perguntou-lhe: «Não regressaste de uma viagem? Por que não foste a tua casa?» Urias respondeu: «A arca de Deus habita numa tenda, assim como Israel e Judá. Joab, meu chefe, e os seus servos dormem ao relento, e eu teria coragem de entrar na minha casa para comer e beber e dormir com a minha mulher? Pela tua vida, não farei tal coisa». David disse-lhe: «Fica aqui também hoje, e amanhã enviar-te-ei». E Urias ficou em Jerusalém naquele dia. No dia seguinte, David convidou Urias para comer e beber com ele, e embriagou-o. Mas, à noite, Urias não desceu a sua casa, mas dormiu com os servos do rei.

15. No dia seguinte, de manhã, David escreveu uma carta a Joab, e enviou-lha por Urias. Dizia nela: «Coloca Urias na frente, onde o combate for mais aceso, e não o socorras, para que seja ferido e morra». Joab, que sitiava a cidade, pôs Urias no lugar onde sabia que estavam os mais valentes guerreiros do inimigo. Os guerreiros Amonitas fizeram um ataque de surpresa, e morreram alguns militares das tropas de Joab, entre os quais, Urias.

16. Joab mandou imediatamente informações pormenorizadas a David acerca das peripécias do combate, e ordenou ao mensageiro: «Quando tiveres contado ao rei todos os pormenores do combate, se ele ficar indignado e te perguntar: «Por que vos aproximastes da cidade para combater? Não sabíeis que iam disparar do alto da muralha? Quem matou Abimélec, filho de Jerubaal? Não foi uma mulher que lhe atirou uma pedra de moinho de cima do muro, matando-o em Tebes? (cf. Juízes 9,51-54). Porque vos aproximastes dos muros?», então dirás ao rei: «Morreu também o teu servo Urias».

17. Partiu, pois, o mensageiro e contou a David tudo o que Joab lhe tinha mandado. Disse-lhe: «Esses homens são mais fortes do que nós. Saíram contra nós em campo aberto, mas nós perseguimo-los até às portas da cidade. Então, do alto da muralha, os arqueiros dispararam sobre os teus servos e morreram alguns, entre eles o teu servo Urias». Então o rei respondeu ao mensageiro: «Diz a Joab que não se aflija por causa deste fracasso, e que intensifique o ataque à cidade até a destruir».

18. Ao saber da morte do seu marido, a mulher de Urias chorou-o. Terminados os dias de luto, David mandou buscá-la e acolheu-a em sua casa. Tomou-a por esposa e ela deu-lhe um filho. Mas o procedimento de David desagradou ao Senhor.

19. O Senhor enviou então Natan ter com David. Logo que entrou no palácio, Natan disse-lhe: «Dois homens viviam na mesma cidade. Um era rico, o outro pobre. O rico tinha ovelhas e bois em grande quantidade. O pobre tinha apenas uma ovelha pequenina, que comprara. Criou-a, e ela cresceu junto dele e dos seus filhos, comia do seu pão, bebia do seu copo e dormia no seu regaço. Era para ele como uma filha. Certo dia, chegou um hóspede a casa do homem rico. Mas este não quis tocar nas suas ovelhas e nos seus bois para preparar um banquete para o seu hóspede. Antes, foi apoderar-se da ovelhinha do pobre, matou-a e preparou-a para o seu hóspede».

20. David espumava, e indignado contra tal homem, disse a Natan: «Pelo Deus vivo! O homem que fez isso merece a morte. Pagará quatro vezes o valor da ovelha por ter feito essa maldade e não ter tido compaixão».

21, Natan disse a David: «Esse homem és tu!». «Assim diz o Senhor: “Tomarei as tuas mulheres diante dos teus olhos e hei de dá-las a outro, que dormirá com elas à luz do sol! Pois tu pecaste ocultamente, mas eu farei o que digo diante de todo o Israel e à luz do dia!”».

22. Mas é sempre do amor e do perdão a última palavra. O Filho de Deus amou-me e deu a sua vida por mim (Gálatas 2,20), e assim me justificou, isto é, transformou-me de pecador em justo. E não podemos inutilizar a graça de Deus (Gálatas 2,21). Sim, não é a Lei ou o cumprimento de qualquer humana tradição ou conhecimento adquirido que me salva. É Cristo. Aí está toda a história de Paulo hoje também para nós evocada na Carta aos Gálatas 2,16-21.

23. O Salmo 32 não é uma abstracta lição de moral, mas o testemunho autobiográfico de um convertido, que canta a felicidade do perdão. A liturgia cristã colocou este Salmo, desde o século VI, na lista dos sete «Salmos penitenciais» (juntamente com os salmos 6; 38; 51; 102; 103; 143). Logo no primeiro versículo, o Salmo diz admiravelmente: «Feliz aquele a quem foi retirada (nasaʼ) a culpa,/ coberto (kasah) o pecado» (Salmo 32,1). «Retirada a culpa» alude à imagem de um fardo, de um peso, de que somos aliviados, para podermos respirar de alívio. «Coberto o pecado»: Lutero, comentando a Carta aos Romanos 4,7, que cita o versículo do Salmo que estamos a apresentar, serviu-se deste verbo (kasah, cobrir) para argumentar que o pecado não é perdoado, mas apenas «coberto» pela justificação pela graça. Em boa verdade, o valor simbólico do «cobrir» bíblico traduz, sem qualquer dúvida, a anulação efectiva e eficaz do pecado por parte de Deus. Biblicamente falando, «cobrir» ou «perdoar» o pecado não significa simplesmente «esquecer» o pecado, passar por cima do pecado, mas, mais intensamente, «arrancar» o homem ao pecado, o que constitui um milagre só ao alcance do poder de Deus. Santo Agostinho tinha em grande apreço este Salmo. Afixou uma cópia na parede do seu quarto, diante do seu leito. E lia-a entre lágrimas, o que lhe trazia grande paz e conforto, sobretudo durante os últimos tempos da sua doença de que veio a falecer.

António Couto


QUANDO DEUS ESTÁ DE VISITA AO SEU POVO

Junho 4, 2016

1. Abraão, em idade avançadíssima, estava sentado numa esteira na sua tenda de chefe tribal, quando vislumbrou ao longe, sobre o caminho arenoso do deserto, a figura de um dos anjos que, alguns anos antes, o tinham visitado para lhe dar a notícia feliz do nascimento do seu filho Isaac. Mas, quando o anjo se aproximou um pouco mais, Abraão sentiu um calafrio e compreendeu que este não era o anjo da vida, mas o anjo da morte, que se aproximava para lhe levar a vida. Mal o anjo chegou junto dele, Abraão encheu-se de coragem e disse-lhe: «Anjo da morte, tenho uma pergunta para te fazer. Eu sou o amigo de Deus. Responde-me: já algum dia viste um amigo desejar a morte do seu amigo?». O anjo, então, respondeu: «Também eu te farei uma pergunta: já algum dia viste um enamorado recusar encontrar-se com a pessoa amada?». Neste momento, Abraão exclamou: «Anjo da morte, leva-me!».

2. Este delicioso apólogo da tradição mística judaica e muçulmana, que tem como protagonista Abraão, o «pai na fé», comum às três grandes religiões monoteístas (hebraica, cristã e muçulmana), traduz luminosamente os dois rostos da morte: o monstruoso e o angélico, o da separação e o do encontro. Estas duas facetas atravessam os textos deste Domingo X do Tempo Comum. Desde logo, o Evangelho de Lucas 7,11-17, vulgarmente conhecido como «ressurreição do filho da viúva de Naim», e 1 Reis 17,17-24, vulgarmente conhecido como «ressurreição do filho da viúva de Sarepta». Parecem, à primeira vista, dois textos paralelos: ambos falam de uma viúva e da morte e do regresso à vida do seu filho único, num caso por obra de Elias, no outro por obra de Jesus. Mas as diferenças são mais do que as semelhanças.

3. Comecemos, como é de bom tom, pelo relato do Evangelho. Eis-nos de imediato perante uma pobre mãe, viúva, que acompanha, chorando, o seu filho único ao cemitério. Acompanha-a uma grande multidão, mas aquela pobre mãe, atravessada pela dor mais profunda, atravessa também a mais cruel solidão. É o cortejo da morte. Vem ao seu encontro, em contraponto, o cortejo da vida: Jesus, acompanhado pelos seus discípulos e também por uma grande multidão. Ao ver a pobre mãe, viúva, que chorava, Jesus COMOVEU-SE, e ordenou à mulher: «Não chores!». Depois, tocou o esquife aberto, como é usual no oriente, e ordenou: «Jovem, eu te digo, LEVANTA-te!» O jovem SENTOU-se, sinal narrativo de que o esquife ia, de facto, aberto, e começou a FALAR, e Jesus DEU-o à sua mãe. E só agora reage a multidão, que ficou tomada de temor e glorificava a Deus, dizendo: «Um profeta grande se LEVANTOU entre nós, e Deus VISITOU o seu povo!».

4. Notas a considerar: 1) Jesus comove-se (verbo grego splagchnízomai), comoção entranhada, maternal, divina; 2) Vê-se bem que Jesus não está perante um caso, mas perante uma pessoa que sofre; 3) Jesus intervém por pura graça: não responde a nenhum queixume nem a nenhum pedido; 4) Jesus ordena àquela mãe que não chore: como Deus que enxuga as lágrimas dos nossos olhos (cf. Isaías 25,8; Apocalipse 17,7; 21,4); 5) Jesus ordena, em primeira pessoa, ao jovem que se levante da morte (não invoca Deus para que dê a vida ao jovem, como faz Elias no relato da viúva de Sarepta); 6) Jesus dá o filho àquela mãe: importante lição para nós que pensamos que os filhos são nossos, e não dados! 7) Note-se que, face às situações difíceis que encontra, Jesus não apresenta sistemas ou programas; não conquista reinos, não constrói edifícios, não cria uma nova ordem social; dirige-se a cada ser humano necessitado, toma sobre si a sua dor, e ajuda-o; 8) A multidão reage no final: enche-se de temor [= vê com maravilha cair as certezas a que até então se agarrou, e nasce de novo de acordo com a novidade boa que vê vir de Deus], e proclama a VISITA boa, com bons olhos (grego episképtomai) (Lucas 7,16), donde vem o nosso termo epískopos [= bispo] e episkopê [= visita ou visitação] (Lucas 19,44), de Deus: Deus-connosco! Tantas Maravilhas a descobrir com um olhar bom! Tantas maravilhas a fazer acontecer com um olhar bom! O próprio Deus se apresenta como o visitador bom (Êxodo 3,16), e, no Evangelho de Lucas, já tinha sido cantado por Zacarias como aquele que visita e redime o seu povo (Lucas 1,68).

5. A narrativa de 1 Reis 17,17-24, da ressurreição do filho da viúva de Sarepta, não fala de multidão. Passa-se tudo em casa. O milagre vai realizar-se como prémio da generosa hospitalidade daquela viúva, que expõe a sua queixa a Elias. E, sobretudo, Elias não é Jesus. Não ordena o regresso à vida do rapaz. Invoca-o de Deus, e por mais de uma vez…

6. Que Deus desde sempre se mete connosco, eis o que testemunha Paulo aos Gálatas (1,11-19), e é assim que aprende e ensina a viver a vida, não pelo cursor dos poucos anos da nossa breve existência fechada sobre si, mas visitada pela força do amor novo e eterno, novo porque eterno, de Deus. Também Paulo andava perdido e distraído ao sabor do GPS da carne do sangue, mas quando chegou o tempo de ser visitado por este amor primeiro e derradeiro, verdadeiro, de Deus, não hesita um segundo, e esforça-se para lhe responder de forma adequada (Filipenses 3, 8,14).

7. Também nós somos do tempo novo da eterna novidade e da beleza do Evangelho e da visita boa e bela de Deus. Atenção, porém, redobrada atenção, porque Jerusalém não reconheceu o tempo da sua visita! (Lucas 19,44).

8. O Salmo 30 é uma bela e sentida Ação de Graças a um Deus que liberta o orante da tristeza, da doença, do luto e da morte, e o faz exultar de alegria, saúde, vida, dança e música de festa. O Deus aqui louvado é um Deus que muda as nossas situações difíceis e, por vezes, aparentemente sem saída, em amplas avenidas floridas. Enquadra-se, por isso, perfeitamente na liturgia de hoje. Mas também, como diz o próprio título que o apresenta como «Cântico para a Dedicação do Templo», se ajusta bem Festa da Hanûkkah ou da Dedicação do Templo, quando Judas Macabeu entrou no Templo de Jerusalém em 164 a.C. e o fez purificar depois de um período de ocupação pelos selêucidas.

António Couto