SOBRE O FUNDAMENTO DOS APÓSTOLOS

Junho 28, 2021

1. Os Santos Apóstolos Pedro e Paulo são festejados em todas as Igrejas do Oriente e do Ocidente, nos antigos, como nos novos calendários, na mesma data, 29 de Junho. A Igreja do Oriente ainda hoje acomuna os dois Apóstolos com o título de Prôtóthronoi, os «primeiros na cátedra» da doutrina divina e salvífica. A Igreja de Roma já existia antes da chegada de Pedro e Paulo, mas venera-os como verdadeiros «fundadores», pois só com eles se vê como Igreja «Apostólica», coração de Pedro, coração de Paulo. A própria iconografia, em inumeráveis representações, junta os dois Apóstolos e Mártires, já desde os séculos II e III, sinal da veneração que os fiéis de Roma e do mundo inteiro lhes dedicavam. Veneração verificável, de resto, no facto de os túmulos dos dois grandes Apóstolos e Mártires ser a meta da única peregrinação do mundo cristão antigo.

2. Os textos da Escritura Santa hoje abertos diante de nós põem em relevo, naturalmente, as duas grandes figuras de Apóstolos que hoje celebramos. O Evangelho é de Mateus 16,13-19 põe em destaque a figura de Pedro. Também a passagem do Livro dos Atos 12,1-11 lhe é dedicada. O texto do final da 2 Carta a Timóteo 4,6-8.17-18 põe naturalmente em realce a figura de Paulo.

3. Cesareia de Filipe, atual Banyas, na tetrarquia de Filipe, um dos filhos de Herodes o Grande, é o lugar certo para se pôr a questão da identidade de JESUS, que atravessa o inteiro Evangelho (Mateus 16,13-19). Cesareia de Filipe, onde se encontra uma das nascentes do rio Jordão, respirava o paganismo do deus Pã e também o culto do Imperador. Aí construiu Herodes um templo dedicado ao Imperador César Augusto, e o tetrarca Filipe, filho de Herodes, deu à cidade, antes conhecida por Pânias, em nome do deus Pã, o nome de Cesareia, também em honra de César Augusto. Dela resta hoje a gruta do deus Pã, lugar que os peregrinos da Terra Santa costumam visitar.

4. É aí, em Cesareia de Filipe, cidade marcada pelo paganismo e pelo culto do Imperador, que Jesus põe a questão da sua identidade. Um lugar assim, marcado pelos deuses do paganismo e pelo culto do Imperador, é claramente o lugar certo para se pôr a questão da identidade de JESUS. Soberanamente Jesus pergunta: «Quem dizem as pessoas que é o Filho do Homem?» (Mateus 16,13), para acrescentar logo de seguida, de forma direta e enfática: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mateus 16,15). A esta pergunta, posta por Jesus aos seus discípulos que de há muito o seguiam, Simão Pedro foi rápido a responder: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!» (Mateus 16,16). Jesus declara «Feliz» (makários) Simão, filho de Jonas, não por achar que ele reunia competência humana para expressar aquele dizer, mas por saber que o tinha recebido do Pai (Mateus 16,17). E é sobre este dizer de Simão Pedro, dizer, não seu, mas recebido do Pai, que Jesus declara que construirá a sua Igreja (Mateus 16,18). Note-se a assonância «Pétros» – «pétra». Mas note-se também que quem constrói a Igreja é Jesus, e não Pedro, e a Igreja a construir também é de Jesus, e não de Pedro: «sobre esta pedra (pétra) construirei a minha Igreja», diz Jesus. Em todo o Novo Testamento, só Jesus e Pedro recebem o apelativo de «pedra». «Rocha», «rochedo», «pedra firme» diz-se, em hebraico, tsûr ou sela‘, terminologia usada no Antigo Testamento por 33 vezes para dizer Deus e a solidez do seu amor fiel. Veja-se, por exemplo, na boca e no coração do Salmista: «O Senhor é a minha Rocha (sela‘) e a minha fortaleza (…), nele me abrigo, meu Rochedo (tsûr), meu escudo e meu baluarte, minha torre forte e meu refúgio» (Salmo 18,3).

5. Mas o hebraico conhece também o termo keph, aramaico kêpha’, para designar a rocha, não tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e proteção a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abraçar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico: kaph, palma da mão; keph, rochedo esburacado (grutas); kêpha’ (aramaico), rochedo esburacado; kêphãs (grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em João 1,42, única vez nos Evangelhos, mas várias vezes em Paulo (1 Coríntios 1,12; 3,22; 9,5; 15,5; Gálatas 1,18; 2,9.11.14); kipah, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, e cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabeça para indicar a proteção de Deus; kaphar, cobrir, perdoar; kaporet, cobertura, perdão. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composição de vocábulos em todas as línguas. Esta terminologia abre para um Simão Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, próximo, cuidadoso e carinhoso, frágil, com a missão pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa é Deus, e são de Deus os filhos que nela são gerados, acolhidos e alimentados.

6. Jesus declara de seguida: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus» (Mateus 16,19). As chaves representam um saber e um poder. Falamos de chaves de uma casa, de uma cidade, de um tesouro, da leitura de um texto. Quem as possui, possui um poder em sede administrativa, política, jurídica, económica ou científica. É esclarecedor o texto de Isaías 22,19-23, que fala do «rito das chaves» e do poder retirado a Shebna e conferido a Eliaqîm. As chaves do Reino dos Céus são as chaves do amor e do perdão, traves mestras de uma comunidade unida e confiante, com os pés na terra e o olhar fixo em Deus. Diz, na verdade, a Constituição Dogmática Lumen Gentium: «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo» (n.º 9).

7. É importante, porque esclarecedora e mobilizadora, esta nota do Concílio Vaticano II. De facto, Pedro é a Pedra e tem as Chaves do Reino dos Céus, e é-lhe ainda dada a autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar: «Tudo o que ligares (dêsês: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeménon: part. perf. pass. de déô) nos Céus, e tudo o que desligares (lýsês: conj. aor. de lýô) sobre a terra, ficará para sempre desligado (lelyménon: part. perf. pass. de lýô) nos Céus» (Mateus 16,19). Todavia, no Evangelho de Mateus, e só no Evangelho de Mateus, esta autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar, é também confiada à inteira comunidade eclesial, exatamente nos mesmos termos em que é confiada a Pedro: «Em verdade vos digo: tudo o que ligardes (dêsête: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeména: part. perf. pass. de déô) no céu, e tudo o que desligardes (lýsête: conj. aor. de lýô) na terra, ficará para sempre desligado (lelyména: part. perf. pass. de lýô) no céu» (Mateus 18,18). É belo ver a inteira comunidade eclesial assente na Pedra, que é Pedro, como Pedro, com Pedro, não alijando responsabilidades, mas unida, reunida e operante na prática quotidiana do Perdão!

8. Atos 12,1-11 é uma página assombrosa, que sai fora do estilo lucano, e se aproxima mais do estilo do evangelista Marcos. Não admira. É mesmo para casa de Maria, mãe de João Marcos, que Pedro se dirige no episódio seguinte (Atos 12,12-17). Na página de hoje, Pedro é salvo miraculosamente pela intervenção do Anjo de Deus, do próprio Deus, portanto. São significativos os cinco imperativos que o Anjo dirige a Pedro: Levanta-te (1), cinge-te (2), calça as sandálias (3), cobre-te com o teu manto (4) e segue-me! (5) (Atos 12,8). Com o primeiro imperativo, caem das mãos de Pedro as correntes de ferro. Assim começa a liberdade! Passam depois, sem qualquer sobressalto, um após outro, dois postos da guarda, e abre-se automaticamente (automátê) o portão de ferro que dava para fora (Atos 12,10). Quando Pedro cai em si, está numa rua de Jerusalém, e reconhece a mão de Deus nesta espetacular ação de libertação em que é libertado das mãos de Herodes (Atos 12,10-11). Trata-se agora de Herodes Agripa I, neto de Herodes o Grande. Favorecido, primeiro por Calígula, depois por Cláudio, foi vendo, a partir do ano 37, começar e aumentar o seu reinado de norte para sul: em 37, é libertado das suas cadeias de ferro – estava preso em Roma – por Calígula, que lhe entrega, juntamente com o título de rei, as tetrarquias de Filipe e de Lisânias; em 40, recebe a tetrarquia de Herodes Antipas, acabando de 41 a 44, ano da sua morte, por se tornar rei também sobre a Judeia, de certo modo refazendo o antigo reino de Herodes o Grande. É no decurso destes últimos anos que se situam os acontecimentos relatados ou apenas acenados na lição de hoje, nomeadamente o martírio de Tiago, filho de Zebedeu, e a prisão de Pedro.

9. A cena da libertação de Pedro acontece na noite de Páscoa, em paralelismo com os hebreus que, no Egito celebraram a Páscoa da libertação. Também aí acontece a intervenção de Deus (Êxodo 12,8.12), também de noite, e os hebreus, como Pedro agora, comem a Páscoa com os rins cingidos e sandálias nos pés (Êxodo 12,11). E, de novo em paralelismo com os hebreus na saída do Egito, que saem para as estradas do mundo, também Pedro deve caminhar pelas ruas da cidade e pelos caminhos do mundo. É aí que Pedro e os Apóstolos devem agora fazer falar a Palavra, e não já no Templo, como sucedeu no relato da libertação dos Apóstolos narrado um pouco atrás, em Atos 5,18-21.

10. Na verdade, quando Pedro dá por si, encontra-se na rua! Dirige-se então para casa de Maria, mãe de João Marcos, onde era usual os cristãos se reunirem para rezar (Atos 12,12). Pedro bate insistentemente ao portão exterior que dá para o pátio interior da casa, e, apercebendo-se, veio uma criada, de nome Rode [= Rosa] ver quem era (Atos 12,13). Mal reconheceu a voz de Pedro, ficou tão contente que, em vez de abrir o portão, correu para dentro anunciando que Pedro estava lá fora (Atos 12,14). Responderam-lhe que estava maluca (maínê) (Atos 12,15). Quando finalmente abriram o portão, que não se abre automaticamente como o da cadeia, ficaram assombrados, fora de si (exístêmi) (Atos 12,16). É este o assombro maravilhoso que toma conta de Marcos, que enche o seu Evangelho, e esta página de eleição!

11. Chegámos finalmente a Paulo e ao final da sua 2 Carta a Timóteo 4,6-8.17-18, em que Paulo traça, por assim dizer, o seu testamento autobiográfico, recorrendo a três imagens. A primeira provém do culto, do rito de libação (2 Timóteo 4,6), hebraico nesek (Êxodo 29,40; Levítico 23,13), que consiste em derramar um pouco de vinho ou de mosto (cerca de 1,5 litros) sobre o altar, onde será queimado juntamente com a oferenda (minhah), subindo o seu perfume para o alto, para Deus. Do mesmo modo, a inteira vida de Paulo foi uma incessante subida para o seu Senhor, nada retendo para si mesmo, cá em baixo. A segunda provém do mundo militar. É o combate (agôn), que Paulo combateu a vida inteira, e que qualifica de «belo» e «bom» (kalós) (2 Timóteo 4,7); de notar que a etimologia de agôn (combate) é a mesma de agápê (amor), sendo, na verdade, o amor verdadeiro uma guerra que requer combates diários. A terceira provém do mundo desportivo, concretamente do atletismo. «Completei a minha corrida (drómos)» (2 Timóteo 4,7). Como o atleta sacrifica tudo para alcançar a vitória, também Paulo despendeu todas as suas energias para alcançar «a coroa da justiça» que o Senhor lhe dará (2 Timóteo 4,8), e que é bem diferente da «coroa corruptível» que os atletas conquistam no estádio (1 Coríntios 9,25). Seja-nos permitido ir buscar ainda uma quarta imagem ao mundo dos marinheiros. «O tempo (ho kairós) começou já a recolher as velas (systéllô)» (1 Cor 7,29). Paulo sabe que está a chegar ao porto, depois de ter atravessado tempestades de toda a ordem, sempre, no entanto, assistido pelo seu Senhor, para que se cumprisse o anúncio (kêrygma) do Evangelho a todas as nações (2 Timóteo 4,17). E termina tudo com uma bela doxologia: «A Ele a glória pelos séculos dos séculos. Ámen» (2 Timóteo 4,18).

12. O Salmo 34 põe nos lábios dos pobres a bênção (berakah), que os une a Deus para sempre, e o louvor jubiloso e intenso (tehillah), que é a sua verdadeira razão de viver (v. 2-3). O pobre enche o seu olhar de Deus e fica radiante, luminoso (v. 6), sabe que Deus o escuta e o salva, e convida a saborear a bondade de Deus (v. 9). Ou talvez mais do que isso. Na versão grega deste v. 9, muito utilizado no momento da comunhão, também nas liturgias de rito bizantino, lê-se: «geúsasthe kaì ídete hóti chrêstós ho Kýrios» [«Saboreai e vede que Bom é o Senhor»], em que o adjetivo chrêstós, «bom», é lido na pronúncia viva: christós, o que vem a resultar, na atualização cristã: «Saboreai e vede que Cristo é o Senhor». Belo e saboroso, sem dúvida. Deus segue sempre o pobre de perto, cerca-o de amor (v. 8), protege até os seus ossos para não serem quebrados (v. 21), tal como é dito do cordeiro pascal, o mais alto símbolo de libertação. No seu Caminho de perfeição, Santa Teresa de Ávila deixa-nos, talvez, um dos mais belos e incisivos discursos sobre a pobreza: «A pobreza é um bem que contém em si todos os bens do mundo; ela confere um império imenso, torna-nos verdadeiramente donos de todos os bens cá de baixo desde o momento em que os faz cair aos pés».

António Couto


DIZER JESUS

Agosto 22, 2020

1. Cesareia de Filipe, atual Banyas, na tetrarquia de Filipe, um dos filhos de Herodes o Grande, é o lugar certo para se pôr a questão da identidade de JESUS, que atravessa o Evangelho (Mateus 16,13-20) deste Domingo XXI do Tempo Comum. Cesareia de Filipe, onde se encontra uma das nascentes do rio Jordão, respirava o paganismo do deus Pã e também o culto do Imperador. Ali construiu Herodes um templo dedicado ao Imperador César Augusto, e o tetrarca Filipe, filho de Herodes, deu à cidade, antes conhecida por Pânias, em honra do deus Pã, o nome de Cesareia, também em honra de César Augusto. Dela resta hoje a gruta do deus Pã, lugar que os peregrinos da Terra Santa costumam visitar.

2. É aí, em Cesareia de Filipe, cidade marcada pelo paganismo e pelo culto do Imperador, que Jesus põe a questão da sua identidade. Soberanamente Jesus pergunta: «Quem dizem as pessoas que é o Filho do Homem?» (Mateus 16,13). Dizem-lhe que o povo pensa que Jesus é um profeta. Um entre muitos: antes dele apareceram muitos; depois dele, outros poderão aparecer. De qualquer modo, dá-se a entender que o povo não vê em Jesus uma pessoa singular e única. Ouvida esta resposta, Jesus avança, logo de seguida, de forma direta e enfática, com uma nova pergunta: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mateus 16,15). A esta nova pergunta, posta por Jesus aos seus discípulos que de há muito o seguiam, Simão Pedro foi rápido a responder: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!» (Mateus 16,16). Jesus declara «Feliz» (makários) Simão, filho de Jonas, não por achar que ele reunia competência humana para expressar aquele dizer, mas por saber que o tinha recebido do Pai (Mateus 16,17). Chamado por Jesus (Mateus 4,18-19). Predestinado pelo Pai (Romanos 8,29-30).

3. De forma diferente do povo, Simão Pedro atinge a singularidade de Jesus. Enquanto Cristo ou Messias, Jesus não é um entre muitos. É único, primeiro e último, definitivo, enviado por Deus para dar à humanidade a plenitude da vida. Sim, enquanto Filho do Deus vivo, Jesus está com o Pai numa relação singular de conhecimento, igualdade, vida. Tal como o Pai, o Filho é a vida em si mesmo. É sobre este dizer de Simão Pedro e sobre o Simão Pedro deste dizer, dizer, não seu, mas recebido do Pai, que Jesus declara que construirá a sua Igreja (Mateus 16,18). Note-se a assonância «Pétros» – «pétra». Mas note-se também que quem constrói a Igreja é Jesus, e não Pedro, e a Igreja a construir também é de Jesus, e não de Pedro: «sobre esta pedra (pétra) construirei a minha Igreja», diz Jesus. Em todo o Novo Testamento, só Jesus e Pedro recebem o apelativo de «pedra». «Rocha», «rochedo», «pedra firme» diz-se, em hebraico, tsûr ou sela‘, terminologia usada no Antigo Testamento por 33 vezes para dizer Deus e a solidez do seu amor fiel. Veja-se, por exemplo, na boca e no coração do Salmista: «O Senhor é a minha Rocha (sela‘) e a minha fortaleza (…), nele me abrigo, meu Rochedo (tsûr), meu escudo e meu baluarte, minha torre forte e meu refúgio» (Salmo 18,3).

4. Mas a forma originária para designar a rocha é keph, aramaico kêpha’, que mostra a rocha, não tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e proteção a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abraçar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico: kaph, palma da mão; keph, rochedo esburacado (grutas); kêpha’ (aramaico), rochedo esburacado; kêphãs (grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em João 1,42, única vez nos Evangelhos, mas várias vezes em Paulo (1 Coríntios 1,12; 3,22; 9,5; 15,5; Gálatas 1,18; 2,9.11.14); kipah, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, e cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabeça para indicar a proteção de Deus; kaphar, cobrir, perdoar; kaporet, cobertura, perdão. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composição de vocábulos em todas as línguas. Esta terminologia abre para um Simão Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, próximo, cuidadoso e carinhoso, frágil, com a missão pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa é Deus, e são de Deus os filhos que nela são gerados, acolhidos e alimentados.

5. Note-se bem a precisão da pergunta de Jesus. De facto, Jesus não pede aos seus discípulos que se pronunciem ou deem a sua opinião acerca do Sermão da Montanha ou sobre outro assunto qualquer, por importante que possa ser ou parecer. A pergunta de Jesus é acerca de Si mesmo, da sua própria identidade, e do grau de implicação dos discípulos com Ele. Daí que Jesus pergunte sobre o dizer. Pedro diz. Não se trata de pensar ou opinar. Trata-se de dizer. Quem diz, compromete-se. Por isso, face ao dizer de Pedro, Jesus declara de seguida: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus» (Mateus 16,19). As chaves representam um saber e um poder. Falamos de chaves de uma casa, de uma cidade, de um tesouro, da leitura de um texto. Quem as possui, possui um poder em sede administrativa, jurídica, científica, interpretativa. É assim que o texto de Isaías 22,19-23 fala hoje do «rito das chaves» e do poder retirado a Shebna e conferido a Eliaqîm.

6. As chaves do Reino dos Céus são as chaves do amor e do perdão, traves mestras de uma comunidade unida e confiante, com os pés na terra e o olhar fixo em Deus. Diz, na verdade, a Constituição Dogmática Lumen Gentium: «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo» (n.º 9).

7. É importante, porque esclarecedora e mobilizadora, esta nota do Concílio Vaticano II. De facto, Pedro é a Pedra e tem as Chaves do Reino dos Céus, e é-lhe ainda dada a autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar: «Tudo o que ligares (dêsês: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeménon: part. perf. pass. de déô) nos Céus, e tudo o que desligares (lýsês: conj. aor. de lýô) sobre a terra, ficará para sempre desligado (lelyménon: part. perf. pass. de lýô) nos Céus» (Mateus 16,19). Todavia, esta autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar, é também confiada à inteira comunidade, exatamente nos mesmos termos em que é confiada a Pedro: «Em verdade vos digo: tudo o que ligardes (dêsête: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeména: part. perf. pass. de déô) no céu, e tudo o que desligardes (lýsête: conj. aor. de lýô) na terra, ficará para sempre desligado (lelyména: part. perf. pass. de lýô) no céu» (Mateus 18,18). A inteira comunidade assente na Pedra, que é Pedro, com Pedro, como Pedro, não alijando responsabilidades, mas operante na prática quotidiana do Perdão!

8. O texto do Evangelho de hoje termina registando a ordem taxativa de Jesus aos seus discípulos para não dizerem a ninguém que Ele é o Cristo (Mateus 16,20). O texto inteiro deste Evangelho (Mateus 16,13-20) é, então, percorrido por um dizer, e fecha com um não-dizer. Trata-se de um dizer novo, não meramente convencional ou tradicional. Não basta dizer um conjunto de palavras que vêm na torrente da tradição, que se recolhem, e se voltam a dizer. É assim que Pedro respondeu bem [«Tu és o Cristo»], e é louvado por isso. Não obstante, Jesus não quer que os discípulos passem esse dizer a ninguém (Mateus 16,20). Por que será?

9. Para sabermos a razão, temos de esperar pelo próximo Domingo (XXII), pois é aí que escutaremos Mateus 16,21-28, o seguimento imediato do texto deste Domingo XXI (Mateus 16,13-20). Na verdade, o texto integral de Mateus 16,13-28, dividido por estes dois Domingos, forma uma unidade incindível.

10. Entretanto, que o nosso coração esteja cheio do amor primeiro de Deus, e que o louvor que lhe é devido encha os dias da nossa vida. É a bela oração de Paulo na Carta aos Romanos 11,33-36.

11. À bela oração de Paulo junta-se hoje a voz do orante do Salmo 138 com a sua bela Ação de Graças, que é «o canto do chamamento universal», como o define S.to Atanásio (séc. IV). O orante, voltado para o Templo (v. 2), como era usual fazer-se no judaísmo tardio (o islamismo fá-lo-á mais tarde em relação a Meca), sente e sabe que a sua oração não esbarra contra um céu cerrado, surdo e mudo, mas é registada e repercute-se no coração de Deus, que em caso algum abandona a obra das suas mãos (v. 8). Grande Ação de Graças deste orante (v. 1) e dos reis de toda a terra (v. 4). Nossa também.

António Couto


SOBRE O FUNDAMENTO DOS APÓSTOLOS

Junho 28, 2020

1. Os Santos Apóstolos Pedro e Paulo são festejados em todas as Igrejas do Oriente e do Ocidente, nos antigos, como nos novos calendários, na mesma data, 29 de Junho. A Igreja do Oriente ainda hoje acomuna os dois Apóstolos com o título de Prôtóthronoi, os «primeiros na cátedra» da doutrina divina e salvífica. A Igreja de Roma já existia antes da chegada de Pedro e Paulo, mas venera-os como verdadeiros «fundadores», pois só com eles se vê como Igreja «Apostólica», coração de Pedro, coração de Paulo. A própria iconografia, em inumeráveis representações, junta os dois Apóstolos e Mártires, já desde os séculos II e III, sinal da veneração que os fiéis de Roma e do mundo inteiro lhes dedicavam. Veneração verificável, de resto, no facto de os túmulos dos dois grandes Apóstolos e Mártires ser a meta da única peregrinação do mundo cristão antigo.

2. Os textos da Escritura Santa hoje abertos diante de nós põem em relevo, naturalmente, as duas grandes figuras de Apóstolos que hoje celebramos. O Evangelho é de Mateus 16,13-19, que é também o Evangelho do Domingo XXI, e põe em destaque a figura de Pedro. Também a passagem do Livro dos Atos 12,1-11 lhe é dedicada. O texto do final da 2 Carta a Timóteo 4,6-8.17-18 põe naturalmente em realce a figura de Paulo.

3. Cesareia de Filipe, atual Banyas, na tetrarquia de Filipe, um dos filhos de Herodes o Grande, é o lugar certo para se pôr a questão da identidade de JESUS, que atravessa o inteiro Evangelho (Mateus 16,13-19). Cesareia de Filipe, onde se encontra uma das nascentes do rio Jordão, respirava o paganismo do deus Pã e também o culto do Imperador. Aí construiu Herodes um templo dedicado ao Imperador César Augusto, e o tetrarca Filipe, filho de Herodes, deu à cidade, antes conhecida por Pânias, em honra do deus Pã, o nome de Cesareia, também em honra de César Augusto. Dela resta hoje a gruta do deus Pã, lugar que os peregrinos da Terra Santa costumam visitar.

4. É aí, em Cesareia de Filipe, cidade marcada pelo paganismo e pelo culto do Imperador, que Jesus põe a questão da sua identidade. Soberanamente Jesus pergunta: «Quem dizem as pessoas que é o Filho do Homem?» (Mateus 16,13), para acrescentar logo de seguida, de forma direta e enfática: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mateus 16,15). A esta pergunta, posta por Jesus aos seus discípulos que de há muito o seguiam, Simão Pedro foi rápido a responder: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!» (Mateus 16,16). Jesus declara «Feliz» (makários) Simão, filho de Jonas, não por achar que ele reunia competência humana para expressar aquele dizer, mas por saber que o tinha recebido do Pai (Mateus 16,17). E é sobre este dizer de Simão Pedro, dizer, não seu, mas recebido do Pai, que Jesus declara que construirá a sua Igreja (Mateus 16,18). Note-se a assonância «Pétros» – «pétra». Mas note-se também que quem constrói a Igreja é Jesus, e não Pedro, e a Igreja a construir também é de Jesus, e não de Pedro: «sobre esta pedra (pétra) construirei a minha Igreja», diz Jesus. Em todo o Novo Testamento, só Jesus e Pedro recebem o apelativo de «pedra». «Rocha», «rochedo», «pedra firme» diz-se, em hebraico, tsûr ou sela‘, terminologia usada no Antigo Testamento por 33 vezes para dizer Deus e a solidez do seu amor fiel. Veja-se, por exemplo, na boca e no coração do Salmista: «O Senhor é a minha Rocha (sela‘) e a minha fortaleza (…), nele me abrigo, meu Rochedo (tsûr), meu escudo e meu baluarte, minha torre forte e meu refúgio» (Salmo 18,3).

5. Mas o hebraico conhece também o termo keph, aramaico kêpha’, para designar a rocha, não tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e proteção a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abraçar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico: kaph, palma da mão; keph, rochedo esburacado (grutas); kêpha’ (aramaico), rochedo esburacado; kêphãs (grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em João 1,42, única vez nos Evangelhos, mas várias vezes em Paulo (1 Coríntios 1,12; 3,22; 9,5; 15,5; Gálatas 1,18; 2,9.11.14); kipah, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, e cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabeça para indicar a proteção de Deus; kaphar, cobrir, perdoar; kaporet, cobertura, perdão. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composição de vocábulos em todas as línguas. Esta terminologia abre para um Simão Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, próximo, cuidadoso e carinhoso, frágil, com a missão pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa é Deus, e são de Deus os filhos que nela são gerados, acolhidos e alimentados.

6. Jesus declara de seguida: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus» (Mateus 16,19). As chaves representam um saber e um poder. Falamos de chaves de uma casa, de uma cidade, de um tesouro, da leitura de um texto. Quem as possui, possui um poder em sede administrativa, política, jurídica, económica ou científica. É esclarecedor o texto de Isaías 22,19-23, que fala do «rito das chaves» e do poder retirado a Shebna e conferido a Eliaqîm. As chaves do Reino dos Céus são as chaves do amor e do perdão, traves mestras de uma comunidade unida e confiante, com os pés na terra e o olhar fixo em Deus. Diz, na verdade, a Constituição Dogmática Lumen Gentium: «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo» (n.º 9).

7. É importante, porque esclarecedora e mobilizadora, esta nota do Concílio Vaticano II. De facto, Pedro é a Pedra e tem as Chaves do Reino dos Céus, e é-lhe ainda dada a autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar: «Tudo o que ligares (dêsês: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeménon: part. perf. pass. de déô) nos Céus, e tudo o que desligares (lýsês: conj. aor. de lýô) sobre a terra, ficará para sempre desligado (lelyménon: part. perf. pass. de lýô) nos Céus» (Mateus 16,19). Todavia, no Evangelho de Mateus, e só no Evangelho de Mateus, esta autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar, é também confiada à inteira comunidade, exatamente nos mesmos termos em que é confiada a Pedro: «Em verdade vos digo: tudo o que ligardes (dêsête: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeména: part. perf. pass. de déô) no céu, e tudo o que desligardes (lýsête: conj. aor. de lýô) na terra, ficará para sempre desligado (lelyména: part. perf. pass. de lýô) no céu» (Mateus 18,18). É belo ver a inteira comunidade assente na Pedra, que é Pedro, como Pedro, com Pedro, não alijando responsabilidades, mas unida, reunida e operante na prática quotidiana do Perdão!

8. Atos 12,1-11 é uma página assombrosa, que sai fora do estilo lucano, e se aproxima mais do estilo do evangelista Marcos. Não admira. É mesmo para casa de Maria, mãe de João Marcos, que Pedro se dirige no episódio seguinte (Atos 12,12-17). Na página de hoje, Pedro é salvo miraculosamente pela intervenção do Anjo de Deus, do próprio Deus, portanto. São significativos os cinco imperativos que o Anjo dirige a Pedro: Levanta-te, cinge-te, calça as sandálias, cobre-te com o teu manto e segue-me! (Atos 12,8). Com o primeiro imperativo, caem das mãos de Pedro as correntes de ferro. Assim começa a liberdade! Passam depois, sem qualquer sobressalto, um após outro, dois postos da guarda, e abre-se automaticamente (automátê) o portão de ferro que dava para fora (Atos 12,10). Quando Pedro cai em si, está numa rua de Jerusalém, e reconhece a mão de Deus nesta espetacular ação de libertação em que é libertado das mãos de Herodes (Atos 12,10-11). Trata-se de Herodes Agripa I, neto de Herodes o Grande. Favorecido, primeiro por Calígula, depois por Cláudio, foi vendo, a partir do ano 37, começar e aumentar o seu reinado de norte para sul: em 37, é libertado das suas cadeias de ferro – estava preso em Roma – por Calígula, que lhe entrega, juntamente com o título de rei, as tetrarquias de Filipe e de Lisânias; em 40, recebe a tetrarquia de Herodes Antipas, acabando de 41 a 44, ano da sua morte, por se tornar rei também sobre a Judeia, de certo modo refazendo o antigo reino de Herodes o Grande. É no decurso destes últimos anos que se situam os acontecimentos relatados ou apenas acenados na lição de hoje, nomeadamente o martírio de Tiago, filho de Zebedeu, e a prisão de Pedro.

9. A cena da libertação de Pedro acontece na noite de Páscoa, em paralelismo com os hebreus que, no Egito celebraram a Páscoa da libertação. Também aí acontece a intervenção de Deus (Êxodo 12,8.12), também de noite, e os hebreus, como Pedro agora, comem a Páscoa com os rins cingidos e sandálias nos pés (Êxodo 12,11). E, de novo em paralelismo com os hebreus na saída do Egito, também Pedro deve caminhar pelas ruas da cidade e pelos caminhos do mundo. É aí que Pedro e os Apóstolos devem agora fazer falar a Palavra, e não já no Templo, como sucedeu no relato da libertação dos Apóstolos narrado em Atos 5,18-21.

10. Na verdade, quando Pedro dá por si, encontra-se na rua! Dirige-se então para casa de Maria, mãe de João Marcos, onde era usual os cristãos se reunirem para rezar (Atos 12,12). Pedro bate insistentemente ao portão exterior que dá para o pátio interior da casa, e, apercebendo-se, veio uma criada, de nome Rode [= Rosa] ver quem era (Atos 12,13). Mal reconheceu a voz de Pedro, ficou tão contente e perplexa que, em vez de abrir o portão, correu para dentro anunciando que Pedro estava lá fora (Atos 12,14). Responderam-lhe que estava maluca (maínê) (Atos 12,15). Quando finalmente abriram o portão, que não se abre automaticamente como o da cadeia, ficaram assombrados, fora de si (exístêmi) (Atos 12,16). É este o assombro maravilhoso que toma conta de Marcos, que enche o seu Evangelho, e esta página de eleição!

11. Chegámos finalmente a Paulo e ao final da sua 2 Carta a Timóteo 4,6-8.17-18, em que Paulo traça, por assim dizer, o seu testamento autobiográfico, recorrendo a três imagens. A primeira provém do culto, do rito de libação (2 Timóteo 4,6), hebraico nesek (Êxodo 29,40; Levítico 23,13), que consiste em derramar um pouco de vinho ou de mosto (cerca de 1,5 litros) sobre o altar, onde será queimado juntamente com a oferenda (minhah), subindo o seu perfume para o alto, para Deus. Do mesmo modo, a inteira vida de Paulo foi uma incessante subida para o seu Senhor, nada retendo para si mesmo, cá em baixo. A segunda provém do mundo militar. É o combate (agôn), que Paulo combateu a vida inteira, e que qualifica de «belo» e «bom» (kalós) (2 Timóteo 4,7). A terceira provém do mundo desportivo, concretamente do atletismo. «Completei a minha corrida (drómos)» (2 Timóteo 4,7). Como o atleta sacrifica tudo para alcançar a vitória, também Paulo despendeu todas as suas energias para alcançar «a coroa da justiça» que o Senhor lhe dará (2 Timóteo 4,8), e que é bem diferente da «coroa corruptível» que os atletas conquistam no estádio (1 Coríntios 9,25). Seja-nos permitido ir buscar ainda uma quarta imagem ao mundo dos marinheiros. «O tempo (ho kairós) começou já a recolher as velas (systéllô)» (1 Cor 7,29). Paulo sabe que está a chegar ao porto, depois de ter atravessado tempestades de toda a ordem, sempre, no entanto, assistido pelo seu Senhor, para que se cumprisse o anúncio (kêrygma) do Evangelho a todas as nações (2 Timóteo 4,17). E termina tudo com uma bela doxologia: «A Ele a glória pelos séculos dos séculos. Ámen» (2 Timóteo 4,18).

12. O Salmo 34 põe nos lábios dos pobres a bênção (berakah), que os une a Deus para sempre, e o louvor jubiloso e intenso (tehillah), que é a sua verdadeira razão de viver (v. 2-3). O pobre enche o olhar de Deus e fica radiante, luminoso (v. 6), sabe que Deus o escuta e o salva, e convida a saborear a bondade de Deus (v. 9). Ou talvez mais do que isso. Na versão grega deste v. 9, muito utilizado no momento da comunhão, também nas liturgias de rito bizantino, lê-se: «geúsasthe kaì ídete hóti chrêstós ho Kýrios» [«Saboreai e vede que Bom é o Senhor»], em que o adjetivo chrêstós, «bom», é lido na pronúncia viva: christós, o que vem a resultar, na atualização cristã: «Saboreai e vede que Cristo é o Senhor». Belo e saboroso, sem dúvida. Deus segue sempre o pobre de perto, cerca-o de amor (v. 8), protege até os seus ossos para não serem quebrados (v. 21), tal como é dito do cordeiro pascal, o mais alto símbolo de libertação. No seu Caminho de perfeição, Santa Teresa de Ávila deixa-nos, talvez, um dos mais belos e e incisivos discursos sobre a pobreza: «A pobreza é um bem que contém em si todos os bens do mundo; ela confere um império imenso, torna-nos verdadeiramente donos de todos os bens cá de baixo desde o momento em que os faz cair aos pés».

António Couto


DESCER DE NÓS ABAIXO

Setembro 22, 2018

1. No Evangelho deste Domingo XXV do Tempo Comum, continuamos a ler a chamada «secção do caminho» do Evangelho de Marcos (Ver Domingo XXIV), hoje a passagem de Marcos 9,30-37. Este texto intenso e sublime cai sobre nós como uma faca de dois gumes e envolve-nos em duas vagas avassaladoras: Marcos 9,30-32 e 9,33-37.

2. A primeira acontece no caminho que desce de Cesareia de Filipe para Cafarnaum, um dia de caminho e de ensinamento de Jesus aos seus discípulos. Concentração máxima: Jesus a sós com os seus discípulos (ninguém de fora os acompanha) e um único dizer na sua boca do Mestre que repetidamente ensinava: «O Filho do Homem vai ser entregue (paradídotai: pass. teológico ou divino) por Deus nas mãos dos homens, que o matarão, mas três dias depois de morto ressuscitará» (Marcos 9,31). Note-se, em todo o caso, que Jesus passará das nossas mãos violentas e assassinas, para as mãos paternais do Pai. Jesus ensina, portanto, a sua paixão, morte e ressurreição. Ficam aqui bem a descoberto as nossas mãos violentas e assassinas. Mas é estranho o comportamento dos discípulos de Jesus, que nos é dado a conhecer pelo narrador. Na verdade, aqueles discípulos de Jesus (e nós com eles) não queriam compreender aquelas palavras e até tinham medo de as vir a compreender. É esta a mais correta tradução daquele verbo agnoéô, que não significa apenas «ignorar», «desconhecer», «não compreender», mas, mais do que isso, «não querer compreender». E era o medo de, porventura, virem a compreender que os impedia de fazer qualquer pergunta a Jesus (Marcos 9,32).

3. Leva tempo àqueles discípulos de Jesus, e a mim, e a nós, compreender que, se a maneira de ser de Deus é o amor, só o amor, então Ele tem de descer ao nosso nível, sujando-se na mentira do nosso coração e na violência das nossas mãos, não nos opondo qualquer resistência, que é o nosso modo habitual de fazer e que faz aumentar a violência, mas amando também a nossa violência até ao fim e ao fundo. Aqueles discípulos de Jesus (e nós com eles) não querem nem sequer pensar nesta maneira de viver e de morrer. Por isso, não querem compreender o verdadeiro caminho do amor que Jesus ensina, e, porque não querem correr quaisquer riscos, não ousam sequer fazer perguntas.

4. É aqui que somos atingidos em cheio pela segunda vaga do texto de hoje. Chegados a Cafarnaum, e tendo entrado na casa (seguramente a casa de Pedro), somos confrontados com uma pergunta certeira de Jesus acerca do assunto que vínhamos a debater (dialogízomai) no caminho (Marcos 9,33). Mas se já antes não arriscámos perguntar nada a Jesus, agora também não nos atrevemos a responder. O narrador passa-nos duas informações: que «eles (como nós) se calavam» (esiôpôn: imperf. de siôpáô), implicando este imperfeito um silêncio continuado (1), e que tinham disputado (dialégomai) no caminho uns com os outros sobre quem fosse o maior (2) (Marcos 9,34). Note-se que a pergunta de Jesus supõe um debate de ideias (verbo dialogízomai), mas a anotação do narrador deixa supor uma luta de interesses (verbo dialégomai). Note-se ainda o contraponto: enquanto Jesus ensina o caminho do amor humilde e oblativo, até ao fim, os seus discípulos ocupam-se de grandezas.

5. Neste momento, Jesus senta-se (modo enfático) e chama para si (modo enfático) os Doze, e diz-lhes (légei: pres. do verbo légô), a eles e a nós, num presente que ainda hoje ecoa no meio de nós: «Se alguém quer ser o primeiro, será o último de todos e o servo de todos» (Marcos 9,35). Entenda-se bem aquele «de todos», duas vezes dito, para evitar equívocos. Anote-se também que, no Evangelho de Marcos, Jesus só se senta três vezes (4,1; 9,35; 13,3).

6. E a ilustração do Mestre, que continua sentado a ensinar, agora com gestos e palavras: recebeu um criança pequena (paidíon), colocou-a no meio deles e de nós, e disse: «Quem receber uma destas crianças pequeninas, no meu nome, recebe-me a Mim…» (Marcos 9,36-37). Note-se aquele: «No meio», que é o lugar mais importante. Note-se também o «No meu nome», que significa ao jeito de Jesus. Note-se ainda que Jesus não usa jogos de estatística. Fala de uma criança apenas. E também deixa claro que, para se receber uma criança pequenina, são precisas mãos maternais, que acariciam e dão vida, ao contrário das mãos dos homens que agarram e matam, já atrás retratadas em Marcos 9,31. De resto, vê-se bem, em filigrana, que uma criança pequenina traduz todos os nossos irmãos dependentes, cuja vida depende de nós, não nos sendo permitido, portanto, abandoná-los e voltar-lhes as costas.

7. Tanto se pode aprender com Jesus «na casa» e «no caminho». Aprendemos a descer de nós abaixo, a abrir as nossas mãos fechadas e armadas, e a revestir-nos de gestos de amor novos, serviçais, maternais.

8. O justo Jesus caminha por entre o sofrimento, o desprezo e a zombaria. E assim também os seus discípulos. O fim, porém, é a glória da Ressurreição. Um breve extrato do Livro da Sabedoria (2,12.17-20) faz-nos ver os ímpios a conspirar de mil maneiras contra o justo, que os importuna com o seu comportamento, e a maquinar a sua morte, para se verem livres dele. Não faltam os motivos de zombaria, afirmando que querem verificar se é verdade o que justo diz, pois afirma que é filho de Deus, e que Deus o assistirá e libertará das mãos dos ímpios (Sabedoria 2,18). Tudo semelhante à ironia sarcástica dos zombadores que passam junto da Cruz do Senhor (Marcos 15,29-32). Mas também é oportuno ver Sabedoria 5,1-15, o quadro que forma um díptico com Sabedoria 2,1-20. Em 5,1-15, os ímpios provocadores e zombadores reencontram-se, no dia do julgamento, lado a lado com o justo que maltrataram. Ao ver o justo de pé, apavorados e atónitos, dirão entre soluços de angústia: «Este é aquele de quem outrora nos ríamos, de quem fizemos alvo de chacota, nós, insensatos! Considerávamos a sua vida uma loucura, e o seu fim infame. Como é que agora é contado entre os filhos de Deus, e partilha a sorte dos santos?» (Sabedoria 5,4-5). E confessam: «Sim, extraviámo-nos do caminho da verdade, a luz da justiça não brilhou para nós, para nós não nasceu o sol. Cansámo-nos nas veredas da iniquidade e da perdição…» (Sabedoria 5,6-7).

9. São Tiago 3,16-4,3 serve-nos também hoje um texto incisivo, que nos ajuda a ler o nosso mundo e o nosso coração. Inveja e discórdia produzem desordem e ações perversas (3,16). Ao contrário, a Sabedoria do alto (ánôthen) é pura (hágnê), pacífica, afável, conciliadora, misericordiosa, cheia de frutos bons, sem duplicidade nem hipocrisia (3,17). E depois, de forma penetrante e pedagógica, pergunta São Tiago: «De onde vêm as guerras e os conflitos entre vós? Não é das vossas paixões que lutam nos vossos membros? Cobiçais, e nada tendes; então, assassinais. Sois ciumentos, e nada conseguis; então, entrais em conflitos e guerras» (4,1-2a). E desvenda este não ter: «Não tendes, porque não pedis» (4,2b). E ainda: «Pedis, e não recebeis, porque pedis mal» (4,3). As lições são muitas e importantes, e têm de ser objeto de profunda reflexão.

10. O Salmo 54 representa a típica súplica bíblica, em que se contam três atores: o «eu» orante, «eles» (os inimigos), e Deus. Três são também os tempos em que se desenrola a oração: o passado feliz, o presente amargo, um futuro melhor, objeto de esperança. Entretanto, fica claro que Deus está sempre do lado do orante, e, por isso, o tempo está carregado de esperança. Os inimigos são descritos como estrangeiros, estranhos (zarîm). Entenda-se: gente fora da comunidade e longe de Deus, que não respeita Deus nem a maneira de viver dos justos. Também este Salmo ajuda a reler, por um lado, toda a agressividade e zombaria que atravessa os textos de hoje, que a figura do ímpio estulto incarna. Por outro lado, mostra também a segurança do justo.

António Couto


O CAMINHO DE JESUS

Setembro 15, 2018

1. Também hoje, dada a importância de que se reveste, optamos por visitar mais de perto o texto do Evangelho deste Domingo XXIV do Tempo Comum (Marcos 8,27-35), disponibilizando-o em tradução literal:

«E saiu JESUS e os DISCÍPULOS d’ELE (hoi mathêtaì autoû) para as povoações de Cesareia de Filipe. E, NO CAMINHO (en tê hodô), perguntou aos DISCÍPULOS d’ELE, dizendo-lhes: “Quem dizem as pessoas que EU SOU?”. Eles disseram-LHE, dizendo: “João Baptista; outros, Elias, e outros ainda, um dos profetas”. E ELE perguntou-lhes: “E VÓS, quem dizeis que EU SOU?” Respondendo, Pedro diz-LHE: “TU és o CRISTO”. E censurou-os (epetímêsen) para não dizerem a ninguém acerca d’ELE.

E COMEÇOU A ENSINÁ-LOS (kaì êrxato didáskein autoús) que é preciso (deî) o FILHO DO HOMEM sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos escribas, ser morto e, depois de três dias, ressuscitar. E abertamente (parrêsía) falava esta palavra. E tomando-O consigo (proslabómenos), Pedro começou a censurá-lo (epitimân) (cf. 9,31-32; 10,32-34). ELE, porém, voltando-se e vendo os DISCÍPULOS d’ELE, censurou (epetímêsen) Pedro e diz: “Vai para trás de MIM (hypáge opísô mou), satanás, pois não tens em consideração as coisas de Deus, mas as dos homens”.

E chamando para SI (proskalesámenos) a MULTIDÃO, juntamente com os DISCÍPULOS d’ELE, disse-lhes: “Se alguém quiser atrás de MIM SEGUIR (opísô mou akoloutheîn), RENEGUE (aparnêsásthô: imp. aor. de aparnéomai) a si mesmo (heautón), TOME A SUA CRUZ e SIGA-ME, pois aquele que quiser salvar a própria vida, vai perdê-la, mas o que perder a própria vida por causa de MIM e do Evangelho, vai salvá-la”» (Marcos 8,27-35).

2. O episódio «NO CAMINHO» de Cesareia de Filipe abre significativamente com o nome «JESUS», abandonado 89 versículos atrás, em Marcos 6,30! Forma clara e enfática de o narrador dizer ao leitor que estamos perante um episódio importante, justamente considerado o centro geométrico e teológico do Evangelho de Marcos. Ao apresentar JESUS e os seus discípulos NO CAMINHO, o narrador abre a secção central deste Evangelho (Marcos 8,27-10,52), normalmente intitulada: «O seguimento de Jesus NO CAMINHO», que é o CAMINHO que conduz da Galileia a Jerusalém, o CAMINHO da formação de Jesus aos seus discípulos. Vamos seguir a par e passo esta importante secção do Evangelho de Marcos durante sete Domingos, desde o Domingo XXIV até ao Domingo XXX.

3. Cesareia de Filipe, tetrarquia de Filipe, um dos filhos de Herodes o Grande, é o lugar certo para se pôr a questão da identidade de JESUS. Cesareia de Filipe, onde se encontra uma das nascentes do rio Jordão, respirava o paganismo do deus Pã e também o culto do Imperador. Aí construiu Herodes um templo dedicado ao Imperador César Augusto, e o tetrarca Filipe, filho de Herodes, deu à cidade, antes conhecida por Pânias, em honra do deus Pã, o nome de Cesareia, também em honra de César Augusto.

4. É aí, em Cesareia de Filipe, cidade marcada pelo paganismo e pelo culto do Imperador, que JESUS põe a questão da sua identidade. Soberanamente JESUS pergunta: «Quem dizem as pessoas que eu sou?» (8,27), para acrescentar logo de seguida: «E vós, quem dizeis que eu sou?» (8,29). A pergunta é única em todo o arco da Escritura. Ninguém, antes ou depois de Jesus, em toda a Escritura, fez ou fará uma pergunta semelhante.

5. Para o povo, JESUS é um profeta. Um entre muitos. Mas para Pedro, Jesus não é apenas um entre muitos. Ele é Único e Último (cf. Marcos 12,1-12), o Rei definitivo, o Cristo, o Messias, que traz todo o bem para o seu povo («Fez tudo bem feito»: Marcos 7,37). E assim, à questão direta e enfática – «E vós, quem dizeis que eu sou?» (8,29) – posta por JESUS aos seus discípulos que de há muito o seguiam, Pedro responde: «Tu és o Cristo!». Note-se bem que JESUS não pergunta simplesmente: «Quem sou Eu?», mas: «Quem dizeis vós que Eu sou?». Dizer é mais do que um saber. Implica o compromisso, a vida, de quem diz.

6. À primeira vista, parece que Pedro respondeu acertadamente. Mas o contexto mostra que o discípulo não reunia competência sobre a matéria, não estava ainda em condições de fazer as operações mentais e afetivas necessárias para uma resposta correta que reunisse todos os elementos necessários de modo a implicar na resposta o respondedor. O dizer de Pedro ainda era um dizer antigo, tradicional e convencional, sem implicações pessoais. Pedro ainda não tinha nascido de novo e do alto e do Espírito. Como podia dizer JESUS? «Tu és o Cristo!», respondeu Pedro. Fosse qual fosse a ideia que Pedro tivesse de «Cristo», vê-se logo no seguimento do texto, que no «Cristo» de Pedro não entrava o sofrimento, a rejeição, a morte, a ressurreição (8,31-32). Muito menos a adesão pessoal de Pedro a este «Cristo». Na verdade, Pedro recrimina JESUS pelo CAMINHO de rejeição, sofrimento e morte que Ele acaba de mostrar como sendo o verdadeiro CAMINHO de «Cristo» segundo JESUS. O CAMINHO de «Cristo» segundo Pedro só inclui triunfo e sucesso.

7. Por isso, porque Pedro acertou com a resposta – na verdade, JESUS é o «Cristo» –, mas não é o «Cristo» como Pedro pensa que é, JESUS impõe soberanamente silêncio (8,30). O silêncio imposto por JESUS aos seus discípulos pode passar falsamente a ideia do chamado «segredo messiânico», segundo o qual JESUS não quereria que a sua identidade, uma vez descoberta, fosse divulgada. Trata-se, antes, de impedir que respostas, porventura certas nas palavras, mas erradas nos conteúdos, e elaboradas apenas com base em elementos convencionais e tradicionais (o «Cristo» do judaísmo), que não implicam um verdadeiro dizer pessoal, um novo nascimento do alto e do Espírito, sejam transmitidas boicotando assim o nascimento do conhecimento profundo e verdadeiro da novidade de JESUS e a implicação pessoal de quem diz JESUS e se diz face a JESUS. O verdadeiro sujeito deste dizer não o pode ser só por fazer parte de alguma instituição que confere credibilidade ao seu dizer já antes de começar a dizer, como, por exemplo, os escribas ou os próprios discípulos de JESUS.

8. Porque há muita coisa que os discípulos ainda têm de aprender, antes de saberem dizer JESUS, soberanamente JESUS começou a ensinar (8,31). É grandemente sintomático que o narrador empregue a mesma expressão («E começou a ensiná-los») quando JESUS ensina a semente (Marcos 4,1-2), quando ensina o pão (Marcos 6,34s.), e quando ensina a Paixão, Morte e Ressurreição (Marcos 8,31s.). Em boa verdade, JESUS é a semente e é também o pão, linguagem que ilumina e é iluminada pela Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Veja-se o dito condensado de João 12,24: «Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto».

9. Já sabemos que Pedro respondeu antes do tempo com um punhado de palavras convencionais, que vinham na corrente da tradição judaica. Ainda não tinha nascido do alto e do Espírito, como sujeito novo de ação [= dizer e fazer], face à novidade de JESUS. Falta-lhe fazer aquele «caminho» transitivo e intransitivo, longo, gradual e tortuoso, da Galileia até à Cruz, que JESUS aponta logo de seguida aos seus discípulos e ao leitor. Aí nascerá para a Glória a humanidade de JESUS, ao mesmo tempo que nascerá Pedro como sujeito apto para dizer JESUS e se dizer face a JESUS. Por agora, Pedro e os discípulos e a multidão e o leitor devem «dizer energicamente não» (aparnéomai) a si mesmos e ocupar o seu lugar «atrás de» JESUS, para seguir o Mestre ao longo do CAMINHO. Este «dizer não» a si mesmo implica uma forte conotação de rejeição, que Isaías usa para a rejeição dos ídolos: «Naquele dia, Israel rejeitará (aparnéomai) os seus ídolos de prata e os seus ídolos de ouro, trabalho das vossas mãos pecadoras» (Isaías 31,7). Marcos só usa esta expressão aqui e no anúncio feito por Jesus da negação de Pedro (Marcos 14,30-31) e na recordação desse anúncio por parte de Pedro (Marcos 14,72). A lição é clara: ou «dizemos não» a nós mesmos ou acabaremos sempre por «dizer não» a JESUS.

10. Ocupar o seu lugar «atrás de» JESUS. Note-se a tradução correta: «Vai para trás de MIM» (hypáge opísô mou) (8,33), e não: «Afasta-te de MIM», como se vê em muitas traduções. «Atrás de MIM» é o lugar do discípulo, que segue o Mestre passo a passo, que deve ter em consideração as coisas de Deus, e não as dos homens. É, de resto, a mesmíssima linguagem posta na boca de JESUS aquando do chamamento de Pedro e André: «Vinde atrás de Mim (deûte ôpísô mou)» (Marcos 1,17).

11. Seguindo atentamente «atrás de» Jesus neste caminho de formação que constitui a secção central de Marcos (8,27-10,52), estes sete Domingos fazem-nos viver, episódio após episódio, importantes situações pedagógicas.

12. O chamado «Terceiro Canto do Servo de YHWH» (Isaías 50,5-9) faz eco ao caminho do Filho do Homem e de todo aquele que o quiser seguir, aberto no Evangelho de hoje em duas vagas sucessivas (Marcos 8,31-33 e 8,34-35). Este itinerário de Jesus para a Cruz e a Ressurreição será ainda acentuado por mais duas vezes (Marcos 9,30-31 e 10,32-34), mas esta declaração será sempre acompanhada de uma declaração paralela sobre o seu discípulo (Marcos 9,35 e 10,43-45). O retrato do discípulo de Jesus deve decalcar os traços do retrato do Mestre. Tal como Jesus, também o seu discípulo tem de ser o homem da doação total, sem reservas. Assim é também o Servo de YHWH que caminha, sem recuos, enfrentando determinado o sofrimento, mas sempre assistido pelo seu Deus. Esta determinação aparece traduzida pela expressão: «Tornei o meu rosto duro como pedra» (Isaías 50,7), que é como quem diz que tomou uma decisão da qual não poderá voltar atrás. Lucas pediu emprestada a Isaías esta forma de dizer para vincar a determinação com que Jesus orienta o seu rosto na direção de Jerusalém (Lucas 9,51).

13. Outra vez a lição oportuna e contundente de S. Tiago (2,14-18), a lembrar-nos que a fé que professamos é um dom de Deus, e tem de ser professada, não apenas com os lábios, mas com gestos concretos de caridade. A fé com alegria recebida deve ser com alegria dita e com alegria feita em pequenos gestos de amor. Não. Não se trata da fé contra as obras, nem de Tiago contra Paulo. Veja-se o dizer de Paulo aos Gálatas: «Em Cristo Jesus nada conta… senão a fé que opera por meio da caridade» (Gálatas 5,6).

14. O Salmo 116 apresenta-se composto por dois painéis, que formam um díptico. O primeiro integra os vv. 1-9, e abre com: «Eu amo». O segundo reúne os vv. 10-19, e abre com: «Eu acreditei». O painel de hoje, o primeiro, abre, como vimos, com «Eu amo». O objeto deste amor do orante é Deus, o seu Deus, e são logo evocadas as razões pelas quais o orante ama o seu Deus. Porque ouviu a sua súplica, se debruçou sobre ele, salvou a sua vida, transformou as suas lágrimas em alegria, porque é bom, justo e compassivo. Sim, o nosso Deus é digno de confiança, está sempre atento à nossa vida, caminha connosco. É bom, belo e justo que nós caminhemos também com Ele.

António Couto