É O AMOR O QUE FICA DO QUE PASSA

Novembro 16, 2019

1. Eis-nos aqui, neste caminho e neste hoje. Passamos, vemos e somos vistos. Entramos no Templo ou na Igreja da nossa terra, cheia de belas pedras, painéis, lustres, imagens, talhas douradas, toalhas de linho, música e flores. Também de gente bem vestida e perfumada.

2. Cá fora, lá fora, as guerras continuam, como continuam as catástrofes, as crises, as riquezas, as pobrezas, os impérios, os imperadores e as tiranias, os turistas que tiram fotografias, filmam pedras que julgam interessantes, a canalha, os pardais, os pares de namorados, os velhinhos sentados na soleira da sua porta, os vendedores fanáticos de qualquer seita, que tão depressa vaticinam desastres, como fabricam e vendem mezinhas e remédios, sonhos e futuros fáceis, enlatados, prefabricados, à medida, prontos a vestir ou a viver, mas também continuam as falências, as insolvências, as dores, as doenças, as desavenças, os desentendimentos familiares.

3. Dentro do Templo, e não fora dele, à saída, como narram os Evangelhos de Mateus e Marcos, o Jesus de Lucas 21,5-19, que temos a graça de ouvir neste Domingo XXXIII do Tempo Comum, faz ver e compreender aos seus discípulos de ontem e de hoje como tudo é passageiro e efémero, «tão cedo passa tudo quanto passa»! Passam as belas pedras e as flores, os perfumes, os impérios, as palavras, as guerras, as tragédias!

4. Nós fazemos quase sempre perguntas superficiais e epidérmicas, sem sentido: «Quando, e como se poderá saber quando será o fim destas coisas, deste mundo, deste tempo?!». É evidente que Jesus não nos responde diretamente, mas adverte-nos: «Não vos deixeis enganar, nem perturbar!». E aproveita a embalagem para orientar o nosso olhar e o nosso coração para o essencial: o fim não deve desviar-nos e distrair-nos do Presente, da Presença, d’Aquele que não passa, e em Quem devemos sempre saber pôr o coração, biblicamente falando, pôr a nossa atenção.

5. É esta Presença, esta Voz, que Hoje nos chama e diz que nos ama, que deve reclamar toda a nossa atenção, o nosso inteiro coração. Portanto, silêncio em nós. Pausa e bemol. Tempo novo de deixar falar o Espírito (Lucas 12,12) e Jesus (Lucas 21,15). Não há lugar para atitudes de autodefesa («não prepareis a vossa defesa»), mas para «o testemunho».

6. No Templo ardia o fogo perpétuo no altar do incenso, cuidado e renovado duas vezes ao dia, nove da manhã e três da tarde, pelo sacerdote de turno. Esse fogo era o sinal desta Presença amante e interpelante. Nas nossas Igrejas arde permanentemente aquela frágil lamparina, luzinha acesa junto do Sacrário, que assinala esta Presença, este Presente. Não nos deixemos distrair ou perturbar com o acidental. Velemos por esta Presença essencial, que vela por nós sempre. Afinal, é «Na tua Luz que veremos a Luz» (Salmo 36,10).

7. Esta Luz pequenina, vou deixá-la brilhar! Está acesa no mundo para alumiar e aquecer a nossa vida, purificar o nosso coração esclerosado, empedernido, atulhado de impurezas e asperezas, e sinalizar rumos novos, tenros, ternos, verdadeiros. Cuidado convosco! Não suceda que essa luzinha, essa chamazinha que arde mansamente, se transforme num fogo ardente, incontrolável, que queima a vossa palha (Malaquias 3,19). Diz-nos Malaquias, na lição de hoje (3,19-20), que o fogo tanto pode queimar como alumiar. O problema não está no fogo. Está na palha. Deixai-vos então alumiar, e limpai já o vosso coração de toda a tralha que possa fazer com que aquela luzinha, aquela chamazinha, em vez de alumiar, se venha a transformar num fogo inextinguível. Bem nos exorta São Paulo: «Veja cada um como constrói: com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha. A obra de cada um será posta em evidência. O Dia que há de vir torná-la-á conhecida, pois ele manifestar-se-á pelo fogo, e o fogo provará o que vale a obra de cada um» (cf. 1 Coríntios 3,10-13).

8. Trabalhai com diligência e amor. Semeai o vosso trigo, tratai-o com carinho, limpai-o da palha que o possa afogar, regai-o, colhei-o com alegria, moei-o, amassai a farinha com as vossas mãos limpas e carinhosas, acendei o forno com cuidado, cozei o vosso pão, parti-o e comei-o à vossa mesa, com uma vela acesa! Chamai o pobre, fazei-o entrar e sentar, alumiai-o e alimentai-o. Agasalhai-o. É a lição de São Paulo na Segunda Carta aos Tessalonicenses 3,7-12. Mesmo a propósito: passa hoje o Dia Mundial dos Pobres.

9. Sim, meus irmãos, o fio de ouro, a filigrana, que atravessa a história, é o amor. É o que fica do que passa. É, portanto, o amor que julga, isto é, que põe em crise, a nossa história e a nossa vida vã e banal. O fim do mundo é o amor que ama. O fim de um mundo. O fim do meu mundo egoísta, egocêntrico e egolátrico, assente apenas nos meus instintos e interesses. Quero dizer: aquilo que põe fim a este meu mundo vão e banal é o amor que ama, e, porque ama, é pessoal, é uma pessoa, é Deus que vem, amando, e me faz ver, amando-me, como eu tenho andado distraído e enganado, que nem tenho reparado no seu amor!

10. Cantai, pois, um cântico novo, que tenha a idade e a fidelidade do amor, ao Deus que vem para julgar amando, e renovar, sempre amando e acariciando, a terra do nosso coração. E levantar-se-á então, desde o santuário do nosso emocionado coração, o hino coral e universal, que é o belo Salmo 98. Tudo e todos são chamados a formar uma bela orquestra, que nunca deixe de cantar os louvores de Deus. Desde o Templo (harpa, cítara, shôphar) até à inteira criação: mar e terra, rios (que são os braços e as mãos do mar, e, por isso, batem palmas), montes e colinas. Cantai, pois, um cântico novo, que tenha a idade e a fidelidade do amor, ao Deus que vem para julgar, amando, e renovar, sempre amando e acariciando, a terra, às vezes dura, do nosso coração.

 

No meio da bruma e da esperança

Que envolve os passos de tanta gente

Nestes dias toldados de novembro,

Há sempre uma mãozinha que se sente,

Uma luzinha que se acende,

Nos alumia, nos acolhe e nos atende.

 

Guia-me sempre, Luz amável,

No meio do nevoeiro que me envolve:

Sê Tu a guiar-me no caminho!

 

A noite é escura,

A casa é distante:

Sê Tu a guiar-me no caminho!

 

Guarda Tu os meus passos!

Eu não peço para ver o horizonte distante:

Um passo de cada vez

É para mim o bastante!

 

Obrigado, Senhor Jesus!

Tu és a Luz que me alumia

A cada instante!

 

Alumia também

Cada viandante,

Que na penumbra dos dias,

Tenha perdido a fé ou o volante.

 

António Couto


VAI COM DEUS

Novembro 9, 2019

1. Tendo atravessado Jericó e também o coração de Zaqueu, como vimos no Domingo passado (Lucas 19,1-10), Jesus sobe para Jerusalém, «chora sobre ela» (Lucas 19,41), entra no Templo (Lucas 19,45), e nele começa a ensinar o povo demoradamente (Lucas 20,1), última etapa do seu ministério público. É a ensinar no Templo que os saduceus o encontram e pretendem «tramá-lo» avançando com a estranhíssima história da mulher casada sucessivamente com sete irmãos, porque um a um iam morrendo sem deixar descendência, quadro evangélico posto diante dos nossos olhos neste Domingo XXXII do Tempo Comum (Lucas 20,27-38). Esta estranha história assenta na chamada «Lei do levirato» [do latim levir = cunhado], que manda que, se a uma mulher casada morrer o marido sem deixar descendência, o irmão do marido deve desposar a mulher para dar uma descendência ao seu irmão (ver Deuteronómio 25,5-10). O tema da mulher que, por este processo, desposa sete maridos era também um lugar comum no folclore judaico, como se pode ver em Tobias 6,14.

2. Os saduceus, descendentes do sumo-sacerdote Sadoq, constituíam a alta burguesia sacerdotal e liberal de Jerusalém. A religiosidade conservadora que defendiam assentava apenas na Tôrah de Moisés escrita, constituída pelos Livros do Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio. Não reconheciam autoridade a nenhuma tradição oral, ao contrário dos fariseus. Também ao contrário dos fariseus, os saduceus não acreditavam na ressurreição. E é este ponto preciso que pretendem atacar e pôr a ridículo, quando contam a Jesus a história da mulher e dos seus sete maridos, para no final lhe deixarem a pergunta sarcástica: «Na ressurreição, de qual dos sete será esposa, uma vez que, nesta vida, os sete a tiveram por mulher?» (Lucas 20,33). Claro que a pergunta visa desacreditar e pôr a ridículo a mentalidade popular, cultivada por algumas correntes farisaicas, que passava da ressurreição uma imagem demasiado materialista, segundo a qual os defuntos ressuscitariam tal como foram sepultados, com o mesmo aspeto, com as mesmas roupas e com as mesmas enfermidades. Assim, cegos, surdos, mudos, coxos ressuscitariam igualmente cegos, surdos, mudos, coxos, para que pudessem ser reconhecidos, e apenas mais tarde seriam curados.

3. A resposta de Jesus é original no método e nos conteúdos. Claro que afirma a ressurreição. Opera, porém, uma clara distinção entre «este mundo» e o «mundo que há de vir», mostrando que este não é um decalque do primeiro, e mostrando também a nossa inaptidão e inabilidade para passar de um mundo para o outro. Este «outro» não é, na verdade, regido por nós, seja qual for a nossa maneira de pensar. É regido por Deus, de quem somos «filhos» (Lucas 20,36), isto é, recebedores de vida. Belíssima janela aberta para a grande teologia da divinização por graça. Na sua resposta, Jesus não cita nenhum texto bíblico que fale explicitamente de ressurreição, evitando assim as infindáveis discussões académicas. De forma surpreendente e inesperada, cita Êxodo 3,6, em que Deus se revela a Moisés como «Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob» (Lucas 20,37).

4. Com este procedimento, Jesus vai diretamente ao coração das Escrituras, à Revelação do Deus vivo. A história contada pelos saduceus era a história de uma paternidade sete vezes falhada, de vida não transmitida que, por oito vezes, desemboca na morte. A história que Jesus conta é a história da vida verdadeira de Deus, vida transmitida, dada pelo Deus vivo, e Deus dos vivos, Paternidade não falhada, mas realizada. A ressurreição, como a mostra Jesus, não é a reanimação de um cadáver ou um simples prolongamento desta vida. Os «filhos da ressurreição» e «filhos de Deus» são aqueles que põem toda a sua esperança em Deus, o único verdadeiro vivente. Os que vivem como «filhos do Deus vivente» recebem de Deus a vida que não morre. A não ser assim, terá que se dizer que Deus não é o Deus da vida, o que até para os saduceus seria um absurdo.

5. Portanto, negar a ressurreição é negar a vida, e equivale a negar a própria existência de Deus. Se Abraão, Isaac e Jacob estão vivos, não é pelo facto de terem desposado mulheres e gerado filhos, mas pelo facto de serem eles mesmos «filhos» de Deus, para sempre recebedores da vida de Deus. Na ressurreição, isto é, na ordem nova da vida de Deus, o marido, a mulher e os filhos gerados não são identificados pela sua relação esponsal, paternal, maternal ou filial, mas apenas pela sua relação de filiação divina (hyiothesía) (cf. Romanos 8,15-16; Gálatas 4,5), a única verdadeira relação originária e que não pode ser abolida, a mesma que define e identifica os anjos.

6. Vida em plenitude, apenas dada e recebida da única fonte da vida, nunca falhada, nunca terminada, vida sem ocaso. Vida grande e bela, musical, angélica música da água a jorrar da fonte divina inesgotável. «Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob, não de mortos, mas de vivos». Com o estupendo testemunho do filósofo francês Blaise Pascal que, desde 1654 até à sua morte, ocorrida em 1662, trazia, cosido no forro do seu manto (na verdade, cosia e descosia, consoante mudava de roupa), um pergaminho escrito, que começava com a parte final do Evangelho de hoje: «Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob./ Não dos filósofos e sábios./ Certeza, Certeza. Sentimento, Alegria, Paz./ Deus de Jesus Cristo./ Deum meum et Deum vestrum (João 20,17)./ O teu Deus será o meu Deus./ Esquecimento do mundo e de tudo, exceto Deus./ Ele não se encontra senão pelos caminhos ensinados no Evangelho…». Este pessoalíssimo testemunho constitui o chamado Mémoriale de Pascal, escrito em 1654, segunda-feira, 23 de Novembro, entre as dez e meia da noite e a meia noite e meia. Após a sua morte, um criado encontrou o pergaminho com os dizeres mencionados cosido no forro do seu manto.

7 No ano 167 a.C., o selêucida Antíoco IV Epifânio desencadeou uma violenta perseguição antijudaica, cujos ecos se podem ver, por exemplo, no Segundo Livro dos Macabeus, Capítulos 6 e 7, um extraordinário díptico que mostra no Capítulo 6 a fidelidade heroica do velho Eleazar, e no Capítulo 7 a mesma atitude por parte dos sete jovens irmãos Macabeus. É este segundo episódio (2 Macabeus 7,1-2.9-14) que hoje escutamos e que faz eco ao Evangelho. A narrativa está cheia de heroicidade e de fé no Deus vivo. Estes sete jovens e a sua mãe afirmam aqui, de forma clara, a Ressurreição, aludida em muitas outras passagens do Antigo Testamento. Mas vale sempre a pena recuperar o quadro de Eleazar, um ancião de 90 anos, que também afirma e defende corajosamente a sua fé perante os perseguidores pagãos. Os dois quadros, do velho ancião e dos sete jovens e sua mãe, formam um belíssimo díptico que devemos colocar em lugar bem visível para os olhos do nosso coração, como se fosse, e é, um quadro de família. A tinta dos quadros ou das narrativas do Livro dos Macabeus, citando nomes e acontecimentos verdadeiros, é também de teor edificante. O Livro de Daniel, escrito provavelmente no Outono do ano 164 a.C., lê os mesmos acontecimentos também com o objetivo de encorajar os judeus piedosos a permanecerem firmes na sua fé durante a perseguição do tirano Antíoco IV Epifânio. No dizer deste Livro (12,1-3), pessoas como Eleazar ou os sete jovens irmãos Macabeus e sua mãe são os mestres sábios (maskkilîm) e justificadores (matsddîqîm), isto é, dadores de vida: ensinam, não teorias, mas a vida verdadeira, dando a sua vida por amor: é assim que vencem os violentos, não opondo-se a eles, mas amando, isto é, dando a vida e dando vida, ensinando a viver. Estes novos sábios e justificadores são, diz o Livro de Daniel, as novas estrelas que brilham para sempre! Todas as outras (do cinema, da canção, do futebol) são cadentes e decadentes.

8. Belo podermos ver hoje Paulo a rezar (2 Tessalonicenses 2,16-3,5), juntando, com um verbo no singular, «Nosso Senhor Jesus Cristo e Deus, nosso Pai, que nos amou e nos deu consolação eterna e esperança boa na graça, console os vossos corações» (vv. 16-17). A oração de Paulo é de intercessão a favor dos Tessalonicenses. Depois pede aos Tessalonicenses que rezem por ele, para que a palavra do Senhor corra pelo mundo inteiro e seja por todos acolhida e suavize todos os corações.

9. O Salmo 17 está em perfeita harmonia com a liturgia que hoje celebramos. Levanta-se um justo perseguido e apresenta a Deus o seu atestado de inocência (vv. 1-5). Desde o coração (pensamento), passando pela boca (palavra), continuando pelos pés (caminhos, passos), o orante expõe-se todo diante de Deus, para que Ele possa verificar a retidão da sua vida. A um cristão que reza atentamente o Salmo, pode esta confissão parecer um pouco farisaica, mas pretende tão só afirmar a adesão a Deus e ao bem por parte do orante. A segunda parte (vv. 6-15) é uma súplica vigorosa e apaixonada em que o orante perseguido pede a Deus que, do armazém da sua ira, tire a espada da vingança e abata os seus inimigos, cujo coração, boca e olhos estão cheios de maldade e violência. Mas vai mais longe o orante na sua súplica intensa, e pede que Deus espalhe o terror e faça beber a taça da sua ira também aos filhos dos seus adversários e aos filhos dos seus filhos. E, assim como pede que sejam saciados de fel os seus inimigos, pede também que ele próprio seja saciado de doçura (v. 15). Também este intenso e alargado pedido de vingança pode soar mal a ouvidos cristãos. Trata-se, porém, do realismo bíblico da oração. O orante sente o que sente, e diz a sua amargura a Deus, rezando. Rezando, desinstala da sua alma aqueles sentimentos, e entrega-os a Deus. E é óbvio que Deus não pensa, diz e age como nós: «Na verdade, os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos» (Isaías 55,9).

António Couto


HOJE NA TUA CASA É PRECISO QUE EU FIQUE

Novembro 2, 2019

1. É preciso vir atrás, ao Domingo XIII do Tempo Comum, que celebrámos no dia 30 de Junho, para assistirmos ao início do caminho de Jesus da Galileia para Jerusalém. Foi nesse Domingo proclamado o Evangelho de Lucas 9,51-62. Aí começava também o caminho longo e intenso da formação de Jesus aos seus discípulos de todos os tempos.

2. Estamos agora, quatro meses depois, no Domingo XXXI do Tempo Comum, dia 3 de novembro, e Jesus atravessa a cidade de Jericó, antes de entrar na última etapa do seu percurso, 27 km de uma longa subida que o levará a Jerusalém. Jericó é um belo e aprazível oásis que se estende por cinco quilómetros, situado a cerca de 300 metros abaixo do nível do mar. Jerusalém situa-se a cerca de 800 metros acima do nível do mar. O caminho de Jesus, e dos seus discípulos com Ele, torna-se agora, portanto, uma intensa subida física e espiritual.

3. A assinalar esta passagem de Jesus por Jericó, aí está mais um encontro decisivo, instrutivo e salvador de Jesus (Lucas 19,1-10), «que veio PROCURAR e SALVAR o que estava perdido», como Jesus diz de si mesmo no final da narrativa (Lucas 19,10). No início da narrativa é-nos apresentado um homem, de nome Zaqueu, que era rico e chefe de publicanos, e que PROCURAVA VER (ezêtei ideîn) QUEM É (tís estin) Jesus (Lucas 19,2-3a).

4. Cruzam-se o início e o final da narrativa, cruzando estas duas PROCURAS: Jesus PROCURA salvar o que está perdido; Zaqueu PROCURA ver quem é Jesus. Note-se bem que a narrativa não diz que Zaqueu PROCURAVA ver Jesus, o que equivaleria a ver o seu rosto, o seu aspeto, a roupa que vestia… Diz, antes, que Zaqueu PROCURAVA ver quem era Jesus. Entenda-se, portanto, que o que Zaqueu PROCURAVA ver não era o rosto, o aspeto, o exterior de Jesus, mas a sua identidade, a sua intimidade, o seu modo de ser e de viver.

5. Diz ainda o nosso belo texto que Zaqueu não conseguia ver quem era Jesus por causa da multidão, por ser de pequena estatura (Lucas 19,3b). Numa primeira vaga de leitura, fica-se com a impressão de que Zaqueu era um homem baixo e que, por esse motivo, atolado no meio da multidão, não conseguia realizar o seu objetivo de ver quem era Jesus. Numa segunda vaga de leitura, percebemos melhor por que razão Zaqueu não podia ver quem era Jesus por causa da multidão. É que, sendo ele chefe de publicanos, então era um traidor à sua pátria judaica, colaboracionista com os ocupantes romanos, cobrando impostos aos seus irmãos de raça e levando-os aos romanos. Traidor, colaboracionista, explorador e ladrão, Zaqueu era o odiado Zaqueu. Salta à vista que não podia estar no meio da multidão, que, se o descobrisse, o cobriria de insultos, cuspidelas, pontapés…

6. É esta a verdadeira razão que o faz correr adiante (onde não estava a multidão), e subir a um sicómoro (Lucas 19,4), para, daí, escondido na densa copa do sicómoro, poder ver e não ser visto, ficando, portanto, a coberto da multidão.

7. Mas também fica claro que, de dentro da copa do sicómoro, Zaqueu conseguiria certamente ver Jesus, mas não quem era Jesus. Para ver quem é Jesus, a sua identidade e intimidade, a sua maneira de ser e de viver, é preciso um encontro com Jesus. É aqui que entra o outro PROCURADOR, que é Jesus. Levanta os olhos, vê Zaqueu escondido na copa do sicómoro, e diz-lhe de imediato: «Zaqueu, desce depressa: HOJE na tua casa é preciso que eu fique!» (Lucas 19,5).

8. Zaqueu desceu depressa e recebeu Jesus com ALEGRIA (Lucas 19,6). Zaqueu começa aqui a ver quem é Jesus: não o insulta, não o exclui, não o empurra. Chama-o, acolhe-o, inclui-o! Em contraponto, a multidão viu e reprovou, dizendo: «Foi hospedar-se em casa de um pecador» (Lucas 19,7). Mas em casa, tu a tu, Zaqueu pode continuar a ver quem é Jesus, e vai virar do avesso a sua vida toda, DANDO, DANDO, DANDO. Aos pobres e àqueles (muitos) a quem roubou. E Jesus pode dizer com verdade: «HOJE veio a salvação a esta casa!» (Lucas 19,9). É o HOJE, que se ouve por oito vezes no Evangelho de Lucas (2,11; 4,21; 5,26; 19,5; 19,9; 22,34; 22,61; 23,43), que é o Evangelho aberto ao meio, rasgando também o tempo ao meio, deixando-nos sempre num HOJE que nos compromete.

9. Conclusão sempre nova para Zaqueu e para nós: Zaqueu não dá aos pobres para ser salvo, mas porque foi salvo!

10. A lição do Livro da Sabedoria 11,22-12,2 constitui um belíssimo contraponto musical e poético com o Evangelho de hoje. Deus e o mundo. Diante de Deus, e está sempre diante de Deus, o mundo é como uma gota de orvalho que cai de manhã sobre a terra e se evapora (v. 22). E o homem é como a flor da erva, bela mas frágil, e, por isso, seca. Mas já o teu Espírito trabalha o nosso barro (12,1). Tu és o Senhor do Sim, amas e sustentas tudo o que criaste (v. 24), corriges com lentidão, tens a paixão da educação pelo perdão (12,2). A todos fazes graça e repartes misericórdia, esqueces os pecados, em ordem à conversão (v. 23). Tu és primeiro, a tua Palavra é primeira, o teu amor é primeiro, o teu perdão é primeiro, o teu chamamento é primeiro. Nossa é a resposta, a conversão e a gratidão.

11. No pequeno extrato da sua 2 Carta aos Tessalonicenses 1,11-2,2, hoje também lida, Paulo afirma a sua oração sem cessar para que os cristãos de Tessalónica permaneçam firmes na sua vocação para que seja glorificado neles o Nome do Senhor Jesus, e n’Ele sejam eles também glorificados pela sua graça. Paulo adverte de seguida que ninguém se impaciente nem perturbe no que diz respeito à Vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, que não está iminente, mas requer uma espera, não preguiçosa, mas operosa, como advertirá adiante (3,6-15).

12. Para saborearmos melhor todos os sabores da liturgia deste Domingo, fica bem cantar com alegria renovada o grande hino alfabético que é o Salmo 145, até que vibrem as cordas do nosso coração. Orígenes classificava este Salmo como «o supremo cântico de ação de graças», e Agostinho viu-o como «a oração perfeita de Cristo, uma oração para todas as circunstâncias e acontecimentos da vida». E enquanto saboreamos as imensas riquezas que nos vêm de Deus: a sua graça, misericórdia, amor e bondade (Salmo 145,8-9), usando, para o efeito, toda a gama de sabores e todas as letras do alfabeto, continuemos a cantar: «Quero louvar para sempre o vosso Nome» (Salmo 145,1).

António Couto


REZAR E EVANGELIZAR É A MANEIRA DE SER DA IGREJA

Outubro 26, 2019

1. Domingo XXX do Tempo Comum. Aí está, no Evangelho de hoje (Lucas 18,9-14), mais uma parábola de Jesus direitinha ao nosso orgulhoso coração. Trata-se da famosa parábola do fariseu e do publicano, que sobem ao Templo para rezar. O narrador fornece-nos, a abrir e a fechar a parábola, a respetiva chave de interpretação. Abre assim: «Contou ainda esta parábola para alguns que, convencidos de serem justos, desprezavam os demais» (Lucas 18,9). E a fechar: «Todo aquele que se exalta será humilhado, e aquele que se humilha será exaltado» (Lucas 18,14b). A intenção de Jesus não é, portanto, mostrar-nos a radiografia religiosa de duas figuras públicas e emblemáticas do seu tempo: um fariseu e um publicano. A intenção de Jesus é que a parábola nos atinja a nós, e dissolva o orgulho e a arrogância que nos habitam e orientam a nossa vida, quer na nossa relação com Deus, quer na nossa relação com o próximo.

2. O facto de nos ser dito que os dois homens subiram ao Templo para rezar, é para os colocar e nos colocar, não numa situação qualquer, mas numa situação-limite, dado que, de acordo com o fortíssimo dizer de Jeremias, «aproximar-se de Mim» (lageshet ʼelay), diz Deus, implica «empenhar [ou penhorar] o coração» (ʽarab ʼet-libbô) (Jeremias 30,21). «Empenhar o coração» no sentido estrito e técnico de «pôr o coração no prego», de «penhorar o coração», no contexto das «casas de penhores». Salta à vista que «penhorar o coração» é pôr a vida em risco, é como subir a um poste de alta tensão, onde vemos escrito: «perigo de morte». É, pois, nesta situação-limite, que são colocados os dois homens de hoje, e nós também. Esta situação dá às coisas uma seriedade imensa e intensa. Vejamos como tudo se passa.

3. Vem primeiro a radiografia do fariseu. Entenda-se sempre, não de um homem da classe dos fariseus do tempo de Jesus, mas do farisaísmo que há em mim, em nós. O que a radiografia nos mostra é, então, um fariseu cheio de si, afogado em si, autossuficiente e autorreferencial. Já a água lhe dá pelo pescoço, dada a situação de proximidade com Deus em que ousou colocar-se, mas nem por isso «põe o coração» na situação-limite em que se encontra. Para espanto nosso, na sua oração, não pede auxílio, não estende a mão; antes, procede a um estranho ritual de auto incensação e debita faturas e palavras que não atravessam as nuvens. Mais parecem pedradas no charco em que alegre e orgulhosamente se afunda, agora já com a água a entrar-lhe pela boca adentro. Em breve as velas do coração ficarão encharcadas, e a embarcação afundar-se-á. À superfície, a boiar, antes de se afundarem também, um monte de faturas e de palavras inchadas. É assim que vive e reza o fariseu que há em mim, em nós. A balança do deve e haver com Deus, pensa o fariseu e pensamos nós muitas vezes, está claramente desequilibrada a seu e a nosso favor. Aí estão as faturas que Deus terá de nos pagar: «Jejuo duas vezes por semana [a lei mandava jejuar uma vez] e pago o dízimo de todos os meus rendimentos» (Lucas 18,12). Julga o fariseu, portanto, e julgamos muitas vezes nós também com ele, que temos muito crédito acumulado face a Deus. E, por isso, até nos damos ao luxo de dar graças (eucharistéô) a Deus por não sermos como os outros, que vemos como ladrões, injustos e adúlteros, nem como este reles publicano (Lucas 18,11), estes, sim, cheios de dívidas para com Deus. Convenhamos que esta é uma estranha forma de dar graças a Deus, isto é, de «fazer eucaristia»! Este fariseu que eu sou acha-se com direitos adquiridos sobre Deus e sobre o próximo, de tal modo que facilmente os julgo e condeno. A sua oração não atravessa as nuvens, como a do humilde (Ben-Sirá 35,21); desfaz-se contra as paredes da sua arrogância.

4. Ao fundo, sempre ao fundo, da cena, vislumbra-se um verdadeiro e assumido pecador. Coisa tão rara e, por isso, tão cara. Sim, este pecador, este publicano, leva a sério a situação-limite que é rezar, que supõe verdade. Não vale a pena mentir à beira da morte, à beira da vida dada! Sim, é um publicano, um cobrador de impostos, coletor de dinheiro público, daí o publicano [do latim publicanus], é um traidor à pátria judaica, um vendido aos invasores romanos, um ladrão, porque, naquela profissão, sempre se cobravam uns cobres a mais. Mas tem ainda coração. Por isso, bate com a mão no peito, e pede a Deus a esmola do perdão, rezando assim: «ó Deus, sê-me propício (hilásthêtì mou: imp. aor. pass. de hiláskomai), a mim, que sou pecador» (Lucas 18,13). É assim que põe a andar a sua pobre embarcação. É assim que reza o publicano que há em mim, em nós. É a verdadeira respiração ou oração do nosso coração. Conclui Jesus de forma solene: «Eu vos digo: “este desceu justificado (dedikaiôménos: part. perf. pass. de dikaióô) para sua casa; o outro não”» (Lucas 18,14a). Este justificado, no modo passivo, chamado passivo divino ou teológico, diz-nos que esta justificação é obra de Deus, não nossa. Diz bem São Paulo: «não com a minha justiça, a da lei, mas aquela através da fé em Cristo, a de Deus» (Filipenses 3,9; cf. Romanos 3,28). Na verdade, justificar significa transformar um pecador em justo. Então, justificar é perdoar. E, neste profundo sentido bíblico, justificar e perdoar são ações que só Deus pode fazer («quem pode perdoar os pecados senão Deus somente?») (Lucas 5,21), dado que, transformar um pecador em justo é igual a Criar ou Recriar um homem novo. E da ação de Criar também só Deus é sujeito em toda a Escritura. Atenção que diante de Deus, não há justos. Há apenas justificados!

5. Pode ajudar-nos uma belo conto judaico, edificante, sobre a verdadeira oração, que vai de encontro à parábola de Jesus, hoje escutada, e que mostra a oração como abandono a Deus e em Deus, louvor, súplica, confissão. O protagonista é David, depois do pecado de adultério com Betsabé e do homicídio de Urias. David apresenta-se diante de Deus, e diz somente: «Pequei, Senhor!», calando-se logo e ficando em silêncio. Por que se cala?, pergunta o narrador. Porque se vê semelhante àquele pobre, esfomeado, com as roupas rotas, que um dia teve a sorte de poder entrar no palácio, à presença fulgurante do rei. Chegado à beira do trono, não disse nada, não obstante a insistência dos cortesãos para que implorasse a ajuda do rei. Na verdade, não precisava de palavras. O seu próprio corpo, a sua miséria, era um pedido mais forte do que qualquer palavra.

6. O precioso Livro de Ben-Sirá, que uma vez mais temos a graça de folhear, ler e escutar, mostra-nos como Deus está atento ao indigente, à viúva, ao órfão, ao deserdado, ao humilde, e diz-nos que a sua oração atravessa as nuvens (Ben-Sirá 35,15-22). Belíssima expressão que se cruza com a palavra fecunda de Deus que, como a chuva, atravessa as nuvens para baixo e para cima, enchendo de alegria a nossa terra abençoada (Isaías 55,10-11). Diz ainda o sábio que a viúva, o pobre, o órfão, o humilde não dão descanso ao seu coração em oração a Deus, enquanto Deus não olhar para eles com olhos de bondade (Ben-Sirá 35,21). É exatamente o modo como reza o publicano: «ó Deus, olha para mim com a bondade do perdão», com aquele olhar maternal da bênção sacerdotal (Números 6,25-26).

7. Reza, meu irmão. Como vês, rezar não é para beatos ou beatas de trazer por casa. Rezar é para militares, pois requer a coragem das situações-limite, podendo, de facto, mudar a nossa vida inteira. Bem, hoje, a confissão de São Paulo na reta final da sua vida: «Combati o bom e belo combate, terminei a carreira, guardei a fé» (2 Timóteo 4,7). E a bela doxologia final, que nos mostra um Paulo sempre em oração: «A Ele a glória pelos séculos dos séculos. Ámen» (2 Timóteo 4,18).

8. Aí está, a fazer ressoar no nosso coração as páginas deliciosas deste Dia de Domingo, o Salmo 34, que põe nos lábios dos pobres a bênção (berakah) que os une a Deus para sempre, e o louvor jubiloso e intenso (tehillah) que é a sua verdadeira razão de viver (vv. 2-3). O pobre enche o seu olhar de Deus e fica radiante, luminoso (v. 6), sabe que Deus o escuta e o salva, e convida a saborear a bondade de Deus (v. 9). Ou talvez mais do que isso. Na versão grega deste v. 9, muito utilizado no momento da comunhão, também nas liturgias de rito bizantino, lê-se: «geúsasthe kaì ídete hóti chrêstós ho Kýrios» («Saboreai e vede que Bom é o Senhor»), em que o adjetivo chrêstós, «bom», é lido na pronúncia viva: christós, o que vem a resultar, na atualização cristã: «Saboreai e vede que Cristo é o Senhor». Belo e saboroso, sem dúvida. Deus segue sempre o pobre de perto, cerca-o de amor (v. 8), protege até os seus ossos para não serem quebrados (v. 21), tal como é dito do cordeiro pascal, o mais alto símbolo de libertação. No seu Caminho de perfeição, Santa Teresa de Ávila deixa-nos, talvez, um dos mais belos e e incisivos discursos sobre a pobreza: «A pobreza é um bem que contém em si todos os bens do mundo; ela confere um império imenso, torna-nos verdadeiramente donos de todos os bens cá de baixo desde o momento em que os faz cair aos pés». E São Francisco de Assis, no Pequeno Testamento, ditado em Siena, à pressa, a Frei Benedetto da Prato, aí por abril ou maio de 1226, poucos meses antes da sua morte, ocorrida em 3 de outubro desse mesmo ano, recomenda aos seus irmãos que amem sempre nossa senhora, a santa pobreza.

 

A Palavra de Deus desce, desce, desce,

Atravessa as nuvens,

Como chuva miudinha,

Cai num pedaço de chão,

Ou num pobre coração,

E adormece

Como o crescente

No ventre da farinha,

E cresce, cresce, cresce,

Até voltar a Deus, sua nascente.

 

A oração do humilde é pobre e pura,

Mas sobe, sobe, sobe,

Como um passarinho,

Atravessa as nuvens,

E deita-se de mansinho no coração de Deus,

Que presta atenção e cura

As nossas penas

Leves e escuras

E acaricia as nossas alegrias.

 

Atende, Senhor, as nossas preces de hoje

E de todos os dias.

 

António Couto


BATIZADOS E ENVIADOS: A IGREJA DE CRISTO EM MISSÃO NO MUNDO

Outubro 19, 2019

1. Depois da semente pequenina, pequenina, que é a fé, e que pode virar do avesso a nossa vida, depois do samaritano leproso curado, agradecido a Jesus e salvo, eis-nos, neste Domingo XXIX do Tempo Comum, perante uma viúva desprotegida no campo social, económico e jurídico, mas persistente no seu clamor por justiça.

2. A Bíblia insiste que ninguém deve afligir ou menosprezar uma viúva ou um órfão, pois se o fizer, e se a viúva ou o órfão gritarem a Deus, o seu grito será escutado e os seus opressores duramente castigados (Êxodo 22,21-23). Juntamente com o estrangeiro e o pobre, a viúva e o órfão fazem parte do rol das chamadas personae miserabiles, pessoas miseráveis, sem proteção social, económica ou jurídica, mas que, para sua defesa, podem contar sempre com a mão protetora de Deus, que sobre elas coloca o seu manto protetor ou pálio.

3. A impressão da pobre viúva do Evangelho de hoje (Lucas 18,1-8) é que o seu pedido esbarra contra uma porta fechada, quase blindada, que tem por detrás o coração fechado com nó cego de um juiz agnóstico, portanto, sem Deus, e insensível, incapaz de se condoer com as dores seja de quem for. O retrato que dele faz o narrador mostra-nos um juiz fechado a Deus (à sua bondade, à sua grandeza e à sua vontade) e aos homens, que ostenta um coração empedernido, e não um «coração que vê», para usar a bela expressão do Papa Bento XVI.

4. Sem nunca abrir a porta ou o coração aos apelos da viúva, o juiz de coração fechado com nó cego acaba, todavia, por ceder aos gritos persistentes da viúva, não porque o seu coração se tenha amaciado ou o nó cego desatado, mas para se ver livre do incómodo causado pelos gritos persistentes da viúva.

5. Do menor para o maior, à boa maneira rabínica. Se assim faz o juiz de coração fechado com nó cego, quanto mais e mais depressa fará Deus aos seus eleitos que a Ele gritam dia e noite?

6. Note-se que o narrador nos dá a chave logo no início, para podermos abrir a parábola e entrar na sua correta compreensão. Na verdade, introduz-nos assim na parábola: «Disse-lhes uma parábola sobre a necessidade de REZAR sempre, sem descanso» (Lucas 18,1). E no final insiste nos eleitos que gritam a Deus dia e noite (Lucas 18,7). Rezar com persistência. Não tanto para que Deus faça agora o que lhe pedimos, mas para que a nossa fé permaneça acesa! «Quando vier o Filho do Homem, encontrará a fé sobre a terra?» (Lucas 18,8).

7. É, de resto, sabido que o Evangelho de Lucas é também conhecido como o Evangelho da oração. Aqui deixamos, para quem o desejar e achar útil, os principais acenos. 1) Este Evangelho apresenta cenários de oração a abrir (Lucas 1,10 e 13; 2,37) e a fechar (Lucas 24,53), formando aquilo que se chama uma inclusão literária ou envelope, como que a dizer que o inteiro Evangelho está repleto de oração. 2) Este Evangelho é de longe o que apresenta mais vezes Jesus a rezar sozinho, como modelo de oração: Lucas 3,21; 5,15-16; 6,12-16; 9,18-20; 9,28-36; 10,21; 11,1; 22,31-32; 22,39-46; 23,33-34; 23,44-46. 3) É este Evangelho que nos apresenta as mais belas e inesquecíveis figuras de oração: Maria, com o magnificat (Lucas 1,46-55); Zacarias, com o benedictus (Lucas 1,68-79); Simeão, com o nunc dimittis (Lucas 2,29-32); o coro celeste, com o gloria in excelsis (Lucas 2,14). 4) É ainda este Evangelho que salienta alguns traços fundamentais da oração: a persistência, no chamado «amigo importuno» (Lucas 11,5-13) e na figura de hoje, a «viúva importuna» (Lucas 18,1-8), e a humildade, como veremos no próximo Domingo, na parábola do fariseu e do publicano (Lucas 18,10-14).

8. Não se pode descurar hoje a colagem ao belo modelo de oração da viúva, do texto do Êxodo 17,8-13, que nos mostra Moisés também a rezar sem descanso no cimo da colina. Salta à vista que a vitória sobre Amalec não resulta da espada de Josué, mas da oração de Moisés! É como quem diz que a oração dia e noite, sem descanso, é a chave da nossa vida em todas as suas circunstâncias.

9. É ainda de uma beleza inexcedível o alcance dos versículos 15 e 16 do mesmo Capítulo 17 do Livro do Êxodo que estamos a seguir. YHWH-nissî [= «Yahveh-minha bandeira»], a bandeira ou o pálio de YHWH nas minhas mãos. É outra vez o manto ou o pálio carinhoso de Deus que nos protege sempre. Usamo-lo nas procissões, mas também nas horas mais dramáticas, quando precisarmos de «cuidados paliativos»… Foi a este manto, a este «pálio», que a medicina foi buscar o «paliativo». Saiba-o ou não. Porque não o devia nunca esquecer. Com quanto carinho devemos saber envolver os doentes, os sofredores, os pobres, as viúvas e os órfãos, os deserdados, e os moribundos…

10. São Paulo adverte hoje Timóteo (2 Timóteo 3,14-4,2), seu discípulo e cooperador dileto, que as Escrituras não transmitem apenas um saber, que há que estudar, aprender e ensinar. Ele acentua que as Escrituras têm o poder (dýnamis) de nos comunicar a sabedoria que conduz à salvação. É esta dinâmica que se deve manifestar em tudo o que fazemos. Oportuna e inoportunamente. Portanto, sempre.

11. O Salmo 121 é um delicioso hino inserido na coleção dos chamados «Cânticos das peregrinações» ou «subidas», que se estendem do Salmo 120 ao 134. O sonho do peregrino, que se lhe vê nos olhos e no coração, é o Senhor, que habita nas alturas de Sião. Por isso, enquanto atravessa montes e vales, leva já os olhos fixos no «monte Sião, belo em altura, alegria de toda a terra» (Salmo 48,3), e vai dialogando no seu coração acerca d’Aquele que é o seu auxílio (ʽezer) e o criador do céu e da terra (vv. 1-2). Depois desta fixação no seu Senhor, que reside em Sião, o salmista passa a contemplar Deus como o seu «guardador», três vezes o nome shômer [= «guardador»] (vv. 3.4.5), três vezes o verbo shamar [= «guardar»] (vv. 7[2 x].8), uma maneira de dizer um Deus protetor e atento, como a mãe que vela sobre o bebé, para seguir o belo dizer de Alonso Schökel: «Imagino uma cena noturna. Um bebé no berço que baloiça, docemente movido pela mãe que vigia. O vai e vem do berço, que poderia provocar medo, traz serenidade, porque o bebé sente a presença da mãe… No vai e vem da nossa vida, «levantamos os olhos» expectantes e descobrimos a presença vigilante de Deus, que nos tranquiliza». Vem depois a imagem da «sombra» protetora, que protege do sol escaldante do deserto, mas também dos raios nefastos da lua (vv. 5-6). No Próximo Oriente Antigo, os raios lunares eram temidos, podendo, como se pensava, causar febres, cegueira e loucura. E, mesmo entre nós, o termo «lunático» é aplicado a pessoas com comportamentos esquisitos e extravagantes. O Deus «guardador» reaparece no final, para nos guardar quando saímos e quando entramos (v. 8a), portanto, sempre. Pode entender-se do nosso movimento diário, mas também desde o nascimento até à morte, pois o verbo «sair» (yatsaʼ) também significa «nascer», e entrar pode aludir também ao túmulo. O acerto final «desde agora e para sempre» (v. 8b). Esta maneira forte de dizer deixa sob a guarda de Deus, não apenas o segmento da nossa cronologia humana, mas também o futuro misterioso do depois da morte. Graças a Deus.

12. Celebra-se também o Dia Missionário Mundial. A ideia da instituição de um Dia dedicado à reflexão acerca da dimensão missionária da Igreja, bem como à oração, comunhão e partilha da vida com os nossos irmãos mais necessitados e com todos os missionários espalhados pelos cinco continentes foi apresentada ao Papa Pio XI em 1926 pelas Obras da Propagação da Fé. Dando logo seguimento à sugestão apresentada, o Papa Pio XI, conhecido como «o Papa das Missões», instituiu, nesse mesmo ano de 1926, o Dia Missionário Mundial, que, a partir de então, se tem celebrado anualmente.

13. É já 93.º Dia Missionário Mundial que celebramos. Este ano com um cunho especial, dado que se insere no «Outubro Missionário Extraordinário» de 2019, que o Papa Francisco instituiu para marcar o centenário da Carta Apostólica Maximum illud, do Papa Bento XV, que traz a data de 30 de novembro de 1919, e que apelava então à «propagação da fé católica no mundo inteiro». «Batizados e enviados: a Igreja de Cristo em missão no mundo», é o tema forte que o Papa Francisco propôs para a celebração e vivência deste «Outubro Missionário Extraordinário» de 2019 e também deste 93.º Dia Missionário Mundial. Com data de 22 de outubro de 2017, Dia Mundial das Missões, em Carta enviada ao Cardeal Filoni, Prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, o Papa Francisco incumbia-o da preparação deste «Outubro Missionário Extraordinário» de 2019, expressando no final da Carta o seu desejo intenso, que o é também para toda a Igreja: «Que desperte em nós, e que jamais nos seja roubado, o entusiasmo missionário». Entretanto, o Cardeal Filoni já deixou expresso o vivo desejo de se fazer deste «Outubro Missionário Extraordinário» uma oportunidade para a Igreja de reavivar o ardor e a paixão pela missão de Jesus, de modo a sabermos colocar a missão de Jesus no nosso coração, para que façamos da missão o critério para medir a eficácia das nossas estruturas, os resultados dos nossos trabalhos, a fecundidade dos nossos ministros e a alegria que somos capazes de suscitar.

António Couto


UM CORAÇÃO SAMARITANO

Outubro 12, 2019

1. De há muito que seguimos Jesus no seu caminho para Jerusalém. No seu caminho, que é o nosso itinerário ou currículo de formação. É por isso que devemos pôr toda a atenção em tudo o que se passa. No episódio do Evangelho proclamado no Domingo passado (XXVII do Tempo Comum), Lucas 17,5-10, fomos nós que pedimos a Jesus: «Aumenta a nossa fé!» (Lucas 17,5). E Ele foi ao campo buscar a metáfora da semente pequenina e do serviço humilde e dedicado do servo que serve em tudo e sempre o seu Senhor.

2. No seguimento imediato, o Evangelho proclamado neste Domingo XXVIII do Tempo Comum, Lucas 17,11-19, continua a glosar a temática da fé, e põe diante de nós dez leprosos que empregam todas as suas forças para, com voz grande, se fazerem ouvir por Jesus. É a Jesus que dirigem o seu pedido, nestes termos: «Jesus, Mestre, Faz-nos Graça!» (Lucas 17,13). Aquele «Faz-nos Graça!» soa, no texto grego, eléêson hêmãs, cujo eco ainda hoje ressoa no nosso «Kýrie, eléêson» («Senhor, Faz Graça»). «Fazer Graça» é um dizer muito bíblico, que o pensamento ocidental desconhece, com que nós pedimos a Deus que, como uma mãe cheia de ternura, nos embale nos seus braços e olhe para nós com o seu olhar carregado de bondade maternal. Note-se, porém, que esta relação maternal, carinhosa e gratuita, não assenta em nenhum determinismo. Não é movida pelos laços do sangue ou beleza atraente ou simpatia, para o valor, de acordo com a pedagogia grega, mas é devida a todos, até aos inimigos e àqueles com quem não simpatizamos e excluímos das nossas relações, os pobres, o estrangeiro, o órfão, a viúva, os refugiados, os descartados, para o desvalor, de acordo com a pedagogia bíblica.

3. Note-se que os leprosos, devido à sua doença contagiosa, eram excluídos da sociedade, literalmente excomungados, e obrigados a andar longe dos povoados, não se podendo aproximar de ninguém. E, à vista de alguém, deviam gritar: «Impuro, impuro!», para que as pessoas se desviassem deles, de acordo com as prescrições que podemos ver no Livro do Levítico 13,45-46.

4. O Evangelho diz-nos que se trata de um grupo de dez leprosos, certamente judeus e samaritanos. Já sabemos que os judeus não se dão com os samaritanos (cf. João 4,9). Mas aqui, afinal, andam juntos uns e outros. É bem verdade que a doença, a miséria, a dor, o sofrimento juntam as pessoas, sem olhar a credos e raças! E o grito que lançam juntos a Jesus é igualmente estranho e significativo, dado que, no seu grito, chamam a Jesus “Mestre” (epistáta) (cf. Lucas 17,13), eles que têm necessidade de cura e não de ensinamentos, pois, ainda que o desejassem, nem sequer podiam ir à escola. Então é como se estes leprosos estivessem a pensar em nós, a fazer-nos compreender que Jesus veio sobretudo curar os males do espírito e iluminar o escuro dos corações, desfazer os preconceitos que toldam tantas vezes a nossa vida quotidiana!

5. É claro que Jesus escuta o seu pedido (nós é que não sei!), e manda que se vão apresentar aos sacerdotes, para que estes, dentro das suas competências de autoridade sanitária de controlo (Levítico 13,2-3), os pudessem declarar curados da lepra. Note-se bem que Jesus os manda apresentar-se aos sacerdotes, antes de os curar, como quem diz que requeria deles uma fé total na sua capacidade de os curar. Eles partem, sinal da plena confiança que depositam em Jesus, pois, quando se põem a caminho, ainda continuam possuídos pela lepra. Na verdade, é depois de partirem, enquanto caminham, que se sentem curados! (Lucas 17,14).

6. O centro do episódio começa agora. Os holofotes do narrador põem em grande destaque um dos dez leprosos que, sentindo-se curado, interrompeu a sua viagem e voltou para trás, louvando a Deus com voz grande, e veio agradecer a Jesus, prostrando-se aos seus pés! O narrador informa-nos que era um samaritano (Lucas 17,15-16), portanto herético, estrangeiro, excluído, marginalizado, descartado, da região «daquele estúpido povo que habita em Siquém», para o dizer com as palavras de Ben-Sirá 50,26. É-nos permitido deduzir ainda que este samaritano se sente pobre e devedor a Deus pela graça concedida, enquanto que os restantes, talvez todos judeus, não sentiram tal necessidade, bem pelo contrário, porque o seu pensamento teológico os levava a pensar que era Deus que estava em dívida para com eles, e que, portanto, Jesus não terá feito mais do que devia!

7. Jesus louva a fé deste excluído, e deixa entender que a fé não consiste simplesmente em cumprir ordens, mas também em proclamar a boa nova da salvação, em reconhecer a graça recebida diante daquele que a concedeu, com uma voz tão grande como o grito com que antes se lha pediu. Esta voz nova de louvor e de alegria precede mesmo o cumprimento dos ritos de purificação, precede qualquer rito, interrompe qualquer viagem, passa à frente de qualquer negócio. É já a segunda vez que Lucas nos mostra um samaritano a interromper a sua viagem. A primeira vez foi naquela estrada que descia de Jerusalém para Jericó, quando um samaritano se debruçou por amor sobre um homem meio morto (cf. Lucas 10,33-34). O viajante mesmo é Jesus. O seu discípulo, atento e sensível, segue o Mestre, e, ao seguir o Mestre, corta estradas velhas, abre estradas novas! Parte sempre de Jesus, chega sempre a Jesus, princípio e meta de todo o seu caminhar discipular.

8. O contraponto musical vem naturalmente do sírio Naamã, que se vê curado da sua lepra seguindo as instruções do profeta Eliseu, a quem recorre (2 Reis 5,14-17). Na verdade, Naamã tem de se desfazer, primeiro, de todas as evidências e de todo o tom negocial e diplomático, tem de cair abaixo da sua importância, das suas vestes de gala, das grandes somas de dinheiro. Naamã tem apenas de aprender a colocar-se nas mãos de Deus, para renascer puro como uma criança (2 Reis 5,14). E uma criança apenas confia e recebe. Nada tem. No seguimento da história, somos levados a ver a ambição de Guiezi, servo de Eliseu, que fraudulentamente foi atrás dos bens de Naamã. Disse-lhe Eliseu: agora podes comprar vinhas e olivais, servos e servas, mas a lepra de Naamã se apegará a ti!

9. Deus é fiel e não pode dar o dito por não dito, diz Paulo a Timóteo (2,8-13), a quem incentiva a proclamar a Palavra de Deus. Paulo está preso. Mas a Palavra de Deus anda sempre à solta, e mais dia menos dia há de encontrar-nos, para nos salvar. Jesus veio, de facto, procurar e salvar o que estava perdido (Lucas 19,10). E aí estamos outra vez a fechar o círculo com o Evangelho de hoje na mão.

10. Levantar-se-á sempre, desde o santuário do nosso coração emocionado, o hino coral e universal, que é o belo Salmo 98. Tudo e todos são chamados a formar uma bela orquestra, que nunca deixe de cantar os louvores de Deus. Desde o Templo (harpa, cítara, shôphar) até à inteira criação: mar e terra, rios (que são os braços e as mãos do mar, e, por isso, batem palmas), montes e colinas. Cantai, pois, um cântico novo, que tenha a idade e a fidelidade do amor, ao Deus que vem para julgar, amando, e renovar, sempre amando e acariciando, a terra, às vezes dura, do nosso coração.

11. Kýrie, eléêson, faz-nos graça, Senhor, e dá-nos um coração samaritano.

António Couto

 


SEMEAR A FÉ NO CAMPO E NA CIDADE

Outubro 5, 2019

1. Falo do umbral do outono, de uma praça carregada de metáforas. Moro aqui debaixo deste céu. Claro que durmo ao relento. Sou pobre e puro. Pedinte apenas à porta do espírito. Como os plátanos no púlpito das praças, abrigo os pássaros. Atiram-me pedras os meninos. O meu lugar é aqui, de bruços nas palavras, pedra a pedra construindo o pátio do poema. É assim que hoje enfrento, em estilo diferente, mas de frente, os dizeres deste Domingo XXVII do Tempo Comum.

2. Oiço bater à porta. Serás tu ainda? Que fruto trazes nas tuas mãos despidas? Um balde? O mar? O mar num balde? As rochas a estalar? O lume a arder em febre? Uma estrela cadente envolta em neblina?

3. Trazes a história de uma semente pequenina, microscópica. Dizes, para espanto meu, que, lançada à terra, dela nascerá uma árvore grande, em cujos ramos vêm abrigar-se os pássaros do céu, fazendo dela uma lareira carregada de alegria. E dizes, outra vez para espanto meu, que a FÉ tem o tamanho e o virtuosismo dessa semente pequenina, que semeada no meu coração e no coração do mundo pode desenraizar o que nos parece seguro, sólido, assegurado, empedrado, empecadado, fazer ruir os nossos cálculos mais estudados, fazer florir o alcatrão das nossas estradas, fazer sorrir a nossa história desgraçada, arrancar embondeiros, plantar no mar aquilo que parece só poder viver na terra.

4. Acrescentas logo, sempre para espanto meu, que uma vida de serviço e da máxima simplicidade é a melhor. E que é também a melhor pregação, uma vez que, como nos ensinou o Papa São Paulo VI, na sua Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi, n.º 41, «O homem con­temporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas». Servir por amor. Sem tempo nem contrato. Sem cláusulas. Doação total. Dar a vida como tu, Senhor e Servo. Não se trata de dizer que sou um servo inútil (achreîos), se o serviço que prestei ao meu Senhor foi útil. Trata-se simplesmente de dizer que sou apenas um servo, e que tudo me vem da liberalidade do meu Senhor. Servo apenas servo (Lucas 17,10), que não passa de servo, não sobe na carreira, servo que se cumpre e esgota como servo, portanto, servo servido pelo seu Senhor, como ensina a parábola de Lucas (12,37). A fé é esse vínculo firme e fiel ao meu Senhor e ao meu irmão.

5. Para me dizeres tanto, foste buscar metáforas ao campo: a semente, as árvores e o servo (Lucas 17,5-10). E, uma vez no campo, levas-me a visitar o jardim de Habacuc (1,2-3, 2,2-4). Poucos saberão, mas Habacuc é o nome de uma planta de jardim. Está de passagem. De manhã viceja, à tarde seca. É preciso ir depressa. Até porque Habacuc ainda tem de ir à cidade e escrever num grande painel publicitário que «o não-reto perecerá, mas o justo viverá pela FÉ» (2,4).

6. A FÉ é a tal sementinha de nada, do tamanho do grão de mostarda, que pode virar do avesso a nossa vida, a nossa casa, a nossa rua, a nossa cidade, a nossa história. Um dito rabínico do tempo de Jesus afirmava que vale mais um grão de mostarda que um cesto de melancias. Vale também aqui o verso belíssimo da Primeira Carta de São João que a liturgia nos faz cantar hoje ao Aleluia: «Esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé» (5,4).

7. Corre e demora-te a ver esse painel, metáfora erguida na cidade, e aprende a FÉ, isto é, a FIDELIDADE. São Paulo demorou-se longamente a contemplar esse painel, de tal maneira que gravou os seus dizeres na alma e em Romanos 1,17 e Gálatas 3,11.

8. Sim, Timóteo (2 Tm 1,6-8.13-14), escuta bem, reacende o dom de Deus que arde em ti, não tenhas vergonha do Evangelho, dá testemunho de Jesus Cristo, guarda a FÉ!

9. Sim, não nos é permitido adormecer ou entorpecer, de modo a ficarmos inativos, infecundos, insensíveis, tipo «tanto faz!». O Salmo 95, que hoje cantamos, e que é, para os judeus fiéis, a oração de ingresso ou de entrada no sábado (reza-se sexta-feira ao pôr-do-sol), e para nós, cristãos, é o Salmo invitatório recitado todas as manhãs, é o mais quotidiano dos Salmos. E deve ser um permanente despertador para não nos deixarmos andar ao sabor de qualquer música, mas apenas e sempre ao sabor da música de Deus. Sim, não é tempo de nos instalarmos aqui, em qualquer «aqui». É necessário levar a todos os lugares e a todas as pessoas este vendaval manso de graça e de bondade e de fé que um dia Jesus ensinou e todos os dias mostrou aos seus discípulos.

 

Deita com ternura a semente na terra:

É o seu berço natural;

E adormece suavemente,

Tu e a semente.

A semente não erra,

A semente não mente,

Adormece na terra.

Aparece depois um fiozinho de erva,

Nasce e cresce,

Uma flor floresce,

Um fruto amadurece,

Um pássaro desce,

E reza e canta e dança e prova e agradece

Ao Senhor da messe.

 

Senhor Jesus,

Dá-me um coração puro e transparente

Como uma nascente,

Como uma semente,

E ensina-me a ser simples e leve

Como aquele pássaro que do céu desce,

E reza e canta e come e agradece.

 

António Couto