COM JESUS NO CORAÇÃO OU O RETRATO DE ANA E SIMEÃO

Fevereiro 1, 2019

1. A Igreja Una e Santa celebra no dia 2 de Fevereiro, quarenta dias depois do Natal, a Festa da Apresentação do Senhor, que as Igrejas do Oriente conhecem por Festa do Encontro (Hypapantê) e dos Encontros: Encontro de Deus com o seu Povo agradecido, mas também de Maria, de José e de Jesus com Simeão e Ana. Também connosco.

2. Quarenta dias depois do seu nascimento, sujeito à Lei (Gálatas 4,4), Jesus, como filho varão primogénito, é apresentado a Deus, a quem, sempre segundo a Lei de Deus, pertence. De facto, o Livro do Êxodo prescreve que todo o filho primogénito, macho, quer dos homens quer dos animais, é pertença de Deus (Êxodo 13,11-13), bem como os primeiros frutos dos campos (Deuteronómio 26,1-10).

3. É assim que, para cumprir a Lei de Deus, quarenta dias depois do seu nascimento, Jesus é levado pela primeira vez ao Templo, onde, também pela primeira vez, se deixa ver como a Luz do mundo e a nossa esperança.

4. O Evangelho a escutar, amar e admirar é Lucas 2,22-40. Compõe a cena um velhinho chamado Simeão, nome que significa «Escutador», que vive atentamente à escuta, em Hi-Fi, alta-fidelidade, alta frequência, alta definição, amor novo, e que o Evangelho apresenta como um homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel. Ora, esse velhinho que vivia à espera e à escuta, com extremosa atenção e coração vigilante, veio ao Templo sob o impulso do Espírito (en tô pneúmati). Fica aqui declarada a qualidade da energia e da alegria que move o velho e querido Simeão: não é movido a carvão, nem a água, nem a vento, nem a petróleo e seus derivados, nem a eletricidade, nem sequer a energia nuclear. Simeão é movido pelo Espírito Santo. Maneira novíssima de viver, pausa e bemol na nossa impetuosidade, na nossa vontade de aparecer e de fazer, pausa e bemol nos nossos protagonismos e vontade de poder. Falamos quase sempre antes do tempo, e não chegamos a dar lugar à suave voz do Espírito. Na verdade, adverte-nos Jesus: «Não sois vós que falais, mas o Espírito Santo» (Marcos 13,11; cf. Mateus 10,20; Lucas 12,12). Portanto, é urgente esperar! Regressemos, pois, à beleza de Simeão. Ao ver aquele Menino, recebeu-o carinhosamente nos braços. Por isso, os Padres gregos dão a Simeão o título belo de Theodóchos [= «recebedor de Deus»]. É então que Simeão entoa o canto feliz do entardecer da sua vida, um dos mais belos cantos que a Bíblia registra: «Agora, Senhor, podes deixar o teu servo partir em paz, porque os meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos, Luz que vem iluminar as nações e glória do teu povo, Israel!» (Lucas 2,29-32).

5. E, na circunstância, também uma velhinha chegou carregada de Graça e de Esperança. Chamava-se Ana, que significa «Graça». É dita «Profetisa», isto é, que anda, também ela, sintonizada em Hi-Fi, alta-fidelidade, com a Palavra de Deus escutada, vivida e anunciada. Diz ainda o texto que era filha de Fanuel, nome que significa «Rosto de Deus», e que era da tribo de Aser, que quer dizer «Felicidade». Tanta intimidade com Deus! Também esta velhinha, serena e feliz, com 84 anos, número perfeito de números perfeitos (7 x 12), teve a Graça de ver aquele Menino. E diz bem o texto do Evangelho que Ana «falava daquele Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém» (Lucas 2,38). Outra vez a beleza inteira do díptico do Evangelho de Lucas: Simeão e Ana. Simeão esperava e Ana anunciava. Eis aqui presente, nestes dois maravilhosos velhinhos, a inteira Escritura dos dois Testamentos, e o retrato a corpo inteiro do Consagrado, que, na Bíblia hebraica, se diz Nazîr, um nome passivo e recetivo, totalmente dedicado a Deus, conduzido por Deus, «compondo» com emoção os acontecimentos de Deus.

6. Esta é a Festa da Alegria e da Esperança acumulada e realizada. É a Festa da Luz. Simeão e Ana viram a Luz e exultaram de Alegria. Hoje somos nós que nos chamamos Simeão e Ana. Somos nós que recebemos esta Luz nos braços, e que ficamos a fazer parte da família da Felicidade e a viver pertinho de Deus, Rosto a Rosto com Deus, Escutadores atentos do bater do coração de Deus, movidos pelo Espírito de Deus, Recebedores de Deus, Anunciadores de Deus. Rezamos hoje para que, nesta sociedade de coisas e de números (cf. Isaías 5,8), os Consagrados vivam cada vez mais Rosto a Rosto com Deus, e deem testemunho no mundo deste Dom maravilhoso.

7. Por isso e para isso é que Ele vem, conforme a lição de Malaquias 3,1-4 e Hebreus 2,14-18. Vem de Deus, mas senta-se connosco. Em tudo semelhante aos seus irmãos. Lava-nos os pés e a alma. Apaga os nossos pecados. Põe-nos em comunhão com Deus. Tanta proximidade faz deste Dia a Festa do Encontro.

8. Não nos conformemos, pois, com as pedras e as pautas deste mundo (Romanos 12,2). Experimentemos viver em Hi-Fi, alta frequência, alta-fidelidade, alta dedicação, amor novo. Anda por aí uma música nova à nossa espera. É como um som que nunca se ouviu, como um silêncio que nunca se calou! Que Maria, a Mãe da Alegria, nos leve pela mão e nos ensine a subir e a descer a escadaria do coração.

9. Por isso, cantemos e aclamemos, com o Salmo 24, o Senhor do Universo e Rei da Glória, que vem e entra no seu Templo e na nossa frágil humanidade, que Ele glorifica. No último andamento deste Salmo (vv. 7-10), justamente a parte Hoje cantada, as portas do Templo e as da nossa vida, personificadas, são convidadas a abrir-se e a levantar-se, para que possa entrar em nossa Casa o Rei, Senhor dos Exércitos, um título que a Bíblia registra por 279 vezes. Gerhard Ebeling (1912-2001) comenta assim este Salmo arcaico: «São três os pressupostos fundamentais do texto. O primeiro é que Deus criou o mundo, e é o seu Senhor. O segundo é que devemos comparecer junto de Deus e ser interrogados sobre o que fizemos. O terceiro é que Deus vem para o que é seu, e deseja ter livre acesso. Estas são três formas elementares da experiência de Deus e da relação com Deus: nós vivemos por obra de Deus, diante de Deus, e podemos viver com Deus». E o poeta francês Paul Claudel (1868-1955), recolhendo o último tema, o da vida com Deus, exclamava: «Aqui, Deus! Aqui, o nosso Deus, o Senhor dos Exércitos, que está empenhado, através dos séculos, em transferir-nos para a sua eternidade».

 

Toda a vida consagrada

É uma vida com dedicatória

Obrigatória

Ao autor de cada madrugada

Perfumada,

Senhor de mim

E do meu sim.

 

Desde sempre pensado e amado,

É-me dado um segmento de tempo

Para responder ao Amor,

E a eternidade inteira

Para viver à tua beira,

À tua maneira.

 

Ó mar imenso do Amor,

A que eu chamo Senhor,

Obrigado por olhares por mim e para mim,

Tão humano e pequenino,

E por me dares por destino

O teu coração divino.

 

Que eu seja, então, sempre Amor em cada dia,

Ao teu dispor,

Senhor da minha alegria.

 

António Couto


CASA DE DEUS: ESPAÇO RELACIONAL NOVO

Novembro 9, 2018

1. A celebração hoje da Festa da Dedicação da Basílica de S. João de Latrão, que é «a igreja-mãe e cabeça de todas as igrejas», sede do bispo de Roma, dá-nos a oportunidade de celebrar a presença de Deus no meio de nós, no nosso espaço. Mas é ainda uma boa oportunidade para aprendermos a olhar com mais amor para os espaços das nossas Igrejas catedrais e locais, espalhadas pelo mundo inteiro, que acolhem a presença de Deus e de muitos irmãos, e que reconhecem à Igreja e ao bispo de Roma a «presidência da caridade» (Santo Inácio de Antioquia).

2. O texto do Evangelho proclamado nesta celebração constitui uma importante passagem no tecido do IV Evangelho (João 2,13-22). Jesus apresenta-se como tempo novo e Templo novo, novo espaço relacional, caminho novo aberto para o PAI, nova paginação e compreensão das Escrituras. Da Páscoa dos judeus (A) à Páscoa de Jesus (A’), do Templo antigo (B) ao Santuário novo (B’), tendo no meio o caminho da memória que começam a fazer os discípulos de Jesus (C), como podemos constatar no texto a seguir transcrito:

«E estava próxima a Páscoa dos judeus, e JESUS subiu a Jerusalém. (A)

 E ENCONTROU no TEMPLO (hierón) os vendedores de bois e ovelhas e pombas, e os cambistas sentados. E, tendo feito um chicote de cordas, expulsou todos do TEMPLO (hierón), as ovelhas e os bois, bem como os cambistas, espalhou as moedas, derrubou as mesas, e disse aos que vendiam as pombas: “Tirai isto daqui! Não façais da CASA DO MEU PAI (oíkos toû patrós mou) CASA de COMÉRCIO (oíkos emporíou)”. (B)

 Recordaram-se os discípulos d’ELE que está escrito: “O zelo da tua CASA (toû oíkou sou) me devorará”. (C)

 Responderam então os judeus e disseram-LHE: “Que sinal nos mostras de que podes fazer estas coisas?” Respondeu JESUS e disse-lhes: “Destruí este SANTUÁRIO (naós), e em três dias o levantarei (egeírô)”. Disseram então os judeus: “Em quarenta e seis anos foi edificado este SANTUÁRIO (naós), e tu em três dias o levantarás (egeírô)?” (B’)

 Isto, porém, dizia do SANTUÁRIO do seu corpo (toû naoû toû sômatos autoû). Quando, pois, foi ressuscitado dos mortos (êgérthê), recordaram-se os discípulos d’ELE que tinha dito isto, e acreditaram na Escritura e na palavra que JESUS tinha dito» (João 2,13-22). (A’)

3. O episódio aparece situado e datado. O lugar é Jerusalém e o seu Templo. O tempo é a Festa da Páscoa. Ora, uma FESTA é, na tradição bíblica, um ENCONTRO marcado (mô‘ed) , plural mô‘adîm, de ya‘ad [= marcar um encontro]. Um ENCONTRO marcado com Deus e com os outros. Sendo um ENCONTRO marcado com Deus e com os outros, então é sempre um espaço de alegria, de filialidade e de fraternidade. E se a FESTA é de peregrinação, como é a PÁSCOA, aqui referida [as outras duas são as SEMANAS ou PENTECOSTES e as TENDAS], então a alegria, a filialidade e a fraternidade são ainda mais intensas, dado que FESTA de peregrinação se diz, na língua hebraica, hag, plural hagîm. E o nome hag remete para o verbo hag [= dançar] e deriva de hûg, que significa círculo, e, portanto, família, lareira, encontro, alegria, música, roda, dança, vida.

4. ENCONTRO, filialidade, fraternidade: marcas acentuadas por JESUS que, em vez de Templo de pedra (hierón), diz CASA (oíkos) – com particular afeto, CASA DO MEU PAI –, sendo a CASA paterna o lugar do ENCONTRO e da intimidade, e não das coisas, da superficialidade, da banalidade, do consumismo, do mercado. Nos paralelos de Mateus, Marcos e Lucas, citando Isaías 56,7, JESUS fala do Templo usando a expressão forte «A MINHA CASA» (ho oîkós mou) (Mateus 21,13; Marcos 11,17; Lucas 19,46).

5. É neste sentido que o Livro dos Atos dos Apóstolos nos mostra a comunidade-mãe de Jerusalém a frequentar assiduamente o Templo, salientando, no entanto, que a sua maneira de prestar culto a Deus acontecia nas CASAS. Do Templo para as CASAS (Atos 2,46). Não se trata de uma simples mudança de lugar, mas de uma diferente conceção do espaço: não se trata de um espaço local, mas relacional. O novo espaço cultual é a comunidade que vive filial e fraternalmente, verdadeira transparência de Jesus. A extensão deste espaço chama-se comunhão.

6. Sintomático é que, postos estes pressupostos, o texto refira, não que JESUS ENCONTROU filhos e irmãos, mas que ENCONTROU vendedores, banqueiros e comerciantes, contra a profecia de Zacarias 14,21, que refere que «Não haverá mais vendedor na CASA de YHWH dos exércitos naquele dia». «A CASA DO MEU PAI», «A MINHA CASA», por um lado, e o MERCADO, por outro lado, são lugares incompatíveis. São maneiras diferentes de conceber e ocupar o espaço.

7. No texto que estamos cuidadosamente a ler, o Templo é dito com três vocábulos diferentes – hierón, oíkos e naós – com significações diferentes: edifício de pedra, casa familiar, santuário (ou lugar da presença de Deus).

8. Quando, num dos típicos «mal-entendidos» do IV Evangelho, JESUS diz: «Destruí este SANTUÁRIO (naós), e em três dias o levantarei (egeírô)» (João 2,19), os judeus não conseguem distinguir entre o naós pessoal que JESUS levantará em três dias e o hierón feito de pedra que demorou 46 anos a construir (João 2,20). Em claro contraponto, o narrador explica bem, num genitivo epexegético, que JESUS «dizia isto do SANTUÁRIO do seu corpo» (toû naoû toû sômatos autoû) (João 2,21). Entenda-se: do SANTUÁRIO que é o seu corpo. Com esta explicação do narrador, fica claro que é JESUS o «lugar» da adoração de Deus, a verdadeira «Casa de Deus» (cf. João 1,51), o SANTUÁRIO de Deus.

9. A anotação do narrador, em João 2,22, faz-nos ver ainda que foi também assim que entenderam os discípulos a partir da Ressurreição de Jesus. Lição para os leitores: num tempo em que já não há Templo em Jerusalém, os leitores crentes do IV Evangelho experimentam a PRESENÇA de JESUS Ressuscitado como o seu verdadeiro «Templo».

10. Em harmonia com o Santuário novo, gerador de vida nova e relações novas, que é Jesus Ressuscitado, está hoje o Santuário novo de Ezequiel 47,1-12, de onde sai água excecionalmente abundante e salutar, um caudal que cresce, cresce, cresce, saneia, fertiliza e cura, fazendo da Terra Prometida o verdadeiro jardim do éden, com água boa e salutar, com muitas árvores com muitos frutos. Como a torrente corre para oriente e sudeste, é toda a árida Arabá e o Mar Morto salitrado e sulfuroso que recebem vida nova em abundância. E também o homem pode pescar e colher frutos novos todos os meses, e encontrar cura nas folhas medicinais de tantas árvores. E tudo isto vem do Santuário. Como o rio de água viva que irriga a Jerusalém celeste, e que sai do trono de Deus e do Cordeiro. Também este rio é gerador de vida, de fertilidade, de frutos doze vezes ao ano, e de remédio para curar todos os corações (Apocalipse 22,1-2).

11. O Apóstolo lembra, na sua Primeira Carta aos Coríntios (3,9-17), que todos formamos um belo edifício construído por Deus, mas também por nós, sobre o alicerce que é Jesus Cristo. E, de forma intensa, como sempre, São Paulo ainda grita aos ouvidos dos cristãos de Corinto e aos nossos: «Não sabeis que sois Templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? (…). Na verdade, o Templo de Deus é santo, e esse Templo sois vós!» (1 Coríntios 3,16 e 17). É sempre importante e sobrecarregado de beleza este movimento das pedras para as pessoas. A lição hebraica do Salmo 150,1 põe-nos a cantar assim: «Louvai Deus no seu Santuário». É notável a atualização grega, que registra assim: «Louvai Deus nos seus santos».

12. Se o Salmo 150,1 decanta bem o Evangelho de hoje e a lição da Primeira Carta aos Coríntios, o Salmo 46 continua o nosso êxtase quando contemplamos a cidade-mãe, Jerusalém, a morada de Deus no meio de nós, no seu Santuário, e o rio sobrecarregado de beleza que alegra Jerusalém. Este rio não é aqui a inconstante torrente de Gihón que corre mansamente para Siloé. É claramente uma hipérbole espiritual que nos leva para além desta Jerusalém sedenta e árida, situada a 800 metros de altitude, para a Jerusalém celeste irrigada por um rio de água viva, fonte de vida e de remédio (Apocalipse 22,1-2). As águas deste rio não se deixam inquinar. Nem a vida da cidade, sempre cheia de paz e de alegria.

 

Quem tem sede,

Venha a mim e beba,

Diz Jesus,

E expôs-se sobre a Cruz

Como fonte sempre aberta e disponível.

 

Quem tem sede,

Alegre-se então por poder beber,

Mas não se entristeça

Por não ser capaz de esgotar a fonte.

 

Convém que a fonte permaneça

E abasteça o horizonte

De paz e de alegria.

 

A água escorre deste santuário,

E, como um rio,

Percorre e irriga a terra inteira,

Coração a coração,

Sementeira a sementeira.

 

E não há fio que meça esta torrente,

Que cresce desde a nascente até ao estuário.

E nas suas margens tanta vida nova e bela nasce e cresce,

Tanto trigo floresce,

Tanto coração amadurece,

Tanto amor.

 

Dá-me sempre dessa água viva, Senhor!

 

António Couto


SENHORA DA ASSUNÇÃO OU DA DORMIÇÃO

Agosto 14, 2018

1. Ainda que com títulos diferentes, mas com temas e conteúdos idênticos, as Igrejas do Oriente e do Ocidente, portanto a Igreja inteira, a Una e Santa, celebra no dia 15 de Agosto a maior e mais antiga festa da Mãe de Deus, a Virgem Santa Maria. No Oriente, é a festa da «Dormição» (koímêsis), enquanto, no Ocidente, prevalece a tonalidade da «Assunção» (análêmpsis).

2. O Evangelho deste grande Dia relata o belíssimo episódio da «Visitação» (Lucas 1,39-45) seguido do cântico da «Exultação» ou «Magnificat» (Lucas 1,46-56). Note-se outra vez uma pequena diferença de tonalidade: o episódio evangélico que o Ocidente conhece por «Visitação», recebe no Oriente o nome de «Saudação» (aspasmós). E o episódio que precede e motiva esta «Visitação» ou «Saudação» recebe no Ocidente o nome de «Anunciação» e no Oriente o nome de «Evangelização» (euangelismós) (Lucas 1,26-38). Verdadeiramente é a Leveza e a Alegria em trânsito, a caminho, ao ritmo do vento do Espírito, música nova, inefável e bendita. Vinda de Deus até Maria, até Isabel, até João Baptista, outra vez até Deus. Lembra uma pequena parábola rabínica que, quando David andava fugido de Saul, buscando refúgio nas montanhas (1 Samuel 22 e seguintes), um dia dependurou a sua harpa numa árvore, e adormeceu. Mas o vento, passando, fez as cordas da harpa exalar uma suave melodia. Verdadeira música do Espírito.

3. É igualmente sugestiva a intuição dos Mestres judaicos, registrada por Martin Buber nos seus «Contos dos Justos». Citando o Salmo 147,1, em que se lê: «É bom cantar ao nosso Deus», Buber apresenta logo a bela interpretação que Rabbí Elimelek dava deste versículo: «É bom se o homem faz cantar Deus nele». Música divina. Assim Maria correndo sobre os montes e saudando Isabel, em casa de quem permanece cerca de três meses, e cantando as maravilhas de Deus no Magnificat, assim Isabel bendizendo Maria e bendizendo Deus, assim João Baptista, dançando ao som dessa nova música inefável, no ventre de Isabel.

4. Maria correndo sobre os montes: feliz evocação do mensageiro de boas notícias de Isaías 52,7: «Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia boas novas a Sião…». Feliz evocação também do amado do Cântico dos Cânticos 2,8, assim cantado pela amada: «A voz do meu amado: ei-lo que vem correndo sobre os montes». Assim, com este simples acorde montanhoso, o narrador e grande retratista do terceiro Evangelho traça o perfil de Maria movida, não por uma pressa qualquer, mas por uma grande notícia e pelo amor. A aclamação de Isabel: «Bendita tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre» [= «Bendita tu e bendito Deus»], lembra o duplo «Bendito» na aclamação de Judite (13,18). A locução maravilhada de Isabel: «E de onde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?» (Lucas 1,43), remete para o atónito dizer de David: «E de onde me é dado que venha ao meu encontro a Arca do Senhor?» (2 Samuel 6,9). E a «dança de João» reclama a dança de David na presença da Arca do Senhor (2 Samuel 6,5.14.16.21). E os «cerca de três meses» de permanência de Maria em casa de Isabel, regressando então a sua casa (Lucas 1,56), não são, como vulgarmente se pensa, para indicar que Maria está presente no nascimento de João Baptista, pois este apenas é narrado no versículo seguinte (Lucas 1,57). É, antes, outra vez o acerto com a Arca do Senhor, que permanece cerca de três meses na casa de Obed-Edom (2 Samuel 6,11). Os acordes textuais evidentes mostram Maria como a Arca da Aliança, como, de resto, é aclamada pelo Povo de Deus, quando recita a ladainha de Nossa Senhora.

5. O que verdadeiramente me extasia e inebria é esta música outra, ventilando as cordas do nosso humano, e quase sempre orgulhoso, coração. Vem outra vez a propósito a velha sabedoria judaica, que nos legou esta bela pequena história: «Conta-se que, quando David terminou o Livro dos Salmos, se sentiu muito orgulhoso. Então disse para Deus: “Senhor do mundo, quem de entre todos os seres que criaste, canta melhor do que eu a tua glória?”. Naquele momento, apareceu uma rã que lhe disse: “David, não te envaideças. Eu canto melhor do que tu a glória de Deus”» (Sefer ha-Haggadah, 89b).

6. Aí está, a descoberto, na lição do Livro do Apocalipse (11,19; 12,1-6.10), a Arca da Aliança, a Mulher messiânica, a Igreja, Maria, grávida de um Filho que nasceu, «sinal» para sempre aceso e legível da presença viva e ativa de Deus no meio de nós, como a luz de uma vela, para a celebração festiva dos filhos de Deus reunidos. Avista-se, porém, outro «sinal» de sinal contrário, que serve para nos manter unidos e atentos no meio das dificuldades e perseguições desta vida, que, todavia, não devem toldar-nos a vista da salvação e da vitória, claramente a descoberto no horizonte onde brilha a esperança: «Agora cumpriu-se a salvação, a força e o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo» (Apocalipse 12,10).

7. O final da Primeira Carta aos Coríntios (15,20-27) põe um imenso selo de luz e de esperança na celebração luminosa deste Dia. Com a Ressurreição de Cristo salta à vista a poeira de toda a iniquidade e falsidade e morte, e já se vê a «assunção» da nossa frágil humanidade em Cristo e por Cristo até Deus Pai.

8. O belíssimo Canto de Amor, que é o Salmo 45, serve hoje para celebrar a Igreja Esposa e Mãe, e Maria Esposa e Mãe. Este belo hino, como o Cântico dos Cânticos, canta o Amor, que é sempre divino e humano. Na verdade, no amor humano pode ler-se o amor revelado por Deus, pelo que, se existe o amor, existe Deus. Não admira, por isso, que este Salmo tenha sido interpretado em clave messiânica quer no judaísmo quer no cristianismo.

9. Pela Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, de 1 de Novembro de 1950, o Papa Pio XII proclamava a Assunção da Virgem Maria como dogma de fé. Mas é desde os primeiros séculos do Cristianismo que o Povo de Deus aclama, proclama e vive com amor intenso esta realidade. Quantas igrejas, paróquias e dioceses a têm como Padroeira! E, neste particular, este recanto Peninsular, terra de Santa Maria, não podia ser exceção. O Povo de Deus desde muito cedo aclamou a Assunção de Maria, Mãe de Deus e esperança da nossa frágil humanidade.

10. Um lugar guarda esta memória em Jerusalém. É preciso descer ao vale que corre a Oriente da cidade, o famoso vale do Cédron. Deixando à direita o Getsémani com as suas oliveiras seculares e a Basílica da Agonia de Jesus, muito próximo da Gruta dos Apóstolos ou da Prisão de Jesus, chega-se a um pátio pavimentado que dá para uma monumental fachada, que é o que resta de uma grande Igreja aí construída pelos Cruzados. Por detrás dessa fachada, estende-se uma escadaria que nos leva a uma cripta situada nas entranhas do vale do Cédron. É esta cripta que guarda um túmulo do século I, que a tradição cristã identifica com o túmulo de Maria, em forma de banco escavado na rocha, e que se apresenta bastante degradado devido à tentação dos peregrinos que, ao longo dos tempos, não resistiram a levar consigo um pedacinho da rocha que esteve em contacto com o corpo da «Bendita».

11. No dia da Solenidade da Assunção, é comovente ver aquela escadaria escura iluminada como um tapete de luz, devido às velas que os fiéis colocam em cada degrau. Conduzindo embora para um túmulo, a sensação que se cria é que aquela escadaria descendente, feita tapete de luz, abre para uma ianua coeli, «porta do céu», como também cantamos na litania de Maria.

12. No seguimento lógico da Assunção de Maria, a Igreja celebra oito dias depois, em 22 de Agosto, a Memória da Virgem Santa Maria, Rainha, proclamação também devida a Pio XII, através da Carta Encíclica Ad Coeli Reginam, de 11 de Outubro de 1954. Mãe Elevada aos Céus, mas Mãe que vela carinhosamente pelos seus filhos. O Rei e a Rainha não são, na Bíblia, títulos de nobreza, mas traduzem a dupla função de quem deve estar particularmente próximo de Deus e particularmente próximo dos homens. Para acolher de perto toda a Palavra que vem do coração de Deus, e para trazer à humanidade a prosperidade, o bem-estar e a felicidade. Tal é a função do Rei e da Rainha.

 

Nossa Senhora da Assunção,

Santa Maria do verão,

Ao céu elevada,

À minha beira sentada,

Com tua roca de linho

E um novelo inteiro de carinho.

 

Olha por mim,

Fica sempre assim,

No campo e na eira,

À minha cabeceira.

É bom ter uma mãe

Como companheira.

 

Senhora da Assunção

Ou da Dormição,

Envolve-me no teu manto,

Adormece-me com o teu canto,

A tua lalação,

Pertinho do coração.

 

Vão os teus filhos

Em procissão de amor,

Atrás do teu andor,

Na mão uma flor.

Recebe-a, mãe,

E acolhe-nos sob a tua proteção,

Hoje e em cada dia,

Ave-Maria.

 

António Couto


COM JESUS NO CORAÇÃO

Fevereiro 2, 2018

1. A Igreja Una e Santa celebra no dia 2 de Fevereiro, quarenta dias depois do Natal, a Festa da Apresentação do Senhor, que as Igrejas do Oriente conhecem por Festa do Encontro (Hypapantê) e dos Encontros: Encontro de Deus com o seu Povo agradecido, mas também de Maria, de José e de Jesus com Simeão e Ana. Também connosco.

2. Quarenta dias depois do seu nascimento, sujeito à Lei (Gálatas 4,4), Jesus, como filho varão primogénito, é apresentado a Deus, a quem, sempre segundo a Lei de Deus, pertence. De facto, o Livro do Êxodo prescreve que todo o filho primogénito, macho, quer dos homens quer dos animais, é pertença de Deus (Êxodo 13,11-13), bem como os primeiros frutos dos campos (Deuteronómio 26,1-10).

3. É assim que, para cumprir a Lei de Deus, quarenta dias depois do seu nascimento, Jesus é levado pela primeira vez ao Templo, onde, também pela primeira vez, se deixa ver como a Luz do mundo e a nossa esperança.

4. O Evangelho a escutar, amar e admirar é Lucas 2,22-40. Compõe a cena um velhinho chamado Simeão, nome que significa «Escutador», que vive atentamente à escuta, em Hi-Fi, alta-fidelidade, alta frequência, alta definição, amor novo, e que o Evangelho apresenta como um homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel. Ora, esse velhinho que vivia à espera e à escuta, com extremosa atenção e coração vigilante, veio ao Templo sob o impulso do Espírito (en tô pneúmati). Fica aqui declarada a qualidade da energia e da alegria que move o velho e querido Simeão: não é movido a carvão, nem a água, nem a vento, nem a petróleo e seus derivados, nem a eletricidade, nem sequer a energia nuclear. Simeão é movido pelo Espírito Santo. Maneira novíssima de viver, pausa e bemol na nossa impetuosidade, na nossa vontade de aparecer e de fazer, pausa e bemol nos nossos protagonismos e vontade de poder. Falamos quase sempre antes do tempo, e não chegamos a dar lugar à suave voz do Espírito. Na verdade, adverte-nos Jesus: «Não sois vós que falais, mas o Espírito Santo» (Marcos 13,11; cf. Mateus 10,20; Lucas 12,12). Portanto, é urgente esperar! Regressemos, pois, à beleza de Simeão. Ao ver aquele Menino, recebeu-o carinhosamente nos braços. Por isso, os Padres gregos dão a Simeão o título belo de Theodóchos [= «recebedor de Deus»]. É então que Simeão entoa o canto feliz do entardecer da sua vida, um dos mais belos cantos que a Bíblia registra: «Agora, Senhor, podes deixar o teu servo partir em paz, porque os meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos, Luz que vem iluminar as nações e glória do teu povo, Israel!» (Lucas 2,29-32).

5. E, na circunstância, também uma velhinha chegou carregada de Graça e de Esperança. Chamava-se Ana, que significa «Graça». É dita «Profetisa», isto é, que anda, também ela, sintonizada em Hi-Fi, alta-fidelidade, com a Palavra de Deus escutada, vivida e anunciada. Diz ainda o texto que era filha de Fanuel, nome que significa «Rosto de Deus», e que era da tribo de Aser, que quer dizer «Felicidade». Tanta intimidade com Deus! Também esta velhinha, serena e feliz, com 84 anos, número perfeito de números perfeitos (7 x 12), teve a Graça de ver aquele Menino. E diz bem o texto do Evangelho que Ana «falava daquele Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém» (Lucas 2,38). Outra vez a beleza inteira do díptico do Evangelho de Lucas: Simeão e Ana. Simeão esperava e Ana anunciava. Eis aqui presente, nestes dois maravilhosos velhinhos, a inteira Escritura dos dois Testamentos, e o retrato a corpo inteiro do Consagrado, que, na Bíblia hebraica, se diz Nazîr, um nome passivo e recetivo, totalmente dedicado a Deus, conduzido por Deus, «compondo» com emoção os acontecimentos de Deus.

6. Esta é a Festa da Alegria e da Esperança acumulada e realizada. É a Festa da Luz. Simeão e Ana viram a Luz e exultaram de Alegria. Hoje somos nós que nos chamamos Simeão e Ana. Somos nós que recebemos esta Luz nos braços, e que ficamos a fazer parte da família da Felicidade e a viver pertinho de Deus, Rosto a Rosto com Deus, Escutadores atentos do bater do coração de Deus, movidos pelo Espírito de Deus, Recebedores de Deus, Anunciadores de Deus. Rezamos hoje para que, nesta sociedade de coisas e de números (cf. Isaías 5,8), os Consagrados vivam cada vez mais Rosto a Rosto com Deus, e deem testemunho no mundo deste Dom maravilhoso.

7. Por isso e para isso é que Ele vem, conforme a lição de Malaquias 3,1-4 e Hebreus 2,14-18. Vem de Deus, mas senta-se connosco. Em tudo semelhante aos seus irmãos. Lava-nos os pés e a alma. Apaga os nossos pecados. Põe-nos em comunhão com Deus. Tanta proximidade faz deste Dia a Festa do Encontro.

8. Não nos conformemos, pois, com as pedras e as pautas deste mundo (Romanos 12,2). Experimentemos viver em Hi-Fi, alta frequência, alta-fidelidade, alta dedicação, amor novo. Anda por aí uma música nova à nossa espera. É como um som que nunca se ouviu, como um silêncio que nunca se calou! Que Maria, a Mãe da Alegria, nos leve pela mão e nos ensine a subir e a descer a escadaria do coração.

9. Por isso, cantemos e aclamemos, com o Salmo 24, o Senhor do Universo e Rei da Glória, que vem e entra no seu Templo e na nossa frágil humanidade, que Ele glorifica. No último andamento deste Salmo (vv. 7-10), justamente a parte Hoje cantada, as portas do Templo e as da nossa vida, personificadas, são convidadas a abrir-se e a levantar-se, para que possa entrar em nossa Casa o Rei, Senhor dos Exércitos, um título que a Bíblia registra por 279 vezes. Gerhard Ebeling (1912-2001) comenta assim este Salmo arcaico: «São três os pressupostos fundamentais do texto. O primeiro é que Deus criou o mundo, e é o seu Senhor. O segundo é que devemos comparecer junto de Deus e ser interrogados sobre o que fizemos. O terceiro é que Deus vem para o que é seu, e deseja ter livre acesso. Estas são três formas elementares da experiência de Deus e da relação com Deus: nós vivemos por obra de Deus, diante de Deus, e podemos viver com Deus». E o poeta francês Paul Claudel (1868-1955), recolhendo o último tema, o da vida com Deus, exclamava: «Aqui, Deus! Aqui, o nosso Deus, o Senhor dos Exércitos, que está empenhado, através dos séculos, em transferir-nos para a sua eternidade».

Toda a vida consagrada

É uma vida com dedicatória

Obrigatória

Ao autor de cada madrugada

Perfumada,

Senhor de mim

E do meu sim.

 

Desde sempre pensado e amado,

É-me dado um segmento de tempo

Para responder ao Amor,

E a eternidade inteira

Para viver à tua beira,

À tua maneira.

 

Ó mar imenso do Amor,

A que eu chamo Senhor,

Obrigado por olhares por mim e para mim,

Tão humano e pequenino,

E por me dares por destino

O teu coração divino.

 

Que eu seja, então, sempre Amor em cada dia,

Ao teu dispor,

Senhor da minha alegria.

 

António Couto