MULHERES DO SILÊNCIO, DO TERÇO E DAS FLORES

1. Vamos experimentando dia após dia, neste tempo de pandemia, os limites do nosso mundo desiderativo, projetual e instintivo. Por maior que seja, o nosso mundo (o mundo que sai de nós) é limitado! Temos limites, somos limites. Os sonhos que alimentamos quebram, os projetos que desenhamos fracassam, os amigos que amamos morrem, as pontes por onde vamos caem!

2. A velha ponte Hintze Ribeiro, de Entre-os-Rios, caiu. O calendário assinalava o dia 4 de Março de 2001. Cinquenta e nove pessoas morreram (cinquenta e três viajavam no fatídico autocarro). Não obstante a vozearia excessiva dos meios de comunicação social, não era o ruído, mas o silêncio que era ensurdecedor. E todas as seguranças do mundo, com os seus muros de betão e tudo, parece que se quebravam contra aquelas frágeis flores ternamente atiradas ao rio.

3. É aqui que nos encontramos todos – crentes e menos crentes e descrentes – irmanados no mesmo profundo, humano, sentimento. Que sentido há que possa ainda resgatar estas vidas que nós já não conseguimos resgatar? Estou convosco, raparigas do silêncio, do terço e das flores. Estou convosco nesse gesto tremendamente frágil com que desenhais uma ponte diferente. Os homens fortes construíram a ponte Hintze Ribeiro, de pedra e de ferro, que caiu. Os homens fortes andaram aí, rio acima, rio abaixo, incapazes de um mergulho ou de um único gesto salvador. Os homens fortes vieram de longe, abriram inquéritos e lançaram ramos de promessas para o ar. Mas vós, mulheres frágeis, silentes, lacrimadas, intuitivas, descobris, construís a única ponte que ainda pode ligar a morte à vida. Vós estais sempre do lado da vida, mesmo quando os homens fortes continuam a esgaravatar, arqueológica ou intelectualmente, a morte. Vós podeis encontrar a vida; eles poderão encontrar apenas vestígios da morte.

4. Neste sentido, o grande filósofo de origem judaica, Franz Rosenzweig, na sua obra magistral, intitulada A Estrela da Redenção, fez a denúncia radical do pensamento ocidental como pensamento da morte, assente, portanto, no mundo férreo da necessidade e do interesse, que nega o milagre, a graça, a assimetria, em última análise, o nascimento, que é um acontecimento que não me é dado projetar e em virtude do qual eu vivo. Não é por acaso que esta sociedade ocidental evita os nascimentos, vivendo cada vez mais da morte, e, portanto, para a morte, tresandando a amoníaco.

5. Vós, mulheres frágeis, corajosas, dais a vida, e sabeis, de um saber de experiência feito, que a vida é um dom e que cada nascimento é um milagre, e que, portanto, remete para fora do nosso horizonte projetual. Vós embalais os vossos filhos pequeninos nos braços, e bem sabeis que eles só entendem a linguagem do amor, que reclamam o amor e que dependem completamente do amor. Sem a vossa mão acolhedora e carinhosa, eles morrem.

6. Vós, mulheres frágeis, corajosas, que rezais e atirais flores ao rio, vós sabeis construir a única ponte que pode ainda ligar a morte à vida. Não é por caso que o termo «religião» deriva do verbo latino re-ligare [= ligar para trás, atar]. Vós sabeis aonde ir buscar a ponta do fio partido para ligar a morte à vida, construindo assim a maior ponte que se pode construir, a ponte do verdadeiro sentido da vida. Cada uma à sua maneira, as grandes religiões da humanidade procuram oferecer esse fio de sentido, essa ponte, que não deixa a vida humana à deriva, mas a liga a Deus. O grande escritor francês, André Malraux, escreveu um dia, há quem diga que profeticamente, que «o século XXI ou é religioso ou não será».

7. Estou convosco, mulheres da Páscoa.

 

António Couto

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