SANTA MARIA, MÃE DE DEUS

Dezembro 31, 2020

1. Oito dias depois da Solenidade do Natal do Senhor, que a liturgia oriental designa significativamente por «a Páscoa do Natal», eis-nos no Primeiro Dia do Ano Civil de 2021, tradicionalmente designado como Dia de «Ano Bom», a celebrar a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus.

2. A figura que enche este Dia, e que motiva a nossa Alegria, é, portanto, a figura de Maria, na sua fisionomia mais alta, a de Mãe de Deus, como foi solenemente proclamada no Concílio de Éfeso, em 431, mas já assim luminosamente desenhada nas páginas do Novo Testamento.

3. É assim que a encontramos no Lecionário de hoje. Desde logo naquela menção sóbria, e ousamos mesmo dizer pobre, com que Paulo se refere à Mãe de Jesus, escrevendo aos Gálatas: «Deus mandou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei» (Gálatas 4,4). Nesta linha breve e densa aparece compendiado o mistério da Incarnação, ao mesmo tempo que se sente já pulsar o coração da Mariologia: Maria não é grande em si mesma; é, na verdade, uma «mulher», verdadeiramente nossa irmã na sua condição de humana criatura. Não é grande em si mesma, mas é grande por ser a Mãe do Filho de Deus, e é aqui que ela nos ultrapassa, imaculada por graça, bem-aventurada, nossa mãe na fé e na esperança. Maria não é grande em si mesma; vem-lhe de Deus essa grandeza.

4. O Evangelho deste Dia de Maria (Lucas 2,16-21) guarda também uma preciosidade, quando Lucas nos diz que «todos os que tinham escutado as coisas faladas pelos pastores ficaram maravilhados, mas Maria GUARDAVA (synetêrei) todas estas Palavras que aconteceram (tà rhêmata), COMPONDO-as (symbállousa) no seu coração» (Lucas 2,18-19). Em contraponto com o espanto de todos os que ouviram as palavras dos pastores, Lucas pinta um quadro mariano de extraordinária beleza: «Maria, ao contrário, GUARDAVA todas estas Palavras que aconteceram, COMPONDO-as no seu coração». Há o espanto e a maravilha que se exprimem no louvor e no canto, e há o espanto e a maravilha que se exprimem no silêncio e na escuta qualificada e comovida. Maria, a Senhora deste Dia, aparece a GUARDAR com enlevado carinho todas estas Palavras que acontecem, todos estes acontecimentos que falam e não esquecem. O verbo GUARDAR implica uma atenção extremada e carinhosa, como quem leva nas suas mãos uma coisa preciosa. Este GUARDAR atencioso e carinhoso não é, porém, o ato de um momento, mas a atitude de uma vida, uma vez que o verbo grego está no imperfeito, que implica duração. O outro verbo belo mostra-nos Maria como que a COMPOR, isto é, a «pôr em conjunto» (symbállô), a simbolizar, a organizar, para melhor compreender e se fazer compreender. É como quem, com aquelas Palavras, COMPÕE um Poema, uma Sinfonia, e se entretém a vida toda a trautear essa melodia e a conjugar novos acordes de alegria.

5. Esta solicitude maternal de Maria, habitada por esta imensa melodia que nos vem de Deus e nos reconcilia, levou o Papa Paulo VI, a associar, desde 1968, à Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a celebração do Dia Mundial da Paz. Basta fazer bem as contas para nos apercebermos que celebramos Hoje o 54.º Dia Mundial da Paz. O Papa Francisco deu à sua mensagem para este dia de Maria o título oportuno e significativo de «A cultura do cuidado como percurso de paz». Com este dizer, o Papa desenha uma vez mais diante de todos os homens e mulheres de boa vontade o cenário do mundo de que somos nós hoje os habitantes, e de que devemos ser também os cuidadores. Os muitos e diversificados grupos de homens e mulheres, nossos irmãos e irmãs, que hoje se movimentam no mundo, fazem-no fugindo de situações de guerra, de fome e de miséria, e vão em busca da paz e de dignidade. Nós sabemos que a justiça é o sabor que vem de Deus, e que a paz não é a paz romana, assente no poder das armas, nem a paz do judaísmo palestinense, assente nos acordos entre as partes. Na verdade, nem reparamos que é um contrassenso combater pela Paz, e quando nos sentamos a fazer acordos de Paz, é porque já antes perdemos a razão. A paz é primeira. É um Dom de Deus para todo o ser humano que vem a este mundo. Portanto, num mundo tantas vezes às avessas, o Papa exorta-nos a promover a cultura do cuidado para erradicar a cultura da indiferença, do descarte e do conflito, sendo que em muitas regiões e comunidades já não se sabe sequer o que é viver em paz e sossego, parecendo mesmo que as guerras e conflitos são o estado normal do mundo.

6. De Deus vem sempre um mundo novo, belo, maravilhoso. Tão novo, belo e maravilhoso, que nos cega, a nós que vamos arrastando os olhos cansados pela lama. Que o nosso Deus faça chegar até nós tempo e modo para ouvir outra vez a extraordinária bênção sacerdotal, que o Livro dos Números guarda na sua forma tripartida: «O Senhor te abençoe e te guarde./ O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável./ O Senhor dirija para ti o seu olhar e te conceda a paz» (Números 6,24-26).

7. Por isso, bem podemos hoje, com o Salmo 67, juntar as nossas vozes às vozes dos povos de toda a terra no mesmo louvor ao Deus que a todos faz graça e misericórdia. O Salmo 67 é uma oração de bênção em forma de petição. Em termos técnicos, equivale a uma epiclese: não «eu Te bendigo», mas «Deus nos bendiga». O nosso Salmo 67 recolhe os temas da bênção sacerdotal de Números 6,24-26, como a graça, a luz, a benevolência, a paz, pondo o plural onde estava o singular, por assim dizer, «democratizando» a bênção, agora dirigida a todos, onde, na bênção sacerdotal do Livro dos Números, se dirigia apenas a Israel.

8. Olhada por Deus com singular olhar de Graça foi Maria, também Pobre, também Feliz, Bem-aventurada, Santa Maria, Mãe de Deus, que hoje celebramos em uníssono com a Igreja inteira. Para ela elevamos hoje os nossos olhos de filhos enlevados.

9. Mãe de Deus, Senhora da Alegria, Mãe igual ao Dia, Maria. A primeira página do ano é toda tua, Mulher do sol, das estrelas e da lua, Rainha da Paz, Aurora de Luz, Estrela matutina, Mãe de Jesus e também minha, Senhora de Janeiro, do Dia primeiro e do Ano inteiro.

10. Abençoa, Mãe, os nossos dias breves. Ensina-nos a vivê-los todos como tu viveste os teus, sempre sob o olhar de Deus, sempre a olhar por Deus. É verdade. A grande verdade da tua vida, o teu segredo de ouro. Tu soubeste sempre que Deus velava por ti, enchendo-te de graça. Mas tu soubeste sempre olhar por Deus, porque tu soubeste bem que Deus também é pequenino. Acariciada por Deus, viveste acariciando Deus. Por isso, todas as gerações te proclamam «Bem-aventurada»! Por isso, nós te proclamamos «Bem-aventurada»!

11. Senhora e Mãe de Janeiro, do Dia Primeiro e do Ano inteiro. Acaricia-nos. Senta-nos em casa ao redor do amor, do coração. Somos tão modernos e tão cheios de coisas estes teus filhos de hoje! Tão cheios de coisas e tão vazios de nós mesmos e de humanidade e divindade! Temos tudo. Mas falta-nos, se calhar, o essencial: a tua simplicidade e alegria. Faz-nos sentir, Mãe, o calor da tua mão no nosso rosto frio, insensível, enrugado, e faz-nos correr, com alegria, ao encontro dos pobres e necessitados.

12. Que seja, e pode ser, Deus o quer, e nós também podemos querer, um Ano Bom, cheio de Paz, Pão e Amor, para todos os irmãos que Deus nos deu! E que Santa Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe nos abençoe também. Amen!

 

Que Deus nos abençoe e nos guarde,

Que nos acompanhe, nos acorde e nos incomode,

Que os nossos pés calcorreiem as montanhas,

Cheios de amor, de paz e de alegria,

Que a tua Palavra nos arda nas entranhas,

E nos ponha no caminho de Maria.

 

O amor verdadeiro está lá sempre primeiro.

O fiat que disseste, Maria, é de quem se fia

Num amor maior do que um letreiro.

Vela por nós, Maria, em cada dia

Deste ano inteiro,

Para que levemos a cada enfermaria,

A cada periferia,

Um amor como o teu, primeiro e verdadeiro.

 

Santa Maria da Paz,

Ensina-nos como se faz.

 

António Couto

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COM O MENINO NOS BRAÇOS E NO CORAÇÃO

Dezembro 26, 2020

1. Atravessamos ainda a Solenidade do Natal do Senhor, dado que esta Solenidade se prolonga durante oito dias (Oitava) até à Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, que se celebra no primeiro Dia de Janeiro.

2. O Natal do Senhor põe diante do nosso olhar contemplativo uma Família humilde e bela, Jesus, Maria e José, mas traz também consigo uma forte sensibilidade Familiar, tornando-se o tempo forte da reunião festiva das nossas Famílias. Estes dois acertos são importantes para se compreender a razão pela qual, no Domingo dentro da Oitava do Natal, a Igreja celebra a Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José.

3. O Evangelho que temos Hoje a graça de escutar vem de Lucas 2,22-40. Compõe a cena um velhinho chamado Simeão, nome que significa «Escutador», que vive atentamente à escuta, em Hi-Fi, alta-fidelidade, alta frequência, alta definição, alto amor, e que o Evangelho apresenta como um homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel. Ora, esse velhinho que vivia à espera e à escuta, com carinhosa atenção e coração vigilante, veio ao Templo sob o impulso do Espírito (en tô pneúmati). Fica aqui declarada a qualidade da energia e da alegria que move o velho e querido Simeão: não é movido a carvão, nem a água, nem a vento, nem a petróleo e seus derivados, nem a eletricidade, nem sequer a energia nuclear. Simeão é movido pelo Espírito Santo. Maneira novíssima de viver, pausa e bemol na nossa impetuosidade, na nossa vontade de aparecer e de fazer, pausa e bemol nos nossos protagonismos e vontade de poder. Falamos quase sempre antes do tempo, e não chegamos a dar lugar à suave voz do Espírito. Na verdade, adverte-nos Jesus: «Não sois vós que falais, mas o Espírito Santo» (Marcos 13,11; cf. Mateus 10,20; Lucas 12,12). Portanto, é urgente esperar! Regressemos, pois, à beleza de Simeão. Ao ver aquele Menino, recebeu-o carinhosamente nos braços. Por isso, os Padres gregos dão a Simeão o título belo de Theodóchos [= «recebedor de Deus»]. É então que Simeão entoa o canto feliz do entardecer da sua vida, um dos mais belos cantos que a Bíblia regista: «Agora, Senhor, podes deixar o teu servo partir em paz, porque os meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos, Luz que vem iluminar as nações e glória do teu povo, Israel!» (Lucas 2,29-32).

4. E, na circunstância, também uma velhinha chegou carregada de Graça e de Esperança. Chamava-se Ana, que significa «Graça». É dita «Profetisa», isto é, que anda, também ela, sintonizada em Hi-Fi, alta-fidelidade, alta definição, alto amor, com a Palavra de Deus escutada, vivida e anunciada. Diz ainda o texto que era filha de Fanuel, nome que significa «Rosto de Deus», e que era da tribo de Aser, que quer dizer «Felicidade». Tanta intimidade com Deus! Também esta velhinha, serena e feliz, com 84 anos, número perfeito de números perfeitos (7 x 12), teve a Graça de ver aquele Menino. E diz bem o texto do Evangelho que Ana «falava daquele Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém» (Lucas 2,38). Outra vez a beleza inteira do díptico do Evangelho de Lucas: Simeão e Ana. Simeão esperava e Ana anunciava. Eis aqui presente, nestes dois maravilhosos velhinhos, a inteira Escritura dos dois Testamentos, e o retrato a corpo inteiro do Consagrado, que, na Bíblia hebraica, se diz Nazîr, um nome passivo e recetivo, totalmente dedicado a Deus, conduzido por Deus, «compondo» com emoção os acontecimentos de Deus no seu coração.

5. Simeão e Ana viram a Luz e exultaram de Alegria. Hoje somos nós que nos chamamos Simeão e Ana. Somos nós que recebemos esta Luz nos braços, e que ficamos a fazer parte da família da Felicidade e a viver pertinho de Deus, Rosto a Rosto com Deus, Escutadores atentos do bater do coração de Deus, movidos pelo Espírito de Deus, Recebedores de Deus, Anunciadores de Deus. Rezamos hoje para que, nesta sociedade de coisas e de números (cf. Isaías 5,8), os filhos e filhas de Deus vivam cada vez mais Rosto a Rosto com Deus, e deem testemunho no mundo deste Dom maravilhoso.

6. Dentro da temática da Família, o Antigo Testamento traz-nos hoje um extrato sapiencial retirado do Livro de Ben Sira (ou Eclesiástico) 3,2-6.12-14, e que nos convida ao amor dedicado aos nossos pais sempre, para que o Senhor ponha sobre nós o seu olhar de bondade.

7. O Salmo 128 é a música suave, de teor didático-sapiencial, que canta uma família feliz e nos mostra a fonte dessa felicidade: a bênção paternal do Senhor. «Felizes os que esperam no Senhor, e seguem os seus caminhos», é a bela litania em que o refrão nos faz entrar.

8. Finalmente, o Apóstolo Paulo, na Carta aos Colossenses 3,12-21, exorta esposos, pais e filhos ao amor mútuo, mostrando ainda de que sentimentos nos devemos vestir por dentro e de que música devemos encher o nosso coração. Salta à vista que a misericórdia, a bondade, a humildade, a mansidão, a longanimidade, o amor, o perdão são vestidos importantes para a festa, mas não se compram nem vendem por aí em nenhum pronto-a-vestir. De resto, vê-se bem que andamos todos bem vestidos por fora, mas andamos muitas vezes nus por dentro! E é para aqui que aponta a exortação de S. Paulo. Nesta época de bastante consumismo, convém que nunca nos esqueçamos de Deus, pois é Ele, e só Ele, que veste carinhosamente o coração e as entranhas dos seus filhos.

9. Neste Domingo da Festa da Sagrada Família é naturalmente a Família que está no centro da cena. Nos tempos conturbados que vivemos, atravessados por pandemias várias, é decisivo que a Família seja cada vez mais vista como esteio da sociedade, e, como tal, respeitada, protegida e promovida, e não vilipendiada, triste realidade a que vamos assistindo dia após dia. No sentido de abrir uma sempre oportuna e cada vez mais fecunda reflexão acerca da Família, hoje mesmo será anunciado em Roma um ano especial dedicado à Família. A iniciativa chamar-se-á Ano “Família Amoris Laetitia”, e decorrerá de 19 de março de 2021 até 26 de junho de 2022, duas datas significativas: em 19 de março de 2021 passa o quinto aniversário da promulgação da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, e em 26 de junho de 2022 ocorre em Roma a celebração do X Encontro Mundial das Famílias.

 

Santa Maria de um amor maior,

Do tamanho do Menino que levas ao colo,

Diante de ti me ajoelho e esmolo

A graça de um lar unido ao teu redor.

 

Protege, Senhora, as nossas famílias,

Todos os casais, os filhos e os pais,

E enche de alegria, mais e mais e mais,

Todos os seus dias, manhãs, tardes, noites e vigílias.

 

Vela, Senhora, por cada criança,

Por cada mãe, por cada pai, por cada irmão,

A todos os velhinhos, Senhora, dá a mão,

E deixa em cada rosto um afago de esperança.

 

António Couto


SOLENIDADE DO NATAL DO SENHOR

Dezembro 24, 2020

1. «Exultemos de alegria no Senhor, porque nasceu na terra o nosso Salvador», é a Antífona do Cântico de Entrada da Missa da Meia-Noite, que dá o devido tom de exultação a esta Solenidade, magnífico pórtico para este intenso feixe de Luz, Mistério de Jesus, fazendo logo ver o Natal à Luz da Páscoa, «a Páscoa do Natal», assim o diz significativamente a liturgia oriental. A Antífona da Missa da Aurora prossegue a mesma sinfonia, conjugando Isaías 9,1 e Lucas 2,11, e soa assim: «Hoje sobre nós resplandece uma Luz: nasceu o Senhor». A Antífona da Missa do Dia continua a indicar o «para nós» deste Filho e do seu Mistério, trazendo ao de cima outra vez a pauta musical de Isaías: «Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado» (Isaías 9,6).

2. A linha dos Evangelhos deste Dia é de excecional riqueza, e desenvolve-se em três movimentos: o acontecimento, o anúncio e o acolhimento. Começa com Lucas 2,1-14 (Meia-Noite), e continua com Lucas 2,15-20 (Aurora), que nos trazem o quadro histórico-geográfico do nascimento de Jesus (Lucas 2,1-7), o seu anúncio (Lucas 2,8-14) e acolhimento (Lucas 2,15-29). O nascimento de Jesus, na sua nudez, aparece narrado três vezes, nos três movimentos do texto (Lucas 2,7.12.16). Ele é claramente o centro. Aparece logo situado no decurso do recenseamento do mundo romano ordenado por César Augusto, sendo Quirino prefeito romano da Síria (Lucas 2,1-2). O reinado de Augusto estende-se por muitos anos (27 a.C.-14 d.C.), mas Pôncio Sulpício Quirino foi prefeito da Síria apenas no ano 6 d.C., sendo então que liquida os bens de Arquelau, filho de Herodes o Grande, e anexa definitivamente a Judeia ao Império Romano. O leitor menos prevenido dirá logo que há aqui uma imprecisão histórica. Acrescento então que este recenseamento foi iniciado em 7-6 a.C. por Sêncio Saturnino, prefeito da Síria durante os anos 9-6 a.C. É sabido, de resto, que a era cristã atualmente em vigor foi fixada no século VI pelo monge xiita, de origem egípcia, Dionísio o Pequeno, com um pequeno erro de cálculo que resultou no atraso de 6 ou 7 anos em relação ao nascimento de Jesus. Portanto, Jesus terá nascido 6 ou 7 anos antes do início da era cristã fixada pelo monge Dionísio. E aí está então tudo em dia: Jesus nasce quando Sêncio Saturnino dá início ao recenseamento. Dirá outra vez o leitor incauto: se assim foi, por que é que Lucas fala de Quirino, e não de Saturnino? Se repararmos bem, Lucas faz exatamente como nós fazemos hoje. Nas placas que colocamos nos edifícios públicos que inauguramos, constam os nomes das autoridades que os terminam e inauguram, e não daqueles que os iniciam. O mesmo se diga da promulgação de leis e tratados.

3. É ainda no quadro deste recenseamento que José, acompanhado por Maria, sua esposa, sobe a Belém para se recensear. O texto explica bem que esta deslocação se fica a dever ao facto de José ser da descendência de David (Lucas 2,3-4). Alguém poderá perguntar: então por que foi José viver para Nazaré, se ele era natural de Belém, a uns 150 km de distância? Provavelmente dentro do programa político-religioso de tornar mais judaica a Galileia, iniciado por Alexandre Janeu (103-76 a.C.), em que colonos judeus eram incentivados a repovoar e rejudaizar a Galileia.

4. O próximo passo refere que não havia lugar para eles (José e Maria) na sala (Lucas 2,7). Note-se que o texto refere, de forma clara, sala, grego katályma, e não hospedaria, como se lê em muitas e preconceituosas traduções. Na verdade, Lucas sabe bem dizer hospedaria, como faz na passagem do bom samaritano (Lucas 10,34), em que usa o termo grego pandocheîon. Katályma não significa hospedaria. Significa sala. Pode ser a sala do andar superior (Lucas 22,11), mas é, neste caso, a sala de hóspedes que a arqueologia pôs a descoberto no rés-do-chão de muitas das casas da Palestina do tempo de Jesus. Esta sala apresenta forma quadrada ou retangular, com um banco rochoso ao longo das paredes, destinado ao descanso das pessoas. Uma única porta de entrada dava acesso à sala a pessoas e animais. Ao fundo da sala localizava-se outra porta, que dava para um estábulo, para onde as pessoas conduziam naturalmente os animais. É neste estábulo anexo à sala de hóspedes que vai nascer Jesus, e é também aqui que se compreende perfeitamente a presença da manjedoura (Lucas 2,7 e 12).

5. Vem depois a cena maravilhosa da manifestação desta Notícia aos pastores dos campos de Belém. Os pastores são os últimos da sociedade, não são praticantes de nenhuma religião oficial (não têm tempo e condições para isso) e não entram nas contas de ninguém, tal como o pequeno pastor de Belém, David, não entra nas contas já encerradas de seu pai (cf. 1 Samuel 16,10-11), mas entra nas de Deus (cf. 1 Samuel 16,11-12). Assim é também aos pastores de Belém que o mensageiro celeste anuncia a Alegria do nascimento de um Salvador para todo o povo, Hoje nascido em Belém (Lucas 2,8-11).

6. E, deste acontecimento, o mensageiro celeste dá um sinal (sêmeîon) aos pastores e a nós: «encontrareis um recém-nascido envolto em faixas e deposto numa manjedoura» (Lucas 2,12). Entra então subitamente em cena uma multidão do exército celeste (Lucas 2,13) – expressão que só se encontra aqui nos Evangelhos – para entoar aquele celestial e humano Gloria in excelsis Deo e Paz na terra aos homens que Ele ama (Lucas 2,14). Depois desta cena grandiosa e única, aí vão eles, os pastores, aqueles com quem ninguém conta e que não entram em nenhuma lista de convidados, aí vão eles apressadamente (Lucas 2,16), como Maria (Lucas 1,39), verificar (ideîn) os acontecimentos a eles dados a conhecer por Deus (Lucas 2,15), e que, como verdadeiros anunciadores, não podem calar, e devem dar também a conhecer a todos (Lucas 2,17). Note-se esta Paz diferente, que não é obra das armas, como no mundo romano, nem de acordos entre as partes, como no judaísmo palestinense, mas dom de Deus!

7. Cena sublime e suprema ironia. Os senhores do mundo (César Augusto e Quirino) são mencionados, mas saem logo de cena, para dar lugar aos pastores, que assumem o papel de verdadeiros protagonistas. Os senhores do mundo ocupam um único versículo cada um (Lucas 2,1 e 2). Os pastores enchem treze versículos (Lucas 2,8-20). Também lá estão Maria, José e o Menino, mas não dizem uma única palavra. A palavra é toda dos Anjos e dos pastores. Mas Maria, no seu silêncio musical e habitado, é estupendamente retratada a «guardar todas aquelas palavras, compondo-as (symbállousa) no seu coração» (Lucas 2,19).

8. Note-se ainda o sinal dado aos pastores e a nós, leitores: um recém-nascido envolto em faixas, deposto numa manjedoura. É preciso também ver já aqui a Luz da Páscoa, com o corpo de Jesus a ser envolto num lençol e deposto num sepulcro (Lucas 23,53). Mas também a sala (katályma) onde não havia lugar para eles (Lucas 2,7) reclama já a sala para comer a Páscoa (Lucas 22,11). O Evangelho do Dia (João 1,1-18) deixa-nos de joelhos em contemplação: «E o Verbo se fez carne e pôs a sua tenda entre nós, e nós contemplámos (theáomai) a sua glória» (João 1,14). Mas também reclama conversão: «Veio para o que era seu, e os seus não o receberam» (João 1,11).

9. Os passos dos peregrinos e os nossos convergem Hoje para a Basílica da Natividade em Belém. Não obstante os múltiplos trabalhos de reconstrução e conservação ao longo dos séculos, a Basílica que hoje se depara ao peregrino é, nas suas linhas gerais, obra do imperador Justiniano, edificada entre 531 e 565, e é mesmo o único templo, provindo de Justiniano, que resta na Palestina. Escapou mesmo à razia dos Persas do rei Cosroé II, em 614, contra os templos cristãos, devido ao facto de os frescos que adornam a Basílica conterem representações dos Magos, o que muito terá sensibilizado os Persas. Esta não é, porém, a Basílica primitiva. Os trabalhos arqueológicos efetuados pelo P. Bagatti em 1949-1950 mostraram, por debaixo do pavimento da atual Basílica, os traços arquitetónicos de outra grandiosa Basílica, levantada entre 326 e 333, por Santa Helena, mãe do imperador Constantino. Esta primitiva Basílica foi assolada por diversos incêndios e depois grandemente devastada pela revolta dos Samaritanos de Nablus em 529 contra o governo bizantino. Foi sobre as ruínas desta Basílica Constantiniana que o imperador Justiniano fez construir, com traços arquitetónicos diferentes, a Basílica atual.

10. Mas a Basílica Constantiniana também não representa o estádio primitivo do culto cristão em Belém. Este encontra-se certamente na cripta da Basílica atual, guardado num espaço retangular de 12,30 metros de comprimento por 3,50 metros de largura, para onde convergem os passos dos peregrinos. Este espaço corresponde ao estábulo anexo à já mencionada sala de hóspedes. Aí se encontra o Altar da Natividade, debaixo do qual se pode ver uma estrela de prata com a inscrição: Hic de Virgine Mariae Jesus Christus natus est [= «Aqui da Virgem Maria nasceu Jesus Cristo»]. A Basílica da Natividade guarda na sua cripta o mistério do nascimento de Jesus, da pobreza, da humildade, do amor, da paz. Daquele e daquilo que não tem lugar na sala do nosso bem-estar, poder, ódio, ostentação, tirania. Na tua casa e na tua sala há lugar para quem e para quê, meu irmão deste Dia de Natal?

 

Há dois mil anos Deus sonhou

E foi

Natal em Belém.

Sonha também.

 

Se o jumento corou

E o boi se ajoelhou,

Não deixes tu de orar também.

 

A notícia ecoou nos campos de Belém.

Com o celeste recital que ali se deu,

O céu ficou ao léu,

A terra emudeceu de espanto,

E os pastores dançaram tanto, tanto,

Que até os mansos animais entraram nesse canto.

 

Isaías 1,3 antecipou a cena,

E gravou com o fulgor da sua pena

O manso boi e o pacífico jumento

Comendo as flores de açucena da vara de José sentado ao lume,

E bafejando depois suavemente o Menino de perfume.

Enquanto os meigos animais vão comer à mão do dono,

O meu povo, diz Deus, não me conhece, e perde-se nos buracos de ozono.

 

Vem, Menino!

E quando vieres para a tua doirada sementeira,

Que logo cresce e se faz messe (João 4,35),

Quando assobiares às boieiras,

Chama também por mim,

Diz bem alto o meu nome,

Vamos os dois para o campo e para a eira,

E enche-me de fome de um amor como o teu,

Pequenino e enorme.

 

António Couto


DEIXAR O CÉU FALAR… E ADORAR!

Dezembro 19, 2020

1. Este Domingo IV do Advento deixa-nos à beirinha do Natal do Senhor. O Evangelho neste Dia proclamado (Lucas 1,26-38) é um tecido sublime, que as Igrejas do Ocidente conhecem por «Anunciação», e as do Oriente por «Evangelização». Do céu chega a Alegria incandescente a casa de Maria: «Alegra-te, Maria» [= «Chaîre Maria»; «Ave Maria»], «o Senhor está contigo» (Lucas 1,28), «não tenhas medo» (Lucas 1,30), diz a Maria o anjo Gabriel enviado por Deus. Alguns anos mais tarde, as mulheres que vão ao túmulo de Jesus ouvirão também a mesma música divina: «Alegrai-vos» (Mateus 28,9), «não tenhais medo» (Mateus 28,5). E nós, Assembleia Santa que hoje se reúne para celebrar os mistérios do seu Senhor e também de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, estamos também permanentemente a ouvir esta divina melodia. Portanto, irmãos amados em Cristo, Alegrai-vos, não tenhais medo, o Senhor está no meio de nós!

2. O centro da cena é de Maria, que podemos ver em alta sintonia com a Palavra de Alegria que lhe chega de Deus. Ao contrário da nossa muito ocidental maneira de ver e de sentir, note-se bem que Maria não esboça qualquer reação à presença do anjo, que tão-pouco é narrada. Ela fica perturbada é com a Palavra que lhe cai nos ouvidos e no coração (Lucas 1,29). «Conceberá no ventre» o Filho de Deus (Lucas 1,31-33). «Conceber no ventre» é um pleonasmo intencional só dito de Maria por duas vezes (Lucas 1,31 e 2,21), claramente para a pôr em pura sintonia com o Deus do «ventre das misericórdias» (Lucas 1,78). Note-se como, na sequência do texto, de Isabel só se diz que «concebeu» (Lucas 1,36).

3. Quando revisitamos os dois quadros de anunciação que Lucas nos serve alinhados lado-a-lado, o anúncio no Templo a Zacarias e o anúncio em Nazaré a Maria, saltam logo à vista a diferente identidade, os contornos e o contraste das figuras. O anjo Gabriel (cf. Lucas 1,19), no Templo, aparecido a Zacarias, anuncia-lhe a fecundidade de Isabel e o nascimento de João como cumprimento da sua oração (Lucas 1,13). Em puro contraste, o mesmo anjo Gabriel, na humilde Nazaré (Lucas 1,26), anuncia a Maria o inaudito, sem precedentes na história de Israel. O Filho que vai nascer (Lucas 1,31) não surge como o fruto de um desejo ou de uma súplica de Maria, não vem cumprir nenhum projeto de Maria, nenhuma espera ou expetativa de Maria, nenhuma programação desde baixo! Antes pelo contrário, dado que Maria avança mesmo a impossibilidade real de tal poder vir a acontecer: «Como poderá isso acontecer, pois não conheço homem?» (Lucas 1,34). Contraste exposto a toda a luz: João é fruto de um intenso desejo e correspondente súplica de Isabel e Zacarias; Jesus é fruto da iniciativa surpreendente, livre e gratuita de Deus, não dedutível ou programável da nossa parte. É como se as escolhas dos pais de João Batista, por um lado, e da mãe de Jesus, por outro, derivassem de duas lógicas diferentes. Contemplando este cenário e parafraseando Bento XVI (Exortação Apostólica Verbum Domini [2010], n.º 123), poderíamos dizer assim: «nós podemos programar uma festa,/ mas não podemos programar a alegria,/ não podemos programar Maria». Ela salta fora do horizonte do desejo, não é possível encerrá-la dentro do perímetro da linguagem, da fita métrica das palavras por mais extensa que ela seja, como quando longa e belamente desfiamos as contas, a harizah das ladainhas.

4. Ultrapassada a objeção, Maria responde: «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra» (Lucas 1,38). Na Bíblia, apenas os grandes chamados (Moisés, Josué, David) são denominados «Servos do Senhor», sendo Maria a única mulher assim denominada. Deus chama, mas não impõe. A Maria, e a cada um de nós. Podemos sempre aceitar Deus ou esconder-nos de Deus. Deixar Deus entrar, ou fechar-lhe a porta. Maria aceitou, e, por isso, todas as gerações a proclamarão Bem-aventurada. É o que estamos hoje e aqui a fazer: Feliz és tu, Maria, pioneira de um mundo novo, porque acreditaste em tudo quanto te foi dito da parte do Senhor! Feliz também aquele que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática!

5. Memorial desta beleza incandescente é a Basílica da Anunciação, em Nazaré. Esta grandiosa Basílica, em três planos, foi inaugurada em 25 de Março de 1969, e foi visitada, ainda as obras estavam em curso, em 1964, pelo Papa Paulo VI. Escavações feitas antes desta grandiosa construção puseram a descoberto, e podem ver-se ainda hoje, os majestosos pilares de uma Catedral levantada em 1099 pelo príncipe cruzado Tancredo, bem como o pavimento em mosaico de uma igreja bizantina, que pode ser datada do ano 450. Mas, descendo mais fundo, até às entranhas da atual Basílica, acede-se à Gruta da Anunciação, sob cujo altar se lê a inscrição Verbum caro hic factum est [«Aqui o Verbo se fez carne»], e a outros lugares de culto antigos, talvez já do século II. Numa grafite antiga foi encontrada a gravação XE MAPIA, abreviação de Chaîre Maria, a primeira Ave-Maria da história.

6. Em consonância com a música do Evangelho, o Segundo Livro de Samuel documenta, no extrato lido hoje (7,1-16), o desejo de Deus vir habitar no meio de nós. Não num Templo de pedra, mas num Templo de tempo, podendo assim caminhar connosco sempre, como já fez com David, e quer continuar a fazer connosco. É usual, de resto, dizer-se que nós construímos o espaço, enquanto os judeus construíram o tempo!

7. Aí está também São Paulo a expor-nos, no final da Carta aos Romanos (16,23-25) a grande teologia bíblica do Mistério (mystêrion) do Amor de Deus, Mistério escondido eternamente em Deus (Romanos 16,25; Efésios 3,9; Colossenses 1,26), mas já presente e atuante na história dos homens desde a Criação (João 1,3; Colossenses 1,16) e agora dado a conhecer (gnôrízô) em Cristo (Romanos 16,25-26; Efésios 1,9; 3,3.10; Colossenses 1,27), tornando-se, portanto, Mistério conhecido (!), Revelação divina gratuita, doação do Dom e dicção do Dito, totalmente entregue aos homens, para a viverem totalmente. Este «para nós» do Mistério do Amor de Deus é o Propósito (próthesis) eterno divino (Romanos 8,28; Efésios 1,11), a Vontade (thélêma) eterna divina (Gálatas 1,4; Efésios 1,5.9.11) – em Deus, pensamento, expressão, comunicação, efeito, Alfa e Omega, são simultâneos e coeternos – de elevar a nossa humanidade a viver por graça ao nível da sua divindade (2 Pedro 1,4; 1 João 3,2). Ao contrário do significado usual que damos à palavra «mistério», na Bíblia, como se vê, «mistério» não é o que não se sabe, mas o que Deus, por graça, nos dá a saber. E é tanto e adorável, e, visto apenas do nosso pequeno patamar, impensável!

8. É por isso que a hora é de cantar. O tema é, claro está, a bondade e a graça de Deus, que desceu até nós numa história que também foi e vai tecendo por amor. O Salmo 89 insinua-se nas cordas do nosso coração, e não nos deixa parar de cantar eternamente as misericórdias do Senhor!

 

Se o Senhor não construir a casa,

Em vão trabalham os que a constroem.

Se o Senhor não guardar a cidade,

Em vão vigiam as sentinelas.

 

Não se pode esconder uma cidade

Situada no cimo de um monte,

Ou sobre a linha do horizonte,

Porque alumia, alumia, alumia,

Irradia, irradia, irradia,

De noite e de dia.

Cidade de alto-a-baixo erguida,

Como um manto de orvalho caída,

Como uma ermida,

Uma jazida de luz

E de Jesus.

 

Tudo ao contrário do que vem nos manuais ou nos jornais,

Lançai os fundamentos no céu,

Construí desde o cume,

Sobre o gume da Palavra

Que de Deus vem

Nascer em Belém

E aqui também.

 

Vem, Senhor Jesus!

Vem, vem, que Te esperamos!

 

António Couto


MAIS TERMOSTATOS, MENOS TERMÓMETROS

Dezembro 12, 2020

1. O Evangelho deste Domingo III do Advento põe em cena a figura de João Batista (João 1,6-8.19-28). Entalado entre os dois Testamentos, fechando a porta do Antigo, abrindo a porta do Novo, João, hebraico Yhôhanan [= «YHWH faz graça»], resume o Antigo Testamento e oferece o sumário do Novo Testamento. Não é um nome nosso, suportado pelos nossos registos anagráficos, como bem constatam os seus familiares reunidos, aos oito dias, para a festa da circuncisão e da dádiva do nome: na verdade, ninguém, entre os seus parentes, tinha esse nome (Lucas 1,61), pelo que todos ficaram admirados (Lucas 1,63).

2. Na verdade, esse nome veio do céu, como bem refere Lucas 1,13. E o IV Evangelho di-lo desta maneira estupenda e singela: «Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João» (João 1,6). João surge, portanto, neste imenso Evangelho sem qualquer amarra a este mundo: sem pai nem mãe (Zacarias e Isabel não são referidos), sem proveniência terrena, sem introdução, sem luz própria. Só Deus o precede e o sustenta.

3. Como pode, pois, responder à questão que lhe é posta acerca da sua identidade? Desvia de si mesmo todas as atenções: NÃO sou, NÃO sou, NÃO sou! NÃO é a Luz, NÃO é o Messias, NÃO é Elias, NÃO é o Profeta! Dirige todas as atenções para a LUZ, de quem dá testemunho, de quem é reflexo. João nunca responde: «Eu sou…». Mesmo quando responde à pergunta: «Para que possamos dar uma resposta àqueles que nos enviaram, que dizes de ti mesmo?» (João 1,22), João não responde, como aparece vulgarmente nas traduções: «Eu sou a voz do que clama no deserto» (João 1,23), mas literalmente: «Eu? A voz do que clama no deserto», evitando cuidadosamente a locução «Eu sou», que fica reservada para Jesus. E, ainda assim, tomando sempre as devidas precauções, João diz «voz» (phonê), e não «palavra» (lógos). Porque a Palavra (lógos) também é Jesus.

4. Sim, a LUZ, o EU SOU, a PALAVRA é Jesus. Mas Jesus é ainda, no certeiro dizer de João, «QUEM está NO MEIO de vós» (João 1,26). É de Jesus o lugar de honra. Face ao MEIO, no IV Evangelho, João aparece sempre «no outro lado do Jordão» (João 1,28; 3,26; 10,40), fora da Terra Prometida, mas apontando sempre para ela e para ELE. João é a inteira Escritura apontando Jesus em contraluz, em filigrana pura.

5. A luminosa página de Isaías 61,1-2.10-11 traça a vocação e a missão do anónimo profeta pós-exílico. Vocação e missão a transbordar de alegria e de beleza, que Jesus faz sua quando, na sinagoga de Nazaré, lhe apõe a sua assinatura com aquele: «Hoje cumpriu-se esta Escritura nos vossos ouvidos» (Lucas 4,21). Trata-se de um verdadeiro tornado que muda a história religiosa dos filhos de Deus, contagiando também a inteira criação.

6. Maria também canta essa alegria no magnificat (Lucas 1,46-54), hoje, Domingo da Alegria, elevado a Salmo Responsorial. E nós com ela, de geração em geração (Lucas 1,48). Isabel foi a primeira a proclamar «Feliz», «Bem-aventurada» (makaría) Maria, porque acreditou no cumprimento (teleíôsis) de tudo o que lhe foi revelado (laléô) da parte do Senhor (Lucas 1,45). Maria «cumprimentada» por Deus, por Isabel, por cada um de nós. Sim, porque Maria é a «causa da nossa alegria», como cantamos na sua litania. E é-o porque foi olhada com um olhar de graça (epiblépô) por Deus (Lucas 1,48), que fez (verbo da criação) para ela grandes coisas (Lucas 1,49), e assim vinha fazendo desde Abraão (Lucas 1,55), e assim continua a fazer ainda hoje e sempre.

7. E São Paulo, na sua Primeira Carta aos Tessalonicenses (5,16-24), também se associa a esta onda de Alegria, com o seu estilo próprio, sobrecarregado de imperativos e de totalidade: «Alegrai-vos sempre! Orai sem cessar! Em tudo dai graças […]. Não apagueis o Espírito. Examinai tudo: guardai o que é bom!».

8. Neste tempo, com tantos cristãos doentes, dormentes, parados, anémicos e anestesiados, e outros apagados ou doridos no meio da pandemia que a todos afeta, sobram Hoje incentivos para uma vida nova. No meio do frio próprio do tempo, o Domingo III do Advento atira-nos uma imensa chama de Alegria. Tempo novo. Jesus, a Luz, no Meio. E nós por perto, ao redor dessa fogueira. Haverá, por certo, assim esperamos, mais termostatos, e menos termómetros.

 

São estes os caminhos do Advento,

Cheiinhos do vento do Espírito,

Que derruba as folhas secas das árvores,

E nos faz ver

Que somos todos como a erva,

E a nossa glória não é mais do que a flor da erva.

Mas seca a erva e murcha a flor,

E nós passamos.

 

Sim, estamos de passagem.

Mas sentimos no rosto,

Ou talvez no coração,

A tua aragem mansa,

Que nos enche de paz e confiança.

 

O Advento é uma escola de esperança

E de oração,

De coragem e de alento.

O Advento é uma viagem

Até ao nascimento

Do menino de Belém,

Lá,

E dentro de nós também.

 

António Couto


ALEGRA-TE, MARIA!

Dezembro 7, 2020

1. «Fazendo memória da Toda Santa, imaculada, sobre bendita, gloriosa Senhora nossa, Mãe de Deus e Sempre Virgem Maria, juntamente com todos os Santos, consagramo-nos nós e toda a nossa vida a Cristo Deus». Assim se conclui, no rito bizantino, a oração que abre a celebração deste Dia, à qual a assembleia responde: «a Ti, Senhor!». É o «fiat», o «faça-se» dito por Maria (Lucas 1,38), a Serva do Senhor, a ecoar também no nosso coração e a brotar dos nossos lábios. É o eco daquele «faça-se» de Deus na primeira página da Escritura Santa a ecoar no coração de Maria e no nosso também. É aquele «Sim» imenso que atravessa as primeiras 452 palavras da Escritura Santa (Génesis 1,1-2,4a), onde não se lê um único «Não». «Tudo, na verdade, foi feito pelo Verbo» (João 1,3), «n’Ele foram criadas todas as coisas» (Colossenses 1,16), e o Verbo Incarnado, Jesus Cristo, no dizer do Apóstolo, «foi sempre Sim, e nunca não» (2 Coríntios 1,19). Aí está a filigrana que faz vibrar a melodia e mostra a verdadeira harmonia da Escritura. Imensa sintonia a ecoar hoje em tantos corações! As partituras desta música divina vêm hoje de Lucas 1,26-38, Génesis 3,9-15.20, Efésios 1,3-6.11-12 e do Salmo 98.

2. É bom sabermos e sentirmos que as Igrejas do Oriente e do Ocidente, embora divididas entre si, nos dias 8 e 9 de Dezembro (8 no Ocidente e 9 no Oriente), nove meses antes da Festa da sua Natividade (8 de Setembro), juntam as suas vozes em maravilhosa harmonia para celebrar a Mãe de Deus no singular privilégio da Conceição Imaculada da sua humanidade.

3. Bem sabemos, além disso, que os Coptos dedicam a Maria o inteiro mês de Kiahq, que coincide mais ou menos com o nosso mês de dezembro, e os Caldeus, os Antioquenos e os Maronitas celebram, também nesta altura do ano, e durante pelo menos quatro Domingos, o tempo do chamado Sûbbarâ ou «Anunciação» ou «Evangelização», Vinda de Deus ao nosso mundo, notícia após notícia, para abrir as nossas trincheiras e fazer nascer em nós um mundo novo, ecoar um cântico novo.

4. «Onde estás?», pergunta o Deus-Que-Vem por amor ao encontro da sua criatura dileta (Génesis 3,9). «Tive medo e escondi-me», respondemos nós, amedrontados (Génesis 3,10). A narrativa exemplar de Génesis 3, que hoje lemos, desvenda todas as nossas inúteis estratégias de defesa, e faz-nos ver como nós nos escondemos de nós mesmos e de Deus, e como alijamos facilmente as nossas culpas sobre os outros. Correto, limpo, terapêutico, salvador, era assumirmos e confessarmos humildemente as nossas culpas. Mas não. Fugimos, escondemo-nos de nós, e respondemos: «Foi a mulher», «foi aquele», «foi aquela», e, em última análise, «foste Tu, foste Tu, Deus» (Génesis 3,12), porque foste Tu que me deste a maravilha de um irmão, de uma irmã, e foi esse irmão dado por Ti, essa irmã dada por Ti, que me deu a comer daquele fruto, fruto de um furto! És Tu, portanto, e em última análise, o culpado. Aí estamos nós a fugir de nós mesmos, e a acusar os outros! E se não assumimos as nossas culpas, como podemos corrigir os nossos erros, e como podemos chegar a descobrir a realidade humana e divina do perdão? Sim, porque quando nos escondemos de Deus, estamos também a esconder Deus e os seus dons, a Alegria, o Amor, o Perdão.

5. Sim, esta história tem sempre a ver connosco. Basta ler este relato rabínico: estando o Rabbi Shneur Zalman (1745-1812) preso em S. Petersburgo, entrou na sua cela o comandante da guarda, e pôs-se a conversar com ele sobre assuntos diversos. No final, perguntou: «Como se deve interpretar que Deus Omnisciente pergunte a Adam: “Onde estás?”». «Você acredita, respondeu o Rabbi, que a Escritura é eterna e que diz respeito a todos os tempos, a todas as gerações e a todas as pessoas?». «Sim, acredito», disse o comandante da guarda. «Então, respondeu o Rabbi, em cada tempo Deus pergunta a cada homem: “Onde estás no teu mundo? Dos dias e dos anos que te foram atribuídos, já passaram muitos: entretanto, até onde é que tu chegaste no teu mundo?”. Deus disse, por exemplo: “Vê, já há 46 anos que andas aqui. Onde te encontras?”». Ao ouvir o número exato dos seus anos, o comandante sentiu dificuldade em controlar-se, pôs a mão no ombro do Rabbi, e exclamou: «Bravo!». Mas o seu coração tremia.

6. É usual dizer-se que esta conhecida página do Livro do Génesis narra a entrada do mal no coração do homem e no mundo. Mas do que se trata mesmo é da importância da relação do homem com Deus, e diz-nos que o mal entra no mundo quando o homem quebra esta relação e se desliga de Deus. Por isso também, daí para a frente, a Escritura Santa ocupa-se em mostrar que a resposta a dar ao mal não é apenas o bem, mas o santo. Entenda-se: não o homem fechado sobre si, autossuficiente e autorreferencial, mas completamente aberto e voltado para Deus, de quem por amor tudo recebe e se recebe. E completamente voltado para os outros, a quem tudo entrega por amor. Como Maria, a figura deste luminoso Dia.

7. Cantemos, pois, com o Salmo 98, um cântico novo, que tenha a idade e a fidelidade do amor, ao Deus que vem para julgar amando, e renovar, sempre amando e acariciando, a terra do nosso coração. E levantar-se-á então, desde o santuário do nosso emocionado coração, o hino coral e universal, que é o belo Salmo 98. Tudo e todos são chamados a formar uma bela orquestra, que nunca deixe de cantar os louvores de Deus. Desde o Templo (harpa, cítara, shôphar) até à inteira criação: mar e terra, rios (que são os braços e as mãos do mar, e, por isso, batem palmas), montes e colinas. Cantai, pois, um cântico novo, que tenha a idade e a fidelidade do amor, ao Deus que vem para julgar, amando, e renovar, sempre amando e acariciando, a terra, às vezes dura, do nosso coração.

8. Em perfeita sintonia, aí está o Apóstolo a dizer o fundamental: «que Deus nos escolheu para sermos santos» (Efésios 1,4) e para nos dar, através de Jesus Cristo, a nossa verdadeira identidade, a filiação divina (hyiothesía) (Efésios 1,5; Romanos 8,14.16-17; Gálatas 4,6-7), que nos faz «membros da família de Deus» (Efésios 2,19), «filhos de Deus» (1 João 3,2), «filhos no Filho», unidos no mesmo amor, unidos na ordem do amor, logo irmãos. Não somos, portanto, simples continuadores de Jesus Cristo, mas seus contemporâneos e seus irmãos. Entrando assim, por graça, na casa de Deus (Efésios 4,19), andaremos sempre na sua presença. Ele é o Deus Santo que nos santifica.

9. O ícone desta santidade, neste mundo, é Maria, no grande texto da Anunciação (Lucas 1,26-38). Vale a pena contemplá-la demoradamente, como fazem as Igrejas do Oriente e do Ocidente. Ao contrário de nós, Maria, visitada por Deus, não foge, não se esconde de si mesma, não se esconde de Deus, não esconde Deus na sua vida. Tinha consagrado a Deus toda a sua vida, a sua virgindade. Não sendo usual no mundo judaico do seu tempo, esta maneira de viver está, porém, solidamente documentada por parte de homens e mulheres. Ao contrário do homem do Génesis e desta sociedade em que vivemos, Maria não se esconde de Deus nem esconde Deus. Expõe-se, na sua verdade e simplicidade, ao imenso clarão de Deus. É assim que se expõe a Deus e que expõe Deus, recebendo e aceitando com amor intenso a sua nova Vocação que lhe vem de Deus. Maria vai ser a Mãe, não de um filho, mas do Filho há muito ansiado, esperado e anunciado nas páginas da Escritura Santa Antiga. É o Filho de Deus, totalmente consubstancial a Deus, e é o Filho de Maria, totalmente consubstancial à sua Mãe. Santa Maria, Mãe de Deus.

10. Por isso, «Alegra-te, Maria» [= «Chaîre Maria»; «Ave Maria»], «não tenhas medo», «o Senhor está contigo» (Lucas 1,28 e 30). Alguns anos mais tarde, as mulheres que vão ao túmulo de Jesus ouvirão também a mesma música divina: «Alegrai-vos», «não tenhais medo» (Mateus 28,5 e 9). E nós, Assembleia Santa que hoje se reúne para celebrar os mistérios do seu Senhor e também de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, estamos também permanentemente a ouvir esta divina melodia. Portanto, irmãos amados em Cristo, Alegrai-vos, não tenhais medo, o Senhor está no meio de nós!

11. «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra» (Lucas 1,38). Deus chama, mas não impõe. A Maria, e a cada um de nós. Podemos sempre aceitar Deus ou esconder-nos de Deus. Deixar Deus entrar, ou fechar-lhe a porta. Maria aceitou, e, por isso, todas as gerações a proclamarão Bem-aventurada (Lucas 1,48). É o que estamos hoje e aqui a fazer: Feliz és tu, Maria, pioneira de um mundo novo, porque acreditaste em tudo quanto te foi dito da parte do Senhor (Lucas 1,45)! Feliz também aquele que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática (Lucas 11,28)!

12. Memorial da beleza incandescente desta página é a Basílica da Anunciação, em Nazaré. Esta grandiosa Basílica, em três planos, foi inaugurada em 25 de Março de 1969, e foi visitada, ainda as obras estavam em curso, em 1964, pelo Papa Paulo VI. Escavações feitas antes desta grandiosa construção puseram a descoberto, e podem ver-se ainda hoje, os majestosos pilares de uma Catedral levantada em 1099, pelo príncipe cruzado Tancredo, bem como o pavimento em mosaico de uma igreja bizantina, que pode ser datada do ano 450. Mas, descendo mais fundo, até às entranhas da atual Basílica, acede-se à Gruta da Anunciação, sob cujo altar se lê a inscrição Verbum caro hic factum est [«Aqui o Verbo se fez carne»], e a outros lugares de culto antigos, talvez já do século II. Numa grafite antiga foi encontrada a gravação XE MAPIA, abreviação de Chaîre Maria, a primeira Ave-Maria da história.

13. A uns 200 metros para nordeste encontra-se a Igreja da Nutrição, que guarda a memória de S. José e dos «irmãos de Jesus» do ramo de José, muito zelosos dos seus direitos, tradição bem conhecida na Igreja primitiva, a partir do século II, e fechados aos gentio-cristãos pelo dogma da habdalah [= separação entre os judeo-cristãos e os cristãos da Grande Igreja]. Nesse sentido, é sabido que em 570 impediram o Anónimo de Piacenza de visitar a «casa de José», e, em 614, alistaram-se com os Persas do rei Cosroé II, vindo ao de cima o seu zelo destruidor de igrejas «cristãs». Com a vitória de Heráclio, estes judeo-cristãos nazarenos levaram consigo as suas tradições sobre Nazaré e S. José, e ter-se-ão refugiado junto dos coptos egípcios. Logo a seguir, em 670, Arculfo já pôde visitar e descrever a casa de S. José em Nazaré. A descrição de Arculfo vê-se confirmada mais tarde, nas escavações do P. Viaud e de Fr. Benedetto Vlaminck, nos anos de 1890 e 1909-1910, e, mais tarde ainda, em 1970, pelo P. Bagatti.

14. Foi o Concílio de Basileia (1439) que sugeriu a definição do dogma da Imaculada Conceição, proclamado depois por Pio IX em 08 de Dezembro de 1854, através da bula Ineffabilis Deus. Note-se que o termo «conceção», na linguagem bíblica, indica a totalidade da existência. O velho orante do Salmo 71, olhando retrospetivamente para a sua vida de fidelidade e de amor, exclama extasiado: «Sobre ti me apoiei desde o ventre, desde as entranhas de minha mãe» (Salmo 71,6). Assim também, a existência de Maria está, desde o seu início, sob a proteção de Deus, marcada com o selo de Deus, não estando nunca sob o selo do pecado original, que mostra a existência humana marcada por um projeto alternativo ao de Deus, em que cada existência humana, eu, o meu pai, os filhos que aparecerão sobre a face da terra, queremos ser por nossas próprias forças «como deus, conhecedores do bem e mal» (Génesis 3,5).

15. Esta celebração da Mãe de Deus e nossa Mãe e Padroeira Principal de Portugal é um desafio imenso para o homem «em fuga» deste tempo, que se esconde de si mesmo, que continua a esconder-se de Deus, e que pretende esconder Deus, retirando-o da via pública e da vida pública. Atravessamos verdadeiramente a «noite do mundo» (Weltnacht), diz Martin Heidegger, onde «Cada um está sozinho no coração da terra/ atravessado por um raio de sol:/ e é logo noite», como bem escreve o escritor italiano Salvatore Quasimodo. Homem deste tempo às escuras, engessado, triste, exilado, escondido, anestesiado e medicado, volta para a Luz, reentra em tua casa, no teu coração despedaçado. Há-de seguramente por lá haver ainda, caída no fundo da alma, uma lágrima dorida e uma mão de Mãe à tua espera!

 

Senhora de dezembro,

Maria, minha Mãe,

Passa hoje o dia

Da tua Imaculada Conceição.

 

Senhora de dezembro,

Dos dias frios e frágeis,

Dos passos firmes e ágeis,

Do coração que velava

À espera de quem te amava.

 

Assim te entregaste a Deus,

De coração inteiro,

Como um tinteiro

Todo derramado numa página.

 

Tu és a mais bela página de Deus,

Por Deus pensada, amada, visitada,

A Deus doada, apresentada, dedicada,

Mãe da vida consagrada,

Imaculada,

Ensina-me a tua tabuada,

A tua nova alegria,

A luz do Evangelho que te aquece e alumia.

 

Eu te saúdo, Maria,

Neste dia da tua Imaculada Conceição.

Ave-Maria.

 

António Couto


JOÃO BATISTA E OS HOMENS-CANA

Dezembro 5, 2020

1. O Evangelho deste Domingo II do Advento (Marcos 1,1-8) põe em cena uma das grandes figuras do Advento: João Batista. Não, não vive num palácio, não ostenta poder e riquezas, não é dono de nada nem de ninguém, não fala de si mesmo. É um servo cuja alegria é servir Aquele-que-Vem, a sua casa é o deserto, o seu dizer não é vanglória autorreferencial, é dizer Outro. Veste-se rudemente com o que o deserto dá, o seu alimento frugal recebe-o do deserto, isto é, da mão de Deus. João aparece retratado como Elias. São as duas únicas personagens, em toda a Bíblia, que se vestem com pêlos de camelo (Marcos 1,6; cf. 2 Reis 1,8). É um homem essencial, reto, puro e duro como um tronco. Não, não é um homem-cana. A cana é oca, e pode ser também cana rachada (Isaías 42,3) e agitada pelo vento (Mateus 11,7).

2. Nunca faltaram e nunca faltarão, na humana paisagem, homens-cana, ocos, vazios e oscilantes, em abundância. Talvez o sejamos nós também. É, então, a nós também que João Batista chama ao deserto, ao essencial, à confissão dos pecados, a alijar a carga inútil de mentiras, devaneios e vaidades.

3. O deserto ensina o essencial. No deserto aprende-se o essencial. Não há por onde fugir, fingir, mentir. Somos mesmo efémeros, pobres, indigentes, dependentes. O deserto devolve-nos a nossa verdadeira identidade alteritária. No deserto vê-se mesmo Deus vir em nosso auxílio. E aprende-se a lição de que somos irmãos. Entram em curto-circuito os nossos circuitos fechados, egolátricos, egocêntricos, autorreferenciais. Vale a pena prestar atenção ao texto do Evangelho que hoje se abre diante de nós:

«Início do Evangelho de Jesus Cristo [Filho de Deus] (archê toû euaggelíou Iêsoû Christoû [hyioû theoû]). Como está escrito em Isaías, o profeta: “Eis que envio (apostéllô) o meu mensageiro (ággelós mou) diante da tua face (prò prosôpou sou), o qual preparará o teu caminho (hodós sou). Voz de um que grita no deserto: “Preparai o caminho do Senhor (hodós kyríou), fazei direitas as suas veredas”. Aconteceu João a batizar no deserto e a anunciar (kêrýssô) um batismo de conversão para a remissão dos pecados. E saía (exeporeúeto: imperf. de ekporeúomai) para ele toda a região da Judeia e todos os habitantes de Jerusalém, e eram batizados (ebaptízonto: imperf. pass. de baptízô) por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. E João andava vestido de pêlos de camelo e um cinto de pele à volta dos seus flancos, e alimentava-se de ganfanhotos e mel silvestre. E anunciava (ekêryssen: imperf. de kêrýssô), dizendo: “Vem (érchetai) o mais forte do que eu (ho ischyróterós mou) depois de mim, do qual eu não sou competente (ikanós), inclinando-me, de desatar a correia das suas sandálias. Eu batizei-vos em água, mas ele batizar-vos-á no Espírito Santo”» (Marcos 1,1-8).

4. Em relação a quanto se vai seguir, este texto assinala o início. Em relação a quanto precede (Antigo Testamento), dada a citação do Profeta, este texto assinala o cumprimento. João é o homem do deserto, e aponta o essencial. Indica Aquele-que-Vem, cuja vocação é mesmo vir e ficar no meio de nós. João é provisório. Lava com água as nossas banalidades. Mas mesmo nisto, João é único. Eram conhecidos, entre os judeus, os banhos e abluções religiosas em ordem à purificação. E aqueles que procuram João não tomam um dos habituais banhos de purificação. É João que os batiza. Esta forma de fazer é de tal modo insólita que João recebe o nome de «Batista», sendo, na verdade, em mundo judaico, o primeiro que batiza outros. Aquele-que-Vem é definitivo, Primeiro e Último, dá o Espírito Santo sem medida, a vida divina, admite à comunhão com Deus. João vive em função d’Aquele-que-Vem. O que João faz [«chama à conversão para o perdão dos pecados»] é em ordem ao Fazer novo e criador d’Aquele-que-Vem com o Espírito Santo, que tem e dá a Vida verdadeira.

5. A citação dita do profeta Isaías (Marcos 1,2) é, afinal, uma composição de Malaquias 3,1 e de Isaías 40,3. Em Malaquias 3,1, lemos assim, com Deus a falar em primeira pessoa: «Vou enviar o meu mensageiro, e ele preparará o meu caminho diante de mim…». O próprio Malaquias dirá mais à frente (3,23) que este mensageiro é Elias. O texto de Marcos atualiza a citação, mudando dois pronomes, para mostrar a importância d’Aquele-que-Vem: «Vou enviar o meu mensageiro diante de ti, o qual preparará o teu caminho». Vê-se bem que continua a ser o mensageiro de Deus (meu) que é enviado; é-o, porém, para preparar o caminho de Jesus (teu), adiante de Jesus (ti). E este mensageiro é agora João Batista, que cumpre, todavia, a função de Elias (cf. Marcos 9,13; Mateus 11,14). A citação de Isaías 40,3 aparece sem alteração no texto de Marcos 1,3: «Voz do que clama no deserto: “Preparai o caminho do Senhor”», em que a voz é João, e o caminho do Senhor é o caminho d’Aquele-que-Vem, Jesus, o Filho de Deus, que nós devemos preparar. A vinda d’Aquele-que-Vem é tão importante, que não basta ficar à espera d’Ele. É preciso preparar-se para essa Vinda.

6. «Caminho santo [Via Sacra]: Ele mesmo andará nesse caminho» (Isaías 35,8). O caminho do Advento não é tanto o nosso caminho para Deus. É mais, muito mais, e aqui está a surpresa boa, desconcertante e transformante, o caminho de Deus para nós! Sim, Deus vem visitar-nos! Deus Vem!

7. E que significado atribuir à anotação da incompetência (ikanós) de João para desatar a correia das sandálias d’Aquele-que-Vem (1,7)? Será simplesmente uma confissão de humildade por parte de João face a Alguém que lhe é incomparavelmente superior? Esta tonalidade está certamente presente, mas não esgota a metáfora das sandálias. Trata-se, desde logo, de um dizer importante, pois encontramo-lo por cinco vezes no Novo Testamento: Mateus 3,11; Marcos 1,7; Lucas 3,16; João 1,27; Atos dos Apóstolos 13,25. Num célebre artigo, intitulado «As sandálias do Messias noivo», Luís Alonso-Schökel levou este dizer e esta metáfora para o domínio da esponsalidade do Messias. De acordo com o referido nos Salmos 60,10 e 108,9, «pôr a sandália sobre» significa «tomar posse de»; é, portanto, linguagem jurídica de posse. Em Deuteronómio 25,5-9, o não-cumprimento da lei do levirato implica que seja retirada a sandália ao cunhado não cumpridor da lei, gesto que garante a sua perda de posse no domínio matrimonial. Aqui já se trata de direito matrimonial. Em Rute 4,7-10, temos um caso jurídico concreto em que o que tem o direito de resgatar o património e de desposar Rute prescinde desse direito. Para o dizer juridicamente, em reunião pública realizada à porta da cidade (Rute 4,1), o homem em causa tira a sandália e entrega-a a Booz, que fica assim com o direito de resgatar o património e de desposar Rute. A metáfora da sandália em Marcos 1,7 e nos demais dizeres do Novo Testamento que anotámos significa também que é Jesus o noivo, a quem assiste o direito de desposar Israel, e que a João não assiste esse direito ou competência.

8. Por isso, «Consolai, consolai o meu povo», diz Deus, «falai ao coração de Jerusalém», diz Deus (Isaías 40,1-2). «Sobe a uma alta montanha, EVANGELISTA (mebasseret) Sião, levanta com força a tua voz, EVANGELISTA (mebasseret) Jerusalém; levanta-a, não temas, diz às cidades de Judá: “Eis o vosso Deus, eis o Senhor YHWH! Com poder Ele VEM, no seu braço a soberania para Ele, eis o Seu salário com Ele, e a Sua recompensa diante d’Ele. Como um pastor o seu rebanho apascenta, com o Seu braço reúne-o, no Seu colo os cordeiros carrega, as ovelhas que amamentam conduz com carinho» (Isaías 40,9-11). A boa metodologia da Evangelização tem o seu modelo em Deus-que-Vem ao nosso encontro para cuidar de nós com carinho. E continua a realizar-se através do anúncio que devemos fazer acompanhado do fazer das nossas mãos carinhosas.

9. O texto de Isaías documenta a fantástica passagem do arauto masculino (mebasser) para o feminino (mebasseret), designando com esse nome a própria Cidade de Sião ou Jerusalém personificada e EVANGELIZADORA das suas cidades irmãs. Esta imagem tem sido vista por alguns comentadores como grotesca. Mas é, na verdade, o que o texto diz. Cidade EVANGELIZADA, que se transforma naturalmente em EVANGELIZADORA. Estamos nas nascentes do termo «Evangelho». E vê-se também já, com suficiente clareza, que a Notícia é Deus que vem! Não, Deus não salva o seu povo com programas feitos à distância nem com conceções teológicas friamente administradas desde cima. Deus vem!

10. Portanto, adverte S. Pedro (2 Pedro 3,8-14), o tempo de Deus não é o nosso tempo. Um dia, para Ele, é como mil anos, mil anos como um dia (2 Pedro 3,8; cf. Salmo 90,4). É a paciência de Deus que espera a nossa conversão. O nosso tempo é dado, concedido para alijarmos futilidades que nos pesam e nos prendem. Passarão. O Advento reclama de nós vestidos novos, dado que novos céus e nova terra surgirão (2 Pedro 3,13), habitados por filhos e irmãos, que entendem a nova linguagem da paz, justiça, fidelidade, mansidão, misericórdia (Salmo 85).

11. O famoso poeta inglês John Milton (1608-1674) lerá assim os versos 9-14 do nosso Salmo 85 numa Ode natalícia, datada de 1629: «Sim, Fidelidade e Justiça, então,/ voltarão para junto dos homens,/ envoltas num arco-íris, e, gloriosamente vestida,/ a Bondade sentar-se-á no meio…/ E o céu, como para uma festa,/ escancarará as portas do seu palácio excelso».

 

O Senhor do Advento

É Aquele-que-Vem

Nascer em Belém,

Bater à nossa porta,

Pedir ao nosso coração

Um bocadinho de pão.

 

Tão pouco e tanto

Nos pede Jesus,

E para nosso espanto,

E para encanto nosso,

O Filho de Maria

Vem vestido de irmão nosso

De cada dia.

 

Ele anda por aí,

Ao frio e ao calor,

Rico e pobrezinho,

Nosso Senhor.

 

Vem, Menino,

Senhor do mundo,

Do sol e da lua,

Bate à minha porta,

Entra em minha casa,

E que, por graça,

Entre eu também na tua.

 

António Couto