OUSAR DIZER «PAI NOSSO»

1. Entrados pelo Novo Testamento adentro, eis que Deus nos aparece agora como «Pai» e como «Filho» no plano pessoal. Dizer que o Deus bíblico é «Pai» é uma afirmação de uma enorme ousadia, pois implica reconhecer a sua proximidade carinhosa e de extrema ternura em relação a nós, mantendo embora a sua transcendência, obviamente sem confusão de naturezas. Mas dizer agora que o Deus bíblico é também «Filho» é de uma ousadia ainda maior, pois confessar que Deus é «Filho» é dizer que Deus é também recetividade.

2. Este «Filho» Deus, Jesus, que, sem rutura nem descontinuidade, recebe tudo o que tem e é, do Pai (Mt 11,27; Jo 3,35; 10,18; 13,3; 17,7; Ap 2,28) – a sua identidade de «Filho» consiste em receber tudo do Pai –, revela o Pai. Revela o Pai naquilo que diz e naquilo que faz. Bastaria uma vista de olhos por algumas parábolas que ele conta para vermos o rosto do Pai de misericórdia ou «das misericórdias» ou «compaixões» (ho patêr tôn oiktirmôn) (2 Cor 1,3). O texto clássico é a chamada «parábola do filho pródigo» (Lc 15,11-32), mais facilmente compreensível se se intitular «parábola do Pai das misericórdias», dado que é o Pai a personagem central do relato. Mas fixemo-nos na oração do «Pai nosso», que é sem dúvida um dos mais privilegiados acessos ao Deus «Pai» da Bíblia.

3. Já sabemos que os Evangelhos nos oferecem duas versões dessa oração: Mt 6,9-13 e Lc 11,2-4. Começamos pela versão de Lucas, que pode muito bem trazer-nos o contexto primitivo. Nesta versão, a oração ao Pai compõe-se de cinco pedidos. Jesus aparece ao fundo da cena, a rezar sozinho ao Pai, totalmente voltado para o seio do Pai (Jo 1,18), completamente ocupado nas Realidades do Pai (Lc 2,49), repousando toda a sua existência no Pai. Os discípulos veem Jesus a rezar, mas não ousam interromper tão intensa corrente de confiança e de amor. Veem apenas. O deslumbramento tolhe-lhes os movimentos e as palavras. Mas eis que Jesus termina a sua oração ao Pai. Então, ainda extasiado, um dos discípulos, em nome de todos – também em nosso nome –, atreveu-se a formular este pedido: «Senhor, ensina-nos a rezar como João Batista ensinou a rezar os seus discípulos!».

4. E foi então que Jesus ensinou a eles e a nós, a todos, o segredo mais profundo da sua vida e da nossa vida, a orientação da sua vida e da nossa vida: para onde, melhor, para quem devem estar sempre voltados o nosso coração, os nossos olhos, as nossas mãos, os nossos pés, a nossa vida toda. E disse:

«Quando rezardes, dizei:

Pai (páter),

1. Santifica o teu Nome,

2. Venha o teu Reino,

3. Dá-nos o pão nosso (árton hêmôn) de cada dia,

4. Perdoa os nossos pecados,

5. Não nos deixes cair na tentação”» (Lc 11,2-4).

Compreendemos bem, e os especialistas referem-no, que não se trata de uma lição teórica, mas da comunicação de uma experiência.

5. Na versão de S. Mateus, a oração do «Pai nosso» compõe-se de sete pedidos, está integrada de forma redaccional no contexto amplo do grande «Sermão da Montanha» (Mt 5-7), de que ocupa o centro da composição dos três Capítulos, como se pode ver no seguinte diagrama, da responsabilidade de Marcel Dumais:

(A) Mt 5,1-2 = Audiência: discípulos e multidões

(B) Mt 5,3-16 = Introdução: Felicitações e Declarações

(C) Mt 5,17-19 = A Lei e os Profetas

(D) Mt 5,20-48 = Seis antíteses

(E) Mt 6,1-4 = Esmola

(F) Mt 6,5-15 = PAI NOSSO

(E’) Mt 6,16-18 = Jejum

(D’) Mt 6,19-7,11 = Entesourar, inquietar-se, julgar, pedir

(C’) Mt 7,12 = A Lei e os Profetas

(B’) Mt 7,13-27 = Conclusão: Exortações

(A’) Mt 7,28-29 = Audiência: reacção das multidões: ensino com autoridade

O seu contexto restrito são os ensinamentos acerca da esmola (eleêmosýnê) no segredo (en tô kryptô) (6,1-4), da oração no segredo (6,5-6) e do jejum no segredo (6,16-18). Vê-se bem que, neste contexto restrito das três práticas fundamentais da piedade judaica, a oração aparece interposta entre a esmola e o jejum, isto é, em termos retóricos, ocupa o lugar privilegiado: o centro. No que se refere àquela insistência «no segredo», salta à vista que a prática da piedade judaica, com a oração em destaque, é posta no seguimento do grande Salmo 51,8: «Eis que de verdade Tu te comprazes no íntimo (tuhôt TM = o que está debaixo do reboco),/ e no segredo (satum TM;  tà krýphia LXX) a sabedoria Tu me fazes conhecer». Rezar, que é ousar pôr-se, não diante dos homens, mas diante de Deus, faz-se, portanto, «no segredo», na cripta, no íntimo, debaixo do reboco, sem fingimento, sem máscaras, sem qualquer verniz social, cultural, económico, religioso. Rezar é um ato de verdade, sem defesa, sem reboco. O reboco é a caliça que esconde a verdade da parede. Podemos viver caiados, mascarados, betumados, rebocados. Rezar é tudo por debaixo disso. Desde a medula dos ossos ou desde o coração.

«Portanto, rezai assim:

Pai nosso (páter hêmôn) que estás nos Céus,

1. Santifica o teu Nome,

2. Venha o teu Reino,

3. Faça-se a tua Vontade,

4. Dá-nos hoje o pão nosso (árton hêmôn) deste dia,

5. Perdoa os nossos pecados,     

6. Não nos deixes cair na tentação,

7. Livra-nos do mal”» (Mt 6,9-13).         

6. É convicção assente entre os especialistas que o contexto de Lucas é de preferir ao de Mateus, claramente redaccional. Mas também o texto mais curto de Lucas parece ser em geral mais primitivo, a começar pela invocação («Pai» / «Pai nosso que estás nos Céus»). A passagem de cinco para sete pedidos resulta do acrescento de dois pedidos, um no final da primeira parte, outro no final da segunda. Cinco ou sete pedidos que Jesus nos ensinou a dirigir ao Pai. Sim, antes de mais, Jesus ensinou-nos a estar perante Deus com total confiança, simplicidade e verdade, tal como uma criancinha com o seu «papá» (’abba’) ou com a sua «mamã» (’imma’), em quem a criancinha vê a única direção da sua vida, a proteção e a defesa, o socorro e o sustento, a confidência que nunca engana. De acordo com os Evangelhos, sempre que Jesus se dirige a Deus, emprega a expressão «meu Pai», exceto num único caso, que é o grito na Cruz: «meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Mc 15,34), que é uma citação do Salmo 22,2. Mas Joachim Jeremias faz-nos ver ainda que sempre que Jesus, na sua oração, se dirigia a Deus como ao seu Pai, se servia do termo aramaico ’abba’ (Mc 14,36), termo que chegou, de resto, na língua aramaica, a tomar o sentido de «o pai» e «meu pai», e a substituir de vez em quando «seu pai» e «nosso pai». Esta invocação, que ressoa ainda nas primeiras comunidades cristãs (Rm 8,15; Gl 4,6) traduz a total liberdade e confiança (parrêsía) de quem reza. Por isso, Jesus não quis que invocássemos a Deus apenas com o nome adulto de «Pai» (՚Ab), título institucional que podia deixar perceber alguma frieza, distância, respeito e autoridade. Como sabemos, já no Antigo Testamento e nos textos judaicos, os hebreus e judeus piedosos, com imenso respeito e adoração, falavam de Deus ou a Deus com o nome de «Pai». Jesus, porém, queria dizer uma realidade nova, e por isso recorreu ao aramaico ’Abba’ [= Papá], linguagem hipocorística [= Ab-bá / im-má // pap-pá / mam-mã], uma Lallwort de intolerável confiança, que nunca encontramos no AT nem nas inúmeras orações judaicas. Era impensável para um judeu chamar a Deus ’Abba’, termo que pertence à linguagem infantil familiar. Ao adotar esta invocação sem precedentes na piedade de Israel, dirigindo-se a Deus como uma criança ao seu papá, sem qualquer distância ou temor – digamos mesmo sem nenhum respeito! –, mas com imensa ternura e carinho, Jesus desvela o verdadeiro Rosto de Deus, ao mesmo tempo que mostra a sua (e a nossa) inaudita confiança n’Ele. É por isso que basta «o pão de um dia!». Neste particular, é de preferir o texto de Mateus («dá-nos hoje o pão deste dia») ao de Lucas («dá-nos o pão de cada dia»). O pedido «Dá-nos hoje o pão deste dia» acentua a nossa radical confiança em Deus e dependência de Deus. O imperativo aor2 dós (de dídômí) concerne um ato único (com a precisão do «hoje», sêmeron), ao contrário do imperativo presente dídou, de Lucas, que é iterativo, traduzindo atos repetidos de dar, e do kath’ êméran [= cada dia]. De acordo com o texto de Mateus, uma sentença do rabino Eleazar de Modim (séc. II) diz: «Aquele que tem que comer hoje e diz: “Que comerei amanhã?”, é um homem de pouca fé».

7. De notar ainda que, não obstante os pedidos serem 5 em Lucas e 7 em Mateus, o pedido do centro (n.º 3 em Lucas; n.º 4 em Mateus), que é o que estrutura ou concentra a oração, permanece o mesmo: «Dá-nos o pão deste dia»! O pão de um dia! (cf. Ex 16,4). É ainda importante notar que este pedido central é o único que se coaduna com a invocação «Pai nosso» ou «Pai», pois o pai é, por natureza, aquele que dá o pão. Se é sobre este pedido que se concentra toda a oração, então ele define a verdadeira atitude com que se pode rezar a inteira oração dos 5 pedidos ou dos 7 pedidos diante de Deus. Ora, acontece que a maioria de nós já não tem jeito nenhum para fazer um pedido assim. Quem sabe pedir pão com verdade e simplicidade são as criancinhas. E é, de facto, a única atitude correta para se «tratar» com o «papá» ou com a «mamã». Total abandono e confiança.

8. Em última análise, é esta atitude que identifica a fé bíblica, que é, segundo a DV, 5, a entrega total e livre do homem a Deus. É uma atitude pessoal, psicobiológica, de total abandono em Deus, única realidade a que nos podemos agarrar para estarmos «seguros», «firmes». «Fé» ou «fidelidade» diz-se em hebraico emunah. emunah vem do verbo ’aman (= segurar, firmar) que assenta numa etimologia tipicamente maternal: ՚em, ’omen. ՚em significa «mãe»; ’omen é a mãe, ou a «ama» que transporta uma criancinha (’amûn: ainda a mesma etimologia) nos braços (Nm 11,12) ou o pedagogo que a educa. A criancinha agarra-se [= segura-se] com todas as suas forças à sua «mamã», única verdadeira direção da sua vida, única segurança que conhece (nada sabe da polícia ou do dinheiro…). E o mesmo se passa do lado da «mamã» em relação à criancinha que transporta nos braços. Por nada deste mundo a abandona. E se a abandonar, o Senhor a acolherá (Sl 27,10). É esta segurança de pessoalíssima confiança que é a fé bíblica, de que o «Pai nosso» é expressão privilegiada, deixando-nos entrever em contraluz um Deus que nos ama entranhada e carinhosamente (e é isto a «compaixão» bíblica = rahamîm) e que sorri para nós com um sorriso condescendente enquanto nos embala nos seus braços paternais e maternais (e é isto a «graça» bíblica = hen).

9. Conhecemos todos a fórmula introdutória do «Pai nosso» na liturgia romana: «Fiéis aos ensinamentos do Salvador, ousamos dizer: “Pai nosso…”». A fórmula introdutória na liturgia grega é ainda mais expressiva: «Torna-nos dignos, Senhor, de ousar com confiança (parrêsía) e sem incorrer na tua reprovação, invocar-te como Pai, a ti, o Deus do céu, e dizer: “Pai nosso”». Ousar dizer «Pai nosso» é diferente de dizer «Pai meu». Ousar dizer «Pai nosso», e não apenas «Pai meu», com toda a verdade, confiança e liberdade, implica, portanto, que o orante tenha à sua volta um mundo de irmãos. Um mundo só de irmãos. E, portanto, evangelicamente, «se estiveres para trazer a tua oferta ao altar e ali te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; e depois virás apresentar a tua oferta» (Mt 5,23-24). Verdadeiramente, ousar dizer «Pai nosso» implica toda uma revolução na vida. Implica um coração puro, solidário, fraternal, filial.

António Couto

One Response to OUSAR DIZER «PAI NOSSO»

  1. Jose Simoes Gomes diz:

    Eu sou na relação com Deus, como a gota de água é na relação com o Oceano.

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