O JUSTO JOSÉ


1. Celebramos hoje, dia 19 de Março, a Solenidade de S. José, Esposo da Virgem Santa Maria. Sempre me encantou esta humaníssima e sensibilíssima figura de José, que o Evangelho de Mateus, hoje proclamado aos nossos ouvidos (Mateus 1,16-24), qualifica como «justo» (Mateus, 1,19). O termo «justiça» enche este Evangelho, fazendo-se nele ouvir por sete vezes (Mateus 3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32), e traduz o plano divino de salvação e a adequação da nossa vontade à vontade de Deus. Neste Evangelho, os discípulos nunca são declarados «justos», mas são chamados à «justiça», a andar no «caminho da justiça» (Mateus 21,32), auto destituindo-se, libertando-se dos seus próprios projetos, e sabendo dizer sempre SIM a Deus de forma concreta, andando nos seus caminhos. O termo «justos», no plural, ouve-se várias vezes, sobretudo em textos de colorido parabólico, para qualificar os fazedores do bem (Mateus 13,43.49; 25,37.46), sempre em contraponto com os fazedores da iniquidade. «Justo», no singular, neste Evangelho de Mateus, só se aplica a José (Mateus 1,19) e a Jesus (Mateus 27,19).

2. Aí está, então, diante de nós o sensibilíssimo «justo» José sintonizado em alta fidelidade, em Hi-Fi, com Deus. É assim que, em bicos de pés, no limiar do silêncio, passa discretamente da cena «pública» para o «segredo» (láthra) (Mateus 1,19). Fantástico. Até Deus entende e respeita este silêncio, este «segredo» de José, e é de mansinho, em um sonho (Mateus 1,20), que põe José a par dos seus planos, que passam pela maternidade divina de Maria e pela missão esponsal e paternal de José. É o que podemos chamar, neste Evangelho de Mateus 1,18-24, de «Anunciação do Anjo a José».

3. Este homem manso, sossegado e silencioso (quando surge em cena, somando todos os textos em que aparece, não se lhe ouve uma única palavra!) lembra o outro José, o homem dos sonhos (Génesis 37,19), que surge no Livro do Génesis, e que com sonhos e serena sabedoria se ocupa (Génesis 37; 40; 41). Também este José sabe ler a sua história em dois teclados, distinguindo bem as coisas humanas das divinas (ou entrançando bem as coisas humanas e as divinas?!). Veja-se a forma sublime como se apresenta, desvendando-se, aos seus irmãos mais do que atónitos: «Eu sou José, vosso irmão, que vós vendestes para o Egito. Mas agora não vos entristeçais nem vos aflijais por me terdes vendido para cá, porque foi para salvar as vossas vidas que Deus me enviou adiante de vós. Deus enviou-me adiante de vós para assegurar a permanência da vossa raça na terra e salvar as vossas vidas para uma grande libertação. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, mas Deus» (Génesis 45,4-8). Leitura sublime. Em que ficamos: foram os irmãos que despacharam José para o Egito, para se verem livres dele, ou foi Deus que o enviou para Egito? No teclado da história, é verdade que foram os ciumentos irmãos de José que o despacharam para o Egito… Mas, no outro teclado de Deus, de acordo com a boa leitura de José, foi Deus que o enviou para o Egito para uma missão de salvação!

4. A missão paternal de José fica clara no facto de ser José a dar o nome ao filho que vai nascer de Maria. O nome do menino será Jesus, que surge logo explicado «porque salvará o seu povo dos seus pecados» (Mateus 1,21). E aqui se começa a abrir uma grande avenida que atravessa o inteiro Evangelho de Mateus: a avenida do PERDÃO. Esta nota soa vezes sem fim, como obra bela de Deus que nós, seus filhos, devemos imitar, perdoando também. São tantas as vezes que seria fastidioso citá-las todas aqui. Deixo só a pérola do dito de Jesus sobre o cálice: «Isto é o meu sangue da aliança, pelos muitos derramado, para perdão dos pecados» (26,28). O inciso «para perdão dos pecados» é um exclusivo de Mateus!

5. E é assim, descendo ao nosso nível e assumindo ou abraçando tudo o que é nosso, sem deixar nada nem ninguém esquecido ou de lado, que Jesus é «Deus connosco» (Mateus 1,23), e «connosco fica todos os dias até ao fim do mundo» (Mateus 28,20). Princípio e fim do Evangelho de Mateus. Inclusão literária. Inclusão literária e inclusão total, porque descendo ao nosso chão e ao nosso coração para ficar connosco sempre, sofre, absorve e absolve o nosso pecado, faz-se nosso irmão, torna-se mesmo o nosso familiar mais próximo, e somos nós todos a dar-lhe o nome de Emanuel. Por isso, o verbo que, em Isaías 7,14, aparece no singular (chamar-lhe-á), aparece agora no plural: «Chamar-lhe-ão (kalésousin) Emanuel».

6. A lição do Segundo Livro de Samuel 7,4-16 mostra-nos Deus a prometer a David, através do profeta Natã, que construirá uma ponte de bênção e de paz, pura graça, entre David e o filho que lhe suceder, Salomão. Mas Deus acaba por relançar a sua promessa para sempre, indo, portanto, esta ponte de graça muito para além de Salomão, de filho em filho, até ao filho que será também filho de Deus: «Eu serei para ele um Pai, e ele será para mim um filho» (2 Samuel 7,14). Anda por aqui o «Filho de David», que atravessa as Escrituras. Anda por aqui Jesus. É a boa interpretação que Paulo faz na sinagoga de Antioquia da Pisídia: «Da sua descendência é que Deus, conforme prometera, fez sair para Israel um salvador, Jesus» (Atos 13,23). A tanto conduz o desejo intenso de Deus vir habitar no meio de nós. Não num Templo de pedra, mas num Templo de tempo, podendo assim caminhar connosco sempre, como já fez com David, e quer continuar a fazer connosco. É usual, de resto, dizer-se que nós construímos o espaço, enquanto os judeus construíram o tempo!

7. S. Paulo escreve aos Romanos (4,13-22) e retrata a figura de Abraão, constituído herdeiro pela fé, e não pela lei. Pela fé, e não pela lei, para que a herança fosse vista como dom de Deus para todos, e não apenas para alguns. Por isso, todos nos sentimos na senda de Abraão e agradecidos a Deus. Sim, Jesus veio para todos, para nós também.

8. É por isso que a hora é de cantar. O tema é, claro está, a bondade e a graça de Deus, que desceu até nós numa história que também foi e vai tecendo por amor, sobretudo a sua fidelidade à promessa feita a David. O Salmo 89 insinua-se-nos nas cordas do coração, e não nos deixa parar de cantar. O seu centro de convergência é a promessa feita a David, que acabámos de ver em 2 Samuel 7.

António Couto

4 Responses to O JUSTO JOSÉ

  1. francisco diz:

    Em relação ao texto abaixo «Naquela manhã de há dois mil anos» gostava muito de elucidar umas dúvidas sobre o texto se puder fazer o favor de me ajudar, agradeço desde já a sua disponibilidade de diálogo e encontro.

    As dúvidas são as seguintes:

    – no ponto 5, o que significa em concreto para o nosso dia a dia, para a nossa vida o seguimento ser a adesão a uma Pessoa?

    – no ponto 10, no anunciar de Paulo indica a palavra kêrýssô, qual é a diferença entre kêrýssô e kerigma?

    – ainda sobre o ponto 10, no caso dos Actos dos Apóstolos em (3,12-26) em que «Pedro dirigiu a palavra ao povo», o «dirigiu a palavra» é kêrýssô, kerigma ou outro termo?

    – no ponto 11, fala-nos que era usual orar voltado para o Templo, qual a sua opinião sobre a celebração da missa ser feita voltado Ad Orientem (para o oriente litúrgico)?Acha que pode ser positivo, negativo ou será indiferente?

    Muito obrigado pela sua generosidade.

    • mesadepalavras diz:

      1) Aderir a uma pessoa é aderir a um estilo de vida, a uma forma concreta de viver. É vital. Diferente de ler um livro e concordar com as ideias nele expressas.
      2) Simples. Kêrýssô é um verbo: significa anunciar; Kêrygma é um nome, um substantivo: significa anúncio. Pode juntar Kêryx, que é o anunciador. Para além do que significam, o sentido mais forte desta terminologia, e que lhe subjaz, consiste na fidelidade daquele que anuncia para com aquele que o envia a anunciar.
      3) Nem um nem outro. Está lá a forma verbal apekrínato, aoristo médio de apokrínomai, que significa responder.
      4) Tem o peso do sentido da tradição mais o peso de sentido que lhe queira dar.

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