QUANDO DEUS ESTÁ DE VISITA AO SEU POVO

Junho 4, 2016

1. Abraão, em idade avançadíssima, estava sentado numa esteira na sua tenda de chefe tribal, quando vislumbrou ao longe, sobre o caminho arenoso do deserto, a figura de um dos anjos que, alguns anos antes, o tinham visitado para lhe dar a notícia feliz do nascimento do seu filho Isaac. Mas, quando o anjo se aproximou um pouco mais, Abraão sentiu um calafrio e compreendeu que este não era o anjo da vida, mas o anjo da morte, que se aproximava para lhe levar a vida. Mal o anjo chegou junto dele, Abraão encheu-se de coragem e disse-lhe: «Anjo da morte, tenho uma pergunta para te fazer. Eu sou o amigo de Deus. Responde-me: já algum dia viste um amigo desejar a morte do seu amigo?». O anjo, então, respondeu: «Também eu te farei uma pergunta: já algum dia viste um enamorado recusar encontrar-se com a pessoa amada?». Neste momento, Abraão exclamou: «Anjo da morte, leva-me!».

2. Este delicioso apólogo da tradição mística judaica e muçulmana, que tem como protagonista Abraão, o «pai na fé», comum às três grandes religiões monoteístas (hebraica, cristã e muçulmana), traduz luminosamente os dois rostos da morte: o monstruoso e o angélico, o da separação e o do encontro. Estas duas facetas atravessam os textos deste Domingo X do Tempo Comum. Desde logo, o Evangelho de Lucas 7,11-17, vulgarmente conhecido como «ressurreição do filho da viúva de Naim», e 1 Reis 17,17-24, vulgarmente conhecido como «ressurreição do filho da viúva de Sarepta». Parecem, à primeira vista, dois textos paralelos: ambos falam de uma viúva e da morte e do regresso à vida do seu filho único, num caso por obra de Elias, no outro por obra de Jesus. Mas as diferenças são mais do que as semelhanças.

3. Comecemos, como é de bom tom, pelo relato do Evangelho. Eis-nos de imediato perante uma pobre mãe, viúva, que acompanha, chorando, o seu filho único ao cemitério. Acompanha-a uma grande multidão, mas aquela pobre mãe, atravessada pela dor mais profunda, atravessa também a mais cruel solidão. É o cortejo da morte. Vem ao seu encontro, em contraponto, o cortejo da vida: Jesus, acompanhado pelos seus discípulos e também por uma grande multidão. Ao ver a pobre mãe, viúva, que chorava, Jesus COMOVEU-SE, e ordenou à mulher: «Não chores!». Depois, tocou o esquife aberto, como é usual no oriente, e ordenou: «Jovem, eu te digo, LEVANTA-te!» O jovem SENTOU-se, sinal narrativo de que o esquife ia, de facto, aberto, e começou a FALAR, e Jesus DEU-o à sua mãe. E só agora reage a multidão, que ficou tomada de temor e glorificava a Deus, dizendo: «Um profeta grande se LEVANTOU entre nós, e Deus VISITOU o seu povo!».

4. Notas a considerar: 1) Jesus comove-se (verbo grego splagchnízomai), comoção entranhada, maternal, divina; 2) Vê-se bem que Jesus não está perante um caso, mas perante uma pessoa que sofre; 3) Jesus intervém por pura graça: não responde a nenhum queixume nem a nenhum pedido; 4) Jesus ordena àquela mãe que não chore: como Deus que enxuga as lágrimas dos nossos olhos (cf. Isaías 25,8; Apocalipse 17,7; 21,4); 5) Jesus ordena, em primeira pessoa, ao jovem que se levante da morte (não invoca Deus para que dê a vida ao jovem, como faz Elias no relato da viúva de Sarepta); 6) Jesus dá o filho àquela mãe: importante lição para nós que pensamos que os filhos são nossos, e não dados! 7) Note-se que, face às situações difíceis que encontra, Jesus não apresenta sistemas ou programas; não conquista reinos, não constrói edifícios, não cria uma nova ordem social; dirige-se a cada ser humano necessitado, toma sobre si a sua dor, e ajuda-o; 8) A multidão reage no final: enche-se de temor [= vê com maravilha cair as certezas a que até então se agarrou, e nasce de novo de acordo com a novidade boa que vê vir de Deus], e proclama a VISITA boa, com bons olhos (grego episképtomai) (Lucas 7,16), donde vem o nosso termo epískopos [= bispo] e episkopê [= visita ou visitação] (Lucas 19,44), de Deus: Deus-connosco! Tantas Maravilhas a descobrir com um olhar bom! Tantas maravilhas a fazer acontecer com um olhar bom! O próprio Deus se apresenta como o visitador bom (Êxodo 3,16), e, no Evangelho de Lucas, já tinha sido cantado por Zacarias como aquele que visita e redime o seu povo (Lucas 1,68).

5. A narrativa de 1 Reis 17,17-24, da ressurreição do filho da viúva de Sarepta, não fala de multidão. Passa-se tudo em casa. O milagre vai realizar-se como prémio da generosa hospitalidade daquela viúva, que expõe a sua queixa a Elias. E, sobretudo, Elias não é Jesus. Não ordena o regresso à vida do rapaz. Invoca-o de Deus, e por mais de uma vez…

6. Que Deus desde sempre se mete connosco, eis o que testemunha Paulo aos Gálatas (1,11-19), e é assim que aprende e ensina a viver a vida, não pelo cursor dos poucos anos da nossa breve existência fechada sobre si, mas visitada pela força do amor novo e eterno, novo porque eterno, de Deus. Também Paulo andava perdido e distraído ao sabor do GPS da carne do sangue, mas quando chegou o tempo de ser visitado por este amor primeiro e derradeiro, verdadeiro, de Deus, não hesita um segundo, e esforça-se para lhe responder de forma adequada (Filipenses 3, 8,14).

7. Também nós somos do tempo novo da eterna novidade e da beleza do Evangelho e da visita boa e bela de Deus. Atenção, porém, redobrada atenção, porque Jerusalém não reconheceu o tempo da sua visita! (Lucas 19,44).

8. O Salmo 30 é uma bela e sentida Ação de Graças a um Deus que liberta o orante da tristeza, da doença, do luto e da morte, e o faz exultar de alegria, saúde, vida, dança e música de festa. O Deus aqui louvado é um Deus que muda as nossas situações difíceis e, por vezes, aparentemente sem saída, em amplas avenidas floridas. Enquadra-se, por isso, perfeitamente na liturgia de hoje. Mas também, como diz o próprio título que o apresenta como «Cântico para a Dedicação do Templo», se ajusta bem Festa da Hanûkkah ou da Dedicação do Templo, quando Judas Macabeu entrou no Templo de Jerusalém em 164 a.C. e o fez purificar depois de um período de ocupação pelos selêucidas.

António Couto

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