O ESPÍRITO SANTO E(M) NÓS

Maio 30, 2020

1. O Evangelho da Solenidade deste Dia Grande de Pentecostes (João 20,19-23) mostra-nos os discípulos de Jesus fechados num certo lugar, por medo dos judeus. O Ressuscitado, vida nova e modo novo de estar presente, que nada nem ninguém pode reter ou impedir, nem as portas fechadas daquele lugar fechado, Vem e fica de pé no MEIO deles, o lugar da Presidência, e por duas vezes os saúda: «A paz convosco!». Mostra-lhes, não o rosto, mas as mãos e o lado, bilhete de identidade de Jesus, sinais que identificam o Ressuscitado com o Crucificado, Vida dada por amor, para sempre e para todos, e vincula os seus discípulos à sua missão de dar a vida por amor: «Como o Pai me enviou (apéstalken: perf. de apostéllô), também Eu vos mando ir (pémpô: tempo presente)». O envio d’Ele está no tempo perfeito (é para sempre): a sua missão começou e continua. Não terminou nem termina. Ele continua em missão. A nossa missão está no presente. O presente da nossa missão aparece, portanto, vinculado e agrafado à missão de Jesus, e não faz sentido sem ela e sem Ele. Nós implicados e imbricados n’Ele e na missão d’Ele, sabendo nós que Ele está connosco todos os dias (cf. Mateus 28,20). «Como o Pai me enviou, também Eu vos mando ir». Este como define o estilo da nossa missão de acordo com o estilo e a missão de Jesus. É-nos dito ainda que os discípulos ficaram cheios de alegria (o medo foi dissipado) ao verem (idóntes: part. aor2 de horáô) o Senhor. Tal como o Outro Discípulo (João 20,8), também eles veem com um olhar histórico e a renovar todos os dias (tempo aoristo) a identidade do Senhor. O sopro de Jesus sobre eles é o sopro criador (emphysáô), com o Espírito, para a missão frágil-forte do Perdão, Jubileu Divino do Espírito. Este sopro, este vento, este alento, só aparece neste lugar em todo o Novo Testamento! Mas não é difícil construir uma bela ponte para Génesis 2,7, para o sopro ou alento (naphah TM / emphysáô LXX) criador de Deus no rosto do homem.

2. O texto luminoso do Livro dos Atos dos Apóstolos 2,1-11, que enche o dia de hoje, merece ser estendido diante de nós e por nós bem entendido. Ei-lo:

«Ao ser completado o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. E veio de improviso, do céu, um ruído como de uma ventania impetuosa, que encheu toda a CASA onde estavam sentados. Fizeram-se ver a eles línguas como de fogo, que se dividiram, e sentou-se uma sobre cada um deles. E todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, como o Espírito dava a eles de se exprimir.

Estavam então em JERUSALÉM judeus residentes, homens piedosos, vindos de todas as nações que há debaixo do céu. Tendo vindo, então, este som, convergiu a multidão e ficou perplexa, porque ouviam, cada um na própria língua, aqueles que falavam. Estavam fora de si e maravilhavam-se, dizendo: “Não são galileus todos estes que estão a falar? E como é, então, que nós ouvimos, cada um na nossa própria língua em que nascemos? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia vizinhas de Cirene, romanos residentes, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los falar nas nossas línguas as maravilhas de Deus!”».

3. É fácil de ver que o texto se articula em duas vagas sucessivas: a primeira agrupa os v. 1-4, e a segunda os v. 5-11. Um único lugar no tempo, um único dia, o 50.º da Páscoa, marca as duas vagas, mas são dois os lugares no espaço que ocupam: a CASA, a sala alta do Cenáculo (v. 1-4), e a CIDADE aberta ao mundo (v. 5-12), que empresta à cena uma ressonância mundial. As duas vagas estão marcadas, logo a abrir (v. 2 e 6), pelo verbo grego gínomai, que é o verbo típico de um acontecimento que não podemos deduzir nem produzir, mas apenas constatar e descrever. Exatamente o contrário de uma doutrina, que se situa na esfera da demonstração e dedução. Qual é o acontecimento? O vento forte e o fogo que, vindos do céu, caem de improviso sobre todos os que estão sentados na casa, irrompendo depois para as praças e ruas da cidade.

4. Lá estamos nós, como se vê e era hábito, todos reunidos no Cenáculo. Mas somos logo varridos e recriados pelo vento impetuoso e incontrolável do Espírito, que varre as teias de aranha que ainda nos tolhem, e pelo seu fogo que nos purifica. O Espírito senta-se (kathízô) – bela e significativa expressão! – sobre nós, novo Mestre que orienta e guia a nossa vida. Senta-se sobre nós, mas entra para dentro, e guia a nossa vida desde dentro. Verificação: eis-nos a falar outras línguas, dádiva do Espírito! Milagre: cessam incompreensões, divisões, invejas, ciúmes, ódios e indiferenças, e nasce um mundo novo de comunhão e comunicação plenas, pois todos nos entendemos tão bem como se se tratasse da nossa língua materna, que não é o português ou o francês ou o inglês ou o chinês, mas aquele perfeito entendimento que existe entre nós e a nossa mãe, quando somos bebés, do tempo da palavra antes das palavras, divina e humana lalação, que passa por sons e intuições, que não precisam de gramática nem sintaxe nem dicionário. Chame-se-lhe confiança, intimidade, ternura, amor. Impõe-se, nesta bela comunidade, uma atitude de vigilância permanente, pois será sempre grande a tentação de querer levar o Espírito à letra! E aí está a advertência vinda dos Coríntios, cujo falar em línguas ninguém entende (1 Coríntios 14,2), sendo preciso o recurso a intérpretes (1 Coríntios 14,28). Todos consideraríamos um absurdo a existência de um intérprete entre a mãe e o seu bebé para traduzir aquela lalação que os dois tão bem entendem!

5. É esta divina lalação (alálêtos) (Romanos 8,26) – única vez no Novo Testamento –, do Espírito que nos ensina a compreender que «Jesus é Senhor» (1 Coríntios 12,3) e que Deus é Pai (ʼAbbaʼ) (Gálatas 4,6; Romanos 8,15). Anote-se também a importante afirmação de que «a cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum» (1 Coríntios 12,7) e «não para proveito próprio» (1 Coríntios 10,33), sendo que o que define o proveito comum é a edificação, não de si mesmo, mas dos outros (1 Coríntios 10,23-24).

6. A tradição situa no Cenáculo as duas cenas acima descritas. É a sala da Ceia Primeira (Lucas 22,12), do último serão de Jesus com os seus discípulos, da Aparição do Senhor aos seus Apóstolos (Lucas 24,36), da eleição de Matias (Atos 1,26), da descida do Espírito Santo no Pentecostes, enfim, o primeiro lugar de encontro da primeira comunidade cristã reunida em oração com Maria (Atos 1,13-14), a primeira sede da Igreja nascente, a mãe de todas as Igrejas, a primeira domus-ecclesia [«casa-igreja»] do mundo, situada uns duzentos metros a sul da muralha de Jerusalém, em local muito próximo da Porta de Sião. O atual edifício remonta ao trabalho dos Padres Franciscanos no século XIV, e sucedeu a outras construções sucessivamente edificadas e destruídas, desde a basílica de Santa Sião [Hagía Sion], do século IV. Sintomaticamente, por se encontrar no quarteirão sul de Jerusalém, o primitivo Cenáculo resistiu à destruição romana da guerra de 70, pois os romanos atacaram e destruíram a cidade a partir da parte norte, mais facilmente expugnável.

7. Associada às cenas acima identificadas, a sala superior do Cenáculo [15,30 metros por 9,40 metros] assemelha-se ao Sinai com os fenómenos então lá registados. Veja-se, a propósito, a bela descrição que deles faz Fílon de Alexandria (± 20 a.C.-50 d.C.): «Deus não tinha boca ou língua, mas, com um prodígio, fez que um rombo se produzisse no ar, que um sopro se articulasse em palavras pondo o ar em movimento. Este transformou-se em fogo que tinha forma de chamas […], e uma voz ressoava do meio no fogo e descia do céu, e esta voz articulava-se no idioma próprio dos ouvintes». Mas também Babel é evocada em contraponto: em Génesis 11,7, «ninguém compreendia mais a língua do seu próximo», mas em Atos 2,6, «cada um compreendia na sua própria língua materna».

8. O Espírito Santo é também enviado em missão. E é Aquele que recebe o que é do Filho (João 16,14 e 15), e que o Filho recebeu do Pai. O Filho é a transparência do Pai. O Espírito Santo é a transparência do Filho. O ensinamento do Espírito Santo é o mesmo que Jesus fez e que recebeu do Pai, mas vem depois do de Jesus (João 14,26), e processa-se, ao contrário do de Jesus, não com palavras sensíveis que tocam os órgãos da audição de um público determinado, mas na interioridade da inteligência e do coração de cada ser humano. Este ensinamento interior do Espírito Santo é comparado à unção de óleo (chrísma) que penetra lentamente, como diz o Apóstolo: «Vós recebestes a unção (chrísma) que vem do Santo e todos sabeis (oídate)» (1 João 2,20); ou então: «a unção (chrísma) dele vos ensina (didáskei) acerca de todas as coisas» (1 João 2,27). É a unção que lentamente penetra em nós, ocupa o nosso interior, suaviza as nossas asperezas, cura as nossas dores e faz nascer entre nós comunidade e comunhão. Maravilhoso saber que nos assemelha a Deus, que sabe de nós (Êxodo 2,25), e nos põe em confronto com Caim, que não sabe do seu irmão (Génesis 4,9), e com Pedro, que não sabe de Jesus (Mateus 26,70.72.74).

9. Ensinamento novo. Não exterior, com sons e palavras, mas diretamente nas pregas da inteligência e do coração. É assim que a linguagem nova do Espírito afeta ao mesmo tempo o português e o chinês, o inglês e o russo, o católico, o muçulmano e o hebreu. É como quando, em vez de se porem a falar cada um a sua língua incompreensível para o outro, o português e o chinês entregassem uma flor um ao outro! É assim que fala o Espírito, é assim que age o Espírito, Pessoa-Dom, fonte de dons (1 Coríntios 12,3-13).

10. O Salmo 104 põe-nos a contemplar hoje as obras maravilhosas de Deus, cheias do seu alento, que são a alegria de Deus (Salmo 104,31), e a alegria de Deus é a nossa alegria (Salmo 104,34). De notar que a temática de Deus que se alegra é muito rara na Escritura. Aparece hoje no meio deste mundo novo e maravilhoso. Tema, portanto, para recuperar, pois é também a fonte da nossa alegria!

11. Nós somos do tempo da missão do Espírito. Note-se a fortíssima vinculação: «O Espírito Santo e nós» (Atos 15,28).

12. Deus habitando em nós (João 14,24). Deus connosco (Apocalipse 21). Cidade nova, Consolação nova, Bênção nova, Paz nova, não com a medida do mundo, mas de Deus (João 14,27; Salmo 67).

 

O medo não habita a nossa casa.

O medo transforma a nossa casa em fortaleza,

Tranca portas e janelas,

Esconde-se debaixo da mesa.

 

Mas vem Jesus e senta-nos à mesa.

Começa a contar histórias e estrelas,

Leva-nos até ao colo de Abraão,

Até à Criação,

Sopra sobre nós um vento novo,

Rasga uma estrada direitinha ao coração:

Chama-se Perdão, Espírito, Amor, Nova Criação.

 

Varrido para o canto da casa pelo vento,

Rapidamente todo o medo arde.

Ardem também bolsas, portas e paredes,

E surge um lume novo a arder dentro de nós,

Mas esse não nos queima nem o podemos apagar.

 

Estamos lá tantos à roda desse vento, desse fogo,

Com esse vento, com esse fogo dentro,

Portugueses, russos, gregos e chineses,

Começamos a falar e tão bem nos entendemos,

Que custa a crer que tenhamos passaportes diferentes.

 

E afinal não temos.

Vendo melhor, maternais mãos invisíveis nos embalam,

Nos sustentam.

Sentimos que estamos a nascer de novo,

Percebemos que somos irmãos,

Filhos renascidos deste vento, deste lume.

E não é verdade que falamos,

Mas que alguém dentro de nós fala por nós,

Chama por Deus,

Como um menino pelo Pai.

 

António Couto


FESTA DO BATISMO DO SENHOR

Janeiro 11, 2020

1. Passado o Advento e as Festas Natalícias, estamos agora no umbral do chamado «Tempo Comum» do Ano Litúrgico que, ao contrário do que se possa pensar, não é um «Tempo secundário», mas fundamental na vida celebrativa da Igreja Una e Santa. Na verdade, ao longo deste «Tempo Comum», Domingo após Domingo, a Igreja Una e Santa, Batizada e Confirmada, Esposa Amada de Cristo, é chamada a contemplar de perto, episódio após episódio, toda a vida histórica do seu Senhor, desde o Batismo no Jordão até à Cruz e à Glória da Ressurreição.

2. Esta apresentação só é possível porque em cada um dos Anos Litúrgicos é proclamado, Domingo após Domingo, praticamente em lição contínua, um Evangelho inteiro. Neste Ano A, é-nos dada a graça de ouvir o Evangelho segundo Mateus, conhecido como «o Evangelho da Igreja», dada a grande importância que este Evangelho granjeou na Igreja primitiva, sobretudo devido à clareza e riqueza temáticas dos longos, solenes e pausados Discursos de Jesus que nele encontramos, e que constituem um imenso tesouro para a vida da Igreja. Na verdade, o leitor ou ouvinte encontra no Evangelho segundo Mateus uma longa e bela sinfonia dos ensinamentos fundamentais de Jesus, organizada em cinco andamentos à volta de cinco imensos Discursos de Jesus: 1) o Discurso programático da MONTANHA (Mateus 5-7); 2) o Discurso MISSIONÁRIO (Mateus 10); 3) o Discurso das PARÁBOLAS do REINO (Mateus 13); 4) o Discurso ECLESIAL (Mateus 18); 5) o Discurso ESCATOLÓGICO (Mateus 24-25). Os cinco Discursos são fáceis de identificar, pois, a terminar cada um, encontra-se sempre o mesmo refrão: «E aconteceu, quando Jesus terminou estas palavras…» (7,28; 11,1; 13,53; 19,1; 26,1).

3. O Primeiro Domingo do «Tempo Comum» coloca então diante de nós o episódio do Batismo de Jesus no Jordão, conforme o Evangelho segundo Mateus 3,13-17. Aqui ficam algumas notas características deste episódio de Mateus: 1) quando vê Jesus que vem no meio da multidão (Mateus 3,13-14), como verdadeiro Servo do Senhor, solidário com o seu povo e assumindo as suas faltas, João Batista fica confuso; na verdade, esperava um Juiz acima do povo, para julgar o povo (Mateus 3,7.10.12), e não um Servo solidário com o povo no pecado (por isso, vem, no meio do povo, a este batismo de penitência); 2) além disso, e contra todas as expectativas de João, Jesus não vem para batizar, mas para ser batizado (Mateus 3,11.13-14); 3) O diálogo travado entre João Batista e Jesus (Mateus 3,14-15) é exclusivo de Mateus (nenhum outro Evangelho o descreve); 4) são de notar as primeiras palavras, em absoluto, ditas por Jesus no Evangelho segundo Mateus: «É conveniente para nós cumprir toda a justiça» (3,15); neste Evangelho, o termo «justiça» (dikaiosýnê) indica o plano divino de salvação e a adequação da nossa vontade [= obediência] a esse plano, e faz-se ouvir por sete vezes (3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32) contra uma única vez em Lucas (1,75) e nenhuma em Marcos, e o verbo «cumprir» aponta para a Escritura; 5) a abertura dos céus e a descida do Espírito evoca e cumpre Isaías 63,19: «Ah, se rasgasses os céus e descesses!»; 6) a voz vinda do céu também deve merecer a atenção do ouvinte e/ou do leitor, porque, ao contrário do que acontece nos outros Evangelhos sinópticos, a proclamação não aparece formulada na segunda pessoa (Marcos 1,11: «Tu és o meu Filho, o Amado, em ti pus o meu enlevo»; Lucas 3,22: «Tu és o meu Filho, o Amado, em ti pus o meu enlevo»), mas na terceira: «Este é o meu Filho, o Amado, em quem pus o meu enlevo» (Mateus 3,17); não é, portanto, uma revelação dirigida a Jesus, mas a nós, salientando desde o princípio a perspetiva eclesial de Mateus.

4. Diante dos olhos atónitos de João, e também dos nossos, fica, portanto, Jesus que, connosco e no meio de nós, como um de nós, desce ao rio Jordão para ser connosco batizado. Extraordinária a epígrafe que Pedro, na lição de hoje do Livro dos Atos dos Apóstolos (10,34-38), põe sobre a vida de Jesus: «Passou fazendo o bem e curando todos» (Atos 10,38). Para nos curar, é preciso passar pelo meio de nós. É aqui que o rio Jordão nos pode trazer, não apenas água, mas também alguma luz e sentido. O Jordão é o rio de Cristo e dos cristãos. Rasga, de alto-a-baixo, a terra de Israel, mas atravessa também as páginas dos dois Testamentos! Desce do sopé do Hermon e vai desaguar no Mar Morto, fazendo um percurso sinuoso de mais de 300 km (104 km em linha reta), e o seu nome ouve-se por 179 vezes nas páginas do Antigo Testamento e 15 vezes no Novo Testamento. As suas águas curam (2 Reis 5,14: Naamã) e dão acesso à vida nova: é atravessando-o que o Povo entra na Terra Prometida (Josué 3,14-4,24). É ainda belo ver que, depois de um percurso de mais de 300 km, o Jordão entra no Mar Morto, onde, através de uma intensa evaporação, parece subir ao céu, lembrando Elias que sobe ao céu desde o leito do Jordão (2 Reis 2,8-11). É lembrando estes cenários, sobretudo o do Batismo que também cura e dá acesso à vida nova, que muitas Igrejas Orientais chamam «Jordão» ao canal que conduz a água para a fonte batismal, que todos os anos é benzida precisamente neste Dia da Festa do Batismo do Senhor.

5. Ilustra bem o episódio do Batismo de Jesus no Jordão o chamado «Primeiro Canto do Servo do Senhor» (Isaías 42,1-7), que põe em cena Deus e o seu Servo. Deus chama este Servo «meu Servo», diz que o segura e sustenta e que lhe dá o seu Espírito, e confia-lhe uma missão em ordem à verdade e à justiça, à mansidão e ao ensino, à libertação e à iluminação, entenda-se, à vida em plenitude, de todas as nações. Verdadeiramente, Deus é a vida deste Servo, que Ele ampara, leva pela mão e modela. Linguagem de criação, confidência e providência.

6. Há ainda a registar uma expressão forte para dizer a missão de mansidão confiada por Deus a este seu Servo: «Não fará ouvir desde fora a sua voz» (42,2). Ora, se não faz ouvir a sua voz desde fora, então é porque a faz ouvir desde dentro. O grande pensador do século XX, de origem hebraica, Emmanuel Levinas, glosava, nas suas lições talmúdicas, este texto em sentido messiânico, dizendo que «o Messias é o único Rei que não reina desde fora». Se não reina desde fora, então não reina com poder, dinheiro, impostos, armas ou decretos. Se não reina desde fora, reina desde dentro, aproximando-se das pessoas, descendo ao nível das pessoas, amando as pessoas. Está bom de ver que Jesus vai assumir a identidade deste Servo e vai cumprir por inteiro a sua missão. De resto, Mateus diz-nos expressamente que Jesus vem cumprir a missão do Servo de Isaías 42,1-4, texto que este Evangelho cita por inteiro em Mateus 12,18-21.

7. Para não esquecer: esta bela missão de Jesus, Batizado com o Espírito no Jordão e declarado o Filho Amado, deve ser a nossa bela missão de Batizados com o Espírito Santo e filhos amados de Deus. É ainda como filhos amados que devemos hoje entoar também as notas deste Gloria in excelsis Deo do Antigo Testamento, que é o belíssimo Salmo 29. A voz (qôl) que por sete vezes se ouve no Salmo bem pode ser a Voz do Pai que a nós se dirige, apresentando e revelando o Filho no Batismo do Jordão, e continua a ressoar na pregação Apostólica como se do setenário dos dons do Espírito Santo ou dos Sacramentos se tratasse. Escreveu São Gregório Magno: «A voz de Deus troa admiravelmente porque, como força escondida, penetra nos nossos corações».

 

O Filho e o Espírito Santo são,

No dizer de Santo Ireneu de Lião,

As duas mãos do Pai,

Enviadas em missão

Para junto dos seus filhos de adoção.

 

À semelhança, claro,

Daquelas mãos de amor,

Que, no alvor da Criação,

Modelaram da terra pura o nosso coração,

E de misericórdia o vestiram.

 

Filhos no Filho, divina hyiothesía,

Hemorragia de graça e de alegria:

Jesus, o Filho, assume a nossa humana condição,

E dá-nos em herança a sua divina filiação.

 

E o Espírito, que une e distingue o Pai e o Filho,

Divina comunhão, sem confusão,

Toma conta do nosso coração de filhos recém-nascidos,

E faz circular em nós, já hoje, já esta manhã,

A mais bela lalação que há,

O nome novo Ab-ba!

 

António Couto


O Espírito Santo e nós

Junho 8, 2019

1. O Evangelho da Solenidade deste Dia Grande de Pentecostes (João 20,19-23) mostra-nos os discípulos de Jesus fechados num certo lugar, por medo dos judeus. O Ressuscitado, vida nova e modo novo de estar presente, que nada nem ninguém pode reter ou impedir, nem as portas fechadas daquele lugar fechado, Vem e fica de pé no MEIO deles, o lugar da Presidência, e por duas vezes os saúda: «A paz convosco!». Mostra-lhes as mãos e o lado, sinais que identificam o Ressuscitado com o Crucificado, e vincula os seus discípulos à sua missão: «Como o Pai me enviou (apéstalken: perf. de apostéllô), também Eu vos mando ir (pémpô)». O envio d’Ele está no tempo perfeito (é para sempre): a sua missão começou e continua. Não terminou nem termina. Ele continua em missão. A nossa missão está no presente. O presente da nossa missão aparece, portanto, vinculado e agrafado à missão de Jesus, e não faz sentido sem ela e sem Ele. Nós implicados e imbricados n’Ele e na missão d’Ele, sabendo nós que Ele está connosco todos os dias (cf. Mateus 28,20). «Como o Pai me enviou, também Eu vos mando ir». Este como define o estilo da nossa missão de acordo com o estilo e a missão de Jesus. É-nos dito ainda que os discípulos ficaram cheios de alegria (o medo foi dissipado) ao verem (idóntes: part. aor2 de horáô) o Senhor. Tal como o Outro Discípulo, também eles vêm com um olhar histórico (tempo aoristo) a identidade do Senhor. O sopro de Jesus sobre eles é o sopro criador (emphysáô), com o Espírito, para a missão frágil-forte do Perdão, Jubileu Divino do Espírito. Este sopro, este alento, só aparece neste lugar em todo o Novo Testamento! Mas não é difícil construir uma bela ponte para Génesis 2,7, para o sopro ou alento (naphah TM / emphysáô LXX) criador de Deus no rosto do homem.

2. O texto luminoso do Livro dos Atos dos Apóstolos 2,1-11 mostra-nos todos reunidos no Cenáculo e varridos ou recriados pelo vento impetuoso do Espírito, que varre as teias de aranha que ainda nos tolhem, e pelo seu fogo que nos purifica. O Espírito senta-se (kathízô) – bela e significativa expressão! – sobre nós, novo Mestre que orienta e guia a nossa vida. Verificação: eis-nos a falar outras línguas, dádiva do Espírito! Milagre: cessam incompreensões, divisões, invejas, ciúmes, ódios e indiferenças, e nasce um mundo novo de comunhão e comunicação plenas, pois todos nos entendemos tão bem como se se tratasse da nossa língua materna. Entenda-se aqui por «língua materna», não a língua do país em que nascemos, português no nosso caso, mas aquela linguagem que existe entre a mãe e o seu bebé, da palavra antes das palavras, divina e humana lalação. Chame-se-lhe confiança, intimidade, ternura. Impõe-se, nesta bela comunidade, uma atitude de vigilância permanente, pois será sempre grande a tentação de querer levar o Espírito à letra! E aí está a advertência vinda dos Coríntios, cujo falar em línguas ninguém entende (1 Coríntios 14,2), sendo preciso o recurso a intérpretes (1 Coríntios 14,28). Todos consideraríamos um absurdo a existência de um intérprete entre a mãe e o seu bebé para traduzir aquela lalação que os dois tão bem entendem!

3. É esta divina lalação (alálêtos) (Romanos 8,26) – única vez no Novo Testamento –, do Espírito que nos ensina a compreender que «Jesus é Senhor» (1 Coríntios 12,3) e que Deus é Pai (ʼAbbaʼ) (Gálatas 4,6; Romanos 8,15). Anote-se também a importante afirmação de que «a cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum» (1 Coríntios 12,7) e «não para proveito próprio» (1 Coríntios 10,33), sendo que o que define o proveito comum é a edificação, não de si mesmo, mas dos outros (1 Coríntios 10,23-24).

4. A tradição situa no Cenáculo as duas cenas acima descritas. É a sala da Ceia Primeira, do último serão de Jesus com os seus discípulos, da Aparição do Senhor aos seus Apóstolos, da eleição de Matias, da descida do Espírito Santo no Pentecostes, enfim, o primeiro lugar de encontro da primeira comunidade cristã reunida em oração com Maria (Atos 1,13-14), a primeira sede da Igreja nascente, a mãe de todas as Igrejas, a primeira domus-ecclesia [«casa-igreja»] do mundo, situada uns duzentos metros a sul da muralha de Jerusalém, um local muito próximo da Porta de Sião. O atual edifício remonta ao trabalho dos Padres Franciscanos no século XIV, e sucedeu a outras construções sucessivamente edificadas e destruídas, desde a basílica de Santa Sião [Hagía Sion], do século IV. Sintomaticamente, por se encontrar no quarteirão sul de Jerusalém, o primitivo Cenáculo resistiu à destruição romana da guerra de 70, pois os romanos atacaram e destruíram a cidade a partir da parte norte, mais facilmente expugnável.

5. Associada às cenas acima identificadas, a sala superior do Cenáculo [15,30 metros por 9,40 metros] assemelha-se ao Sinai com os fenómenos então lá registados. Veja-se, a propósito, a bela descrição que deles faz Fílon de Alexandria (± 20 a.C.-50 d.C.): «Deus não tinha boca ou língua, mas, com um prodígio, fez que um rombo se produzisse no ar, que um sopro se articulasse em palavras pondo o ar em movimento. Este transformou-se em fogo que tinha forma de chamas […], e uma voz ressoava do meio do fogo e descia do céu, e esta voz articulava-se no idioma próprio dos ouvintes». Mas também Babel é evocada em contraponto: em Génesis 11,7, «ninguém compreendia mais a língua do seu próximo», mas em Atos 2,6, «cada um compreendia na sua própria língua materna».

6. O Espírito Santo é também enviado em missão. E é Aquele que recebe o que é do Filho (João 16,14 e 15), e que o Filho recebeu do Pai. O Filho é a transparência do Pai. O Espírito Santo é a transparência do Filho. O ensinamento do Espírito Santo é o mesmo que Jesus fez e que recebeu do Pai, mas vem depois do de Jesus (João 14,26), e processa-se, ao contrário do de Jesus, não com palavras sensíveis que tocam os órgãos da audição de um público determinado, mas na interioridade da inteligência e do coração de cada ser humano. Este ensinamento interior do Espírito Santo é comparado à unção de óleo (chrísma) que penetra lentamente, como diz o Apóstolo: «Vós recebestes a unção (chrísma) que vem do Santo e todos conheceis (oídate)» (1 João 2,20); ou então: «a unção (chrísma) dele vos ensina (didáskei) acerca de todas as coisas» (1 João 2,27). É a unção que lentamente penetra em nós, ocupa o nosso interior, suaviza as nossas asperezas, cura as nossas dores e faz nascer entre nós comunidade e comunhão.

7. Ensinamento novo. Não exterior, com sons e palavras, mas que atinge diretamente as pregas da inteligência e do coração. É assim que a linguagem nova do Espírito afeta ao mesmo tempo o português e o chinês, o inglês e o russo, o católico, o muçulmano e o hebreu. É como quando, em vez de se porem a falar cada um a sua língua incompreensível para o outro, o português e o chinês entregassem uma flor um ao outro! É assim que fala o Espírito, é assim que age o Espírito, Pessoa-Dom, fonte de dons (1 Coríntios 12,3-13).

8. O Salmo 104 põe-nos a contemplar hoje as obras maravilhosas de Deus, cheias do seu alento, que são a alegria de Deus (v. 31), e a alegria de Deus é a nossa alegria (v. 34). De notar que a temática de Deus que se alegra é muito rara na Escritura. Aparece hoje no meio deste mundo novo e maravilhoso. Tema, portanto, para recuperar, pois é também a fonte da nossa alegria!

9. Nós somos do tempo da missão do Espírito. Note-se a fortíssima vinculação: «O Espírito Santo e nós» (Atos 15,28).

10 Deus habitando em nós (João 14,24). Deus connosco (Apocalipse 21). Cidade nova, Consolação nova, Bênção nova, Paz nova, não com a medida do mundo, mas de Deus (João 14,27; Salmo 67).

 

O medo não habita a nossa casa

O medo transforma a nossa casa em fortaleza

Tranca portas e janelas

Esconde-se debaixo da mesa.

 

Mas vem Jesus e senta-nos à mesa

Começa a contar histórias e estrelas

Leva-nos até ao colo de Abraão, até à Criação,

Sopra sobre nós um vento novo,

Rasga uma estrada direitinha ao coração:

Chama-se Perdão, Espírito, Amor, Nova Criação.

 

Varrido para o canto da casa pelo vento,

Rapidamente todo o medo arde.

Ardem também bolsas, portas e paredes,

E surge um lume novo a arder dentro de nós

Mas esse não nos queima nem o podemos apagar.

 

Estamos lá tantos à roda desse vento, desse fogo,

Com esse vento, com esse fogo dentro,

Portugueses, russos, gregos e chineses,

Começamos a falar e tão bem nos entendemos,

Que custa a crer que tenhamos passaportes diferentes.

 

E afinal não temos.

Vendo melhor, maternais mãos invisíveis nos embalam,

Nos sustentam.

Sentimos que estamos a nascer de novo,

Percebemos que somos irmãos,

Filhos renascidos deste vento, deste lume.

E não é verdade que falamos,

Mas que alguém dentro de nós fala por nós,

Chama por Deus,

Como um menino pelo Pai.

 

António Couto