QUANDO DEUS SAI AO NOSSO ENCONTRO

Março 25, 2022

1. Com o olhar cada vez mais fixo na Cruz Gloriosa, em que foi entronizada a Luz que dá a Vida verdadeira, batizados e catecúmenos continuam a sua «caminhada» quaresmal: MEMÓRIA do batismo [= execução do programa filial batismal] para os batizados, PREPARAÇÃO para o batismo por parte dos catecúmenos (Sacrosanctum Concilium, 109), que têm neste Domingo IV da Quaresma os seus segundos «escrutínios»: segunda «chamada» para a Liberdade.

2. O Evangelho deste Domingo IV da Quaresma (Lucas 15,1-32) é uma janela sublime e sempre aberta com vista direta para o coração de Deus, exposto, narrado, contado por Jesus. Mas antes de Jesus começar a contar Deus, o narrador prepara cuidadosamente o cenário, dizendo-nos que os PUBLICANOS e PECADORES se aproximavam de Jesus para o escutar, em claro contraponto com os ESCRIBAS e FARISEUS que estavam lá, não para o escutar, mas para criticar o facto de Jesus acolher os pecadores e comer com eles. Eles achavam que os pecadores eram merecedores de castigo severo e não de misericórdia, pois eram amplamente devedores a Deus, e não credores como os fariseus pensavam que eram. São visíveis, portanto, dois modos de ver, dois critérios: 1) o comportamento novo, misericordioso, inclusivo, por parte de Jesus, que acolhe e abraça os pecadores, até então marginalizados, hostilizados, descartados, excomungados; 2) o comportamento impiedoso, rigorista e exclusivista para com os pecadores por parte da velha tradição religiosa dos escribas e fariseus.

3. A estes últimos conta Jesus uma parábola, «ESTA PARÁBOLA» (taúten parabolên) (15,3), no singular. Sim, o texto diz expressamente «ESTA PARÁBOLA», o que quer dizer que tudo o que Jesus vai contar até ao final do Capítulo é uma só parábola, e não três, como vulgarmente se pensa, titula e diz. Sendo a parábola contada para os ESCRIBAS e FARISEUS, então é desse lado do auditório que nós, leitores ou ouvintes, nos devemos colocar. Se nos colocarmos, como é usual e a nossa simpatia reclama, do lado dos PECADORES, da OVELHA perdida e encontrada, da DRACMA perdida e encontrada, do FILHO perdido e encontrado, a parábola passa-nos ao lado.

4. O primeiro quadro mostra-nos a OVELHA PERDIDA lá longe e por amor PROCURADA e ENCONTRADA, e que dá azo à ALEGRIA repartida com os amigos e vizinhos. E Jesus conclui que é assim no céu sempre que um PECADOR se converte. Ao fundo da cena estão noventa e nove JUSTOS que não precisam de conversão. Era o que pensavam os escribas e fariseus, e nós tantas vezes também!

5. O segundo quadro mostra-nos a DRACMA PERDIDA em casa, num chão de terra e de basalto negro, e cuidadosamente PROCURADA e ENCONTRADA, com a luz para iluminar o escuro e a vassoura para fazer tilintar a moeda no chão de basalto, e que também dá azo à ALEGRIA repartida com as amigas e vizinhas. E também aqui Jesus conclui que é assim no céu sempre que um PECADOR se converte. Neste segundo quadro não se faz menção dos noventa e nove JUSTOS ao fundo da cena, que não precisam de conversão. Ora bem, quando na Bíblia dois retratos parecem iguais, a chave de compreensão está naquilo que neles é diferente. São, portanto, os noventa e nove JUSTOS, que os escribas e fariseus pensam que são, e nós também, somos nós que estamos em causa!

6. O terceiro quadro, que é o que vai ser exposto neste Domingo, mostra-nos um PAI maravilhoso com dois filhos que parecem diferentes. Ora bem, quando na Bíblia dois retratos parecem diferentes, a chave de compreensão reside naquilo em que são iguais.

7. Vejamos então: o filho mais novo faz ao seu PAI um estranho pedido: pede a parte da herança que lhe toca. Note-se bem que se trata de um pedido fatal. O PAI dá três coisas aos seus filhos: o pão todos os dias (1), uma roupa nova pelas festas (2), mas há uma coisa que só dá uma vez na vida, e em circunstâncias fatais, de morte próxima: a herança! (3). Diz a propósito o Livro de Ben Sira 33,24: «No último dia dos dias da tua vida, na hora da tua morte, distribui a tua herança». Então, ao pedir a herança, este filho como que mata o PAI e morre como filho! Em boa verdade, ele não quer mais ter PAI e não quer mais ser filho. Por isso, junta tudo, parte para longe e gasta tudo. Desce abaixo de porco, pois nem o que os porcos comem lhe é permitido comer. Decide então voltar para casa, e prepara um discurso com três pontos: 1) PAI, pequei contra o céu e contra ti; 2) não sou digno de ser chamado teu filho; 3) trata-me como um dos teus assalariados. Vê-se bem que não quer voltar mais a ser filho. Também não quer mais ter PAI. Quer ser um simples assalariado. Quer ter um patrão. Quer receber o ordenado que lhe passa a ser devido. Não quer receber de graça o amor do seu Pai.

8. Voltou. O PAI viu-o ao longe, as suas entranhas moveram-se de compaixão, correu ao encontro do filho, abraçou-o e beijou-o. É outra vez a surpresa a encher a cena! Quando nós regressamos a casa, entenda-se, a Deus, nunca encontramos um PAI distraído ou ausente, que mudou de residência, ou que responde de forma brusca e fria. Note-se bem que a iniciativa surpreendente é do PAI. O filho começa a debitar o discurso preparado em três pontos. Diz o primeiro. Diz o segundo. Não diz o terceiro, que era outra vez fatal, não porque o não quisesse dizer, mas porque o PAI o interrompe (belo que no n.º 17 da Bula Misericordiae vultus, que proclama o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, que estamos sempre a viver, o Papa Francisco refira este Pai que interrompe o discurso preparado pelo filho), dizendo para os criados: Depressa! Trazei o «primeiro vestido» e vesti-lho! Entenda-se a aceleração deste «depressa». É a «pressa» do amor, do caminho novo, da notícia boa que é o Evangelho: é a pressa Páscoa (Êxodo 12,11), é a pressa do mensageiro de Isaías 52,7, é a pressa do amado do Cântico dos Cânticos 2,8, é a pressa de Maria que se levanta e parte apressadamente (Lucas 1,39), é a pressa dos pastores que correm a Belém (Lucas 2,16), é a pressa dos 72 discípulos de Jesus (Lucas 10,4), é a pressa de Jesus, quando diz para Zaqueu: «Desce depressa» (Lucas 19,5), é a pressa de Zaqueu a descer e a receber Jesus (Lucas 19,6), é a pressa das mulheres e dos homens da Páscoa, que até hoje não param de correr… Entenda-se também que o «primeiro vestido» é o vestido de antes, isto é, o de filho! Sim, é este PAI surpreendente que transforma em filho este candidato a assalariado! Manda matar o vitelo gordo e prepara-se para fazer em casa uma FESTA de arromba, com direito a banquete e orquestra! Note-se que, tal como Jesus, este PAI, que é Deus, acaba de acolher e abraçar um PECADOR e prepara-se para COMER com ele. Há ALEGRIA no céu.

9. O filho mais velho estava no campo. Era, portanto, um dia de semana, de trabalho. Este PAI não escolhe fins-de-semana para fazer FESTA! E FESTA excessiva. Mandou matar o vitelo gordo! Trouxe uma orquestra musical para animar a FESTA! O filho mais velho, ao aproximar-se de casa, ouviu música e danças. Esta «música» diz-se em grego symphônía. Ora, symphônía é uma orquestra!

10. Como tinha saído ao encontro do filho mais novo, o PAI sai agora também ao encontro do filho mais velho, para o instar a entrar para a FESTA, tal como o pastor que encontra a ovelha perdida e a mulher que encontra a dracma perdida convidaram os amigos e os vizinhos para a ALEGRIA. Mas este filho mais velho, em vez de aceitar o convite, ainda acusa o PAI de acolher um pecador e de se preparar para comer com ele. Exatamente o que faziam os ESCRIBAS e FARISEUS, que criticavam Jesus por acolher os pecadores e comer com eles. Este filho mostra-se, portanto, um puro FARISEU, que sempre cumpriu as ordens do PAI (patrão), achando-se credor e não devedor face ao seu PAI, face a Deus!

11. Quando duas figuras parecem diferentes, é naquilo em que se assemelham que reside a chave de compreensão. O que assemelha estes dois filhos, que parecem diferentes, é que ambos se sentem assalariados (e não filhos) e ambos olham para o PAI como para um patrão. É também interessante notar que os dois filhos deste quadro falam ao PAI, ao seu PAI comum, como fazem os cristãos. Como fazemos nós. Mas em nenhum momento da história se falam um ao outro. Será que também neste ponto se parecem connosco? Sim, às vezes, nós também só sabemos falar por trás, entre raivas acumuladas e insultos! Mas entramos sem problemas de consciência na Igreja, e até dizemos que rezamos!

12. Todavia, o filho mais novo deixou-se mover pela compaixão do PAI. Estava MORTO como filho e VOLTOU a VIVER, estava PERDIDO lá longe e FOI ENCONTRADO! Tal como a ovelha PERDIDA e ENCONTRADA lá longe! Mas atenção que a dracma estava PERDIDA em casa! Sim, tanto nos podemos perder lá longe, no deserto, como nos podemos perder em casa! Podemos, na verdade, andar perdidos em casa, numa casa fria, sem Pai e sem irmãos, sem mesa, sem lareira, sem alegria, como o filho mais velho da parábola!

13. Afinal «ESTA PARÁBOLA» em três quadros foi contada por Jesus aos ESCRIBAS e FARISEUS, ao FILHO MAIS VELHO, a NÓS. Mas ficamos sem saber, no final, se o FILHO MAIS VELHO entrou ou não entrou em casa, na alegria, para a FESTA. O narrador não o diz, porque essa decisão de entrar ou não, somos NÓS que a temos de tomar. Afinal foi para NÓS, TU e EU, colocados, na estratégia narrativa, do lado dos ESCRIBAS e FARISEUS e do FILHO MAIS VELHO (única posição correta para sermos interpelados pela parábola), que Jesus contou a parábola. Então, a decisão é nossa, é minha e é tua: entramos ou recusamos entrar na CASA do PAI, na misericórdia, na festa, na dança e na alegria?

14. À entrada da Terra Prometida, em Guilgal, nas planícies de Jericó, vê-se na lição do Livro de Josué 5,9-12, que hoje temos também a graça de ouvir, o Povo de Deus, saído do Egito e depois de atravessar o deserto, sempre conduzido pela mão de Deus, celebra a Páscoa (Josué 5,10), a Festa da liberdade, e experimenta o sabor dos frutos da Terra. Esta é a terceira Páscoa celebrada pelo Povo de Israel, assinalando sempre um novo início. A primeira foi no Egito, antes do Povo sair para o deserto (Êxodo 12,1-28). A segunda acontece no Sinai, antes do Povo levantar o acampamento para partir em direção à Terra Prometida (Números 9,5).

15. São Paulo escreve aos Coríntios sobre a centralidade e novidade da nossa vida em Cristo (2 Coríntios 5,17-21). Em Cristo somos nova criatura, pois Cristo assumiu e absolveu o nosso pecado, reconciliando-nos com Deus. Esta obra grande da Reconciliação, Paulo experimentou-a bem, e vive-a, e assumiu também o ministério da Reconciliação. Milagre ainda hoje exposto diante de nós.

16. O Salmo 34 põe nos lábios dos pobres a bênção (berakah), que os une a Deus para sempre, e o louvor jubiloso e intenso (tehillah), que é a sua verdadeira razão de viver (v. 2-3). O pobre enche o olhar de Deus e fica radiante, luminoso (v. 6), sabe que Deus o escuta e o salva, e convida a saborear a bondade de Deus (v. 9). Ou talvez mais do que isso. Na versão grega deste v. 9, muito utilizado no momento da comunhão, também nas liturgias de rito bizantino, lê-se: «geúsasthe kaì ídete hóti chrêstós ho Kýrios» («Saboreai e vede que Bom é o Senhor»), em que o adjetivo chrêstós, «bom», é lido na pronúncia viva: christós, o que vem a resultar, na atualização cristã: «Saboreai e vede que Cristo é o Senhor». Belo e saboroso, sem dúvida. Deus segue sempre o pobre de perto, cerca-o de amor (v. 8), protege até os seus ossos para não serem quebrados (v. 21), tal como é dito do cordeiro pascal, o mais alto símbolo de libertação. No seu Caminho de perfeição, Santa Teresa de Ávila deixa-nos, talvez, um dos mais belos e incisivos discursos sobre a pobreza: «A pobreza é um bem que contém em si todos os bens do mundo; ela confere um império imenso, torna-nos verdadeiramente donos de todos os bens cá de baixo desde o momento em que os faz cair aos pés». E S. Francisco de Assis chama-lhe: «Nossa senhora, a santa pobreza».

…..

O caminho da Quaresma leva-nos à cripta,

Ao miolo,

Àquele lugar íntimo e íntegro, inteiro,

Onde eu sou verdadeiro,

Sem dolo

Nem tijolo

Nem roupeiro.

…..

Chegar lá implica desfazer-se do barulho

E do entulho,

Arredar a caliça e o reboco,

Aprender com os pássaros do céu,

Com os lírios do campo,

Ir até ao fundo,

Até ao toco,

E deixar Deus a trabalhar no fundo desse poço,

Onde só Ele sabe semear semente santa,

Que depois há de florir e dar fruto

A seu tempo e a seu campo.

…..

Que rebento pode brotar de um toco seco?

Que sucesso pode ter uma semente

Na aridez do deserto semeada?

É mesmo só com Deus essa empreitada.

E Jesus explica bem,

No meio do sermão da montanha,

Que são também assim a esmola,

A oração e o jejum,

Frutos que só Deus pode fazer brotar em mim.

…..

A Quaresma é tempo de deixar de fazer tantas coisas

Por mim e ao meu jeito,

E para mim e em meu proveito,

Nas ruas,

Nas praças,

Nas igrejas,

Só para que as pessoas vejam e aplaudam.

…..

A Quaresma é tempo de deixar Deus

Fazer nascer

Dentro de mim

Um jardim,

Uma maneira nova de viver.

…..

António Couto


O SIM QUE PLENIFICA O MUNDO

Março 25, 2022

Vivemos hoje, Senhor,

Páginas sombrias de dor e desalento,

De lágrimas, de guerras, de doenças.

Mas já se entrevê uma grande LUZ,

O teu SIM,

A retinir no universo inteiro,

Na tua criação maravilhosa, verso e reverso,

Obra a obra, tudo bem feito por meio do teu Filho amado,

O Verbo, a Palavra sempre a dizer-se

E para sempre dita, anunciada, bendita.

…..

SIM, o teu Filho Jesus não foi Sim e Não,

Mas unicamente SIM.

E com esse SIM fez-se e mobilou-se o universo inteiro.

SIM, é sintomático

Que nas 452 palavras hebraicas de Génesis Um,

O jardim da tua criação,

Não se encontre um único NÃO.

…..

É tudo SIM, portanto,

E é nesse jardim que ecoa também o SIM de Maria,

Neste grande Dia da ANUNCIAÇÃO,

Em que cada lacuna, cada NÃO,

Se vai transformando sintomaticamente em SIM.

…..

NÃO têm vinho, diz em Caná Maria para Jesus,

Mas logo terão vinho em excesso.

NÃO tenho marido, confessa a Jesus a mulher da Samaria,

Mas vai ter e está ali mesmo ao lado.

NÃO tenho ninguém que me lance à água,

Replica o paralítico à beira da piscina,

Mas já está ali Jesus mesmo ao lado.

NÃO tendes nada para comer, pois NÃO?,

Pergunta e afirma Jesus perante os seus Apóstolos,

Que de madrugada regressam do mar sem nada terem pescado.

E eles respondem: NÃO!

Mas já está ali um banquete novo preparado sobre a praia.

…..

Vem, Senhor Jesus,

Vem com Maria, tua Mãe,

A quem hoje consagrámos o nosso coração,

Vem, Senhor Jesus,

Vem com Maria, tua e nossa Mãe,

E transforma em SIM tanta guerra, tanta sombra, tanto NÃO.

…..

António Couto


CONSAGRAÇÃO AO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA

Março 24, 2022

Ato de Consagração ao Imaculado Coração de Maria

Na Celebração Penitencial

(Basílica de São Pedro, 25 de março de 2022)

Ó Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, recorremos a Vós nesta hora de tribulação. Vós sois Mãe, amais-nos e conheceis-nos: de quanto temos no coração, nada Vos é oculto. Mãe de misericórdia, muitas vezes experimentamos a vossa ternura providente, a vossa presença que faz voltar a paz, porque sempre nos guiais para Jesus, Príncipe da paz.

Mas perdemos o caminho da paz. Esquecemos a lição das tragédias do século passado, o sacrifício de milhões de mortos nas guerras mundiais. Descuidamos os compromissos assumidos como Comunidade das Nações e estamos a atraiçoar os sonhos de paz dos povos e as esperanças dos jovens. Adoecemos de ganância, fechamo-nos em interesses nacionalistas, deixamo-nos ressequir pela indiferença e paralisar pelo egoísmo. Preferimos ignorar Deus, conviver com as nossas falsidades, alimentar a agressividade, suprimir vidas e acumular armas, esquecendo-nos que somos guardiões do nosso próximo e da própria casa comum. Dilaceramos com a guerra o jardim da Terra, ferimos com o pecado o coração do nosso Pai, que nos quer irmãos e irmãs. Tornamo-nos indiferentes a todos e a tudo, exceto a nós mesmos. E, com vergonha, dizemos: perdoai-nos, Senhor!

Na miséria do pecado, das nossas fadigas e fragilidades, no mistério de iniquidade do mal e da guerra, Vós, Mãe Santa, lembrai-nos que Deus não nos abandona, mas continua a olhar-nos com amor, desejoso de nos perdoar e levantar novamente. Foi Ele que Vos deu a nós e colocou no vosso Imaculado Coração um refúgio para a Igreja e para a humanidade. Por bondade divina, estais connosco e conduzis-nos com ternura mesmo nos transes mais apertados da história.

Por isso recorremos a Vós, batemos à porta do vosso Coração, nós os vossos queridos filhos que não Vos cansais de visitar em todo o tempo e convidar à conversão. Nesta hora escura, vinde socorrer-nos e consolar-nos. Repeti a cada um de nós: «Não estou porventura aqui Eu, que sou tua mãe?» Vós sabeis como desfazer os emaranhados do nosso coração e desatar os nós do nosso tempo. Repomos a nossa confiança em Vós. Temos a certeza de que Vós, especialmente no momento da prova, não desprezais as nossas súplicas e vindes em nosso auxílio.

Assim fizestes em Caná da Galileia, quando apressastes a hora da intervenção de Jesus e introduzistes no mundo o seu primeiro sinal. Quando a festa se mudara em tristeza, dissestes-Lhe: «Não têm vinho!» (Jo 2, 3). Ó Mãe, repeti-o mais uma vez a Deus, porque hoje esgotamos o vinho da esperança, desvaneceu-se a alegria, diluiu-se a fraternidade. Perdemos a humanidade, malbaratamos a paz. Tornamo-nos capazes de toda a violência e destruição. Temos necessidade urgente da vossa intervenção materna.

Por isso acolhei, ó Mãe, esta nossa súplica:

Vós, estrela-do-mar, não nos deixeis naufragar na tempestade da guerra;

Vós, arca da nova aliança, inspirai projetos e caminhos de reconciliação;

Vós, «terra do Céu», trazei de volta ao mundo a concórdia de Deus;

Apagai o ódio, acalmai a vingança, ensinai-nos o perdão;

Libertai-nos da guerra, preservai o mundo da ameaça nuclear;

Rainha do Rosário, despertai em nós a necessidade de rezar e amar;

Rainha da família humana, mostrai aos povos o caminho da fraternidade;

Rainha da paz, alcançai a paz para o mundo.

O vosso pranto, ó Mãe, comova os nossos corações endurecidos. As lágrimas, que por nós derramastes, façam reflorescer este vale que o nosso ódio secou. E, enquanto o rumor das armas não se cala, que a vossa oração nos predisponha para a paz. As vossas mãos maternas acariciem quantos sofrem e fogem sob o peso das bombas. O vosso abraço materno console quantos são obrigados a deixar as suas casas e o seu país. Que o vosso doloroso Coração nos mova à compaixão e estimule a abrir as portas e cuidar da humanidade ferida e descartada.

Santa Mãe de Deus, enquanto estáveis ao pé da cruz, Jesus, ao ver o discípulo junto de Vós, disse-Vos: «Eis o teu filho!» (Jo 19, 26). Assim Vos confiou cada um de nós. Depois disse ao discípulo, a cada um de nós: «Eis a tua mãe!» (19, 27). Mãe, agora queremos acolher-Vos na nossa vida e na nossa história. Nesta hora, a humanidade, exausta e transtornada, está ao pé da cruz convosco. E tem necessidade de se confiar a Vós, de se consagrar a Cristo por vosso intermédio. O povo ucraniano e o povo russo, que Vos veneram com amor, recorrem a Vós, enquanto o vosso Coração palpita por eles e por todos os povos ceifados pela guerra, a fome, a injustiça e a miséria.

Por isso nós, ó Mãe de Deus e nossa, solenemente confiamos e consagramos ao vosso Imaculado Coração nós mesmos, a Igreja e a humanidade inteira, de modo especial a Rússia e a Ucrânia. Acolhei este nosso ato que realizamos com confiança e amor, fazei que cesse a guerra, providenciai ao mundo a paz. O sim que brotou do vosso Coração abriu as portas da história ao Príncipe da Paz; confiamos que mais uma vez, por meio do vosso Coração, virá a paz. Assim a Vós consagramos o futuro da família humana inteira, as necessidades e os anseios dos povos, as angústias e as esperanças do mundo.

Por vosso intermédio, derrame-se sobre a Terra a Misericórdia divina e o doce palpitar da paz volte a marcar as nossas jornadas. Mulher do sim, sobre Quem desceu o Espírito Santo, trazei de volta ao nosso meio a harmonia de Deus. Dessedentai a aridez do nosso coração, Vós que «sois fonte viva de esperança». Tecestes a humanidade para Jesus, fazei de nós artesãos de comunhão. Caminhastes pelas nossas estradas, guiai-nos pelas sendas da paz. Amen.


CONNOSCO DEUS!

Março 24, 2022

1. Esta Solenidade cai sempre no dia 25 de Março, nove meses antes do Natal. Dia 25 de Março, Dia grande, Dia solene, que reúne a Igreja inteira, Oriente e Ocidente, em celebração compacta ao seu Único Senhor, venerando a sua Mãe, na Solenidade da Anunciação do Senhor à Virgem Maria, que aponta já para o Natal do Senhor, que terá lugar nove meses depois. Ainda que, de facto, separados, hoje os irmãos estão todos unidos e reunidos à mesma mesa da Graça. Dêmos, por isso, graças a Deus. No Oriente, a Anunciação do Senhor permanece um Mistério tão central que, nas rubricas do calendário litúrgico, apenas cede à Sexta-Feira Santa. No rito bizantino, a própria Vigília Pascal, caso caia no dia 25 de Março, reparte a celebração, uma parte do cânon Pascal, outra parte do cânon da Euaggelismós [= Evangelização], nome que este acontecimento recebe no Oriente.

2. O Evangelho neste Dia proclamado (Lucas 1,26-38) é um tecido sublime, que as Igrejas do Ocidente conhecem por «Anunciação», e as do Oriente por «Evangelização». Do céu chega a Alegria incandescente a casa de Maria: «Alegra-te, Maria» [= «Chaîre Maria»; «Ave Maria»], «o Senhor está contigo» (Lucas 1,28), não tenhas medo» (Lucas 1,30), diz a Maria o anjo enviado por Deus. Alguns anos mais tarde, as mulheres que vão ao túmulo de Jesus ouvirão também a mesma música divina: «Alegrai-vos» (Mateus 28,9), «não tenhais medo» (Mateus 28,5). Aí está outra vez a harmonia da Escritura. E nós, Assembleia Santa que hoje se reúne para celebrar os mistérios do seu Senhor e também de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, estamos também permanentemente a ouvir esta divina melodia. Portanto, irmãos amados em Cristo, não obstante o cenário ser de guerras e doenças, Alegrai-vos, não tenhais medo, o Senhor está no meio de nós!

3. O centro da cena é de Maria, que podemos ver em alta sintonia com a Palavra da Alegria que lhe chega de Deus. Ao contrário da nossa muito ocidental maneira de ver e de sentir, note-se bem que Maria não esboça qualquer reação à presença do anjo, que tão-pouco é narrada. Ela fica perturbada é com a Palavra que lhe cai nos ouvidos e no coração (Lucas 1,29). Vale a pena contemplá-la demoradamente, como fazem as Igrejas do Oriente e do Ocidente. Ao contrário de nós, Maria, visitada por Deus, não foge, não se esconde de si mesma, não se esconde de Deus, não esconde Deus na sua vida. Tinha consagrado a Deus toda a sua vida e a sua virgindade. Não sendo usual no mundo judaico do seu tempo, esta maneira de viver em matrimónio está, porém solidamente documentada, e impõe-se mesmo que assim a compreendamos no texto da Anunciação. Cada vez mais me convenço, não querendo, no entanto, convencer ninguém, que o matrimónio de Maria e de José, como se pode entrever em contraluz nos interstícios dos textos de Mateus 1-2 e Lucas 1-2, não será tanto o quadro habitual do matrimónio, em ordem à procriação, mas será mais o quadro de um matrimónio em ordem à proteção mútua (civil, religiosa, jurídica, social, económica…), e cuja finalidade não é a procriação, mas a dedicação total de duas pessoas às coisas de Deus. Neste quadro religioso, jurídico, social, não é de estranhar que Maria seja apresentada como «virgem casada» (parthénos emnêsteuménê) (Lucas 1,27; 2,5) que, perante o anúncio do Anjo Gabriel de que há de conceber e dar à luz um filho (Lucas 1,31), avança a objeção concreta: «Como pode ser isso, pois não conheço homem?» (Lc 1,34). Eu entendo e entenda quem puder que, no quadro de um matrimónio habitual, esta objeção não faria sentido, pois se tratasse de um matrimónio habitual, mais dia menos dia sempre Maria haveria de ter um filho. Claramente, não estava no pensamento de Maria (e de José) vir a ter um filho. Faço notar que este estatuto é conhecido, no judaísmo [(tratado Niddah, da Mishnah judaica, e ver também as anotações precisas de Ireneu de Lião (130-202) e de Tertuliano de Cartago (160-220)]. Tudo ao contrário, por exemplo, de Isabel e Zacarias que muito tinham rezado para que Deus lhes desse um filho, e foram atendidos, no dizer de Gabriel (Lucas 1,13).

4. Ultrapassada a objeção, Maria responde: «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra» (Lucas 1,38). Maria responde que Sim. Deus chama, mas não impõe. A Maria, e a cada um de nós. Podemos sempre aceitar Deus ou esconder-nos de Deus. Deixar Deus entrar, ou fechar-lhe a porta. Maria aceitou, e, por isso, todas as gerações a proclamarão Bem-aventurada. É o que estamos hoje e aqui a fazer: Feliz és tu, Maria, pioneira de um mundo novo, porque acreditaste em tudo quanto te foi dito da parte do Senhor! Feliz também aquele que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática!

5. Memorial desta beleza incandescente é a Basílica da Anunciação, em Nazaré. Esta grandiosa Basílica, em três planos, foi inaugurada em 25 de Março de 1969, e foi visitada, ainda as obras estavam em curso, em 1964, pelo Papa Paulo VI. Escavações feitas antes desta grandiosa construção puseram a descoberto, e podem ver-se ainda hoje, os majestosos pilares de uma Catedral levantada em 1099 pelo príncipe cruzado Tancredo, bem como o pavimento em mosaico de uma igreja bizantina, que pode ser datada do ano 450. Mas, descendo mais fundo, até às entranhas da atual Basílica, acede-se à Gruta da Anunciação, sob cujo altar se lê a inscrição Verbum caro hic factum est [«Aqui o Verbo se fez carne»], e a outros lugares de culto antigos, talvez já do século II. Numa grafite antiga foi encontrada a gravação XE MAPIA, abreviação de Chaîre Maria, a primeira Ave-Maria da história.

6. Já se ouve a música de Isaías 7,10-14; 8,10. O cenário é a guerra siro-efraimita, que são dois exércitos, da Síria e de Israel, que põem cerco a Jerusalém, capital do Reino de Judá, no ano 734 a. C., com o intuito de depor Acaz, rei de Judá. Já se vê um Isaías firme e confiante, que, enviado por Deus (Isaías 7,3), atravessa sem medo o cenário da guerra siro-efraimita, para levar ao amedrontado e trémulo rei Acaz (Isaías 7,2), que se encontra junto da nascente de Gihôn, a inspecionar as águas, uma palavra de conforto e de esperança. Para significar melhor tudo isto, Isaías leva o seu filho, que ostenta um nome de esperança She’ar yashûb [= «um “resto” voltará»], pela mão (Isaías 7,3). Um pai, que ousa atravessar um cenário de guerra levando um filho pela mão, é, na verdade, testemunha de outra segurança! A mensagem que Isaías comunica a Acaz consta de quatro pontos: a) tem calma; b) não tenhas medo; c) segura-te em Deus; d) pede um sinal (Isaías 7,11). Já se sabe que o descrente Acaz não pedirá o sinal, diz ele, para não tentar a Deus (Isaías 7,12), isto é, hipocritamente alega uma razão aparentemente religiosa como para-vento para esconder a sua incredulidade. Ora, pedir um «sinal», nestas circunstâncias, era sinal de fé e de humildade que reconhece a sua pobreza, como se depreende do comportamento de Abraão (Génesis 15,8), de Gedeão (Juízes 6,36-40) e de Ezequias (2 Reis 20,8-11). Marcada pela incredulidade era antes a recusa de pedir esse «sinal», como sucede com Acaz, que julga Deus incapaz de se interessar pelos nossos problemas.

7. Pouco importa. Eis que Deus dá, de igual maneira, o seu sinal: «A jovem» (‘almah TM; parthénos LXX) concebeu e dará à luz um filho a quem porá o nome de ‘immanû ’el [= «Connosco Deus»]» (Isaías 7,14). A jovem, aqui mencionada, é, em primeira leitura, certamente Abia, filha de Zacarias, esposa de Acaz, mãe de Ezequias (2 Crónicas 29,1). O filho, cujo nascimento é anunciado é certamente, em primeira leitura, Ezequias, filho de Acaz e de Abia, que ainda não tinha dado a Acaz um herdeiro. O nascimento de Ezequias parece ter ocorrido em 733, depois da guerra siro-efraimita. Todavia, como ele não é nomeado, a promessa não se esgota na pessoa de Ezequias. Abre-se ao herdeiro dinástico de qualquer tempo, portador das promessas de Deus para o seu povo. Este «filho» fica assim no campo dos «sinais», de resto como Isaías e os seus filhos (Isaías 8,18), e Mateus procede de forma correta ao ver a promessa realizar-se em Jesus (Mateus 1,18-25). Em primeira leitura, o «sinal» dado a Acaz é que a dinastia davídica, que corria perigo em 734, se salvará. Virá mesmo um tempo de prosperidade e de paz que marcará a infância daquele menino, que se alimentará de leite coalhado e mel (Isaías 7,15), alimentos que simbolizam abundância porque são dom de Deus (Deuteronómio 6,3; 11,9; 32,13-14; Êxodo 3,8 e 17).

8. Por outro lado, antes que o menino atinja a idade da razão, portanto, dentro em breve, os reinos de Israel e da Síria, agora agressores, serão reduzidos a escombros (Isaías 7,16; cf. 8,3-4). O que acontece, de facto, sendo a Síria anexada pela Assíria ainda em 734, o mesmo acontecendo a grande parte do território de Israel, em 733. A paz e a felicidade dos dias de David e Salomão, ou mesmo do tempo dos Juízes, serão recordadas e vividas em Judá. É o que pretende dizer o oráculo: «O Senhor fará vir sobre ti […] dias tais como não existiram desde o dia em que Efraim se separou de Judá» (Isaías 7,17), ou seja, desde 926, data da morte de Salomão e da separação do Reino de Israel (Norte) da Corte de Jerusalém.

9. Logo a seguir, Isaías introduz um oráculo de desgraça sobre Judá: as águas impetuosas da Assíria virão sobre Judá e submergi-lo-ão (Isaías 8,6-8). Mas é neste novo contexto que o profeta deixa sair, por duas vezes, o desabafo: «‘immanû ’el»! (8,8 e 10). Acostagem extraordinária da salvação à desgraça! Com este suspiro, num novo contexto, a profecia do Emanuel tornou-se tradição já para o próprio Isaías. Esta tradição tem a sua história. Já não temos apenas um sentido histórico único e determinado, mas começa a história da tradição do oráculo do Emanuel que, passando por Is 9,5 e 11,1-9, chegará ao Novo Testamento (Mateus 1,23). Deus connosco sempre.

10. A toada musical que hoje embala a nossa vida está em consonância com esta avenida de sentido que atravessa a Escritura Santa. Travessia que jamais fazemos sozinhos, porque Ele está connosco sempre, e é Ele que abre a Escritura para nós (Lucas 24,32). Na verdade, canta assim o Salmo Responsorial de hoje: «Sacrifício e oblação não Te agradaram, mas escavaste-me os ouvidos» (Salmo 40,7). E o texto, notável, da Carta aos Hebreus, também hoje por graça escutado, cita atualizando assim: «Sacrifício e oblação Tu não quiseste, mas formaste-me um corpo» (Hebreus 10,5). E é assim, que Jesus vem ao nosso mundo, nascendo de Maria, para, no seu corpo e com o seu corpo, mãos, pés, entranhas, coração, inteligência, fazer a vontade de Deus (Hebreus 10,7 e 9; cf. Salmo 40,9), como está escrito acerca d’Ele no rolo antigo (Hebreus 10,7; cf. Salmo 40,8). Assim é ultrapassada a Economia antiga dos muitos sacrifícios e ofertas pela Economia nova em que somos santificados por meio da oferta (minhah) do corpo de Jesus Cristo feita «uma vez por todas» (epáphax) (Hebreus 10,10).

António Couto


O JUSTO JOSÉ

Março 18, 2022

1. Celebramos hoje, dia 19 de Março, a Solenidade de S. José, Esposo da Virgem Santa Maria. Sempre me encantou esta humaníssima e sensibilíssima figura de José, que o Evangelho de Mateus, hoje proclamado aos nossos ouvidos (Mateus 1,16-24), qualifica como «justo» (Mateus, 1,19). O termo «justiça» enche este Evangelho, fazendo-se nele ouvir por sete vezes (Mateus 3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32), e traduz o plano divino de salvação e a adequação da nossa vontade à vontade de Deus. Neste Evangelho, os discípulos nunca são declarados «justos», mas são chamados à «justiça», a andar no «caminho da justiça» (Mateus 21,32), auto destituindo-se, libertando-se dos seus próprios projetos, e sabendo dizer sempre SIM a Deus de forma concreta, andando nos seus caminhos. O termo «justos», no plural, ouve-se várias vezes, sobretudo em textos de colorido parabólico, para qualificar os fazedores do bem (Mateus 13,43.49; 25,37.46), sempre em contraponto com os fazedores da iniquidade. «Justo», no singular, neste Evangelho de Mateus, só se aplica a José (Mateus 1,19) e a Jesus (Mateus 27,19).

2. Aí está, então, diante de nós o sensibilíssimo «justo» José sintonizado em alta fidelidade, em Hi-Fi, com Deus. É assim que, em bicos de pés, no limiar do silêncio, passa discretamente da cena «pública» para o «segredo» (láthra) (Mateus 1,19), preparando-se mesmo para sair de cena, não tanto para não expor Maria, sua esposa, a uma situação embaraçosa, mas para expor Deus a toda a luz, entregando-lhe a cena toda!

3. Fantástico. Até Deus entende e respeita este silêncio, este «segredo» de José, e é de mansinho, em um sonho (Mateus 1,20), que Deus põe José a par dos seus planos, que passam pela maternidade divina de Maria e pela missão esponsal e paternal de José, competências próprias de Deus em relação ao seu povo nas páginas do AT. A atribuição a José da missão esponsal em relação a Maria, e paternal em relação a Jesus, como se ouve no Evangelho de hoje (Mateus 1,18-24), é o que podemos chamar «Anunciação do Anjo a José».

4. Este homem manso, sossegado e silencioso (quando surge em cena, somando todos os textos em que aparece, não se lhe ouve uma única palavra!) lembra o outro José, o homem dos sonhos (Génesis 37,19), que surge no Livro do Génesis, e que com sonhos e serena sabedoria se ocupa (Génesis 37; 40; 41). Também este José sabe ler a sua história em dois teclados, distinguindo bem as coisas humanas das divinas (ou entrançando bem as coisas humanas e as divinas?!). Veja-se a forma sublime como se apresenta, desvendando-se, aos seus irmãos mais do que atónitos: «Eu sou José, vosso irmão, que vós vendestes para o Egito. Mas agora não vos entristeçais nem vos aflijais por me terdes vendido para cá, porque foi para salvar as vossas vidas que Deus me enviou adiante de vós. Deus enviou-me adiante de vós para assegurar a permanência da vossa raça na terra e salvar as vossas vidas para uma grande libertação. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, mas Deus» (Génesis 45,4-8). Leitura sublime. Em que ficamos: foram os irmãos que despacharam José para o Egito, para se verem livres dele, ou foi Deus que o enviou para Egito? No teclado da história, é verdade que foram os ciumentos irmãos de José que o despacharam para o Egito… Mas, no outro teclado de Deus, de acordo com a boa leitura de José, foi Deus que o enviou para o Egito para uma missão de salvação!

5. A missão paternal de José fica clara no facto de ser José a dar o nome ao filho que vai nascer de Maria. O nome do menino será Jesus, que surge logo explicado «porque salvará o seu povo dos seus pecados» (Mateus 1,21). E aqui se começa a abrir uma grande avenida que atravessa o inteiro Evangelho de Mateus: a avenida do PERDÃO. Esta nota soa vezes sem fim, como obra bela de Deus que nós, seus filhos, devemos imitar, perdoando também. São tantas as vezes que seria fastidioso citá-las todas aqui. Deixo só a pérola do dito de Jesus sobre o cálice: «Isto é o meu sangue da aliança, pelos muitos derramado, para perdão dos pecados» (26,28). O inciso «para perdão dos pecados» é um exclusivo de Mateus!

6. E é assim, descendo ao nosso nível e assumindo ou abraçando tudo o que é nosso, sem deixar nada nem ninguém esquecido ou de lado, que Jesus é «Deus connosco» (Mateus 1,23), e «connosco fica todos os dias até ao fim do mundo» (Mateus 28,20). Princípio e fim do Evangelho de Mateus. Inclusão literária. Inclusão literária e inclusão total, porque descendo ao nosso chão e ao nosso coração para ficar connosco sempre, sofre, absorve e absolve o nosso pecado, faz-se nosso irmão, torna-se mesmo o nosso familiar mais próximo, e somos nós todos a dar-lhe o nome de Emanuel. Por isso, o verbo que, em Isaías 7,14, aparece no singular (chamar-lhe-á), aparece agora no plural: «Chamar-lhe-ão (kalésousin) Emanuel».

7. A lição do Segundo Livro de Samuel 7,4-16 mostra-nos Deus a prometer a David, através do profeta Natã, que construirá uma ponte de bênção e de paz, pura graça, entre David e o filho que lhe suceder, Salomão. Mas Deus acaba por relançar a sua promessa para sempre, indo, portanto, esta ponte de graça muito para além de Salomão, de filho em filho, até ao filho que será também filho de Deus: «Eu serei para ele um Pai, e ele será para mim um filho» (2 Samuel 7,14). Anda por aqui o «Filho de David», que atravessa as Escrituras. Anda por aqui Jesus. É a boa interpretação que Paulo faz na sinagoga de Antioquia da Pisídia: «Da sua descendência é que Deus, conforme prometera, fez sair para Israel um salvador, Jesus» (Atos 13,23). A tanto conduz o desejo intenso de Deus vir habitar no meio de nós. Não num Templo de pedra, mas num Templo de tempo, podendo assim caminhar connosco sempre, como já fez com David, e quer continuar a fazer connosco. É usual, de resto, dizer-se que nós construímos o espaço, enquanto os judeus construíram o tempo!

8. S. Paulo escreve aos Romanos (4,13-22) e retrata a figura de Abraão, constituído herdeiro pela fé, e não pela lei. Pela fé, e não pela lei, para que a herança fosse vista como dom de Deus para todos, e não apenas para alguns. Por isso, todos nos sentimos na senda de Abraão e agradecidos a Deus. Sim, Jesus veio para todos, para nós também.

9. É por isso que a hora é de cantar. O tema é, claro está, a bondade e a graça de Deus, que desceu até nós numa história que também foi e vai tecendo por amor, sobretudo a sua fidelidade à promessa feita a David. O Salmo 89 insinua-se-nos nas cordas do coração, e não nos deixa parar de cantar. O seu centro de convergência é a promessa feita a David, que acabámos de ver em 2 Samuel 7.

…..

São José,

Esposo e Pai,

Esposo e Pai como Deus,

Em vez de Deus,

Administrador fiel da casa de Deus,

Homem justo e piedoso,

Silencioso,

Habitante do país do silêncio habitado,

Não coagulado

Ou congelado.

…..

Homem manso,

Escutador atento,

Escuta e age e sente,

De forma surpreendente,

Eloquente,

Diligente,

E fala sem dizer palavra,

Palavra fecunda,

Como a semente.

…..

A sua oração

São nuvens de algodão,

Atravessa os céus,

Sabe a pão,

Suavíssima paixão de esposo e pai.

Como Moisés,

Sabe manter a porta entreaberta (Sl 106,23),

Para Deus entrar

Quando quiser

E se venha sentar

No seu lugar,

No meio de nós.

…..

António Couto


CHAMA QUE CHAMA, AMA E ENVIA

Março 18, 2022

1. No programa de «preparação» para a Noite Pascal Batismal, início e meta da vida cristã, o Domingo III da Quaresma está marcado pelos primeiros «escrutínios» para os catecúmenos: primeira «chamada» para a Liberdade.

2. No Evangelho deste Domingo III da Quaresma (Lucas 13,1-9), Jesus atira tudo contra o nosso coração dormente e empedernido: atira a crónica e a parábola. Tudo serve para gravar em nós a conversão. A crónica refere a brutalidade de Pilatos que massacrou um grupo de Galileus, e a queda da torre de Siloé que matou 18 pessoas. Pois bem, Jesus não se insurge contra o poder romano nem invoca o fatalismo, mas também não desperta sentimentalismos fáceis e de ocasião, nem tão-pouco se refugia em esquemas feitos: eram pecadores e por isso foram castigados por Deus. O que equivale a dizer também: não é o nosso caso, isto não tem nada a ver connosco, Deus está do nosso lado, podemos continuar a viver tranquilos. Jesus ouve e passa diante dos olhos a crónica. Mas não fica a olhar para trás, a lamentar-se ou a levantar falsas culpabilizações. Jesus não é reativo, mas proativo. Vira a inteira crónica para nós e diz que, face à precariedade da vida, só nos resta converter-nos! Lição oportuna para nós, que somos forçados a sentir os horrores de uma guerra insensata, que perdemos ainda muito tempo a comentar as notícias, sempre trágicas, dos jornais. De forma diferente, da crónica, Jesus retira sabiamente, não o pecado dos outros, mas a conversão para nós, grande tema quaresmal, que nos acompanha desde Quarta-Feira de Cinzas.

3. Depois pega na parábola da figueira, talvez com muitas folhas, mas sem figos. E põe em cena aquele belo acerto de contas entre o dono do pomar (o Pai) e o cultivador (Jesus, o Filho). Os «três anos» apontam para o ministério de Jesus. Aqueles «três anos» de cuidados parece que não foram suficientes para levar aquela figueira, que somos nós, a dar frutos. É-nos dado «ainda mais um ano» de graça para frutificar. Não, não é a paciência de Deus que a parábola acentua, mas a urgência da nossa conversão. A parábola constitui, portanto, um fortíssimo apelo à conversão. Mas devemos ainda fixar o coração nesta impressionante maravilha que é sermos comparados por Jesus a uma árvore boa plantada por Deus no mundo, neste mundo, para dar bom fruto!

4. Extraordinária a história de Moisés (Êxodo 3,1-8 e 13-15). Segundo Êxodo 7,6 e Atos 7,30, o episódio que hoje temos a graça de ouvir situa-se aos 80 anos da vida de Moisés. Foi então que Moisés foi encontrado por Deus no deserto e foi incumbido de libertar os seus irmãos oprimidos ou escravizados ou instalados, ou oprimidos ou escravizados, porque instalados, no Egito, e de os conduzir, através do deserto, até à entrada da Terra Prometida. No referido episódio, Moisés é pastor e tem um caminho a seguir: o caminho das suas ovelhas. Mas vê uma Visão grande e nova: uma sarça que arde, mas não se consome. E diz o texto, na sua versão original, que Moisés se «desviou do caminho» para ver melhor aquela visão grande. O caminho de Moisés era o caminho das ovelhas que pastoreava. Ao desviar-se do caminho, Moisés age como uma criança curiosa e deslumbrada! Mas as crianças são louvadas no Evangelho, e todos somos advertidos de que, se não nos tornarmos como as crianças, não entraremos no Reino de Deus (Marcos 10,14-15). E Deus, que habitava naquela «chama que chama», contou-se a Moisés: 1) Eu BEM VI o sofrimento do meu povo; 2) e OUVI os seus clamores; 3) CONHEÇO a situação; 4) DESCI a fim de o libertar e conduzir para a terra da liberdade. Está aqui, nestes quatro VERBOS, a história de Deus, a santidade de Deus, que SAI DE SI para vir ao nosso encontro. Note-se bem que contando-se nestes verbos, Deus se afasta dos ídolos, que a Escritura Santa diz que não veem, nem ouvem… E um pouco depois, ao dizer o seu NOME, Deus diz-se outra vez, não com um nome estático, mas com um verbo na forma ativa: «Eu Sou». Outra vez diferente dos ídolos inúteis, vazios e inativos.

5. É importante não deixarmos para trás, no esquecimento, um versículo que a lição de hoje de Êxodo 3 omitiu: o versículo 10. Aí, Deus diz a Moisés: «E agora VAI; Eu te envio ao Faraó, e FAZ SAIR do Egito o meu povo, os filhos de Israel». Ficamos então a saber que Deus, que está bem atento a todos as situações difíceis dos seus filhos, nunca responde alguma coisa… Deus nunca responde alguma coisa. Deus responde sempre ALGUÉM! Aqui, nesta situação de opressão do seu povo no Egito, a resposta de Deus é Moisés. E hoje, quem é hoje a resposta de Deus para as situações difíceis do mundo hoje? Sem equívocos: a resposta de Deus hoje somos nós!

6. A reflexão que Paulo nos oferece neste Domingo III da Quaresma (1 Coríntios 10,1-6.10-12) é exemplar e encaixa perfeitamente com o Evangelho. No deserto, o Povo conduzido por Deus e por Moisés foi rodeado de tantas provas de carinho e da presença amorosa de Deus. Todavia, pecaram, entorpeceram os corações, puseram em causa a presença de Deus… Conclusão: caíram mortos no deserto! E Paulo escreve, por duas vezes neste texto, para nossa advertência: «Estas coisas aconteceram para nos servir de exemplo» (1 Coríntios 10,6 e 11), acrescentando logo: «E foram escritas para nossa instrução» (1 Coríntios 10,11).

7. O Salmo 103 é um grande canto ao amor de Deus, que dia-a-dia nos perdoa, nos cura, cuida de nós com carinho e misericórdia maternais. Sem este amor, sem esta música, seríamos talvez levados melancolicamente a pensar que é o mesmo o destino das folhas outonais e dos homens! Deixemos ecoar em nós as belas notas do Salmo 103, que alguns autores já chamaram o Te Deum do Antigo Testamento.

…..

Temos meia Quaresma já andada.

E enquanto,

No caminho ou no campo,

Nos alegramos por ver a tua messe amadurar,

Também olhamos e vemos,

Cada vez com mais encanto,

Aquela árvore seca

A olhar para nós e a sangrar.

…..

Árvore seca e comovida,

Toco seco a rebentar em flor,

É a tua Cruz, Senhor,

A irrigar de amor a nossa vida.

…..

Ela lá está,

Sempre à nossa frente,

Plantada no chão árido e seco.

…..

Mas, para nosso maior espanto e admiração,

Eis que a tua Cruz, Senhor, se levanta do chão,

E se planta no nosso coração.

…..

Por tanto amor, Senhor,

Recebe a nossa gratidão,

Enche os nossos pés de prontidão,

As nossas mãos de paz,

Os nossos lábios de oração,

Os nossos gestos de perdão.

…..

E caminha connosco

No que falta cumprir desta peregrinação.

…..

António Couto


CAMINHO DE LUZ E DE JESUS

Março 12, 2022

1. Batizado no Jordão enquanto estava em oração (nota típica de Lucas), tentado, mas Vitorioso, Jesus começou a executar o seu programa filial batismal que tem por meta a Cruz Gloriosa (Batismo consumado!) em que nós somos por Ele batizados com o fogo e com o Espírito Santo (ainda o luminoso texto de Lucas 12,49-50). Entre o Jordão e a Cruz Gloriosa aí está, no Evangelho deste Domingo II da Quaresma (Lucas 9,28-36), a Transfiguração, Luz incriada e inacessível (Lucas 9,29; cf. Salmo 104,2; 1 Timóteo 6,16) que investe a Humanidade de Jesus, experiência momentânea da Ressurreição, mediante a qual o Pai confirma o Filho na sua missão filial batismal, já iniciada, mas ainda não consumada. Também aqui temos a nota típica de Lucas de que Jesus subiu ao monte para orar, acontecendo a Transfiguração do Rosto e das vestes enquanto orava (9,28).

2. Batizado para a Cruz Gloriosa, Confirmado para a Cruz Gloriosa. As mesmas palavras do Pai no Batismo e na Transfiguração / Confirmação: «o Filho Meu», «o Amado» – «o Eleito» (Lucas 3,22; 9,35), agora seguidas pelo imperativo «Escutai-o!», dirigido a todos os discípulos: Jesus é também o «Profeta novo», como Moisés, prometido em Deuteronómio 18,15-18. Como dispunha a Lei antiga, que requeria duas ou três testemunhas (Deuteronómio 17,6), testemunham a cena grandiosa da Transfiguração / Confirmação três discípulos, os quais são igualmente transfigurados / confirmados, não no Rosto e nas vestes, mas no coração, para a sua missão futura (após a Ressurreição com a dádiva do Espírito) de dar testemunho d’Ele.

3. Aparecem Moisés e Elias que falam com Jesus Transfigurado / Ressuscitado. É para Ele que aponta todo o Antigo Testamento! As «Escrituras», Moisés, todos os profetas e os Salmos falam acerca d’Ele! (Lucas 24,27 e 44; João 5,39 e 46; Atos 10,43). É o «segundo as Escrituras» que os discípulos também devem testemunhar. Só em Lucas temos o assunto falado: «falavam do Êxodo d’Ele que se consumaria em Jerusalém!» (9,31). Passagem deste mundo para o Pai, Liberdade definitiva, cumprimento do Êxodo antigo!

4. Pedro, sempre ele, em nome dos discípulos de então e de sempre, tenta impedir Jesus de prosseguir a sua missão filial batismal até à Cruz: «Mestre, belo é estarmos aqui e fazermos aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias» (Lucas 9,33). Aqui significa deter-se no penúltimo e provisório e recusar caminhar para o último e definitivo! Lucas 9,33 (e Marcos 9,6) anotam corretamente que «não sabia o que dizia». Não sabia, porque ainda não tinha sido batizado com o Espírito Santo e com o fogo; quando o for, saberá também ele, discípulo fiel, batizado / confirmado, levar por diante a missão filial batismal em que foi investido, e dará testemunho até ao sangue.

5. A Ressurreição é a Transfiguração tornada permanente, eterna. Todos os batizados / confirmados estão destinados à mesma Ressurreição / Transfiguração da Humanidade do Senhor, a divinização por graça.

6. Em consonância com a manifestação de Luz do Evangelho da Transfiguração (Lucas 9,28-36), aí está o Lume Aceso, que é Deus, a passar pelo nosso mundo (Génesis 15,5-12 e 17-18). Abraão representa-nos. Tem dúvidas. Deus dissipa-lhas, comprometendo-se com ele e connosco. O ritual que sela este compromisso é antigo, mas ainda hoje se pratica entre os beduínos. Cortam-se ao meio animais puros, e põe-se uma metade diante da outra. A seguir os contraentes passam entre as carnes divididas dos animais, proferindo uma auto maldição, do género: «Suceda-me o que sucedeu a estes animais, se eu não for fiel à palavra dada!». Note-se que, no texto de hoje, caiu sobre Abraão (e nós com ele) um sono profundo, dom de Deus. Sim, Deus também dá sono e faz sonhar! Há, nas páginas da Escritura Santa, um sono dado por Deus ao homem, um sono que não dormimos porque temos sono, mas um sono milagroso, que só Deus pode e sabe fazer dormir ao homem. A Escritura Santa chama a este sono, na língua hebraica, tardemah. É o sono/sonho de Deus. É o sono que, por amor, Deus deu a Abraão (Génesis 15,12) e a Pedro, Tiago e João (Lucas 9,32), para só citar dois grandes textos Hoje lidos. Deus dá um sono e um sonho. Transfiguração. Transfigura a nossa desfiguração, e, por amor, a si nos configura. Configuração. Toda a figura está aberta à sua realização. Mas a realização não sucede à figura: enche-a! Jesus Cristo não aparece depois do Antigo Testamento: está no meio dele: enche-o! Transborda dele!

7. Este sono/sonho a nós dado e dado a Abraão é importante. Enquanto isso, é só Deus que passa, no fogo, por entre as carnes divididas dos animais. Só Ele, portanto, se compromete. Nós, ensonados e ensonhados, somos apenas beneficiários deste compromisso de Deus de levar a nossa história em direção a Cristo, que é a verdadeira descendência de Abraão (Gálatas 3,16), que Abraão vê e saúda de longe (Hebreus 11,13), cheio de alegria (João 8,56). A meta de Abraão torna-se clara e define e alumia a estrada que segue. Por isso, Abraão não se despede do passado, e faz ao futuro um aceno de esperança e de alegria. É tão simples, tão novo e tão decidido este sono/sonho dado a Abraão, a Pedro, João e Tiago! Talvez devamos mesmo seguir o conselho de Isaías, o profeta: «Olhai para Abraão, vosso Pai» (Isaías 51,2). E partir com ele daqui, do penúltimo e provisório, ao encontro de Cristo Transfigurado / Ressuscitado.

8. A Carta de S. Paulo aos Filipenses (3,17-4,1) põe outra vez tudo às claras: ou agarrados aqui ao penúltimo e provisório, ou a caminho do último, da cidade dada por Deus aos seus filhos e filhas, vida nova e transfigurada e conformada à Humanidade glorificada de Jesus.

9. O Salmo 27 é belo e expressivo. Pode deixar-nos nos braços de Deus, cantando e decantando a luz e a confiança que d’Ele recebemos. Mas também a suavidade, a bondade e a beleza nos encantam. Corolário normal, ainda que sempre de excecional elevação, para este dia e para esta liturgia, que nos deixa sempre tranquilos a brincar à porta da Casa de Deus.

10. A Quaresma é esta estrada de Luz e de Jesus.

…..

A quaresma é uma estrada

Entrecortada

Por estações de serviço de paz e de perdão,

Uma avenida

Florida

De oração,

Uma praça

De graça

E contemplação.

…..

A quaresma é uma escada,

Que do céu desce,

Trazendo até nós a mão de Deus,

E ao céu se eleva,

Levando até Deus a nossa prece.

…..

A quaresma é um caminho

Direitinho

Ao coração.

É preciso limpá-lo

De todo o lixo acumulado.

É preciso entregá-lo a Deus,

Limpo e cultivado.

…..

Senhor desta estrada deserta,

Que vai de Jerusalém a Gaza,

Conduz os meus passos

Até ao limiar da tua casa.

…..

António Couto


A OUTRA GUERRA DA ORAÇÃO

Março 6, 2022

Ao entrarmos no tempo santo da Quaresma,

Devemos ter a coragem de atravessar a poeira dos caminhos

Intransitivos do nosso coração,

Isto é, de limpar as mentiras, ódios, raivas, violências, banalidades,

Que tantas vezes preenchem os nossos dias.

A Quaresma é tempo de nos expormos

Ao vendaval criador e purificador do Espírito,

Sem termos a pretensão de o querer transformar em ar condicionado.

…..

Toma em tuas mãos, Senhor,

A nossa terra ardida.

Beija-a.

Sopra nela outra vez o teu alento,

A tua aragem,

E veremos nela outra vez impressa a tua imagem.

…..

Tu sabes bem, Senhor, que somos frágeis.

Mas contigo por perto,

Seremos fortes e ágeis,

Capazes de abrir estradas no deserto,

A céu aberto.

…..

Concede-nos, Senhor, a paz e o pão,

E o perdão,

E que no meio de tanto gelo e neve,

Sintamos na nossa pele

A pele de cada irmão nosso de Kiev.

…..

António Couto


PROFISSÃO DE FÉ E PAZ

Março 4, 2022

1. Só secundariamente a Quaresma «prepara» para a Ressur­reição. Na verdade, todos os «Tempos» e todos os Domingos do Ano Litúrgico – portanto, também a Quaresma e os seus Domingos – estão depois da Ressurreição e por causa da Ressurreição. E é só sob a intensa luz do Senhor Ressusci­tado com o Espírito Santo (Batismo consumado: Lucas 12,49‑50) que a Igreja – e cada um de nós – pode celebrar autenti­camente a sua fé, proceder à correta «leitura» das Escri­turas e encetar a «caminhada» quaresmal. Neste sentido, todos os batizados são chamados a refazer com Cristo bati­zado o seu programa batismal, cujo conteúdo e itinerário conhecemos: desde o Batismo no Jordão, passando pela Trans­figuração/Confirmação no Tabor, até à Cruz eà Glória da Ressurreição (Batismo consumado!), escutando e anunciando sempre e cada vez mais intensamente o Evangelho do Reino e fazendo sempre e cada vez mais intensamente as «obras» do Reino (Atos 10,37-38: texto emblemático). Os catecúmenos, acompanhados sempre pela Assembleia dos batizados, «pre­param‑se» intensamente para a Noite Pascal Batismal, início e meta da vida cristã.

2. Batizado com o Espírito Santo, e declarado por Deus «o Filho meu», «o Amado» (Lucas 3,21-22), Jesus é conduzido pelo Espírito Santo através do deserto (Lucas 4,1), lugar teológico e não meramente geográfico – com muita água (João 3,23) cumprindo Isaías 35,6-7, 41,18 e 43,19-20, com árvores (canas) (Lucas 7,24) e relva verde (Marcos 6,39) cumprindo Isaías 35,1 e 7 e 41,19 –, lugar provisório e preliminar, preambular, longe do que é nosso, onde se está «a céu aberto» com Deus, onde troará a voz do seu mensageiro (Isaías 40,3), de João Batista (Lucas 3,2-6), do próprio Messias segundo uma tradição judaica recolhida em Mateus 24,26. O deserto é o lugar onde se pode começar a ver a «obra» nova de Deus (Isaías 43,19). Sendo um lugar provisório, aponta para a Terra Prometida e definitiva do repouso que só Deus pode dar. O deserto é lugar de passagem. Sem pontos de referência nem marcos de sinalização. Se o rumo não estiver bem definido, o viandante corre o risco de se perder no deserto da vida e de nunca chegar à Vida verdadeira.

3. A liturgia deste Domingo I da Quaresma, neste Ano C, oferece-nos três textos sublimes atravessados em filigrana pela profissão de fé. Comecemos pelo Evangelho com o texto majestoso das chamadas tentações de Jesus (Lucas 4,1-13). Durante quarenta dias (40 é o tempo de uma vida, a vida toda) Jesus jejuou (Lucas 4,2), isto é, perscrutou a «obra» nova de Deus na história do seu povo, que o mesmo é dizer, saboreou as Escrituras, o outro alimento (Deuteronómio 8,3; Mateus 4,4; cf. João 4,32 e 34-35: notável releitura em que aos olhos atónitos dos discípulos saltam as estações do ano!), e meditou, sempre a partir das Escrituras, na sua missão filial batismal. E é na sua condição de batizado, isto é, de Filho de Deus, que ele é tentado. De facto, toda a tentação – a de Cristo como a nossa – começa sempre da mesma maneira: «se és o Filho de Deus…». Atente-se em como se repete nos mesmos termos sob a Cruz (Lucas 23,35-39). Portanto, sempre. Do Batismo até à Morte, a tentação visa afastar-nos de Deus e da sua «obra», e pôr-nos ao serviço do «deus deste mundo» (2 Coríntios 4,4; cf. João 12,31).

4. Mas detenhamo-nos brevemente nas ofertas do tentador de hoje. Em primeiro lugar, fabricar o próprio pão, a que podemos chamar por isso, com verdade, o pão que o diabo amassou, em vez de receber o pão da Palavra dado por Deus (Deuteronómio 8,3) aos seus amigos até durante o sono (Salmo 127,2) (Lucas 4,3-4). Em segundo lugar, a oferta de todos os reinos deste mundo e da sua glória em troca do afastamento de Deus (Lucas 4,5-7). E a resposta decidida de Jesus, remetendo para a Escritura Santa e para Deus: «Está escrito: “Adorarás ao Senhor, teu Deus, e só a Ele prestarás culto”» (Lucas 4,8). Em terceiro lugar, a tentação do sucesso fácil em Jerusalém, taxativamente recusada por Jesus (Lucas 4,9-13). Para quem tem diante dos olhos o texto de Mateus 4,1-11, aperceber-se-á de imediato da troca de lugar da segunda e da terceira tentação. Fácil de compreender: em Lucas, Jerusalém é o centro do mundo, é lá que Jesus aparece logo aos 40 dias (Lucas 2,22), aos 12 anos (Lucas 2,41), é para lá que Jesus caminha na secção central deste Evangelho (Lucas 9,51-19,28), é lá que se sucedem os últimos episódios da sua vida, é lá que os discípulos são mandados esperar (Lucas 24,49-53), em vez de se dirigirem para a Galileia. Convém, portanto, que a terceira tentação decorra em Jerusalém. De resto, neste Evangelho, para realçar Jerusalém, quase todos os outros lugares são nivelados pelo dizer comum: «estando Ele em uma cidade…» (Lucas 5,12), «num certo lugar…» (Lucas 11,1; 17,12).

5. Batizado, tentado na sua condição de Batizado, e Vitorioso na tentação, Jesus passa de imediato à execução do seu programa filial batismal: anunciar o Evangelho de Deus e fazer a sua «obra» (Lucas 4,14s.). Como ele também nós.

6. Extraordinária a lição do Livro do Deuteronómio 26,4-10: aqui estou, meu Deus, orientando a minha vida toda para Ti, oferecendo-Te os primeiros frutos desta Terra boa e bela que nos destes, depois de nos teres chamado do meio da confusão e dado a liberdade! Eu canto para Ti, meu Deus, pois é a Ti que devo a minha liberdade e a bondade e beleza da minha vida! Este belo texto é uma miniatura, um colar (harizah) de pérolas do Teu amor por nós, que devemos levar sempre connosco, como se fosse uma fotografia Tua! O chamamento dos pais, a libertação do Egito, a dádiva da Terra Prometida.

7. E a lição da Carta aos Romanos 10,8-13: na minha vida toda, no meu coração e na minha boca – no coração a fé, na boca o testemunho – escorre o sabor da Tua Palavra, doce como o puro mel dos favos!

8. O Salmo 91 é um poderoso grito de confiança em Deus, que vela por nós em todos os momentos da nossa vida, sobretudo nos mais difíceis. A piedade popular tem este Salmo em muito apreço. Basta ver, no Doutor Jivago, de Boris Pasternak, o soldado encontrado morto numa batalha, que levava ao pescoço, cozidos num velho pedaço de pano, alguns versículos deste Salmo. Os v. 11-12: «Ele mandou aos seus anjos que te guardem em todos os teus caminhos;/ eles sustentar-te-ão em suas mãos para que os teus pés não tropecem em alguma pedra», são citados pelo diabo no Evangelho de hoje (Lucas 4,10-11), com colorido mágico. O Salmo e Jesus propõem, claro, uma atitude de confiança, não mágica, mas verdadeira, em Deus. E nós cantamo-los hoje, com o coração dorido, por todos os nossos irmãos caídos sob as bombas na Ucrânia.

…..

Ao entrarmos no tempo santo da Quaresma,

Devemos ter a coragem de atravessar a poeira dos caminhos

Intransitivos do nosso coração,

Isto é, de limpar as mentiras, ódios, raivas, violências, banalidades,

Que tantas vezes preenchem os nossos dias.

A Quaresma é tempo de nos expormos

Ao vendaval criador e purificador do Espírito,

Sem termos a pretensão de o querer transformar em ar condicionado.

…..

Toma em tuas mãos, Senhor,

A nossa terra ardida.

Beija-a.

Sopra nela outra vez o teu alento,

A tua aragem,

E veremos nela outra vez impressa a tua imagem.

…..

Tu sabes bem, Senhor, que somos frágeis.

Mas contigo por perto,

Seremos fortes e ágeis,

Capazes de abrir estradas no deserto,

A céu aberto.

…..

Concede-nos, Senhor, a paz e o pão,

E que no meio de tanto gelo e neve,

Sintamos na nossa pele

A pele de cada irmão nosso de Kiev.

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António Couto