CORAÇÃO PARA SEMPRE ABERTO

Junho 27, 2019

1. Passa hoje, no calendário litúrgico desta sexta-feira, a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, que assinala a presença viva, próxima e intensa de um amor sublime e de uma esperança nova, refletida no rosto, no coração e no horizonte de cada ser humano. Esse horizonte novo brota do coração aberto de Jesus Cristo, fogo ardente de amor e de sentido que enche de luz os nossos passos, tantas vezes andados na penumbra e no escuro. São Paulo diz bem aos cristãos de Éfeso que, antes de terem sido encontrados por Jesus Cristo, viviam «sem esperança e sem Deus no mundo» (Efésios 2,12). A questão, entenda-se bem, já não é apenas viver sem Deus, no desconhecimento (agnôsía) de Deus. É viver sem Deus no mundo, no meio de nós, pertinho de nós, connosco. Sim, se repararmos bem, sem a presença de Deus no mundo, também a nossa habitação fica desabitada, uma espécie de câmara escura, e fica sem sentido a nossa vida. Sem Deus no mundo, pode haver apenas pequenas e inúteis deduções, como quem deduz o céu da terra ou o Último do penúltimo.

2. Com Deus no mundo, muda tudo. É o céu que desce à terra, é o Último que enche de sentido o penúltimo. Fica habitada a nossa habitação, e um sentido novo rebenta o nosso escuro duro. Sim, o coração aberto do Deus humanado enche-nos de luz e de esperança. Enche-nos de Jesus, de cujo lado aberto saiu sangue e água (João 19,34): o sangue do Cordeiro que assinala as umbreiras das nossas casas (Êxodo 12,22-23) e lava as nossas túnicas brancas (Apocalipse 7,14); a água, que é o Espírito Santo, que vem para nós da humanidade crucificada e glorificada de Jesus, e alumia a nossa inteligência e o nosso coração de filhos, ensinando-nos a dizer: Ab-ba! Do lado aberto do primeiro Adam adormecido nasceu Eva (Génesis 2,21-22). Do lado aberto do novo e último Adam adormecido nasce a Igreja!

3. Aí está então o mistério por Deus dado a conhecer e a amar (Efésios 3,8-19) (o conhecimento incha; só o amor edifica), a fonte da nossa vida verdadeira, as nossas habitações (êthos) habitadas de sentido, os nossos hábitos (éthos) luminosos e branqueados. Habitação diz-se, na língua grega, êthos. A habitação é a casa, é a Igreja, a Casa bela habitada por filhos e irmãos. Hábito diz-se éthos, de onde vem «ética», que é a norma para viver na Casa, é o amor e a alegria de que os filhos e irmãos, que vivem na Casa, devem andar sempre revestidos. Habitação e hábito! Ó admirável mundo novo, belo e sublime, que Deus não se cansa de oferecer aos seus filhos amados.

4. O Evangelho deste Dia (Lucas 15,3-7) é uma janela sublime e sempre aberta com vista direta para o coração de Deus, exposto, narrado, contado por Jesus. Mas antes de Jesus começar a contar Deus, o narrador prepara cuidadosamente o cenário (vv. 1-2), dizendo-nos que os PUBLICANOS e PECADORES se aproximavam de Jesus para o escutar, em claro contraponto com os ESCRIBAS e FARISEUS que estavam lá, não para o escutar, mas para criticar o facto de Jesus acolher os pecadores e comer com eles. Eles achavam que os pecadores eram merecedores de castigo severo e não de misericórdia, pois eram amplamente devedores a Deus, e não credores como os fariseus pensavam que eram. São visíveis, portanto, dois modos de ver, dois critérios: 1) o comportamento novo, misericordioso, inclusivo, por parte de Jesus, que acolhe e abraça os pecadores, até então marginalizados, hostilizados, descartados, excomungados; 2) o comportamento impiedoso, rigorista e exclusivista para com os pecadores por parte da velha tradição religiosa dos escribas e fariseus.

5. É a estes últimos, que não concordam com o seu comportamento e o criticam, que Jesus conta uma parábola, «ESTA PARÁBOLA» (taúten parabolên) (v. 3), no singular. Sim, o texto diz expressamente «ESTA PARÁBOLA», o que quer dizer que tudo o que Jesus vai contar até ao final do Capítulo é uma só parábola, e não três, como vulgarmente se pensa, titula e diz. Sendo a parábola contada para os ESCRIBAS e FARISEUS, então é desse lado do auditório que nós, leitores ou ouvintes, nos devemos colocar. Se nos colocarmos, como é usual e a nossa simpatia reclama, do lado dos PECADORES, da OVELHA perdida e encontrada, da DRACMA perdida e encontrada, do FILHO perdido e encontrado, a parábola passa-nos ao lado.

6. O primeiro quadro, que é o único que Hoje nos é apresentado, mostra-nos a OVELHA PERDIDA lá longe, e por amor PROCURADA e ENCONTRADA, e que dá azo à ALEGRIA partilhada com os amigos e vizinhos. E Jesus conclui que é assim no céu sempre que um PECADOR se converte. Ao fundo da cena estão noventa e nove JUSTOS que não precisam de conversão. Era o que pensavam os escribas e fariseus, e nós tantas vezes também!

7. A ovelha ou um de nós que se perde, perde-se porque volta as costas a Deus. Sempre seguindo os indicadores da parábola, é essencial que o PASTOR não imite o comportamento da ovelha, voltando-lhe as costas e não se importando mais dela, mas que continue a dedicar-lhe todo o seu cuidado e carinho pastoral, que nunca a exclua, mas que lute por incluí-la no seu rebanho. Para aquele PASTOR, não é uma ovelha qualquer; é a minha ovelha perdida.

8. O texto de Ezequiel 34,11-16 faz eco ao bom PASTOR do Evangelho de Hoje, que procura com todo o empenho a sua ovelha perdida. Em Ezequiel 34,1-10, Deus critica, pela boca do profeta, os maus pastores que se apascentam a si mesmos à custa das ovelhas. Em perfeito contraponto, no texto de Hoje, Deus assume-se como PASTOR bom que vai recolher as suas ovelhas de todos os lugares onde elas andam dispersas, e vai trazê-las para as boas pastagens de Israel, e vai cuidar delas pessoalmente, tratando cada uma conforme as suas necessidades: conduzir para o rebanho a desgarrada, curar a que tiver feridas, reanimar a desanimada. Para o futuro, afirma Deus que vai suscitar um PASTOR bom, que cuide bem das suas ovelhas, a saber, o seu servo David (vv.23-31). Então, sim, as ovelhas viverão tranquilas, os tempos serão de abundância e alegria, e a aliança realizar-se-á: vós sereis o meu rebanho, e Eu serei o vosso Deus. É aqui que encaixa o Evangelho de Hoje.

9. A lição de Hoje da Carta aos Romanos (5,5b-11) mostra-nos aquele Jesus Cristo que nos ama e se debruça e dá a sua vida por nós quando nós éramos ainda pecadores, e continuamos a ser, não havendo, portanto, nenhum mérito da nossa parte. Está à vista o cenário do Evangelho de hoje, em que Jesus empenha toda a sua vida e todo o seu tempo para trazer para si aqueles que andam perdidos, cansados e abatidos.

10. Quanto ao mais, todo o tempo é tempo para nos deixarmos conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom e Belo Pastor, cantando o Salmo 23. Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu a «pele de vaca» (shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos… É a alegria da nossa família reunida.

11. Sagrado Coração de Jesus, fazei o nosso coração semelhante ao vosso, neste dia belo e luminoso em que consagramos ao vosso Coração para sempre aberto a Igreja inteira e o mundo inteiro, sobretudo os que se afastaram de Ti, os doentes e desanimados, as famílias desavindas, as crianças abandonadas, os marginalizados e descartados, os que fogem de situações de guerra ou de miséria, e os que andam à procura de um abrigo, de uma mão carinhosa e de um coração aberto e acolhedor. Deixou escrito o beato Charles de Foucauld: «Perdei-vos no coração de Cristo: ele é o nosso refúgio, o nosso asilo, a casa do pássaro, o ninho da pomba, a barca de Pedro para atravessar o mar tempestuoso».

12. A Solenidade de hoje tem as suas raízes no coração de Deus, que as páginas da Escritura Santa nos dão a conhecer. Mas este caminho acentuou-se sobretudo nos tempos modernos, primeiro, nas revelações feitas a Santa Margarida Maria Alacoque (1647-1690), a quem se deve a implantação da devoção das nove primeiras sextas-feiras, mas também é oportuno lembrar S. Vicente de Paulo (1795-1850), que viveu e testemunhou com paixão «o mar imenso das divinas misericórdias», e as místicas religiosas Benigna Consolata (1885-1916), que se chamava a si mesma «a pequena secretária do amor misericordioso», Maria Teresa Desandais (1876-1943), que se via a si mesma como a «mensageira do amor misericordioso», e Santa Faustina Kowalska (1905-1938), «secretária da misericórdia». Particular importância para a realização da Solenidade de hoje e para a Consagração do mundo ao Sagrado Coração de Jesus teve ainda a mística beata Maria do Divino Coração (1863-1899), sem esquecer a influência de Santa Teresa de Lisieux (1873-1897). Todas estas figuras místicas assumiram particular relevo na vivência e divulgação da mensagem da misericórdia de Deus. S. João XXIII dizia que «a Misericórdia é o nome mais belo de Deus, e acrescentava que as nossas misérias são o trono da Misericórdia divina». Em 1856, Pio IX estendeu a toda a Igreja a Festa do Sagrado Coração de Jesus. A Festa ou Solenidade de hoje, bem como a Consagração ao Sagrado Coração de Jesus, derivam das revelações destas místicas religiosas, tendo sido a beata Maria do Divino Coração a que mais de perto inspirou o Papa Leão XIII à sua instituição, que aconteceu em 1899, mediante a Encíclica Annum sacrum, tendo sido depois confirmadas por Pio XI em 1928, mediante a Encíclica Miserentissimus redemptor, e por Pio XII em 1956, mediante a encíclica Haurietis aquas. No seguimento das revelações da mística Santa Faustina Kowalska, S. João Paulo II instituiu o Domingo da Divina Misericórdia, a celebrar no Domingo II da Páscoa.

António Couto