GUARDA NO CÉU O TEU CORAÇÃO


1. O Capítulo 13 do Evangelho de Mateus constitui o centro geográfico e teológico deste Evangelho, com as suas sete parábolas do Reino de Deus, postas na boca de Jesus. É o chamado «Discurso das Parábolas do Reino», o terceiro dos cinco grandes Discursos de Jesus neste Evangelho, depois do «Discurso da Montanha» e do «Discurso Missionário». Neste Domingo XVI do Tempo Comum continuamos, pois, a ouvir o Discurso das Parábolas do Reino iniciado por Jesus no Domingo passado, com a primeira parábola, a parábola da semente ou do semeador (Mateus 13,1-23). Hoje ouviremos as três parábolas seguintes – do trigo e da cizânia (13,24-30), do grão de mostarda (13,31-32) e do fermento (13,33) –, a que se segue, a pedido dos discípulos, a explicação de Jesus acerca da parábola do trigo e da cizânia (Mateus 13,36-43).

2. Tal como a parábola da semente, também a parábola do trigo e da cizânia, que crescem juntos no campo, e que é exclusiva de Mateus, é grandemente ilustrativa e fortemente impressiva. O termo «cizânia» deriva do hebraico zunîm, que provém com certeza do verbo zanah [= prostituir-se]. A cizânia é, portanto, erva ruim e danosa no meio do trigo. A nossa impaciência em esperar por mais tempo o Reino de Deus, que queremos que venha depressa e que tudo clarifique e resolva já, leva-nos, na pessoa dos servos da parábola, a propor ao proprietário do campo: «Queres, então, que vamos arrancá-la?» (Mateus 13,28b). E a resposta inesperada do proprietário: «Deixai-os crescer ambos juntos até à colheita» (Mateus 13,30a), deixa-nos desconcertados. E mais desconcertados ficamos, quando vimos a saber um pouco depois, na explicação da parábola, que «a colheita é o fim do mundo» (Mateus 13,39b), e que só então será queimada a cizânia (Mateus 13,40) e os que praticam a iniquidade (Mateus 13,42).

3. De notar que, tal como os servos da parábola, e nós com eles, também João Baptista era partidário de um julgamento já e em força, levado a efeito por um Messias justiceiro, sem dó nem piedade. De facto, ele conta-se entre os servos que queriam queimar já a palha e a cizânia. Prestemos atenção aos termos e ao tom da sua pregação:

«Já o machado está posto à raiz das árvores, e toda a árvore que não produzir bom fruto será cortada e lançada ao fogo» (Mateus 3,10).

«A pá de joeirar está na sua mão: ele purificará completamente a sua eira e recolherá o seu trigo no celeiro; a palha, porém, queimá-la-á com fogo inextinguível» (Mateus 3,12).

4. A mesma linguagem, mas não as mesmas ideias, mostram o contraponto claro e inequívoco do proprietário do campo, e, claro, de Jesus:

«Deixai “crescer juntamente” (synauxánomai) ambos até à colheita, e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: “Arrancai primeiro a cizânia, e juntai-a em feixes, para ser queimada; quanto ao trigo, recolhei-o no meu celeiro”» (Mateus 13,30).

Como se vê, próprio de Jesus, não é a intolerância, o já e em força, mas a mansidão, a compreensão, a convivência, a tolerância e a distensão.

5. Espantoso é ainda o milagre do grão de mostarda. Pequenino. Pequenino. Tão pequenino que propriamente nem grão chega a ser. É semelhante, no corpo e na cor, a café moído, uma espécie de pó de cor acastanhada que podemos espalhar na palma da mão. Porém, deitado à terra, dá corpo a uma árvore grande, carregada de passarinhos que dela fazem a sua casa, e a enchem de música e de alegria. Assim é, para espanto nosso, o Reino dos Céus! E o fermento, igualmente pequenino, mas que leveda três medidas de farinha, mais ou menos o equivalente a 60 quilos de farinha! Tanta farinha dá para alimentar, não uma família da Palestina, mas umas 150 pessoas! É do banquete do Reino dos Céus que se trata! E aquele «até que tudo fique levedado» (Mateus 13,33) traz a Eucaristia para o quotidiano da vida de uma mulher e mãe de família da Palestina, pois lembra o «até que Ele venha» da celebração da Ceia do Senhor (1 Coríntios 11,26), tal como fazemos neste Domingo.

6. Quando a nossa força é a norma que nos rege e nos domina, como afirmam os ímpios no Livro da Sabedoria (2,11), e a prepotente Assíria em Isaías (10,13), então já não somos livres, mas escravos da força, dominados pela força. Estamos, de resto, habituados a ver como é difícil dominar a força: basta ver as forças militares que os impérios deste mundo põem no terreno, e que depois, mesmo querendo, como é difícil voltar atrás! Mas o nosso Deus é apresentado, na lição de hoje do Livro da Sabedoria (12,13.16-19), como aquele que «domina a força» (Sabedoria 12,18), que cuida de todos com carinho, a todos perdoa, e nos chama a ser amigos. Assim também o Espírito, diz-nos hoje S. Paulo numa «migalhinha» da Carta aos Romanos (8,26-27), não grita, mas reza em nós e por nós, suavemente, com «gemidos sem palavras» (stenagmoîs alalêtois) (Romanos 8,26). Trata-se, portanto, de uma lalação filial, em que conta e canta a ternura mais do que as palavras. É assim que a «migalhinha» da Carta aos Romanos acomoda à mesma mesa paterna os meninos e os passarinhos que descem dos ramos da árvore da mostarda para habitar na tua casa (Salmo 84,4).

7. Enfim, um grande Salmo (86) toma hoje conta de nós, deixando a ressoar em nós as notas da inteira liturgia, desde logo os atributos do nosso Deus, como um Deus de «misericórdia e de graça» (rahûm wehanûn) (Salmo 86,15), como repetidamente cantaremos no refrão. Deixo aqui um pedacinho do comentário apaixonado de Santo Agostinho: «Sobre a terra, o coração não se corrompe, se o elevarmos para Deus. Se tens grão, vais guardá-lo no celeiro, para que não se estrague. E como poderás, então, deixar apodrecer o teu coração, deixando-o na terra? Leva o teu grão para um plano superior, e eleva o teu coração para o céu!».

8. Talvez venham abrigar-se nele os pássaros do céu! Talvez haja festa em tua casa!

 

No dia em que os passarinhos,

Que não semeiam nem ceifam,

Vieram cantar à Catedral,

Rodopiando,

Felizes e contentes,

Lá bem no alto,

Junto aos coloridos tectos de Nasoni,

Indiferentes ao outro canto do coral,

Ou talvez com ele condizentes,

Vi bem que era Deus que os recebia em sua casa,

Coisa que, pelo que vi,

Também eles bem sabiam.

 

Era por isso que expressavam a sua alegria.

Na verdade, reza o Salmo:

«Na Tua casa,

Ó Deus,

Até o passarinho encontrou abrigo,

E a andorinha um ninho para os seus filhos».

 

Felizes então, Senhor,

Os que moram na Tua casa,

E se sentam à Tua mesa,

E se deliciam com a Tua Palavra,

Saborosa e mansa,

Como a chuva mansa,

Que rega o chão e faz germinar o pão,

Que rega o coração e faz germinar a conversão.

 

Como no dia

Em que os passarinhos vieram cantar à Catedral,

E receber da Tua mão

Uma migalhinha de pão.

 

António Couto

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