O MEU PAÍS É ONDE OS PÁSSAROS COMEM À MESA DOS MENINOS

Fevereiro 25, 2017

1. O dinheiro, os bens, os negócios, comer, beber, vestir, eis o que muitas vezes enche o nosso espírito e o nosso tempo. Enche e preenche, governando a nossa mente e os passos que damos. É a Mamona de Mateus 6,24, os ídolos do dinheiro e do poder, projeção dos nossos próprios egoísmos e das nossas próprias ilusões, diante dos quais nos ajoelhamos e a que prestamos o culto devido. A Mamona não ama. Motor imóvel, não se mexe, não se debruça sobre nós, não ama, não liberta, nenhum sentimento a habita. Somos nós que nos deixamos fascinar, sugar e subjugar por ela. Nesse dia, tornamo-nos escravos, invadidos, neutralizados e esterilizados. Como é diferente o Deus vivo que nos ama, e, amando-nos, nos liberta de todas as amarras. O serviço ao Deus que liberta é irreconciliável com o serviço aos ídolos que escravizam. O maior pecado que o ser humano pode cometer é o de se esquecer de que é um príncipe, deixando-se reduzir à escravidão.

2. O Evangelho deste Domingo VIII do Tempo Comum (Mateus 6,24-34) mostra-nos enredados pela teia por nós tecida (!) dos cuidados e preocupações da nossa vida. É espantoso que deparemos por seis vezes com o verbo merimnáô (Mateus 6,25.27.28.31.34[2x]), que traduz o nosso enredo pelos bens deste mundo e pela segurança da nossa vida. Enredados, é o termo. Asfixiados e desumanizados é o resultado.

3. E Jesus diz outra vez nas alturas aquilo que só nas alturas pode ser dito e entendido: «Procurai PRIMEIRO o Reino de Deus…» (Mateus 6,33). PRIMEIRO, PRIMEIRO, PRIMEIRO…

4. Em sublime contraponto, aí estão as aves do céu, livres e belas e soltas, que nos falam de Deus, nosso Pai! Aí estão também os lírios do campo, que, na sua beleza, ultrapassam de longe o manto escarlate de Salomão (Mateus 6,29), e apontam para Deus, nosso Pai! Apontam para o amor. No estupendo poema do Cântico dos Cânticos, diz a Amada acerca do Amado: «Os seus lábios são lírios (shôshanîm)» (5,13). E diz o Amado da Amada: «Os teus lábios são fita vermelha» (4,3). Aí está evocada a cor avermelhada dos lírios do campo, do manto de Salomão, dos lábios rosados…

5. Como é belo o país dos lírios do campo! Como é belo o país das aves que voam e cantam! Como é belo o país de Deus, nosso Pai! Dá-me, Senhor, a graça de poder dizer sempre com suficiente verdade e simplicidade: «O meu país é onde os pássaros/ comem à mesa dos meninos».

6. E no imenso canto de Isaías 49,14-15, que hoje temos a graça de ouvir bater nos nossos ouvidos embotados e no nosso coração adormecido, ouvimos o queixume de Jerusalém personificada: «O Senhor abandonou-me,/ o Senhor esqueceu-se de mim» (49,14). E a belíssima resposta de Deus, nosso Pai: «Esquece uma mulher a sua criancinha de peito?/ Não faz ternura ao filho do seu ventre?/ Mesmo que elas se esquecessem,/ Eu não te esquecerei» (49,15). Mas deixem-me acrescentar o versículo 16, pois não o posso calar, dada a indizível beleza e riqueza nova do dizer de Deus, nosso Pai: «Vê: sobre as palmas das minhas mãos te tatuei» (49,16). Evoca o dizer de Deus, nosso Pai, em Isaías 43,4: «És precioso aos meus olhos, e eu amo-te!».

7. Do meio do trigo e do pão, do coração, oiço então a voz de Deus, que me dá a mão. Agarro-me. Sinto sulcos gravados nessa mão. Sigo-os com o dedo devagar. Percebo que são as letras do meu nome, os traços do meu rosto. Foi então por mim que desceste a este chão. O amor verdadeiro está lá sempre primeiro.

8. Por isso, exorta-nos S. Paulo (1 Coríntios 4,1-5), nada façais por conta própria. Fazer o que quer que seja por conta própria, por exemplo, julgar-nos a nós mesmos ou aos outros, é fazê-lo sempre antes do tempo (kairós) (1 Coríntios 4,4-5). O tempo, dito kairós, supõe sempre a enchente da Palavra de Deus que nos atinge, e à qual respondemos. Ora, sem enchente da Palavra de Deus, sem Deus Primeiro, não há critério nem resposta possível. Devíamos considerar mais vezes estas coisas!

9. A melodia do Salmo 62, que é um Salmo de Confiança, deixa hoje a ressoar no nosso coração as notas musicais que fomos ouvindo até aqui. Confiança só no Deus vivo, minha rocha, minha fortaleza, meu refúgio, minha salvação. E põe-nos de sobreaviso contra a «trindade» idolátrica da violência, do roubo e da riqueza. É um dos poucos Salmos citados nos Documentos do Concílio Vaticano II, no contexto de uma exortação aos sacerdotes, que soa assim: «Os sacerdotes, não apegando, de forma nenhuma, o coração às riquezas, evitem toda a cobiça e abstenham-se cuidadosamente de toda a sombra de comércio» (Presbyterorum Ordinis, n.º 17). A exortação vale para todos nós.

 

Deita com ternura a semente na terra

É o seu berço natural

E adormece suavemente

Tu e a semente

A semente não erra

A semente não mente

Adormece na terra

Aparece depois um fiozinho de erva

Nasce e cresce

Uma flor floresce

Um fruto amadurece

Um pássaro desce

E reza e canta e dança e debica e agradece

Ao Senhor da messe.

 

Senhor Jesus,

Dá-me um coração puro e transparente

Como uma nascente,

Como uma semente,

E ensina-me a ser simples e leve

Como aquele pássaro que do céu desce,

Reza, canta, come e agradece.

 

António Couto

 

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OH SUBLIME CIÊNCIA DAS ALTURAS!

Fevereiro 18, 2017

1. Neste Domingo VII do Tempo Comum, continuamos a escutar nas alturas, em alta frequência e alta fidelidade, o que não se pode escutar cá por baixo, em onda média, no meio do barulho e do entulho. E soam hoje, aos nossos ouvidos atónitos, no nosso coração atónito, as duas últimas das «seis antíteses» proferidas por Jesus no SERMÃO DA MONTANHA, e referentes à lei de talião e ao amor ao próximo (Mateus 5,38-48).

2. Diz a conhecida «Lei de talião» – do latim talio, talis [tal, igual] ou ius talionis [lei do corte ou contusão] –, assim formulada no Livro do Êxodo: «vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, contusão por contusão» (Êxodo 21,24-25). Formulação semelhante desta Lei já se encontra, de resto, nos parágrafos 196 e 197 do famoso código de Hammurabi, que remonta mais ou menos a 1700 anos antes de Cristo. E, ao contrário do que se diz habitualmente, esta Lei não representa a barbaridade, mas um avanço civilizacional, pois assenta, não na multiplicação desenfreada da vingança e da violência, mas na sua contenção, pois condena o agressor a receber apenas a sanção igual àquela que ele provocou à vítima.

3. Bem diferente é a chamada Lei da vingança desenfreada, traduzida, por exemplo, no famoso «Cântico da espada» de Lamec, que se expressa assim no Livro do Génesis: «Eu matei um homem por uma ferida, uma criança por uma contusão. Sim, Caim é vingado sete vezes, mas Lamec setenta e sete vezes!» (Génesis 4,23-24). O que se vê aqui é que Lamec respira uma vingança irracional, um ódio irracional. O que ouvimos nas alturas da Montanha é que Jesus respira e ensina um amor irracional, até ao paradoxo, ao absurdo e à estupidez, dissolvendo completamente os ódios, vinganças e violências do «Cântico de Lamec», mas ultrapassando também a fria simetria da «Lei de talião». «Ouvistes o que foi dito: “Olho por olho, dente por dente”. Porém, eu digo-vos: “Não resistais ao homem mau. Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda; se alguém te levar ao tribunal para ficar com a tua túnica, oferece-lhe também o manto; se alguém te forçar a acompanhá-lo durante 5 km, acompanha-o durante 10 km!”» (Mateus 5,38-41). Oh sublime ciência das alturas!

4. E Jesus continua em alta sintonia, altíssima alegria, altíssimo amor, estendendo o amor para além dos círculos restritos das nossas simpatias, até aos nossos próprios inimigos! Amor assimétrico, que Jesus ensina agora nas alturas, mas que praticará e ensinará até à Cruz! Ele leva até ao alto do Monte das Bem-Aventuranças e até ao alto do Calvário os nossos ódios desenfreados e a nossa fria justiça distributiva, e restitui-nos em troca o perdão excessivo e o amor transbordante.

5. Ao tempo de Jesus, o panorama do judaísmo palestinense era dominado por duas escolas: a escola conservadora e rigorista de Shammai e a escola liberal de Hillel. Conta-se que, um dia, um homem se terá apresentado na escola de Shammai, e fez ao mestre um estranho pedido: «quero que, enquanto eu me mantiver apenas com um pé no chão, tu me expliques toda a Lei». Diz-se que Shammai se limitou a pegar na sua vara de mestre e a correr o homem pela porta fora, pois era óbvio que o homem fazia um pedido impossível de cumprir, tal era a vastidão da Lei. Mas o homem não desanimou e dirigiu-se à escola de Hillel, a quem formulou o mesmo pedido. E Hillel terá respondido de pronto: «Nada mais fácil: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti!”».

6. A esta sentença de Hillel, na sua formulação negativa, deu-se o nome de «regra de ouro». Em boa verdade, ela já aparece no Livro de Tobias 4,15. É, todavia, fácil de verificar, que esta sentença é de fácil cumprimento. Dado que o seu teor é negativo, para a cumprir, basta a alguém cruzar os braços e nada fazer. Procedendo assim, nada fará de inconveniente a ninguém, cumprindo assim escrupulosamente a sentença formulada.

7. Tentando talvez evitar a inação acoitada na formulação negativa anterior, os Evangelhos apresentam desta máxima uma formulação positiva: «Faz aos outros o que queres que te façam ti!» (Mateus 7,12; Lucas 6,31). Levando a sério esta formulação, já não é suficiente jogar à defesa e nada fazer, mas é, de facto, requerido o fazer. Seja como for, as duas formulações apresentadas, quer a negativa quer a positiva, padecem do mesmo vício: sou eu o centro, é à minha volta que tudo roda, e o que eu faço ou deixo de fazer é com o objetivo claro de que me seja retribuído outro tanto!

8. O tom positivo da referida «regra de ouro» recebe ainda outra bem conhecida formulação: «Ama o teu próximo como a ti mesmo!», que atravessa a inteira Escritura: Levítico 19,18; Mateus 22,39; Romanos 13,9; Gálatas 5,14; Tiago 2,8. Mas também esta formulação é perigosa: primeiro, porque eu continuo o ser o centro, sendo eu a medida do amor devido aos outros; segundo, porque, se alguém não se ama a si mesmo (e são, infelizmente, cada vez mais os casos!), como poderá cumprir devidamente esta máxima?

9. É aqui que cai, como uma lâmina, a força do Evangelho que sai dos lábios de Jesus: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei!» (João 13,34). Aqui, a medida não sou eu. Aqui, a medida é Jesus, o das alturas, o do alto das montanhas. Aqui, a medida é sem medida! Aqui, o amor não é interesseiro. Aqui, o amor é puro, radical, incondicional, assimétrico, sem retorno. Aqui, o amor é até ao fim! Oh sublime ciência das alturas!

10. O texto do Antigo Testamento que faz hoje companhia ao Evangelho é retirado do Livro do Levítico 19,1-2.17-18, e nele fica desenhado o caminho e a fonte da santidade: «Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo» (Levítico 19,2); mas é também tirado a limpo que o nosso caminho, isto é, o nosso comportamento para com os nossos irmãos, não pode passar nunca pelo ódio nem pela vingança, mas apenas pelo amor (Levítico 19,18), ainda que numa formulação muito simétrica: «Ama o teu próximo como a ti mesmo».

11. O Apóstolo Paulo continua a interpelar, com a força do Evangelho, a comunidade cristã de Corinto e as nossas comunidades cristãs de hoje (1 Coríntios 3,16-23). Sim, diz Paulo com extrema precisão: «O Espírito Santo habita em vós» (1 Coríntios 3,16). E acrescenta ainda: «Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus» (1 Coríntios 3,22-23). Portanto, tudo e todos caminhamos para a casa do Pai; entretanto, é Cristo o único Senhor, o único caminho e o único companheiro da nossa vida.

12. O Salmo 103 é uma das joias do Antigo Testamento e constitui um grande canto ao amor de Deus, uma espécie de prelúdio ao «Deus é amor» (1 João 4,8). Desenrola-se em dois movimentos. O primeiro (vv. 1-9) trata o amor e o perdão de Deus com sucessivos particípios hínicos, que mostram um Deus que perdoa, cura, redime, coroa de amor e misericórdia, sacia de bem, e uma série de nomes (justiça, dá a conhecer, obras, misericordioso, gracioso). O segundo movimento (vv. 10-18) põe lado a lado o amor permanente de Deus e a nossa humana fraqueza. A linha vertical (céu-terra) serve para mostrar a imensidão do amor de Deus (v. 11), escrevendo-se na linha horizontal (oriente-ocidente) a grandeza sem medida do seu perdão (v. 12). O belíssimo v. 13 passa a imagem inultrapassável de Deus como um pai com ventre maternal (rehem). A fragilidade humana aparece traduzida nas imagens do pó (v. 14) e da erva (vv. 15-16), em contraponto com a estabilidade do amor de Deus (v. 17). Sem este amor, sem esta música, seríamos talvez levados melancolicamente a pensar que é o mesmo o destino das folhas outonais e dos homens! Deixemos ecoar em nós as belas notas deste grande Salmo 103, que alguns autores já chamaram o Te Deum do Antigo Testamento.

António Couto


MEDIDA ALTA DA VIDA CRISTàORDINÁRIA

Fevereiro 11, 2017

1. Continuamos a escutar, neste VI Domingo do Tempo Comum, o sublime Discurso da Montanha, hoje as quatro primeiras das famosas «seis antíteses» (Mateus 5,17-48), cujos temas são: o homicídio, o adultério, o divórcio, o perjúrio, a lei de talião, o amor ao próximo. Ouviremos então, neste VI Domingo do Tempo Comum, o sublime dizer de Jesus sobre os primeiros quatro temas: homicídio, adultério, divórcio e perjúrio (Mateus 5,17-37), enquanto nos preparamos para ouvir no próximo Domingo, VII do Tempo Comum, os últimos dois importantes temas: a lei de talião e o amor que a todos devemos (Mateus 5,38-48).

2. Não nos esqueçamos que continuamos na Montanha, nas alturas, pois há certas maneiras de viver e de sentir que só podem ter o seu habitat nas alturas. O Papa João Paulo II escreveu na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte (2001), n.º 31, que perguntar a um catecúmeno se ele quer receber o batismo é o mesmo que perguntar-lhe se ele quer ser santo, e fazer-lhe esta última pergunta é colocá-lo no caminho do Sermão da Montanha. E logo a seguir, na mesma Carta e no mesmo número, João Paulo II define a santidade como a «”medida alta” da vida cristã ordinária». É, portanto, imperioso que o cristão aprenda a ganhar altura, não para se separar dos caminhos lamacentos do quotidiano, mas para os encher de um amor maior.

3. Cada uma das «seis antíteses» abre com as palavras de Jesus: «Ouvistes o que foi dito»; «porém, eu digo-vos». Com esta técnica de contraponto, Jesus não quer que se desperdice nada do Antigo Testamento; quer antes enchê-lo, levar quanto aí é dito, que é Palavra de Deus, ao seu ponto mais fundo e mais alto. Por exemplo, quando ouvimos o que foi dito: «Não matarás!», não basta determo-nos no limiar do assassínio, como manda a letra, de acordo com uma leitura literalista e legalista da Palavra de Deus. É preciso ir mais fundo e mais alto: mondar todas as raízes da ira, do ciúme, da inveja, do ódio, desprezo e desamor, e encher todos os regos e cicatrizes de mais amor, mais amor, mais amor, só amor. Não se trata apenas de travar a fundo no último momento, evitando o acidente; trata-se de viver permanentemente a nova cultura do amor. Neste sentido, escreve S. João, com ponta fina de diamante, não na pedra ou no papiro, mas no nosso coração meio embotado e engessado: «Quem não ama o seu irmão, é homicida» (1 João 3,15).

4. E assim também o adultério, o divórcio, o perjúrio. Qualquer destes pontos representa o fim de um amor, que é sempre um acontecimento dramático. Veja-se atentamente, neste mundo cinzento e insonso, sem sol e sem sal, em que vivemos, o drama imenso que cada divórcio comporta. Mas, para encher de sentido o «porém, eu digo-vos» de Jesus sobre estes pontos precisos, também não basta viver uma vida cinzenta e mentirosa e evitar em cima da linha chegar ao adultério, ao divórcio ou ao perjúrio. É necessário encher a vida inteira de amor, de mais amor, só de amor.

5. É preciso levantar a vida, o coração, até ao cimo do monte das Bem-Aventuranças, e deixar-se deslumbrar, como a multidão, com este novíssimo, em conteúdo e método, ensinamento de Jesus (Mateus 7,28-29).

6. O belo Livro de Ben-Sirá (15,16-21) lembra-nos hoje que os mandamentos de Deus estão todos cheios apenas de bondade. E S. Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios (2,6-10), diz-nos que a sabedoria dos senhores deste mundo – e às vezes nós pretendemos sê-lo com as nossas ações insensatas – nos encaminha para a ruína. É de Deus que nos vem a maravilha de uma sabedoria nova, isto é, de uma maneira nova de viver e de morrer. Chama-se santidade, «medida alta» da vida cristã.

7. S. Paulo fala-nos na lição de hoje (1 Coríntios 2,6-10) da Sabedoria de Deus, que não está em nenhum lugar do mundo nem na posse de ninguém, e não se obtém pelo esforço ou pelo muito estudo, mas que o Espírito de Deus, por graça, deposita no nosso coração, para podermos saborear as coisas divinas que Deus preparou para nós.

8. À nossa frente estão sempre os caminhos do Senhor, que devemos calcorrear com alegria e felicidade recebida e dada, enquanto cantamos a imensa partitura do Salmo 119, admirável composição de 1064 palavras hebraicas reunidas, repartidas, repetidas, entretecidas e entretidas à volta da Palavra de Deus que alumia a nossa vida. Blaise Pascal recitava este Salmo todos os dias.

António Couto


UM ABRAÇO DE ALMA A ALMA!

Fevereiro 4, 2017

1. Fortíssimos os sabores da Mesa da Palavra de Deus neste Domingo V do Tempo Comum. Comecemos por onde se deve sempre começar. Pelo Evangelho, hoje Mateus 5,13-16. E ouvimos acordes como estes: «vós sois o SAL da terra» (Mateus 5,13); «vós sois a LUZ do mundo» (Mateus 5,14). O SAL dá sabor. A LUZ alumia. O mundo por horizonte. É, portanto, necessário abrir os horizontes. O mundo é a nossa casa. Compreenda-se já que o SAL e a LUZ são belíssimas metáforas das obras que fazemos: «Assim brilhe a vossa LUZ diante dos homens, para que vejam as vossas BOAS OBRAS» (Mateus 5,16). Mas entenda-se também de imediato que «as nossas OBRAS BOAS» não são do domínio das nossas mãos (a LUZ escapa-nos das mãos), mas do domínio da Graça de Deus que, como em Maria, também em nós «faz grandes coisas» (Lucas 1,49).

2. Sim. O mundo é a nossa casa. E, neste vasto mundo que habitamos, são muitos os irmãos que passam fome, que não têm casa, que andam nus. Para nossa vergonha, cerca de um bilião e meio de irmãos nossos vivem abaixo do limiar da pobreza! Isaías 58,7-10 não nos deixa ficar insensíveis perante este triste panorama, mas mostra-nos, em contraponto, que muitas vezes nos blindamos dentro das portas e das janelas do nosso egoísmo e comodismo. É assim que nos tornamos insípidos e deixamos apagar a nossa luz.

3. O Livro do Deuteronómio atira-se contra a nossa tranquila indiferença: «Se houver no meio de ti qualquer irmão necessitado, não endureças o teu coração e não feches a tua mão» (Deuteronómio 15,7). Precisamos, hoje mais do que nunca, de viver ao estilo de Jesus, Bom Pastor, e ao estilo do Bom Samaritano, com «um coração que vê», para usar a expressão feliz de Bento XVI (Deus caritas est, 25 de Dezembro de 2005, n.º 31).

4. É assim que Isaías 58,10 nos desafia literalmente (aí está o sabor das traduções literais!) a «oferecer ao faminto a tua alma (nefesh),/ e saciar a alma (nefesh) do oprimido». Trata-se de muito mais do que uma simples ajuda material. É um abraço entre duas almas, entre duas vidas, entre dois intensos desejos de viver, entre dois alentos de vida! Portanto, com o Deus criador e providente sempre por detrás.

5. Só entende esta intensidade quem sabe que a sua LUZ é reflexa, porque a recebe de Deus. É assim, com «um coração que vê» à flor da pele ou da alma, que S. Paulo não se apresenta no meio de nós ou da comunidade de Corinto com fortes argumentos da sabedoria humana. Ele quer que nós compreendamos bem que a nossa fé assenta em Cristo, e não em qualquer humano raciocínio. «A fraqueza de Deus é mais forte do que os homens» (1 Coríntios 1,25). E «quando eu sou fraco, então é que eu sou forte» (2 Coríntios 12,10).

6. Com tanta Luz a alumiar a nossa vida, e com tantos exemplos vindos da Escritura Santa, o nosso tempo é sempre tempo dado para nos questionarmos de verdade, pondo em causa os nossos egoísmos e as nossas portas fechadas à graça de Deus e aos irmãos que Ele nos deu:

Cheio de mim ou cheio de Ti?

Estou no centro das atenções ou sei orientar todos os olhares para Ti?

Conheço-Te e celebro-Te e dou testemunho da Tua Ressurreição?

Os meus atos anunciam a tua Vinda, isto é, revelam e desvelam a tua presença permanente?

Ou será que o meu olhar é mau porque Tu és Bom? (Mateus 20,15; cf. Ben-Sirá 14,9-10).

Por que é que eu tenho tão poucos (ou nenhuns) encontros CONTIGO marcados na minha agenda?

O que faço eu com o relógio na mão o dia inteiro?

Por que corro tanto e para onde corro tanto?

Debruço-me com amor, e com tempo, sobre os meus irmãos abandonados à beira do caminho ou postos ali mesmo à entrada da minha porta?

7. Diz-nos outra vez S. Paulo, nas poucas linhas da Carta que hoje nos dirige (1 Coríntios 2,1-5), que, quando se estabeleceu durante 18 meses em Corinto, para evangelizar a cidade e estabelecer aí a Luz de Cristo, não se apresentou cheio de si, mas cheio de Deus. Não se anunciou (kêrýssô) a si mesmo, mas a Cristo Jesus (2 Coríntios 4,5). Sim, é a Luz que devemos saber levar em vasos de barro, para que se veja bem que esse tesouro e esse poder (dýnamis) vêm de Deus, e não de nós (2 Coríntios 4,7).

8. O Salmo 112 é irmão gémeo do Salmo 111. Neste é Deus o sujeito. Naquele o homem justo, «imitador de Deus». O Salmo de hoje tem apenas 77 palavras divididas por dez versículos, em nove dos quais se desenha o homem justo, de coração e mão largas para dar com abundância. Ao ímpio é reservado apenas um versículo, e é retratado só para ver o sucesso do justo e para se roer de raiva e de inveja até se atolar na ruína. O justo é uma casa iluminada. O ímpio desaparece nas trevas.

António Couto


COM JESUS NO CORAÇÃO

Fevereiro 1, 2017

1. A Igreja Una e Santa celebra no dia 2 de Fevereiro, quarenta dias depois do Natal, a Festa da Apresentação do Senhor, que as Igrejas do Oriente conhecem por Festa do Encontro (Hypapantê) e dos Encontros: Encontro de Deus com o seu Povo agradecido, mas também de Maria, de José e de Jesus com Simeão e Ana. Também connosco.

2. Quarenta dias depois do seu nascimento, sujeito à Lei (Gálatas 4,4), Jesus, como filho varão primogénito, é apresentado a Deus, a quem, sempre segundo a Lei de Deus, pertence. De facto, o Livro do Êxodo prescreve que todo o filho primogénito, macho, quer dos homens quer dos animais, é pertença de Deus (Êxodo 13,11-13), bem como os primeiros frutos dos campos (Deuteronómio 26,1-10).

3. É assim que, para cumprir a Lei de Deus, quarenta dias depois do seu nascimento, Jesus é levado pela primeira vez ao Templo, onde, também pela primeira vez, se deixa ver como a Luz do mundo e a nossa esperança.

4. Compõe a cena um velhinho chamado Simeão, nome que significa «Escutador», que vive atentamente à escuta, em Hi-Fi, alta-fidelidade, alta frequência, alta definição, amor novo, e que o Evangelho apresenta como um homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel. Ora, esse velhinho que vivia à espera e à escuta, com premurosa atenção e coração vigilante, veio ao Templo sob o impulso do Espírito (en tô pneúmati). Fica aqui declarada a qualidade da energia e da alegria que move o velho e querido Simeão: não é movido a carvão, nem a água, nem a vento, nem a petróleo e seus derivados, nem a eletricidade, nem a energia nuclear. Simeão é movido pelo Espírito Santo. Maneira novíssima de viver, pausa e bemol na nossa impetuosidade, na nossa vontade de aparecer e de fazer, pausa e bemol nos nossos protagonismos e vontade de poder. Falamos quase sempre antes do tempo, e não chegamos a dar lugar à suave voz do Espírito. Na verdade, adverte-nos Jesus: «Não sois vós que falais, mas o Espírito Santo» (Marcos 13,11; cf. Mateus 10,20; Lucas 12,12). Portanto, é urgente esperar! Regressemos, pois, à beleza de Simeão. Ao ver aquele Menino, recebeu-o carinhosamente nos braços. Por isso, os Padres gregos dão a Simeão o título belo de Theodóchos [= «recebedor de Deus»]. É então que Simeão entoa o canto feliz do entardecer da sua vida, um dos mais belos cantos que a Bíblia registra: «Agora, Senhor, podes deixar o teu servo partir em paz, porque os meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos, Luz que vem iluminar as nações e glória do teu povo, Israel!» (Lucas 2,29-32).

5. E, na circunstância, também uma velhinha chegou carregada de Graça e de Esperança. Chamava-se Ana, que significa «Graça». É dita «Profetisa», isto é, que anda, também ela, sintonizada em Hi-Fi, alta-fidelidade, com a Palavra de Deus escutada, vivida e anunciada. Diz ainda o texto que era filha de Fanuel, nome que significa «Rosto de Deus», e que era da tribo de Aser, que quer dizer «Felicidade». Tanta intimidade com Deus! Também esta velhinha, serena e feliz, com 84 anos, número perfeito de números perfeitos (7 x 12), teve a Graça de ver aquele Menino. E diz bem o texto do Evangelho que Ana «falava daquele Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém» (Lucas 2,38). Outra vez a beleza inteira do díptico do Evangelho de Lucas: Simeão e Ana. Simeão esperava e Ana anunciava. Eis aqui presente, nestes dois maravilhosos velhinhos, a inteira Escritura dos dois Testamentos, e o retrato a corpo inteiro do Consagrado, que, na Bíblia hebraica, se diz Nazîr, um nome passivo e recetivo, totalmente dedicado a Deus, conduzido por Deus, «compondo» com emoção os acontecimentos de Deus.

6. Esta é a Festa da Alegria e da Esperança acumulada e realizada. É a Festa da Luz. Simeão e Ana viram a Luz e exultaram de Alegria. Hoje somos nós que nos chamamos Simeão e Ana. Somos nós que recebemos esta Luz nos braços, e que ficamos a fazer parte da família da Felicidade e a viver pertinho de Deus, Rosto a Rosto com Deus, Escutadores atentos do bater do coração de Deus, movidos pelo Espírito de Deus, Recebedores de Deus, Anunciadores de Deus. Rezamos hoje para que, nesta sociedade de coisas e de números (cf. Isaías 5,8), os Consagrados vivam cada vez mais Rosto a Rosto com Deus, e deem testemunho no mundo deste Dom maravilhoso.

7. Por isso e para isso é que Ele vem, conforme a lição de Malaquias 3,1-4 e Hebreus 2,14-18. Vem de Deus, mas senta-se connosco. Em tudo semelhante aos seus irmãos. Lava-nos os pés e a alma. Apaga os nossos pecados. Põe-nos em comunhão com Deus. Tanta proximidade faz deste Dia a Festa do Encontro.

8. Não nos conformemos, pois, com as pedras e as pautas deste mundo (Romanos 12,2). Experimentemos viver em Hi-Fi, alta frequência, alta-fidelidade, alta dedicação, amor novo. Anda por aí uma música nova à nossa espera. É como um som que nunca se ouviu, como um silêncio que nunca se calou! Que Maria, a Mãe da Alegria, nos leve pela mão e nos ensine a subir e a descer a escadaria do coração.

9. Por isso, cantemos e aclamemos, com o Salmo 24, o Senhor do Universo e Rei da Glória, que vem e entra no seu Templo e na nossa frágil humanidade, que Ele glorifica. No último andamento deste Salmo (vv. 7-10), justamente a parte Hoje cantada, as portas do Templo e as da nossa vida, personificadas, são convidadas a abrir-se e a levantar-se, para que possa entrar em nossa Casa o Rei, Senhor dos Exércitos, um título que a Bíblia registra por 279 vezes. Gerhard Ebeling (1912-2001) comenta assim este Salmo arcaico: «São três os pressupostos fundamentais do texto. O primeiro é que Deus criou o mundo, e é o seu Senhor. O segundo é que devemos comparecer junto de Deus e ser interrogados sobre o que fizemos. O terceiro é que Deus vem para o que é seu, e deseja ter livre acesso. Estas são três formas elementares da experiência de Deus e da relação com Deus: nós vivemos por obra de Deus, diante de Deus, e podemos viver com Deus». E o poeta francês Paul Claudel (1868-1955), recolhendo o último tema, o da vida com Deus, exclamava: «Aqui, Deus! Aqui, o nosso Deus, o Senhor dos Exércitos, que está empenhado, através dos séculos, em transferir-nos para a sua eternidade».

 

Toda a vida consagrada

É uma vida com dedicatória

Obrigatória

Ao autor de cada madrugada

Perfumada,

Senhor de mim

E do meu sim.

 

Desde sempre pensado e amado,

É-me dado um segmento de tempo

Para responder ao Amor,

E a eternidade inteira

Para viver à tua beira,

À tua maneira.

 

Ó mar imenso do Amor,

A que eu chamo Senhor,

Obrigado por olhares por mim e para mim,

Tão humano e pequenino,

E por me dares por destino

O teu coração divino.

 

Que eu seja, então, sempre Amor em cada dia,

Ao teu dispor,

Senhor da minha alegria.

 

António Couto