ESTA PARÁBOLA DA MISERICÓRDIA


1. Este Domingo XXIV do Tempo Comum oferece-nos a proclamação e audição integral, assim vivamente o espero, da grande parábola guardada em Lucas 15,1-32. A página lucana tem lugar garantido em qualquer antologia dos mais belos textos de todos os tempos.

2. É a história dos pecadores e dos publicanos, dos escribas e dos fariseus. De uns e de outros, todos temos um pouco. Todos se aproximam de Jesus: os primeiros para o escutar com alegria; os segundos para o recriminar com azedume pelo facto de ele receber os primeiros e comer com eles. Há, portanto, aqui um comportamento novo, misericordioso, inclusivo e acolhedor por parte de Jesus. Os pecadores compreendem que Jesus traz um Evangelho, uma Notícia Boa e Feliz. Os escribas e os fariseus, porém, não consideram a Notícia suficientemente Boa. Por isso, dele se aproximam os pecadores, até então marginalizados e hostilizados pela tradição religiosa vigente; por isso, o recriminam os fariseus e os escribas, os garantes da velha tradição religiosa, rigorista, classista e exclusivista.

3. A estes últimos conta Jesus uma parábola. Note-se bem: uma parábola, «esta parábola» (taútên parabolên) (v. 3), no singular, e não três parábolas, como é usual dizer-se. Note-se também que, para escutarmos correctamente «esta parábola» de Jesus, é do lado dos fariseus e dos escribas que nos devemos postar, dado que é para eles que Jesus conta a parábola. «Esta parábola» é, portanto, para eles e para o nosso lado orgulhoso, farisaico, classista e exclusivista, para o nosso como eles. É notório que, dado o desenrolar da história contada por Jesus, gostemos mais de nos rever na ovelha perdida e encontrada do que nos noventa e nove fariseus cumpridores de ordens e que, por isso, se julgam piedosos e justos com direitos e créditos sobre Deus, como também nos revemos habitualmente naquele filho que sai de casa e que acaba por voltar, sendo recebido por um Pai carinhoso que o espera de braços abertos. Mas, para que a história contada por Jesus nos caia em cima, como um relâmpago, é mesmo do outro lado de nós que nos devemos colocar.

4. A eles e a nós mostra Jesus a premura do pastor que corre, ainda que tenha de ser a vida inteira, à procura da sua ovelha perdida. E mostra depois a alegria incontida que sente quando a encontra, e em que quer fazer participar os seus amigos e vizinhos. A mesma premura e alegria toma conta da mulher que procura e encontra a moedinha que perdeu no chão de terra e basalto negro da sua humilde casa.

5. Mas já Jesus traz para a cena, sem deixar a audiência respirar, um Pai excepcionalmente maravilhoso e bom, em quem pulsa um imenso coração e vibram entranhas de misericórdia. Tem dois filhos, que nos representam a todos: um claramente pecador, que opta por sair de casa, depois de ter pedido ao pai a sua parte da herança. Note-se que todo o pai dá três coisas aos seus filhos: o pão, todos os dias; roupas novas, nos tempos festivos; a herança, uma única vez na vida, pouco antes de morrer. O Livro de Ben-Sirá tira-nos todas as dúvidas, ao deixar escrito: «No último dia dos dias da tua vida, na hora da tua morte, distribui a tua herança» (33,24). O pedido deste filho de receber a herança assume, portanto, um imenso dramatismo. Fazendo o pedido que faz, este filho como que mata o pai, ao mesmo tempo que morre como filho! Não quer mesmo mais ser filho nem depender de nenhum pai.

6. Parte para longe, gasta tudo, torna-se um assalariado desamparado, guarda porcos, vive abaixo de porco (não lhe é sequer permitido comer com os porcos, como os porcos!). É o seu ponto mais baixo. Pensa então em voltar para casa, mas como assalariado, não como filho. Prestemos atenção ao discurso em três pontos que prepara: 1) «Pai, pequei contra o céu e contra ti; 2) não sou mais digno de ser chamado teu filho; 3) trata-me como um dos teus assalariados» (Lucas 15,18-19).

7. Ei-lo, portanto, que regressa. Mas já o Pai está à espera dele com um imenso abraço de alma a alma. Mas o filho tinha preparado o seu discurso em três pontos, e ei-lo que começa a debitá-lo: 1) «Pai, pequei contra o céu e contra ti; 2) não sou mais digno de ser chamado teu filho» (Lucas 15,21). Como se compreende, o terceiro ponto do discurso que tinha preparado era fatal, e o filho já não o diz. Não porque não quisesse, mas porque o Pai o interrompe, dizendo aos criados: «Depressa…» (Lucas 15,22).

8. É então que a surpresa enche outra vez a cena. Quando nós regressamos a casa, a Deus, nunca encontraremos um Pai distraído, ou que mudou de residência, ou que responde de forma brusca, distante e fria. Está lá sempre à nossa espera, na soleira da porta ou à janela, verdadeiramente comovido, a transbordar de misericórdia desde as entranhas (splagchnízomai) (Lucas 15,20), de braços abertos, precede-nos, recebe-nos, reabilita-nos como filhos fazendo-nos vestir «o primeiro vestido» (stolê tê prôtê) (Lucas 15,22), isto é, o que vestíamos antes e abandonámos, portanto, o de filhos, quando nós queremos é ser assalariados. Depois, faz uma festa, mata o vitelo gordo, prepara um banquete de arromba (euphraínô), vai mesmo até ao ponto de chamar uma orquestra (symphônía)! Alegria excessiva deste Pai pródigo de amor e misericórdia!

9. É aqui que surge em cena o outro filho, que estava no campo (Lucas 15,25). Esta nota do «campo» serve só para nos dizer que é um dia de semana, e que o Pai desta história faz festa sem esperar pelo fim-de-semana! Este filho mais velho é retratado como um bom cumpridor de ordens, um «justo» e zeloso fariseu, igualzinho aos fariseus «justos» e zelosos que tinham aparecido no início da história. Tal como estes, também este filho se acha com direitos e créditos sobre Deus. Em Deus não vê um Pai, mas um patrão que tem de lhe pagar, pois «nunca transgrediu uma ordem dele» (Lucas 15,29). Sempre igualzinho aos fariseus que no início da história recriminavam Jesus porque acolhia e comia com os pecadores, também este filho recrimina o seu pai por acolher e ter tudo preparado para comer com um pecador! O Pai implora-lhe que entre para o banquete da alegria. Mas a história termina sem nos dizer se este filho, que somos também nós, entra ou não entra na sala do banquete. Final estratégico. Afinal a história de Jesus foi contada para os fariseus, e nós devemos ter compreendido que devemos tomar lugar ao lado deles, pois também nós temos uma boa parte de fariseus, para sermos atingidos em cheio pela história contada por Jesus. A história termina sem nos dizer se aquele filho, fariseu, entrou ou não entrou na sala da alegria. História deixada propositadamente em aberto pelo narrador. Não nos esqueçamos que a história foi contada para nós. É então a nós que cabe tomar a decisão! Entramos ou não entramos na sala do banquete? Como vemos Deus? Como um Pai ou como um patrão? E os nossos irmãos são para nos alegrarmos com eles ou para os insultarmos e denegrirmos?

10. É também interessante notar que os dois filhos desta história falam ao Pai, ao seu Pai comum, como fazem os cristãos. Como fazemos nós. Mas em nenhum momento da história se falam um ao outro. Se calhar, também como nós. Só sabemos falar por trás, entre raivas acumuladas, insultos e desprezo. Parece que também neste aspecto a história de Jesus põe a nossa vida a descoberto!

11. Por último, a história que ouvimos mostra-nos e adverte-nos que tanto nos podemos perder lá longe, no deserto, como a ovelha e o filho mais novo, como nos podemos perder em casa, como a moeda e o segundo filho. Atenção, portanto: podemos andar perdidos em casa, numa casa fria, sem Pai e sem irmãos, sem lareira, sem mesa e sem alegria! Só com patrão e assalariados! E, ainda por cima, podemos pensar que somos zelosos e até beatos (!), muito melhores do que os outros. Todos os cuidados, portanto!

12. Faz sintonia com o quadro impressionante do Evangelho de hoje a página igualmente fascinante do Livro do Êxodo 32,7-14. É sabido que o texto assinalado segue imediatamente o episódio do bezerro de ouro, que encontramos em Êxodo 32,1-6, e que constitui como que uma paródia, ruptura e perversão do assentimento do povo em Êxodo 19,8 e 24,3.7, em que o povo afirmou: «Faremos todas as palavras que o Senhor falou». Êxodo 32,1-6 mostra que o povo faz, não a Palavra de Deus, mas um bezerro! A página de hoje recupera o episódio do bezerro, pondo o povo a adorá-lo, a oferecer-lhe sacrifícios, e a confessar diante dele: «Este é o teu deus, ó Israel, que te fez subir da terra do Egipto» (v. 8). Posto isto, o caudal do texto de hoje atinge-nos em duas vagas: a primeira, expressa nos vv. 7-10, mostra-nos Deus a falar com Moisés acerca de um Israel desviado de Deus e obstinado, e que Deus pretende destruir, para começar tudo de novo só com Moisés; a segunda, expressa nos vv. 11-13, mostra-nos Moisés no papel de intercessor, como que dizendo a Deus: «Não faças isso!», terminando, no v. 14, com Deus a atender a súplica de Moisés e a desistir do seu projeto de destruição do povo.

13. A primeira vaga abre com Deus a dizer para Moisés: «Vai, desce, que o teu povo, que tu fizeste subir da terra do Egipto, corrompeu-se» (v. 7), e a repeti-lo em Êxodo 33,1. Convenhamos que um tal dizer de Deus é estranho e traduz bem a corrupção do povo e a consequente ruptura da Aliança. Dizendo o que diz e como o diz, Deus como que está, de certa maneira, a fazer recair sobre Moisés a responsabilidade da condução e do comportamento do povo («o teu povo, que tu fizeste subir da terra do Egipto»); por outro lado, ao dizer o que diz e como o diz, Deus está a abrir a Moisés a porta para repor a verdade dos factos e assumir o papel de mediador-intercessor, em ordem a poder transformar em perdão o seu projecto destruidor. Este convite à intercessão de Moisés parece mesmo impor-se a partir da afirmação do v. 10, em que Deus avança a disjunção entre Moisés e o povo, e se propõe destruir o povo e começar tudo de novo só com Moisés: «E agora deixa-me a sós comigo mesmo, e arderá a minha cólera contra eles e os devorará, e de ti farei um grande povo». Eis como a porta fica entreaberta: se Deus decidiu mesmo destruir Israel, por que razão diz que o vai fazer antes de o fazer?

14. Na verdade, dizendo o que diz, quando o diz, a quem o diz, como o diz, Deus como que força Moisés a «ficar de pé, sobre a fresta (baperets), diante d’Ele», extraordinária expressão do Salmo 106,23, posição incómoda e difícil de quem deve assumir a vigilância e intercessão, não sobre o povo, mas sobre Deus, «para fazer voltar atrás a sua cólera de destruição». Percebe-se aqui alguma coisa do mistério deste Deus que não se comporta em relação aos homens como um homem ou como um princípio abstrato. De facto, no v. 11, início da segunda vaga, o narrador põe logo Moisés no papel de mediador-intercessor, apelando a Deus, e repondo a verdade do credo: «Mas Moisés implorou face ao Senhor, seu Deus, e disse: “Porquê, Senhor, arderá a tua cólera contra o Teu povo, que Tu fizeste sair da terra do Egipto?”». Como se vê, a pronominalidade (tu, teu) muda de Deus para Moisés (v. 7), e de novo de Moisés para Deus (v. 11). É o povo pecador a passar de mão em mão, para ficar finalmente em boas mãos, nas mãos de Deus. Valeu a intercessão vigilante de Moisés, que «permaneceu de pé, sobre a fresta, diante dele, para fazer regredir a sua cólera de destruição».

15. Na lição da 1 Carta a Timóteo 1,12-17, hoje também lida, vemos São Paulo em ação de graças a Jesus Cristo, Senhor Nosso, porque sendo blasfemo, perseguidor e insolente, foi objeto da graça e da misericórdia superabundantes que há em Cristo Jesus. E afirma com fé esclarecida e verificada que Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores, de que ele é o primeiro. Assim, pode Paulo apresentar-se como exemplo para aqueles que hão de acreditar. Fecha a perícope uma extraordinária doxologia: «Ao Rei dos séculos, ao Deus incorruptível, invisível e único, honra e glória, pelos séculos dos séculos. Amen» (v. 17).

16. Cantamos hoje, em perfeita consonância com toda a liturgia deste Domingo, alguns acordes do Salmo 51, a súplica penitencial por excelência, que constitui a ossatura espiritual de Agostinho, de Charles de Foucauld, de Joana D’Arc, que inspirou a pena de muitíssimos Padres da Igreja, e ecoa na música de Bach, Lulli, Donizetti, Honegger… Hoje é a nossa vez de nos sentarmos um pouco a trautear a música que nos atravessa e nos põe de pé. Está aqui a letra e a música do homem, de qualquer homem, seja ele quem for, de que raça for, de que religião for. Enxerto aqui as palavras preciosas que constituem a introdução: «Faz-me graça (hannenî), ó Deus, segundo o Teu amor (hesed)! Segundo a multidão das Tuas misericórdias (rahamîm), apaga as minhas transgressões (peshaʽîm)! Lava-me e relava-me da minha iniquidadeawah), e do meu pecado (hathaʼ) purifica-me!» (vv. 3-4). Quem é Deus? Graça, amor, misericórdias. Quem sou eu? Transgressões, iniquidade, pecado. Será Deus o vencedor ou serei eu? Claro que é Deus. Deixo aqui, a fechar, as palavras altíssimas da grande mística muçulmana do século VIII, Rabiʽa, de seu nome: «Um homem disse a Rabiʽa: “Cometi muitos pecados e muitas transgressões; se me arrepender, Deus perdoar-me-á?”. Disse Rabiʽa: “Não. Tu arrepender-te-ás, se Ele te perdoar”» (I detti di Rabiʽa, XII, 2).

António Couto

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