FRANCISCO DE ASSIS, PASTOR DE OVELHAS E DE LOBOS

Outubro 4, 2021

1. A Igreja celebra hoje com júbilo a memória litúrgica de S. Francisco de Assis, um dos santos que mais fundo entrou no coração do povo de Deus. Nasceu em Assis em 1182 e morreu na Porciúncula, também em Assis, logo após o pôr-do-sol do dia 03 de outubro de 1226. 46 anos de vida.

2. A liturgia da Palavra deste dia belo abre com o Livro de Ben-Sira 44-50, que apresenta lado-a-lado um belo friso de figuras ilustres, desde o justo Henoc, que viveu nesta terra 365 anos, um ano de anos, sendo depois arrebatado para o céu, como lemos no Livro do Génesis 5,21-24, até ao Sumo-sacerdote Simão, que exerceu o ofício de sumo-sacerdote desde finais do século III (220) até princípios do século II a.C. (195). A lição de hoje, retirada do Livro de Ben-Sira 50,1.3-7, detém-se sobre esta figura sacerdotal, acentuando que, trajado com as suas vestes sacerdotais ricamente adornadas, o sumo-sacerdote Simão procedeu à reparação do Templo e cuidou do seu povo. Di-lo sem o dizer: o sumo-sacerdote transportava aos ombros e levava sobre o coração o inteiro povo de Israel, pois sobre os ombros, nas alças do humeral, levava duas pedras preciosas, uma em cada ombro, cada uma gravada com seis nomes das tribos de Israel, e sobre o peito, no peitoral, levava doze pedras preciosas, em que estavam inscritos os nomes das doze tribos de Israel. O sumo-sacerdote Simão reparou, pois, o Templo, e cuidou do seu povo, carregando-o aos ombros e levando-o sobre o coração.

3. Claro que se vê bem, meus amados irmãos, nesta bela simbologia, em contraluz, Francisco, o poverello de Assis, vestido de pobre, mas que recebe, no outono de 1205, do próprio Senhor do Universo Crucificado, na Igreja de S. Damião, a incumbência de reparar a sua Igreja que ameaçava ruínas. E não era só, vê-se bem, o edifício da igreja de S. Damião. Era sobretudo o edifício espiritual da Igreja de Deus, o Povo Santo de Deus, que espiritual e moralmente se desmoronava. Entre Crucifixo e Crucifixo. Tudo começa no Crucifixo de S. Damião e culmina em 14 de setembro de 1223, Festa da Exaltação da Santa Cruz, no Crucifixo de Monte Alverne, de quem Francisco recebe os estigmas.

4. O ano de 1205 marcará para sempre a vida de Francisco. É o ano em que recebe do Crucifixo de S. Damião a missão de reparar as ruínas da Igreja. É o ano em que beija e lava as chagas de um leproso (os leprosos sempre lhe repugnaram), e bebe a água com que as lavou. É o ano em que o «Rei da Juventude de Assis» participa numa última festa com os seus amigos. Francisco nasceu rico. Viveu a sua juventude em festas e folguedos. Tinha muitas coisas. Mobilizado em 1202 para a guerra entre Assis e Peruggia, Francisco foi feito prisioneiro na batalha de Ponte san Giovanni, e foi levado para Peruggia, onde esteve preso durante mais de um ano, adoecendo então gravemente. Foi solto por esse motivo, voltou à sua terra de Assis, onde passou anos de convalescença e meditação, com grande apoio da sua piedosa mãe. A partir de 1205, ano em que ouve o Crucificado da capela de S. Damião dizer-lhe: «Francisco, vai e repara a minha Igreja, que cai em ruínas», Francisco começa a ser tocado e trabalhado pela graça. No dia 24 de Fevereiro de 1208, tinha Francisco 26 anos, foi à missa à igreja de Santa Maria degli Angeli (Porciúncola), e ouviu proclamar o Evangelho da Festa de S. Matias (Mateus 10,6-14), que então se celebrava nesse dia, e Francisco ouviu ler o mandato de Jesus aos seus Apóstolos enviados a pregar: «Recebestes de graça. Dai de graça. Não adquirais ouro, nem prata, nem cobre para os vossos cintos, nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bastão» (Mateus 10,8-10). Francisco ouviu essa página. E anota um dos seus biógrafos (Celano) que «imediatamente se descalçou, abandonou o seu bastão, fica apenas com uma túnica, e substitui o seu cinto por uma corda». A partir desse momento de graça, Francisco começou a pregar. Nas trevas brilhou uma luz. Imensa e intensa. Como no outro caminho de Damasco. Francisco mudou a vida toda. Abandonou tudo. Fez-se pobre e irmão de todos, para levar a todos a incontida e incontível alegria encontrada. Francisco tinha descoberto a pérola preciosa da pobreza da fraternidade. Na noite de 18-19 de março de 1212, Francisco recebe Clara, então com 18 anos, e entrega-lhe o hábito da pobreza e da penitência, colocando assim a «primeira pedra» das senhoras pobres, futuras clarissas. Maio de 1221, a partir do dia 23, dia de Pentecostes, celebrou-se na Porciúncola, um Capítulo Geral que ficou conhecido como o «Capítulo delle Stuoie», ou das esteiras, dado que compareceu um número elevadíssimo de irmãos, na ordem dos 5.000, e não havia lugar onde os albergar. Sintomático é que a população do lugar foi trazendo os víveres necessários para alimentar tão grande multidão. O Capítulo durou sete dias, e ainda sobejaram alimentos. Em 1225 estava Francisco quase cego, recolhe-se em S. Damião, e compõe o famoso Cântico das Criaturas ou do Irmão Sol.

5. As pedras e as coisas não ocuparam nunca o coração de Francisco. Cantávamos no refrão do Salmo de hoje, o Salmo 16, «Senhor, Tu és a porção da minha herança» (v. 5). No seu Sermão 344, Santo Agostinho comenta assim: «O salmista não diz: “Ó Deus, dá-me uma herança”. Diz antes: “Tudo o que me podes dar fora de Ti, é vil. Sê Tu a minha herança. És Tu que eu amo… Esperar Deus de Deus, estar cheio de Deus. Basta-te Ele; fora dele, nada te pode bastar».

6. Se há uma marca que carateriza Francisco, e na qual todas as fontes são concordes, é a altíssima pobreza. No Pequeno Testamento, ditado em Siena, à pressa, a Frei Benedetto da Prato, em abril-maio de 1226, poucos meses antes da sua morte, Francisco reúne e resume a sua aventura humana e espiritual nestas poucas linhas: «Como, em razão da fraqueza e do sofrimento da doença, não posso falar, manifesto brevemente aos meus irmãos a minha vontade nestas três palavras, que são: como sinal da minha bênção e do meu testamento, amem-se sempre uns aos outros (1); amem sempre nossa senhora, a santa pobreza (2); e sejam sempre fiéis e submissos aos prelados e a todos os clérigos da santa mãe Igreja (3)».

7. Na sua obra póstuma Escritos de Londres e últimas cartas (1957), Simone Weil anotava que «a riqueza aniquila a beleza…, porque a esconde com a mentira. É a mentira contida na riqueza que mata a poesia. É por isso que os ricos têm necessidade do luxo como de um sucedâneo». Modelo de articulação entre a pobreza e beleza é S. Francisco, que «não procurou na pobreza a dor, mas a verdade e a beleza, a poesia do encontro verdadeiro».

8. «Eu te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi o teu agrado, da tua eudokía». «Senhor», Francisco usa nos seus escritos por 410 vezes. Senhor de todos e de tudo, assim compreende Francisco. «Irmão» ou «Irmãos», Francisco usa por 306 vezes, e também qualifica todos e tudo.

9. Estas poucas linhas do Evangelho deste Dia de S. Francisco, retiradas de Mateus 11,25-30, guardam o segredo mais inteiro de Jesus e de Francisco. Há quem considere estas breves linhas como o mais belo e importante dizer de Jesus nos Evangelhos Sinóticos. Na verdade, estas linhas leves e ledas como asas guardam o segredo mais inteiro de Jesus, o seu tesouro mais profundo, o tesouro ou a pedra preciosa da parábola (Mateus 13,44-46), preciosa e firme, porque leve e suave como uma almofada, onde Jesus pode reclinar tranquilamente a cabeça (cf. João 1,18), e tranquilamente conduzir, dormindo mansamente à popa, a nossa barca no meio deste mar encapelado (cf. Marcos 4,38). Nos lábios de Jesus, chama-se «PAI» (Mateus 11,25) este lugar seguro e manso, doce e aprazível, que acolhe os pequeninos, os senta sobre os seus joelhos, lhes conta a sua história mais bela, e lhes afaga o rosto com ternura. Diz bem Santo Agostinho que «o peso de Cristo é tão leve que levanta, como o peso das asas para os passarinhos!». E o Padre Jesuíta francês, Léonce de Grandmaison (1868-1927), também se segurava neste fio de ouro, e rezava assim: «Santa Maria, Mãe de Deus, conserva em mim um coração de criança, puro e transparente, como uma nascente».

10. O segredo e o tesouro de Jesus era o Pai, pura transparência do Pai. O segredo e o tesouro de Francisco é Jesus, pura transparência de Jesus. Por isso, com S. Paulo, na lição de hoje da Carta aos Gálatas 6,14-18, também Francisco pode dizer: «Gloriar-me, sim, na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo»… «Carrego no meu corpo as marcas (os estigmas) de Jesus». Sou «nova criatura», saída das mãos puras de Deus, com a missão de dominar a terra e os animais. Francisco, pastor de ovelhas e de lobos, dominador dos animais. Entenda-se bem: dominador da animalidade e da brutalidade, construtor da mansidão, da paz e do bem, e da ternura.

11. Esta á a agenda de Jesus, de Paulo, de Francisco. Bem-vindos, irmãos Franciscanos às nossas terras de Lamego, ter-se-á ouvido há cem anos, aquando do vosso regresso em outubro de 1916. Deixai que eu repita hoje esse grito, essa exultação. Lamego precisa da vossa agenda diária de testemunho de pobreza, mansidão, fraternidade, perdão e acolhimento. Lamego precisa hoje também das vossas mãos de paz e bem, de bênção, o oposto daquelas mãos cheias de pedras que daqui vos empurraram em 1834.

12. Amados irmãos e irmãs: ser santo, como Francisco é santo, é ser sensibilíssimo, pois consiste em ouvir com os ouvidos de Deus, ver com os olhos de Deus, falar com a língua de Deus, tocar com as mãos de Deus, amar com o coração de Deus. Tornar-se, portanto, pura transparência de Deus, obra da graça de Deus. É verdade o dizer de Jesus no Evangelho de hoje: «Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar».

13. Francisco, pequenino e humilde, recebeu no coração esta enxurrada do amor de Deus. Por isso, transmite Deus. Eis a razão pela qual o mundo inteiro corria atrás dele. Nem é de admirar. Acerca de Jesus, dizem os insuspeitos fariseus, no Evangelho de João: «O mundo veio atrás dele» (João 12,19). Francisco semelhante a Jesus, transparência de Jesus. Por Francisco até Jesus. Nosso Pai São Francisco, roga por estes teus filhos de hoje!

António Couto