A GANÂNCIA ASFIXIA E MATA

Qo 1,2; 2,21-23; Sl 90; Cl 3,1-5.9-11; Lc 12,13-21

1. Diz o Tratado Pirqê ’Abôt 2,9, da Mishna judaica, que «o caminho mau de que o homem se deve afastar é pedir emprestado e não restituir», acrescentando logo que «é a mesma coisa receber emprestado de um homem ou de Deus». Comentando este dito da sabedoria judaica, afirma, de forma contundente, o grande filósofo hebreu Abraham Joshua Heschel: «Talvez esteja aqui o núcleo da miséria humana: quando nos esquecemos de que a vida é um dom e também um empréstimo».

2. Servem estes ditos rabínicos para nos conduzir ao extraordinário DIZER e MOSTRAR de Jesus no Evangelho deste XVIII Domingo do Tempo Comum (Lucas 12,13-21): «Vede bem e guardai-vos de toda a GANÂNCIA (pleonexía)» (Lucas 12,15). É fácil de entender o termo grego usado pelo narrador: pleonexía, que aqui traduzimos por ganância. Deriva de pléon [= mais] + échô [= ter], e passa, portanto, a ideia clara de desejarmos TER MAIS poder, posse, dinheiro, sucesso, etc… Esta raiz daninha pode tomar de tal modo conta de nós que acaba por minar e envenenar todos os nossos comportamentos. São Paulo chama, com toda a razão, a este vício da «ganância» ou «avareza», «idolatria» (Colossenses 3,5). É o feitiço ou o fetiche do poder, da posse, da riqueza, do dinheiro, do sucesso, diante dos quais nos prostramos, seguranças enganadoras, falsos sucedâneos de Deus, a que o Evangelho chama MAMONA (mamônã) (Lucas 16,13; cf. Mateus 6,24). De notar que o termo grego mamônãs [= dinheiro, riqueza] deriva, através do aramaico mamôn, da raiz hebraica ’mn, que serve também para dizer a fé (ʽemunah) e a confiança em Deus. É como quem diz que nos podemos equivocar radicalmente, deixando de pôr a nossa fé e confiança no Deus vivo, para nos agarrarmos aos ídolos mortos e vazios, uma espécie de «espantalhos num campo de pepinos!» (Jeremias 10,5). É assim que caímos no terreno vazio e oco da idolatria, que sou eu ao mesmo tempo dono e escravo de mim mesmo, curvado sobre mim mesmo, adorando-me a mim mesmo!

3. E, para que tudo fique mais claro, aí vem mais uma história arrasadora de Jesus. «A terra de um HOMEM RICO produziu muito» (Lucas 12,16). E eis o HOMEM RICO, sintomaticamente apresentado em cena SEMPRE SÓ, voltado unicamente para si mesmo, entretido com a sua autorreferencialidade, a cogitar CONSIGO MESMO, e a falar apenas CONSIGO MESMO (Lucas 12,17-19).

4. Diz ele: deitarei abaixo os meus celeiros pequenos, construirei novas infraestruturas, grandes celeiros, e recolherei lá todo o meu trigo e os meus bens. Depois, direi para MIM MESMO: tens muitos bens acumulados para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te! (Lucas 12,18-19). Assim falou o HOMEM RICO a sós CONSIGO MESMO. Mas agora é a vez de Deus, que lhe diz: «Mentecapto (áphrôn), precisamente esta noite morrerás, e as coisas que acumulaste para quem serão?» (Lucas 12,20). E o narrador conclui: «Assim acontece àquele que acumula PARA SI MESMO e não PARA DEUS» (Lucas 12,21). Note-se o vivo contraste entre aquele para muitos anos, projetado pelo homem rico, e a lâmina impiedosa daquele precisamente esta noite, pronunciado por Deus e que deita a perder a rima de projetos que elaborámos! Note-se também o vivo contraste das duas formas de viver que o texto assinala: para si mesmo (heautô) e para Deus (eis theón). Viver para si mesmo (heautô) é a autorreferencialidade que estiola a vida, de que não se cansa de falar o Papa Francisco. Para Deus (eis theón) impõe uma direção da nossa vida para fora de nós, para Deus, bem assinalado no texto grego com a expressão eis theón (Lucas 12,21), que implica movimento para Deus. São Paulo admoesta o seu discípulo e cooperador Timóteo a viver como «amigo de Deus» (philótheos), e não como «amigo de si mesmo» (phílautos) (2 Timóteo 3,2 e 4). Na lição do Evangelho do próximo Domingo (XIX), Jesus ensinar-nos-á que este para Deus se verifica no para os outros: «Vendei os vossos bens, e dai em esmola» (Lucas 12,33).

5. Não é suficiente traduzir o termo grego áphrôn por «insensato» ou «estúpido». Áphrôn resulta de phrên [= mente] a que se antepõe o a- (alfa) privativo, pelo que áphrôn indica a falta total de inteligência, um mentecapto, desmiolado, sem-mente.

6. Olhando atentamente à nossa volta, neste mundo em crise acentuada e à deriva, veremos depressa (e não é só no futebol) tantos «ricos mentecaptos», que passeiam e planeiam, falam e gastam sozinhos. Onde estão na nossa não-mente os irmãos a quem devemos fazer participar com alegria da nossa riqueza? E, em última análise, a orientação da nossa vida é PARA NÓS MESMOS ou PARA DEUS? Recebemos a vida, os outros, a riqueza como um DOM e um EMPRÉSTIMO, de que devemos responder a cada momento, ou pensamos que somos DONOS de todos e de tudo, registando logo todos e tudo em nosso nome, nossa propriedade para nosso uso, consumo e satisfação exclusivos? A parábola do rico mentecapto, que acabámos de seguir em Lucas, e que constitui um importante ensinamento de Jesus no caminho, pode muito bem ser vista como o desenvolvimento do gérmen sapiencial já registado no Livro de Ben Sira 11,18-19: «Há quem enriqueça por GANÂNCIA, e será esta a sua recompensa: quando ele disser: “agora encontrei descanso, agora comerei dos meus bens”, ele não sabe quando virá o dia em que deixará tudo a outros e morrerá».

7. Temos hoje a ácida e lúcida companhia de Qohelet (1,2; 2,21-23), esse intrigante pregador que nos segue por toda a parte e não cessa de nos ir lembrando que tudo o que fazemos pode afinal não passar de um sopro, fumaça, um vento que passa, um ócio oco e vão, uma soneira. E logo com tanto irmão à nossa beira!

8. São Paulo regressa ao essencial nesta bela página da Carta aos Colossenses (3,1-5.9-11), pondo em destaque a nossa condição cristã assente no batismo, isto é, na enxertia da nossa vida em Cristo. «Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, com ressuscitastes (synêgérthête: aor. pass. de synegeírô), procurai as coisas do alto» (v. 1). A Igreja antiga retirou daqui o tà ánô zêteíte, sucessivamente traduzido com sursum corda, corações ao alto, que se usa no diálogo inicial da Prece Eucarística em todas as liturgias. A vida nova, batismal, em Cristo, requer de nós vestidos novos (v. 10), com o consequente abandono dos velhos vícios que nos prendem à terra. Não se trata, obviamente, de um convite ao desprezo das coisas terrenas, dando corpo, por assim dizer, a uma religião de evasão e alienação. Trata-se, antes, de não nos encerrarmos nas coisas deste mundo, à maneira do rico da parábola de hoje, a quem encaixa bem a lista de vícios do v. 5, em que sobressai «a ganância insaciável (pleonexía), que é idolatria». Nós, batizados em Cristo, procuramos aquele tesouro escondido no campo, pelo qual vale a pena vender tudo (Mateus 13,44).

9. O Salmo 90 põe em cena a eternidade e a solidez de Deus em confronto com a fragilidade e o sabor efémero da vida humana, sempre vista no microscópio de Deus. Este confronto é cantado na elegia sapiencial dos v. 1-10, sendo de súplica os v. 11-17. O primeiro movimento pode resumir-se na afirmação do v. 4: «Mil anos aos teus olhos são o dia de ontem que passou, como uma vigília da noite». E o segundo movimento tem o seu ponto alto no v. 12: «Ensina-nos a bem contar os nossos anos, para chegarmos à sabedoria do coração». Estar de passagem e sermos tão frágeis como a flor da erva (v. 5-6), não nos leva para o pessimismo, mas para viver intensamente a vida que Deus nos dá, Ele que é e permanece o nosso refúgio de geração em geração (v. 1). O grande estudioso dos Salmos, Artur Weiser (1893-1978), alemão, de tradição Evangélica, expressa bem esta realidade: «Na luz da graça de Deus, um reflexo de eternidade cai também sobre a vida e sobre a obra do homem. Da parte de Deus, a fragilidade recebe subsistência, a miséria torna-se glória, aquilo que parecia sem sentido, alcança significado… É como se a estrela de outro mundo viesse fazer luz sobre o fluir dos nossos dias».

António Couto

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